Tão importante quanto a habilidade de explicar temas científicos com qualidade técnica, está a de fazê-lo com poesia. Para nossa sorte, o agrônomo e correspondente científico do Brasil junto à Convenção das Nações Unidas para o Combate da Desertificação (UNCCD) Aldrin Martin Pérez-Marín discorre sobre desertificação com essa exata maestria.
Dos aspectos geoecológicos às disputas geopolíticas, o assessor técnico do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) explica de que maneira a estigmatização da Caatinga como uma terra inóspita, narrativa repetida em outras zonas áridas e semiáridas do globo, é responsável pela expansão da desertificação e das desigualdades socioeconômicas.
“A Caatinga tem uma dinâmica, uma dança da vida, que confunde aqueles que só enxergam beleza e abundância nas florestas na parte verde do Planeta”, reflete em entrevista exclusiva à Eco Nordeste. “É por isso que eu sempre digo: a Caatinga é verde de esperança. Porque ela lança luzes de esperança contra as mudanças climáticas”.
No Dia Mundial de Combate à Desertificação, celebrado neste 17 de junho, o pesquisador interliga a desertificação, a Caatinga, o El Niño e a crise climática ao modo de vida moderno que segue a lógica das commodities e do colonialismo. Confira:
Aldrin M. Pérez-Marín – A desertificação é um tema que se trata há muito tempo. Existe uma Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, criada na Rio 92 a partir de um movimento histórico.
Aqui no Brasil, esse tema da degradação das terras semiáridas e áridas foi levantado pelo professor João de Vasconcelos Sobrinho, que foi pioneiro nos alertas sobre que no Nordeste brasileiro, o Sertão enfrentava problemas similares aos que se encontravam em outras partes africanas.
Essa convenção é um tratado internacional, do qual o Brasil é signatário, e ela traz diversos conceitos. Por exemplo, o que seria desertificação? Ela define que desertificação seria a degradação das terras, nas zonas áridas, semiáridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as variações climáticas e reações humanas.
É um conceito que tem alguns complicadores. Primeiro porque ele diz que a desertificação só inclui zonas climáticas áridas, semiáridas e sub-úmidas secas. Elas são definidas em relação à quantidade de chuva que cai e a quantidade de chuva que se perde pela evaporação do solo e transpiração das plantas.
Quer dizer, a primeira análise que você pode trazer para isso é que em outras zonas climáticas não haveria desertificação, seria uma degradação ambiental, entende? E isso tem implicações profundas porque define, por exemplo, ações dos estados, dos países, do governo para agir.
Mas se você analisa a fundo, você pode dizer que a desertificação, neste contexto, nasce entre o clima e as nossas ações. Ou seja, o problema não é a terra, é o clima que muda e as pessoas que agem.
Em termos políticos, (a palavra) tem influência porque só se fica falando da degradação que ocorre no Semiárido brasileiro. E isso tem um problema crítico, porque se intensifica aquela visão sobre o Semiárido: de que o clima é responsável pela miséria e que a miséria gera subdesenvolvimento. Se intensifica esse processo de estigmatização da região.
A Caatinga e o Sertão sempre são vistos com um olhar que cria preconceito. Pegue a revista Veja de 1981 que na capa traz em letras fortes: “Tentando vencer a maldição do dinheiro perdido – Não é somente a seca que assusta o Nordeste, mas a imagem de região sem futuro, onde é inútil investir”.
E assim nasceu essa história de Mata Branca, Floresta Pobre, Terra Vazia. É porque, no imaginário, muitos enxergam beleza apenas nas florestas úmidas. Mas o que a Caatinga é? Ciclos.
Branca, cinza e verde. Quando ela está branca, ela indica paz e perspectiva. Quando ela está cinza, ele induz ao renascimento de uma riqueza desentendida, porque cinza é renascimento; e quando ela está verde, ela expressa a plenitude de uma floresta cheia de vida.
É uma dinâmica, uma dança da vida que confunde aqueles que só enxergam beleza e abundância nas florestas úmidas, nas florestas na parte verde do Planeta. É por isso que eu sempre digo: a Caatinga é verde de esperança. Porque ela lança luzes de esperança contra as mudanças climáticas.
CL – Em que sentido ela lança essa esperança?
APM – Ela vem demonstrando que sequestra carbono como nenhum outro bioma brasileiro, e se coloca como a segunda floresta seca que sequestra mais carbono; portanto, o clima global agradece.
E é por isso que essa narrativa (de miséria e inutilidade), que se estende pelas outras zonas áridas do Planeta, não se sustenta. Para você imaginar, as terras secas representam cerca de 47% do globo. Com as mudanças climáticas, você espera que essas áreas aumentem para 52%. O Brasil está em 12ª posição em termos de quantidade de área semiárida. (Agencia Eco Nordeste)
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