FORRÓ É TEMA DE DEBATE: TRADIÇÃO E MODERNIDADE

 É o forró, e não apenas a corrida para as eleições presidenciais, que tem pautado alguns dos debates mais acalorados da internet. Com os ânimos ainda mais acirrados no São João, artistas e público se dividem em trincheiras: de um lado, a ala que condena a tradição como ultrapassada; do outro, a que acusa a inovação de descaracterização. Na contramão desse falso dilema, o cantor e compositor pernambucano Carlos Filho mostra que a coexistência é possível em “Baile Brasileiro 2”, já disponível nas plataformas de streaming.

O disco aprofunda a pesquisa de mais de sete anos do artista sobre o forró, dando novas cores ao repertório do volume anterior, lançado em 2024. Embora o título permaneça para assegurar a unidade conceitual, os dois trabalhos se distanciam pela bagagem recente de Carlos. Seu amadurecimento musical permitiu injetar novos elementos ao gênero, que ressurge envelopado em camadas eletrônicas

“Em todas as décadas, o forró sempre dialogou com a forma como a música é feita de tempos em tempos”, justifica o cantor em entrevista ao Diario. Ele despontou no cenário nacional em 2021, no The Voice Brasil, e consolidou seu nome na cena autoral através de sua passagem pela Bandavoou e de sua atuação no grupo Estesia, com o qual ainda segue em atividade.

Para Carlos Filho, o forró é uma manifestação genuinamente nacional, viva e consumida nos quatro cantos do país — daí o batismo do projeto. Por isso, em vez de ditar regras sobre como o ritmo deve ser feito, ele defende que a verdadeira discussão seja sobre como assegurar o devido protagonismo e relevância ao gênero. “É muito menos sobre o que a gente deve fazer diferente e muito mais sobre discutir essa concentração de poder e disputar as narrativas que definem o que é nacional, regional ou folclórico”, diz. Confira na integra Diário de Pernambuco/Allan Lopes

Desafiando o purismo dos mais tradicionais, o projeto deixa claro que o forró raiz é perfeitamente capaz de conviver com os sintetizadores. Carlos Filho percorre as nuances do baião, xaxado, xote, toada, aboio, arrasta-pé e coco, equilibrando a autoralidade de suas criações com releituras extraídas do imenso cancioneiro forrozeiro. “É uma tentativa de tirar o forró desse lugar folclórico, engessado, e discutir a tradição no lugar em que o forró sempre esteve. Não é nada inovador, nem tem pretensão de ser disruptivo”, afirma.

O diálogo geracional é o fio condutor que amarra o time de convidados do projeto. Carlos Filho compartilha a criação com Luiz Diniz no xote “Tempo Mãe” e com o virtuoso sanfoneiro Felipe Costta em “Fúria das Dunas”. A celebração se completa com “Partilha”, interpretada por Juliano Holanda em parceria com Santanna, O Cantador, voz fundamental da poesia popular do Nordeste.

Gravado ao vivo assim como a edição anterior, o projeto faz questão de manter intacta a essência orgânica das parcerias. “Foi uma escolha muito feliz, para deixar o processo quente, humano e honesto do ponto de vista da nossa vivência com o forró”, celebra o artista.

Nascido e criado em Serra Talhada, no Sertão pernambucano, Carlos experimentou o forró como vivência antes de transformá-lo em objeto de estudo. Embora a legitimidade de sua obra não dependa disso, são essas experiências que dão um caráter espontâneo ao seu repertório e sustentam sua visão do forró como um organismo vivo.

“Eu me vejo, antes de tudo, com essa responsabilidade de fazer o forró permanecer ativo, produzindo, emprestando um ponto de vista dessa contemporaneidade”, comenta. A propósito, a busca por modernizar as raízes não é novidade na carreira do músico, que também integra a Orquestra Malassombro, projeto voltado para a revitalização do frevo de bloco.


Nenhum comentário

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário