MINISTROS DEFENDEM EXIGÊNCIA DE DIPLOMA PROFISSIONAL EM JORNALISMO

Os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), defenderam a necessidade de reavaliar o marco regulatório do exercício profissional do jornalismo no Brasil, incluindo a dispensa da exigência de diploma em Jornalismo.

As declarações ocorreram durante julgamento na Primeira Turma do STF sobre um pedido de direito de resposta relacionado a uma reportagem exibida pela TV Globo sobre denúncias de abusos sexuais.

Ao devolver um pedido de vista, Flávio Dino afirmou que a decisão da Corte que afastou a obrigatoriedade do diploma tornou mais complexa a discussão sobre as garantias constitucionais relacionadas ao exercício profissional do jornalismo, especialmente diante da expansão das redes sociais.

O ministro ressaltou que respeita o entendimento firmado pelo STF, mas indicou que o tema pode voltar a ser analisado pela Corte. Segundo Dino, a possibilidade de qualquer pessoa se apresentar como jornalista traz novos desafios para a definição e a proteção das prerrogativas associadas ao jornalismo profissional.

Na sequência, Alexandre de Moraes concordou com a necessidade de aprofundar a reflexão sobre o tema e defendeu a possibilidade de regulamentação da atividade, inclusive com a adoção de regras de transição para profissionais que já atuam no setor.

Moraes também destacou os impactos das redes sociais sobre o conceito de liberdade de imprensa e a necessidade de preservar a atividade jornalística profissional como instrumento de garantia do direito à informação e de fortalecimento da democracia.

DECISÃO 2009: Em 2009, o STF decidiu que o diploma de curso superior em Jornalismo não era requisito obrigatório para o exercício da profissão.

No julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 511.961, por 8 votos a 1, o Plenário afastou a exigência prevista no Decreto-Lei nº 972/1969. Na ocasião, a maioria dos ministros entendeu que a obrigatoriedade não havia sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988 por representar uma restrição às liberdades de expressão, informação e imprensa.

A decisão permanece vigente e estabelece o atual marco jurídico sobre a exigência de formação específica para o exercício profissional do jornalismo. 

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JOSE MIGUEL WISNIK LANÇA LIVRO SOBRE MÚSICA E LITERATURA

 Está no ar o 167º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Este episódio traz uma conversa com o grande ensaísta José Miguel Wisnik, que está lançando a coletânea de ensaios Viagem do recado: música e literatura (Companhia das Letras), sobre os caminhos cruzados entre a música e a literatura no Brasil. Wisnik fala no programa da sua obsessão pelo conto “O recado do morro”, de Guimarães Rosa, que inspirou o ensaio que dá nome ao livro, e também reflete sobre a mistura entre fala e escrita. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

José Miguel Wisnik é, a um só tempo, instrumentista, compositor, professor de literatura e ensaísta. Geralmente, quem exerce esses talentos costuma separá-los. Mas, no caso, Wisnik não segmenta as habilidades e as atividades. Essa singularidade é uma das razões do olhar original que lança sobre a literatura e sobre a canção brasileira na série de ensaios reunidos no novo livro,  Viagem do recado: música e literatura (Cia das Letras), tema do projeto Sempre um papo, hoje, às 19h30, na Caixa Cultural, com mediação do jornalista Matheus Leitão. Caetano Veloso, Chico Buarque, Villa-Lobos, Tom Jobim, Guimarães Rosa, Gilberto Gil e Mario de Andrade são alguns dos personagens dos ensaios. E, nesta entrevista ao Correio, Wisnik fala sobre como concilia os talentos, as confluências entre música e literatura e força da canção popular brasileira como desaguadouro das inquietações e invenções de múltiplas linguagens.   

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TEU CEU CELESTINO É TEMA DO CONCURSO DE FOTOGRAFIAS EM PETROLINA

Depois do sucesso em 2025, a Prefeitura Municipal lançou o edital para as inscrições da 2ª edição do Concurso de Fotografias de Petrolina. Fotógrafos e amantes da fotografia são convidados para participar e mostrar seu talento.Este ano, a Prefeitura, através da Secretaria Executiva de Cultura, escolheu como tema ‘Teu Céu Celestino’, uma homenagem ao artista visual petrolinense Celestino Gomes.As inscrições são realizadas exclusivamente pelo Mapa Cultural de Petrolina através do Link: http://mapacultural.petrolina.pe.gov.br/, até o dia 7 de Setembro.

O concurso é gratuito, cada concorrente poderá enviar duas fotos, mas apenas uma será classificada. Vale ressaltar que 60% da premiação será destinada para moradores de Petrolina, que comprovem residência no município há pelo menos 12 meses. Serão premiadas 20 fotografias, cada vencedor receberá um prêmio no valor de R$ 2 mil reais. Além do reconhecimento e do valor em dinheiro, os vencedores terão suas obras exibidas em uma exposição. Ao fim da mostra, as imagens passarão a compor o acervo público municipal.

Sobre o Tema A proposta convida os concorrentes a revisitarem, por diferentes olhares, todo o universo contido na obra do grande artista Celestino Gomes. Cores, paisagens sertanejas, figuras populares e muita imaginação. Celestino construiu uma obra marcada por sua forma singular de enxergar o cotidiano. Ao resgatar seu nome e sua trajetória, o concurso também valoriza a história local e reconhece a contribuição de quem ajudou a construir a identidade cultural petrolinense. Dúvidas sobre o edital podem ser encaminhadas para o e-mail: fotografiapetrolina@gmail.com.

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IPAC INICIA PROCESSO PARA RECONHECER MATRIZES TRADICIONAIS DO FORRÓ

O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) abriu um processo para reconhecer as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. A abertura do procedimento foi publicada no Diário Oficial do Estado.

O processo foi aberto em 20 de junho de 2026 e, de acordo com o Ipac, ainda serão realizados estudos técnicos e elaborado um dossiê sobre a manifestação cultural.

Após essa etapa, o processo poderá resultar no registro definitivo das Matrizes Tradicionais do Forró como patrimônio imaterial da Bahia, com a inscrição no livro de registro correspondente.

O procedimento é baseado na legislação estadual que estabelece normas de proteção e estímulo à preservação do patrimônio cultural da Bahia.

O registro como patrimônio imaterial busca reconhecer e preservar manifestações culturais que fazem parte da identidade e da memória da população. No caso do forró, o processo considera suas matrizes tradicionais e os saberes e práticas associados a essa expressão cultural.


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AVANÇO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL CORRÓI FINANCIAMENTO DO JORNALISMO PROFISSIONAL NO BRASIL

O avanço da Inteligência Artificial (IA) por meio dos resumos que buscadores oferecem na internet vem derrubando o tráfego direto de internautas em sites jornalísticos, prejudicando o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. Isso ocorre porque parte dos usuários tem deixado de clicar nos links diretos dos sites, restringindo a pesquisa aos resumos das IAs.

Essa mudança vem ganhando força, principalmente, a partir de maio de 2024 com o AI Overviews do Google (resumos gerados por IA, em português). Segundo especialistas, a novidade tem ainda o potencial de prejudicar a integridade da informação que circula no país em meio à proliferação das fake news impulsionadas pelas mesmas plataformas por trás das IAs que dominam o mercado.

Um projeto de lei (PL 2338 de 2023) em tramitação na Câmara, o Marco Regulatório da IA, prevê que as plataformas digitais paguem pelos direitos autorais das obras e reportagens usadas pela tecnologia, o que poderia fortalecer o jornalismo profissional frente à crise no setor.

Porém, o tema não avançou no último semestre, apesar da prioridade anunciada ao projeto pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que representa 152 veículos on-line no Brasil, aponta que um de cada quatro desses portais de notícias perdeu, em 2025, mais de 20% da audiência.

“A queda de tráfego nos sites das associadas advindo de ferramentas de busca, uma preocupação generalizada na indústria jornalística, se mostra verdadeira no contexto das associadas”, concluiu a pesquisa da Ajor.

A diretora de Relações Institucionais da associação, Carla Egydio, explicou à Agência Brasil que a queda é “preocupante” por prejudicar a atração de publicidade e o financiamento calculado a partir das “métricas de audiência”.

“O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Parte da publicidade já migrou, principalmente, para plataformas digitais. Os veículos que se financiavam, sobretudo por publicidade, têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”, disse a diretora.

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TERRITÓRIOS E DISPUTAS NARRATIVAS SÃO TEMA DE ENCONTRO NA UNEB JUAZEIRO, BAHIA

As narrativas produzidas pela mídia ajudam a contar a história dos territórios e dar visibilidade a diferentes realidades. É com esse olhar que entre os dias 13 e 14 de agosto, o Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia - Campus III, em Juazeiro, sedia a 9ª edição do Encontro de História da Mídia do Nordeste (Alcar Nordeste 2026). O evento reunirá pesquisadores, estudantes, docentes e profissionais da comunicação de diferentes estados da região para discutir temas relacionados à história das mídias e do jornalismo. 

Nesta edição, o encontro terá como tema "Comunicação, territórios e disputas narrativas: a mídia local como palco de identidades, resistências e conflitos históricos", propondo reflexões sobre o papel da mídia na construção das identidades e nos diferentes discursos que atravessam a história dos territórios nordestinos. No centro do assunto, a UNEB destaca-se na promoção de um diálogo sobre a valorização de múltiplas perspectivas que constroem o campo da memória. 

A programação será aberta com a conferência "Passado, disputas de memória e regimes de esquecimento", ministrada pela pesquisadora Ana Paula Goulart (UFRJ), uma das principais referências na área da comunicação, e mediada por Izani Mustafá (UFMA), marcando o início das discussões do evento ao abordar as relações entre memória, esquecimento e a construção das narrativas sobre a sociedade.



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PROGRAMAS DAS URNAS ELEIÇÕES 2026 GARANTEM SEGURANÇA NA HORA DO VOTO

A cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais impedem qualquer alteração nos programas que operam as urnas eletrônicas após sua conclusão. Segundo o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Júlio Valente, nem o próprio tribunal pode modificar os sistemas após essa etapa. Qualquer alteração só seria possível mediante a realização de uma nova cerimônia pública, com a participação das entidades responsáveis pela fiscalização de todo o processo eleitoral.

O secretário explicou que a cerimônia, realizada entre agosto e setembro, marca o encerramento do desenvolvimento dos sistemas utilizados nas eleições, com a participação de instituições fiscalizadoras e do presidente da Corte, que assinam digitalmente os programas. A partir desse momento, eles tornam-se definitivos. 

“Nesse momento, os sistemas estão encerrados, são finalizados, nada mais pode mudar. Depois dessa assinatura, mesmo que a Justiça Eleitoral deseje, mesmo que o TSE queira, não é mais possível mexer nos sistemas.”, afirmou. 

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URNAS E SEGURANÇA ELEIÇÕES 2026

A cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais impedem qualquer alteração nos programas que operam as urnas eletrônicas após sua conclusão. Segundo o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Júlio Valente, nem o próprio tribunal pode modificar os sistemas após essa etapa. Qualquer alteração só seria possível mediante a realização de uma nova cerimônia pública, com a participação das entidades responsáveis pela fiscalização de todo o processo eleitoral.

O secretário explicou que a cerimônia, realizada entre agosto e setembro, marca o encerramento do desenvolvimento dos sistemas utilizados nas eleições, com a participação de instituições fiscalizadoras e do presidente da Corte, que assinam digitalmente os programas. A partir desse momento, eles tornam-se definitivos. 

“Nesse momento, os sistemas estão encerrados, são finalizados, nada mais pode mudar. Depois dessa assinatura, mesmo que a Justiça Eleitoral deseje, mesmo que o TSE queira, não é mais possível mexer nos sistemas.”, afirmou. 

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OBRA DO CINEASTA VLADIMIR DE CARVALHO É TEMA DE LIVRO

Foi durante o PirenópolisDOc, conhecido como PiriDoc, que a pesquisadora Aline Fernandes Carrijo se deu conta de um aspecto fundamental da obra do cineasta Vladimir Carvalho. Até então, ela conhecia apenas o longa Conterrâneos velhos de guerra, mas com a programação do festival de documentários de Pirenópolis, ela se deparou com Vila Boa de Goiás, Quilombo  e Mutirão.

 “Eu sou goiana e nunca tinha visto documentário do cinema moderno sobre Goiás”, conta a pesquisadora, que levou a temática para a tese de doutorado realizada na Universidade de São Paulo (USP) e transformou o resultado no livro Diante da catástrofe: a modernização brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, que lança nesta terça-feira (4/8), às 19h, no Cine Brasília, com direito a debate com Sérgio Moriconi. O debate ocorre após a exibição de Conterrâneos velhos de guerra, Perseghini e Quilombo, que terá início às 15hs.

Quando assistiu aos três filmes em curto período de tempo, Aline logo começou a trabalhar em uma análise do conjunto. “Vendo os filmes em conjunto, vi a potência que tinha de uma compreensão do processo modernizador brasileiro. Comecei a analisar e, ao longo do processo, trabalhando com metodologia de análise fílmica, fui analisando quadro a quadro”, conta a pesquisadora. “Esses documentários formulam maneiras específicas de pensar o real.”  

Uma das inquietações que despertaram a curiosidade de Aline foi o fato de Vladimir ser sempre descrito como um cineasta nordestino, apesar das décadas radicado em Brasília e da vasta filmografia dedicada ao Centro-Oeste (CO). “Quando você olha a historiografia do cinema brasileiro, ele é colocado como cineasta nordestino. Claro que que ele tem filmes muito importantes sobre o Nordeste, e é paraibano, mas também tem essa potência como documentarista de Brasília. Mas, na historiografia, ele não aparecia dessa forma, com essa perspectiva nacional. Isso foi me inquietando”, conta. 

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IMPACTOS DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS NA SAÚDE MENTAL

 O debate sobre os impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes já faz parte da agenda de oito em cada dez escolas brasileiras. A proporção de instituições de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, que discutiram o tema em 2025, cresceu 18 pontos percentuais na comparação com 2024, passando de 62% para 80%.

Os resultados constam na pesquisa TIC Educação 2025, lançada nesta terça-feira (4) e realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)

A coleta de dados foi feita por telefone em escolas públicas e particulares, de áreas urbanas e rurais, totalizando 2.404 entrevistas com gestores.

Segundo o Cetic.br, a pesquisa mostra que os debates sobre questões relacionadas aos efeitos das tecnologias digitais no desenvolvimento dos alunos e à adoção crítica desses recursos estão mais presentes nas escolas do país.

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RAFAEL DO ACORDEON: UM SANFONEIRO DOS 32 BAIXOS AOS 120

O Brasil celebra neste domingo, 02 de agosto, 37 anos da morte do cantor e compositor Luiz Gonzaga, o rei do baião. Lua, como também era conhecido, foi essencialmente um telúrico. Ele soube como ninguém cantar o Nordeste e seus problemas. Pernambucano, nordestino ou simplesmente brasileiro, Luiz Gonzaga encantou o Brasil com sua música, tornando-se um daqueles que melhor souberam interpretar a alma de sua gente.

O escrito Gilberto Amado disse a propósito da morte: "Apagou-se aquela luz no meio de todos nós". O ex ministro e senador Marco Maciel escreveu que Para o Nordeste, e tenho certeza para todo o país, a morte de Luiz Gonzaga foi o apagar de um grande clarão. Mas com seu desaparecimento não cessou de florescer a mensagem que deixou, por meio da poesia, da música e da divulgação da cultura do Nordeste.

Em sua obra ele está vivo e vive no sertão, no pampa, na cidade grande, na boca do povo, no gemer da sanfona, no coração e na alma da gente brasileira, pois, como disse Fernando Pessoa, "quem, morrendo, deixa escrito um belo verso, deixou mais ricos os céus e a terra, e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente".

A expressão que Luiz Gonzaga não morreu e vive em Exu, Pernambuco e se propaga pelo mundo é real. Cicero Gomes filho, ganhou uma sanfona de 32 baixos do hoje saudoso Chico Gomes. A sanfona de cor vermelha passou para a mão de Pedro Rafael Amorim Gomes, 11 anos, conhecido por Rafael do Acordeon.

Cicero Gomes conta que "não tinha talento para tocar sanfona e então aos 6 anos o filho, Rafael herdou a sanfona e hoje faz os acordes soarem na região de Exu e sul do Ceará".

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RODA DE DIÁLOGO VIRTUAL DEBATE A COMUNICAÇÃO DE ESTRATÉGIA DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Em preparação à 17ª edição da Conferência das Partes (COP) da Desertificação, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) promove uma roda de diálogo virtual para instigar a cobertura de coletivos de comunicação e veículos jornalísticos do Brasil. Intitulado “A comunicação na estratégia de combate à desertificação no Semiárido brasileiro”, o evento ocorre na próxima terça-feira, 4 de agosto, das 14h às 16h30, via Zoom, e será aberta ao público em geral.

A roda de diálogo é uma parceria com o Eco Nordeste e a Rede Cajueira e tem apoio técnico do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O público alvo são comunicadores e jornalistas que cobrem a pauta socioambiental.

Na programação, Ivi Dantas, da coordenação executiva da ASA, e Alexandre Pires, diretor de Combate à Desertificação do Ministério do MMA, farão a abertura do momento virtual. Maristela Crispim, diretora-executiva da Eco Nordeste, e Mariana Ceci, da Rede Cajueira, trarão um panorama dos desafios do jornalismo independente do Nordeste na cobertura de pautas socioambientais. 

Já Fernanda Cruz, coordenadora de Comunicação da ASA, vai evidenciar como a comunicação está pensada na estratégia política da Articulação para a construção da convivência com o Semiárido, além de apresentar o que está sendo levado para a esta edição da Conferência. 

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MARIO QUINTANA: ELES PASSARÃO...EU PASSARINHO

 "Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!"

Versos simples, pontiagudos e bem-sacados sobre coisas cotidianas com a habilidade de um cronista. Textos curtos, mas intensos. O estilo marcante da poesia do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), nascido há 120 anos, combina tão bem com a lógica das redes sociais que sua poesia acabou ganhando uma nova vida em posts contemporâneos, compartilhada mesmo por quem nem sequer sabe a autoria de tais versos.

"Ele faz parte das referências poéticas das pessoas comuns", diz o professor e escritor Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Para ele, os textos atribuídos a Quintana, "verdadeiramente ou falsamente", demonstram que seu estilo "se impôs nos frequentadores das redes sociais".

"Dadas as referências ao banal, à experiência humana de renúncia e de amor à vida, sua poesia é um pão e vinho sagrados, que se multiplicam entre os que têm fome de poesia", analisa.

O escritor contemporâneo Saulo Florentino, que tem se debruçado sobre a presença da literatura nas redes sociais, associa essa fama atual de Quintana ao seu jeito de poetizar "sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade". "Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas", diz.

Florentino concorda que o estilo curto, sintético, do poeta gaúcho parece feito para a era das redes. "A sociedade atual vive da circulação de frases. As pessoas se acostumaram a pequenos comprimidos de poesia", define.

Tal protagonismo digital tem como efeito colateral os versos erroneamente atribuídos a Quintana. "Isso também diz algo interessante", avalia Florentino. "Mostra que existe uma espécie de imaginário coletivo sobre quem foi Mario Quintana e que, quando alguém encontra uma frase melancólica ou delicada, acredita que a mesma foi escrita por ele."

Para o escritor contemporâneo, existe um "reconhecimento involuntário da identidade estética e textual" de Mario Quintana.

Criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor de literatura Emerson Rossetti vê na poética de Quintana uma tríade de elementos que funcionam muito bem na era das redes. "São aspectos convergentes", afirma.

O primeiro é a simplicidade de sua linguagem. "Com grande apelo poético que atrai bastante a atenção", diz. Outro ponto é a escolha dos temas — privilegiando o cotidiano e a busca do sentido para as coisas banais da vida. "A terceira questão, muito importante, é a sua expressão sintética", acrescenta o professor. "Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet."

Para o cantor e compositor Márcio de Camillo, que desde 2018 tem um espetáculo infantil chamado Crianceiras Mario Quintana, a poética do gaúcho ficou pop "porque o verso é uma maneira rápida de leitura".

Para ele, as redes estão "democratizando mais a poesia" e, neste fenômeno, autores "com versos fantásticos" como Quintana acabam funcionando.

E a poética de Quintana se encaixa no universo infantil da adaptação de Camillo. "Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida", argumenta Camillo.

"Mario Quintana conquistou um lugar especial na literatura brasileira porque soube fazer algo aparentemente simples, mas muito difícil: encontrar poesia nas coisas comuns", contextualiza o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

"Ele não precisava recorrer a grandes acontecimentos ou a uma linguagem complicada para falar de questões profundas. Uma rua silenciosa, uma lembrança de infância, um objeto antigo ou a passagem do tempo podiam se transformar, em seus versos, em reflexões sobre a vida."

"Além disso, Quintana tinha uma maneira muito própria de brincar com as palavras, criando versos que pareciam conversas, mas que carregavam muita reflexão. Sua poesia consegue unir profundidade e simplicidade, fazendo o leitor sorrir e, ao mesmo tempo, pensar", afirma Martins.

E viraliza nas redes porque "consegue dizer muito usando poucas palavras", destaca Martins. Nada mal para alguém que morreu longe da fama em 1994 — depois de viver o auge aos 60 anos, seis décadas atrás.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo a sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

O  IMS ainda atesta que o jovem Quintana não era dos melhores nem em álgebra nem em geografia, mas "as notas altas em francês eram prenúncio do tradutor que ele seria no futuro".

O caminho das letras começou a ser pavimentado em 1924, quando, aos 18 anos, conseguiu emprego na Livraria do Globo, que depois se tornaria importante editora de livros. Inicialmente, Quintana trabalhava como desempacotador.

Gradualmente passou a integrar o quarteto que faria da livraria a lendária editora — a partir de 1928, Edições da Livraria do Globo; depois de 1956, Editora Globo. Eram eles os amigos Henrique Bertaso (1906-1977), o filho do dono do empreendimento; o escritor Erico Verissimo (1905-1975); e o editor Mauricio Rosenblatt (1906-1988).

Era uma trupe que trabalhava junto durante o dia e se divertia durante a noite. No livro Um Certo Henrique Bertaso, Verissimo conta algumas dessas histórias. Por exemplo, a do jantar organizado na casa de um amigo imigrante italiano que tinha, entre os bibelôs decorativos, um gigantesco ovo de avestruz sobre a mesinha de centro.

"Não sei que demônio me soprou ao ouvido a ideia de começar um jogo, já que aquele 'objeto' oval se parecia um pouco com a bola usada no futebol norte-americano", escreveu. E então ele detalhou que foi um amigo arremessando o gigante ovo para o outro até que alguém "teve a trágica ideia de jogar a improvisada bola para Mario Quintana".

"Ora, o nosso querido poeta, que não é bem deste mundo, ergueu-se de repente, recuando e recusando agarrar aquela coisa branca que arremessavam sobre ele…", relatou Verissimo.

"O ovo caiu sobre a mesa e partiu-se, espalhando sobre a toalha um líquido gosmento, dum amarelo sujo, e dum fedor sulfuroso de podridão milenar — um fedor pré-histórico, que nos entrava pelas narinas, medonho, ácido, apocalíptico, como um resumo de todas as decomposições do mundo através dos séculos… um horror!"

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O RÁDIO E A MODERNIDADE DIGITAL

Quando grupos de mídia querem falar sobre a relevância da radiodifusão no Brasil, usualmente destacam a confiança da população no rádio, TV, jornais e revistas no combate à desinformação. Nesses tempos de IA, em que tudo é manipulável, não é segredo que a mídia tradicional tem se tornado um dos principais pilares da democracia. Ainda assim, existe um nítido descompasso que abala a sustentabilidade do setor. 

Diversas pesquisas apontam a liderança da mídia tradicional em confiança. TV, rádio, jornais e revistas também são massivamente consumidos pelos brasileiros em todas as plataformas. Mesmo assim, o dinheiro da publicidade segue rumo às plataformas digitais controladas por um punhado de gigantes de tecnologia. Pior, o destino deste dinheiro é cada vez a mídia programática, o que, na prática, significa menos receita até mesmo para os grupos de mídia que se digitalizam. 

O investimento publicitário realizado por meio de agências no Brasil somou R$ 28,9 bilhões em 2025, crescimento de 10% em relação ao ano anterior, segundo dados do Painel Cenp-Meios. A verba cresce, mas a receita da mídia tradicional encolhe.

Se nosso conteúdo é confiável e seguro, e principalmente, altamente eficiente para vender produtos e comunicar mensagens para uma imensa parte da população, por que estamos perdendo terreno para as gigantes de tecnologia?]

Passamos uma década explicando ao mercado que os anúncios em nossos meios aparecem ao lado de conteúdo verificado, num ambiente sem fraude, sem bots, sem o adjacente tóxico que assombra a open web. Vale notar que nem mesmo as gigantes de tecnologia questionam a qualidade do conteúdo em mídia tradicional. Prova disso é que usam conteúdo de mídia tradicional para treinar suas IAs e até o YouTube diz que quer virar TV.

Talvez o nosso problema seja usar argumentos racionais sobre segurança de conteúdo, quando para CEOs, CFOs e executivos que decidem onde alocar os orçamentos de mídia, isso seja irrelevante. 

Quem assina o cheque não perde o sono ao investir no Google e Meta, mesmo diante das sucessivas polêmicas dessas empresas. Qualquer executivo medianamente informado sabe que Google e Meta foram condenadas por viciarem até menores de idade em seus apps. Alguém ainda pode dizer que desconhece o fato de as gigantes de tecnologia lucrarem com polarização e fraudes em suas plataformas? 

Porém, o que realmente tira o sono dos executivos é o medo de vender menos que seus concorrentes. Ou seja, a mídia tradicional precisa mostrar que, além de confiável e brand-safety, é melhor para vender do que as outras plataformas. 

E esta é uma das maiores ironias do mercado de comunicação, porque o rádio, a TV, os jornais e as revistas ainda são altamente efetivos para mover negócios. Não somente por serem mais seguras e confiáveis, mas simplesmente pelo fato de que são amplamente consumidas pelos brasileiros. E mais, hoje nos tornamos até mais baratos em comparação às plataformas das gigantes de tecnologia.

O problema não é a TV, rádio ou mídias tradicionais em geral medirem menos ou possuírem menos dados. Em muitos aspectos, medimos demais, mas medimos a coisa errada. Alcance, frequência e viewability são ideias abstratas para CFOs, CEOs e donos de negócio. Confiabilidade e brand safety, também. Veja o exemplo da TV, bilhões de dólares deixam de ser investidos no mundo todo pelo fato de ainda não termos uma métrica cross-media universal.

Obviamente, as gigantes de tecnologia dificultam o lançamento de soluções de medição que indiquem números negativos para elas mesmas. Afinal, o mercado usa números criados pelas próprias plataformas. Ainda assim, as empresas de tecnologia criaram uma narrativa poderosa de infalibilidade de seus próprios números e soluções. É uma grande falácia.

Nesta semana, clientes da Meta, que até pouco estavam encantados com a perspectiva de comprar anúncios criados por IA nas plataformas do Instagram e Facebook, descobriram que as peças não raro continham problemas como imagens distorcidas e informações incorretas. Quando os clientes cobraram uma solução, a Meta respondeu que a culpa era de quem produziu os anúncios, ou seja, do cliente e não da plataforma.

No sucesso, o mérito é da Meta. No erro, a culpa é do cliente que “não entende a tecnologia”. Não faz sentido nem é racional, mas o encanto da ciência é poderoso. Mesmo com a IA ainda sendo falha e insuficiente para resolver demandas de mídia, é uma narrativa que atrai clientes. 

Estamos fora desse jogo porque, em boa medida, não estamos falando a língua dos CFOs, CEOs e executivos, que querem ver números que indiquem vendas. Simples assim.

A Tenk TV, associação das três principais emissoras da Noruega, fez a publicidade em TV crescer mais rápido que o mercado. Alcançaram uma alta recorde de 7,9%, com o streaming (BVOD) já superando o YouTube e mais anunciantes aumentando o investimento em TV (de 10% em 2024 para 17% em 2025).

As emissoras norueguesas se uniram em torno do objetivo comum de reconquistar a verba das redes sociais. Para isso, alinharam discurso, dados, eventos e pesquisas. Focaram nos pontos fortes da TV, evitaram a mídia programática em favor de negociações diretas, ofereceram soluções coletivas de MMM, levaram anunciantes em viagens de estudo e passaram a modernizar a medição para representar melhor a TV nos dados locais. Agora miram o mercado de PMEs. 

A lição dos noruegueses é agir como bloco, e não como concorrentes. Essa é uma das formas mais eficazes de atrair investimentos em disputas com big techs.

A mídia tradicional tem uma oportunidade enorme em um mundo pautado pela IA. Mas precisamos ser mais ambiciosos e organizados. Se não temos os bilhões de dólares das multinacionais de tecnologia, devemos ampliar as alianças entre os grupos tradicionais para produzir pesquisas e mostrar resultados da mesma forma que fazem as gigantes de tecnologia. Também precisamos de soluções de publicidade unificadas, mais acessíveis e exclusivas de veículos tradicionais.

Gigantes de tecnologia publicam constantemente resultados (pesquisados por eles mesmos) que mostram sua efetividade e como entregam valor ao cliente. Nossos esforços ainda são limitados neste sentido. Além de estudos mais amplos mostrando a eficiência da mídia tradicional, precisamos lutar por maior regulação do setor digital, como fizeram a Austrália, o Canadá e a União Europeia.

Entidades de setor nunca foram tão importantes, como mostra a Tenk TV. Elas são uma forma eficiente de alinhar e organizar demandas institucionais e criar oportunidades. Enquanto persistir a ideia de que concorremos uns com os outros, seguiremos sendo consumidos por adversários maiores e mais poderosos. Apenas ter conteúdo seguro e confiável, infelizmente, hoje não é o bastante.

Guilherme Ravache – consultor digital, colunista e palestrante, com publicações de artigos sobre inovação, marketing e mídia no Valor Econômico. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época

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HUBERTO CABRAL É INTERNADO EM JUAZEIRO DO NORTE, CEARÁ

O jornalista cratense Huberto Cabral, de 89 anos, foi internado na tarde desta terça-feira (28) no Hospital Regional do Cariri (HRC), em Juazeiro do Norte, após apresentar suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo a unidade hospitalar, ele está sendo acompanhado pela equipe médica e responde bem ao tratamento. NotíciasCrajubar

De acordo com o diretor do HRC, Wilton Almeida, Huberto Cabral deu entrada na unidade por volta das 13h e passou por atendimento de emergência. 

"Já foi recebido, medicado, foram tomados todos os exames dele necessários. Os médicos estão fechando o diagnóstico para ver o que é precisamente. Os exames de emergência já foram feitos e ele está sendo bem acompanhado", informou Wilton ao jornalista Franzé Souza.

Em nota, a Rádio Educadora do Cariri FM, onde Huberto Cabral atua como colaborador desde a fundação da emissora, há 67 anos, pediu orações pela recuperação do jornalista.

"A Família Rádio Educadora do Cariri FM pede orações a todos e aguarda novas informações do HRC, na torcida pela breve recuperação do colega colaborador", diz o comunicado.

Com mais de sete décadas dedicadas ao jornalismo, Huberto Cabral é considerado um dos maiores memorialistas do Cariri e frequentemente chamado de "enciclopédia viva" da região por sua memória sobre fatos históricos. NotíciasCrajubar

Ele cobriu acontecimentos marcantes do Ceará e entrevistou presidentes da República, como Castello Branco, Ernesto Geisel, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Em reconhecimento à contribuição para a preservação da memória regional, recebeu, em 2019, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri (Urca).


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Fórum pede compromisso de candidatos com comunicação democrática

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) vai lançar, no próximo sábado (1º), uma carta de compromisso com a defesa da democracia e com a comunicação democrática para toda a sociedade. A ideia é buscar a adesão pública de candidatos e pré-candidatos às eleições deste ano.

O documento traz uma série de pontos com o objetivo de fortalecer a democratização da comunicação no Brasil. Segundo o FNDC, também são propostas para defender a comunicação pública, comunitária e educativa, além de fazer frente ao monopólio das grandes empresas de comunicação digital.

Soberania Tecnológica e Infraestrutura Nacional: investimento no desenvolvimento de aplicações próprias gratuitas para reduzir a dependência de corporações estrangeiras. Proibir a privatização de empresas como Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Dataprev.

Regulação da tecnologia de Inteligência Artificial: firmar regras para o desenvolvimento e uso da Inteligência Artificial voltadas à garantia de direitos que vetem o uso com risco excessivos (como reconhecimento facial na segurança pública), combatam o racismo e a violação de direitos.

Proteção a Jornalistas e Comunicadores: fortalecimento de programas de proteção contra violências e intimidações, especialmente para profissionais da comunicação e comunicadores que atuam em territórios de conflito.

Proibição da Propriedade de Mídia por Políticos: efetivar o Artigo 54 da Constituição para impedir que pessoas detentoras de mandato possuam concessões de rádio e TV.

Fortalecimento e independência da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e demais empresas públicas de comunicação: garantir orçamento adequado, autonomia editorial, concurso público para as empresas de comunicação pública. Restabelecer o Conselho Curador da EBC e expandir a Rede Nacional de Comunicação Pública.

A leitura da carta, com todos os compromissos, será feita no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Também será feito o anúncio das primeiras campanhas que aderiram ao documento

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FAZENDA NORMANDIA, CARUARU E A AGRICULTURA FAMILIAR

A crise do clima também chega à nossa mesa, ameaçando a segurança alimentar. Em Caruaru, no Agreste pernambucano, o Assentamento Normandia mostra que a resposta a esse desafio pode nascer da terra e da resistência. 

Prova disso é que, há mais de 30 anos, famílias agricultoras vêm construindo um modelo de produção agroecológica que abastece escolas e creches do Agreste à Zona da Mata, chegando até o Recife.  

Símbolo da luta camponesa e um dos territórios mais produtivos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, Normandia nos faz questionar: que agricultura queremos? 

Em 2025, o Brasil viveu o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos,  conforme sinaliza levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. 

Esse foi o mesmo período em que o Brasil bateu recordes de aprovação de pesticidas. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, 38% a mais do que o ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União. 

Solo de terra arada com brotos de plantas agrícolas sob céu parcialmente nublado e vegetação ao fundo.

A produção do assentamento é o cultivo livre de agrotóxicos e transgênicos, um modelo que preserva o solo e a biodiversidade da Caatinga | Foto: Andréia Vitório

No Assentamento Normandia, a história é diferente: famílias agricultoras produzem alimentos a partir da agroecologia, respeitando a biodiversidade e a saúde do solo, sem o uso de agrotóxicos. 

É nesse contexto que ocorre, por exemplo, o plantio do milho crioulo, cultivado em parceria com a Cooperativa de Produção Agropecuária Normandia (CoopaNor), envolvendo agricultoras e agricultores assentados, que funcionam como verdadeiros guardiões da soberania alimentar da região. 

Por lá, a prática do armazenamento de sementes, que atravessa gerações, segue contribuindo para a autonomia produtiva dessas comunidades. 

Nada de alimentos ultraprocessados. O que se vê em Normandia é a adoção de boas práticas de manejo do solo considerando as especificidades do bioma Caatinga para a produção de alimentos como a macaxeira, um dos pilares da agricultura familiar e da alimentação no Brasil, em especial no Nordeste brasileiro. 

“Apesar da nossa dificuldade hídrica, ela consegue resistir tanto quanto a gente. Um pingo de água já faz ela desenvolver. A macaxeira tem nos salvado durante toda nossa história”, conta a agricultora e assentada Mauricéia Matias. 

Bancas de lona branca da feira da agricultura familiar expõem frutas e hortaliças sob grandes árvores ao ar livre.

A produção de alimentos no Assentamento Normandia é diversificada e baseada em práticas agroecológicas. Na imagem, produtos destinados à comercialização | Foto: Andréia Vitório

Nada se perde: “aproveitamos 100% dela. A gente mói a maniva, que serve para a ração animal. Aquela primeira casca, quando a macaxeira vai para a agroindústria ser beneficiada, volta para a terra para fazer o processo de adubação natural. Já a segunda casca serve para alimentação animal”, exemplifica.

A agroindústria beneficia parte da produção à vácuo e há também uma unidade de pães e bolos à base da macaxeira, conhecida por muitos como aipim ou mandioca. Enquanto a produção segue seu ritmo nos moldes agroecológicos, a comercialização é ainda desafiadora.

“A gente tem saberes, inclusive de nossos antepassados, de produção e colheita, mas na hora de comercialização, há uma certa timidez de não saber o valor que esse produto tem”, comenta Mauricéia. “Não estou dizendo que tem que ser caro, mas tem que ser justo, levar em conta o tempo que a gente dedica a essas produções que não têm agrotóxicos e contam com matérias-primas mais selecionadas. Isso tem que fazer diferença”, destaca.

Outra vantagem para o consumidor é saber de onde vem o alimento que está consumindo. Isso faz ainda mais sentido quando lembramos que 90% de toda a cultura de milho no Brasil é transgênica, segundo dados da Embrapa. 

Mas não no Assentamento Normandia: testes químicos e genéticos confirmaram que o cuscuz flocão de milho da marca Normandia é um produto livre de organismos geneticamente modificados (transgênicos) e da contaminação de agrotóxicos. Produzido por agricultores familiares do Assentamento a partir de milho crioulo, o flocão foi lançado oficialmente em 2025. 

Assentamento Normandia-Em 1993, 247 famílias de trabalhadores rurais sem-terra, provenientes dos arredores de Caruaru, Agreste Pernambucano, ocuparam a Fazenda Normandia, que contava com 1.100 hectares improdutivos. Juntas, começaram a plantar hortaliças, milho, feijão e abóbora para vender na feira.  Também construíram casas de taipa e uma escola. 

Nascia, assim, a primeira experiência de educação em assentamentos da região. A ocupação durou quatro anos.  Em 1997, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento das famílias na área.

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares | Foto: Andréia Vitório

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares. Além disso, Normandia é conhecido por abrigar, desde 1998, o Centro de Formação Paulo Freire, espaço de eventos de formação e mobilização política, responsável por aproximar saberes tradicionais, populares, políticos e acadêmicos para o fortalecimento da agricultura familiar e suas boas práticas, mantendo viva a semente da resistência. 



 






 




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FORMAÇÃO DE JUVENTUDES PARA A CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Foi com lágrimas e abraços apertados, como demonstração de afeto construído pela aproximação ao longo de 14 dias de convivência e também com mística e ato simbólico do plantio de duas árvores de licuri, que chegou ao fim, na segunda-feira (20), a 32ª Escola de Formação de Juventudes para a Convivência com o Semiárido (EFJCSA). 

Nas diversas falas ao longo do encerramento, frases como “saio daqui com o coração rebelde em busca de mudanças” e “vou levar o que aprendi aqui para minha comunidade” ilustram muito do que a EFJCSA representa. A programação contou com atividades e discussões intensas sobre temas sociais urgentes, como a luta antirracista, a diversidade de gênero e os desafios atuais enfrentados pelas juventudes; também houve estudos a respeito de diversos assuntos relacionados à Convivência com o Semiárido, que perpassam desde os cuidados básicos com o solo, a criação, a água e as práticas nos quintais produtivos até os assuntos mais estruturantes, como educação contextualizada, os direitos ainda negados às comunidades rurais, as possibilidades para a geração de renda e as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. 

Com o tema “Corpo, terra, água e memória: ancestralidade e saúde no Semiárido”, essa tradicional Escola de Formação, realizada pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), reuniu, nesta edição, 40 jovens dos estados da Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Nesse sentido, mais uma vez, a EFJCSA proporcionou o encontro de uma diversidade de vozes, rostos e vivências. E o resultado, novamente, foi a construção de um espaço de rica troca de saberes e que mantêm a esperança em uma juventude que faz acontecer, que assume o protagonismo das suas histórias e o compromisso com a coletividade, a defesa dos territórios e as causas sociais populares. 

“Uma das coisas que levo, com certeza, é a diversidade de opções que o Semiárido nos dá para sobreviver, para nosso sustento, para cuidar dele também. O Semiárido é muito resiliente e isso nos proporciona refazer nossa trajetória por diversos caminhos. Levando sempre em consideração que, nesses caminhos, a gente precisa mantê-lo (o Semiárido, os biomas) de pé, que a vida depende do nosso cuidado”, ressalta a jovem participante Brice Reis, integrante da Rede Pintadas – Cooperação e articulação no semiárido baiano, do município de Pintadas-BA.

Para o jovem oceanógrafo que atua como assessor de pescadoras artesanais em Recife-PE e  integrante do Projeto Jandaíras, Matthews Rocha, os conhecimentos da Escola de Formação o inspiram a trabalhar a Convivência com a realidade dele:

“O que aprendi aqui tá para além do Semiárido, se a gente pensar o nosso litoral, o agreste, a gente pode fazer relações, confluências com outros biomas, com outros espaços, outras pessoas e organizações. Levo muito aprendizado, muita gratidão por tudo que aprendi aqui (…) Aprendi com a juventude que é possível viver bem onde quer que a gente esteja, porque a gente não é só futuro, a gente é presente; a gente tem apresentado perspectivas de vida, de viver bem onde a gente está vivendo, nos nossos territórios, nas nossas comunidades”. 

Matthews complementa ainda sobre a importância das discussões relacionadas à contextualização do ensino e que, diante da realidade atual, é preciso mesmo ter “uma educação antirracista, uma educação feminista, anticapacitista, que sabe dialogar, que sabe escutar, que sabe conviver com as pessoas, sabendo que cada pessoa tem algo a dizer e a ensinar”.

As abordagens de assuntos como as oportunidades para a juventude em suas respectivas realidades e da sucessão rural chamaram a atenção da participante Mirela Nascimento. “Não precisa sair da nossa vida no meio rural atrás de empregos na cidade, que é o que acontece muito. Eu acredito que você pode sim ter uma vida muito melhor trabalhando no rural”, defende. 

Mirela, que participa de um projeto voltado a jovens multiplicadores no Assentamento Vieira dos Carlos, em Trairi-CE, também destacou o tema da ancestralidade, pautado nessa edição da Escola: “Não tem um presente e um futuro sem a ancestralidade, sem um passado, porque todos nós temos uma história e essa história foi construída com os nossos antepassados”. 

O técnico em agropecuária e estudante de agronomia João Pedro Bueno ressalta que os conhecimentos também vão contribuir para o trabalho desenvolvido na área da Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER), pois ele atua como Agente Comunitário Rural (ACR) e nas ações do Projeto Dom Helder Câmara em Cajazeiras-PI.

"Aprendi muito, desde a questão da conservação dos solos e das águas (…) Essa imersão foi muito importante para a  minha a vida, porque a partir desse momento, vai agregar bastante para levar para a minha comunidade e para todas as pessoas que eu trabalho com a assistência técnica”.

Vivências de intercâmbios no Território 

Além de todas as atividades teóricas e práticas realizadas no Centro de Formação do José Rodrigues, a roça do Irpaa, também houve visitas a lugares marcantes do Território Sertão do São Francisco e que representam uma parte significativa das lutas dos povos do Semiárido: a força da coletividade que Canudos ensina; o impacto da construção da Barragem de Sobradinho na vida das famílias que viviam na região; a potência que é a Educação Contextualizada e a Pedagogia da Alternância, representadas pelas práticas da Escola Família Agrícola de Sobradinho; os cuidados com Velho Chico e a vitrine da Agricultura Familiar e do Cooperativismo, no Armazém da Caatinga em Juazeiro.

Em cada vivência, as juventudes puderam conhecer detalhes da história, refletir sobre as narrativas não contadas oficialmente, os desafios atuais e o quanto cada um/a pode se inspirar para seguir construindo um futuro melhor. Nesse sentido, o jovem Matthews enfatizou o que os intercâmbios significaram:

“Se não fosse pela Escola de Formação talvez eu nunca estivesse em Canudos, talvez eu nunca estivesse em Sobradinho. São lugares diferentes do ponto de vida dos destinos que foram impostos para aquele território. Canudos é esse lugar de muita resistência, que nos mostra que Canudos foi uma construção de resistência, na base da luta, da solidariedade, da Convivência com o Semiárido. Canudos é um lugar que inspira, principalmente nós, a construir um presente, um futuro melhor para nossas comunidades mostra que os movimentos sociais, as lutas populares, os grupos organizados vêm apresentando alternativas há muitos anos para um mundo melhor, uma vida melhor, com base na solidariedade, da fraternidade, do amor, companheirismo (…) Tem muita história que às vezes são invisibilizadas; acho que só com os intercâmbios a gente consegue ter essa capacidade de olhar, de sentir; estando lá pisando naquele chão, olhando com os nossos olhos, abrindo o coração para tudo aquilo que está na nossa frente”.

A jovem Brice Reis afirma que as reflexões em Sobradinho são importantes para compreender os detalhes históricos e quais os impactos causados por grandes empreendimentos, como a barragem: “Quando você conhece a história você percebe que aquela paisagem bonita nasceu da extinção de uma cultura, de todo um costume, de um povo. Então isso acaba deixando a gente reflexivo a respeito do solo que estamos pisando hoje: quem foi que pisou antes de nós?”.

A partir das avaliações dos intercâmbios em todos os espaços, em resumo, a juventude demonstrou a necessidade de conhecer cada vez mais as realidades, de se apropriar da história, de se inspirar nos ensinamentos dos antepassados e de estar atenta aos desafios e potencialidades dos tempos atuais.  

Durante a mística de encerramento da Escola, o presidente do Irpaa, José Moacir dos Santos, agradeceu a participação de cada jovem e reforçou o papel fundamental da juventude no trabalho de multiplicação de saberes. “Vocês têm um conhecimento que a maioria das pessoas não tem. Então, a gente volta com mais esse compromisso: ‘vou ser aquele que me calei, com medo das dificuldades’ ou vou ser ‘aquela que me juntei com outras tantas que tem aí e tocamos essa luta para a frente’?”, estimulou.

“Vamos continuar fazendo essa formação e construir essa rede de lutas por esse Semiárido vivo, por esse Semiárido rico, com nós dentro e vivendo bem. Essa é a ideia dessa Escola”, concluiu Moacir.

A 32ª EFJCSA  foi apoiada por projetos do Irpaa com a cooperação internacional, a exemplo do “Agenda 2030 no Semiárido Baiano”. Esta edição também contou com o apoio do “Projeto Baraúnas dos Sertões”.

Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa | Fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa e participantes da 32ª EFJCSA

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56 MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA.

A 56ª edição da Missa do Vaqueiro reuniu milhares de fiéis e vaqueiros neste domingo (26), no Parque Estadual João Câncio, em Serrita, no Sertão Central. Considerada uma das mais importantes manifestações de fé e cultura popular do Nordeste.

Compreender que a história vem se tecendo com a força da própria vida. E por isto, disse o cantador Virgilio Siqueira, daí não ser possível guardar na própria alma a transbordante força de uma causa. Daí não ser possível retornar, afinal, a gente nem sabe ao certo se de fato partiu algum dia...

Tengo/legotengo/lengotengo/lengotengo … O vaqueiro nordestino/morre sem deixar tostão/o seu nome é esquecido/ nas quebradas do Sertão ...” Os versos ecoam pelo lugar, realçados pelo trote dos animais e o balançar natural dos chocalhos trazidos pelos donos, todos em silêncio. É música. É arte.

Cada arte emociona o ser humano e maneira diferente! Literatura, pintura e escultura nos prendem por um viés racional, já a música nos fisga pelo lado emocional. Ao ouvir música penetramos no mundo das emoções, viajamos sem fronteiras.

Realizada anualmente sempre no quarto domingo do mês de julho, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga e criada com os amigos Padre João Câncio e Pedro Bandeira.

A Morte do Vaqueiro, música composta por Nelson Barbalho, ainda ecoa nos sertões brasileiros: Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja de seus colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Luiz Gonzaga queria mais. Dessa forma, ele se juntou a João Câncio dos Santos, na época padre que ao ver a pobreza e as injustiças sociais cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão, para fazer do caso do vaqueiro Raimundo Jacó o mote para o ofício do trabalho e para a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Raimundo Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas, como chapéu de couro, chicotes e berrantes, ao altar de pedra rústica em formato de ferradura. 

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre. A Missa do Vaqueiro enche os olhos e coração de alegria e reflexões. Poetas e cantadores se fazem presente ao evento e iluminam com uma mágica leveza rimas e versos nos improvisos da inteligência. Vaqueiros e suas mãos calejadas, rostos enrugados pelo sol iluminam almas.

Em Serrita ouvimos sanfonas tocando alto o forró e o baião. Corpo e espírito ali em comunhão. A música do Quinteto Violado, composto por Janduhy Filizola é fonte de emoção. A presença de Jesus Cristo está no pão, cuscuz, rapadura e queijo repartidos/divididos na liturgia da palavras.

Emoção! Forte Emoção é que sinto na Missa do Vaqueiro ao ouvir sanfona e violeiros:

“Quarta, quinta e sexta-feira/sábado terceiro de julho/Carro de boi e poeira/cerca, aveloz, pedregulho/Só quando o domingo passa/É que volta os viajantes aos seu locais primitivos/Deixa no caminho torto/ o chão de um vaqueiro morto úmido com lágrimas dos vivos.

E aqui um assunto místico: quando o gado passa diante do mourão onde se matou uma rês, ou está esticado um couro, é comum o gado bater as patas dianteiras no chão e chorar o sentimento pelo “irmao” morto. O boi derrama lágrimas e dá mugidos em tons graves e agudos, como só acontece nos sertões do Nordeste!

Assim eu escutei e aqui reproduzo...

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EDGAR MORIN 100 ANOS PRODUZINDO OBRAS

Edgar Morin soube conquistar pelos seus textos. Introdução ao Pensamento Complexo é um livro escrito, suponho, para aquelas pessoas que, pela primeira vez, entram em contato com as ideias desse pensador. Em seis capítulos, por 120 páginas, somos gradualmente introduzidos às ideias da Complexidade, ou do Pensamento Complexo, segundo uma visão convincente, que reúne múltiplos conceitos que, ao seu melhor estilo, se complementam, concorrem, antagonizam.

Para pessoas formadas nas ciências tradicionais, onde o espaço cartesiano é a possível descrição do mundo, onde equações regem não só a física e a química, mas as relações e comportamentos humanos, as ideias de Morin surgem, ao mesmo tempo, como um choque e uma luz.

O choque advém de sabermos que nossa forma de ver e analisar a realidade é incompleta e limitada. Todo nosso conhecimento disciplinar irá nos levar, inefavelmente, a limites insuperáveis.

A luz, por outro lado, mostra que podemos viver, cientificamente, com os contrassensos que não serão superados. Eles existem e vão persistir, não por falta de uma explicação mais ampla, uma teoria unificadora, mas porque sua presença demonstra nossa incapacidade de lidar com a natural existência de conflitos e oposições.

Quando Morin se propõe a explicar essas situações, usa formas simples e claras. Afirma que o ser humano é, ao mesmo tempo, formador e formado pela sociedade. Que nós somos feitos de células. Mas cada célula individual contém nossa totalidade.

Explica também que, embora as ideias e os conceitos surjam dos humanos, eles de repente adquirem vida autônoma e fazem com que nós próprios, seres humanos, os sigamos, lutemos e morramos por eles. Ou não é isso que acontece com as religiões, os sistemas políticos e econômicos, as ciências?

É difícil uma pessoa não ter sua forma de ver o mundo profundamente alterada depois de ser tocada pelo Pensamento Complexo. A frase tão comum: “na verdade, isso é complexo”, adquire um significado diferente, maior, onde a compreensão de que o todo influencia as partes que, por sua vez, influenciam e formam o todo, passa a moldar essa nova perspectiva.

Mas, é claro, esta não foi sua primeira obra.

A carreira de escritor cientista, ou podemos dizer, de arguto observador da realidade, começa ainda em 1946, quando ele tinha 25 anos e parte para a Alemanha derrotada, como soldado do exército francês de ocupação com o objetivo autoimposto de tentar entender como a bestialidade havia tomado conta de um país como aquele. Das impressões desta experiência resulta seu primeiro livro, Alemanha Ano Zero.

Sua perplexidade com a morte, inicialmente provocada pelo falecimento da mãe em 1931, não o havia deixado e, então escreve o segundo livro, O homem e a morte. Nele, Morin tenta uma abordagem multidisciplinar para um tema que, segundo ele mesmo, nunca havia sido tratado de forma científica.

A Europa se recupera economicamente e a sociedade de massas fascina Morin que busca apreender os fenômenos de seu tempo. E assim, volta sua atenção ao cinema para compreender o surgimento das estrelas, um fenômeno tão característico do pós-guerra. Escreve, em 1956, Cinema ou o homem imaginário e, em 1957, As estrelas, mostrando como o surgimento dos ídolos cinematográficos, na verdade, atende à necessidade humana por heróis.

É marcante como Morin migra de temas e interesses como alguém sensível aos fenômenos que motivam e moldam a sociedade humana europeia e contemporânea.

E assim, na década de 1960, parte para uma aventura científico-antropológica. Vai viver com um time que conta com alguns pesquisadores e pesquisadoras, em uma pequena comunidade na Bretanha, sul da França. Lá se integra com a sociedade local e registra seu comportamento.

Posteriormente publica, em 1967, o livro Commune en France. La métamorphose de Plodémet. Embora Morin e sua equipe acreditem que era um relato de pesquisa, são duramente criticados pela própria comunidade que se sentiu usada e teve sua confiança traída.

O colega e cientista Jaques Monod, que havia ido dirigir o Instituto Salk nos EUA, convida Morin para uma temporada na qual ele permanece entre 1968 e 1969. Estuda as teorias cibernéticas de Norbert Wiener e colegas, as teorias sistêmicas de Bertalanffy e demais e ainda a teoria da informação, de Shannon, Weaver e Brillouin. O fruto desta estadia foi o início da escrita d’O Método.
O primeiro volume, cujo subtítulo é A Natureza da Natureza, foi publicado em 1977. O texto é uma verdadeira saga científica na qual Morin funde e combina conceitos da física, teoria da informação, auto-organização entre muitos outros.

A proposta de abordar os múltiplos conhecimentos humanos a partir de visões de diferentes ciências disciplinares, integrando-as em um conjunto, prosseguiu por muitos anos e culminou com a publicação do sexto volume, Ética, em 2004.

Nesse um quarto de século, Morin construiu não só as bases do Pensamento Complexo como produziu várias outras obras que influenciaram cientistas e leigos pelo mundo, com especial destaque para a América Latina.

Seria prepotente tentar condensar o conteúdo de O Método, obra tão abrangente, em poucos parágrafos. Ainda assim, para tentar fazer jus ao autor sem, no entanto, obrigar leitoras e leitores a ir à fonte, segue um breve relato de cada volume. De qualquer modo, a leitura da obra completa de Morin é profundamente gratificante.

Volume 1
Na Natureza da Natureza (vol. 1), Morin menciona e define alguns conceitos. Argumenta que, a partir da ideia de sistema, temos uma interação entre todos e partes, que as organizações são sistemas auto-organizados, que esta organização ocorre através de um fluxo de informações.

Explica que ordem e desordem são faces da mesma realidade. Precisamos que os elementos estejam desorganizados para organizá-los. Mas se tudo estiver organizado, haveria um cenário de equilíbrio estável no qual nada mais mudaria. Então é função da desorganização entrar em ação e mudar o status quo. Ele diferencia os sistemas das organizações quando afirma que os primeiros enfatizam as relações enquanto os segundos formam um todo coeso.

Outro aspecto destacado é a relação entre observador e sistema observado. Von Foerster já havia destacado esse aspecto na cibernética de segunda ordem. Na concepção de Morin, não existe um “fora do sistema”. Estamos imbricados nele, que nos influencia e, o que evidenciamos são nossas verdades parciais, não uma “realidade absoluta”.

Morin amplia o conceito de máquina. Enquanto, em geral, se pense em máquinas como dispositivos artificiais criados por humanos, ele as considera simplesmente como fenômenos de produção, como o Sol ou os Seres Humanos.

A Emergência é outro conceito complexo que merece atenção neste volume. Nesse sentido, a discussão se dá em torno da realimentação (conhecida como feedback) que, ao reintroduzir partes das saídas nas entradas, suscita a criação do novo.

Ressalta a importância do erro, que não seria o equívoco mas a fonte da novidade. Sem o erro, as coisas permaneceriam como estão, pela eternidade.

No final do volume, destaca que o conhecimento complexo não é operacional com a ciência clássica mas esta é operadora de manipulação. A verificação implica na manipulação (em seu mais amplo sentido). E isso nos leva à barbárie de nosso tempo.

Assim, a ciência complexa busca a ação mas que seja liberação, autoconhecimento, solidariedade. Ela reconhece o mistério presente em todas as coisas.

Volume 2
Em A vida da vida, Morin discute as questões da biologia que, de forma geral, não foram discutidas anteriormente. O tema é tão amplo que o índice se estende por seis páginas.

Talvez a essência deste volume possa ser “resumida” no conceito da auto-geno-feno-ego-eco-re-organização. Assim, a vida é, antes de tudo, uma forma de organização (dos elementos químicos, proteínas, de formas de manutenção e reprodução). Cada um destes prefixos salienta um aspecto da organização viva. Re- pois ela se reorganiza permanentemente; Eco- pois está intrinsecamente ligada ao meio; Ego- pois é voltada a si mesma, necessário à sua sobrevivência; Feno- é a manifestação do externo em cada um; Geno- pois carregamos em nós nossa história e genética; e por fim Auto- pois tudo isso ocorre de forma autônoma, para que a vida possa se perpetuar.

Volume 3
O conhecimento do conhecimento trata da discussão do que é nossa compreensão e como ela se forma em nós e nós a formamos.

Em sua análise, a discussão da relação entre mito e logos é, antes de tudo, uma questão de discurso. E mostra como antigos mitos (hoje vistos como superstição) foram substituídos por novos “mitos” como democracia, capitalismo ou burguesia e proletariado.

É fascinante ver descortinar no nosso entendimento como as oposições convivem. Nas suas conclusões, Morin afirma que o conhecimento objetivo produz-se na esfera subjetiva que, por sua vez, está situada no mundo objetivo.

Afirma que conhecimento seria impossível em um mundo determinista ou totalmente aleatório. “Só podemos conhecer um mundo fenomenal situado no espaço e no tempo, comportando unidade, pluralidade, homogeneidade, diversidade, invariância e mudança. Trata-se de nosso mundo uno/diverso dos fenômenos físicos/biológicos/antropológicos submetidos à dialógica da ordem/desordem/organização.”

Volume 4
Diferente dos outros, este tem um subtítulo maior: As ideias: habitat, vida, costumes, organizações.

Ao descrever o conceito de noosfera, criado por Teilhard de Chardin nos anos 1920, Morin descreve um cenário no qual as ideias (conceitos, mitos, ideologias) se formam entre humanos mas, como se adquirissem vida própria, passam a habitar um plano superior. E de lá, comandam a nós, humanos, a lutar pela sua hegemonia e permanência. Ao nos distanciarmos de conceitos como capitalismo e socialismo, ou qualquer religião, vemos o quanto tal noção é verdadeira.

É ainda neste volume que Morin discute a ideia de mindscapes de Magoroh Maruyama, segundo a qual observamos e interpretamos o mundo segundo nossos filtros e conhecimentos.

Volume 5
A humanidade da humanidade descreve o percurso do enraizamento cósmico à emergência humana. É, de certa forma, uma síntese dos volumes anteriores mas discute aspectos que não haviam sido tratados antes.

Ao invés de explicar, Morin descreve sua fascinação com a improvável e inexplicável emergência da vida e da humanidade. Do surgimento do cérebro, do espírito, da linguagem e da cultura.

Trata de três “trindades”: indivíduo/sociedade/espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Esses conjuntos que, normalmente, são tratados separadamente na ciência, passam a ser analisados em sua unidade, como que fazendo parte de um todo mas, como partes individualizáveis, se influenciando e complementando.

Volume 6
Ética. Neste seu último volume, Morin propõe um caminho para a humanidade. Enquanto nos outros, a análise foi exploratória e analítica, neste caso a proposta defende um comportamento que traga esperança aos seres humanos, esperança esta que ele nunca perdeu.

O livro desenvolve a Ética em três planos: a autoética, a socioética e a antropoética.

Em um mundo carente de certezas absolutas e na falta de crenças transcendentes, a autoética é fundamental. Ela comporta uma permanente autoanálise, autocrítica, tolerância e tomada de responsabilidade. Requer compreensão e abertura à magnanimidade. Uma Ética da cordialidade, cortesia e amizade. É notável como ele anteviu as nossas mais prementes necessidades nesse caminhar do século 21, onde os antagonismos e divisões ficaram exacerbados.

A socioética é uma proposta de comunidade com solidariedade e liberdade. Ainda no contexto das noções antagônicas e complementares, afirma que os governos dependem dos cidadãos que por sua vez, dependem do governo. Assim, democracias produzem cidadãos e estes produzem a democracia. O enfraquecimento de um, faz desvanecer o outro.

No plano mais abrangente e ambicioso, temos a antropoética. Com ela Morin defende a ideia de um destino comum da humanidade. Que precisamos de uma tomada de consciência em vários âmbitos: na identidade humana comum e na sua diversidade, na necessidade da compreensão mútua, na nossa relação com a biosfera, na solidariedade com as crianças da terra, no destino comum do planeta.

Este último volume é concluído com uma discussão do Mal e do Bem. Do primeiro destaca que suas causas são irredutíveis, originadas da hubris e dos excessos, da parte demens do humano. E que temos que resistir à crueldade do mundo. Sobre o segundo, elabora mais sobre a Ética complexa. Nela, convivem as antinomias humanas sapiens/demens, faber/mitologicus, economicus/ludens.

E assim, tal Ética precisa enfrentar estas ambiguidades e contradições. Mas deve deixar-nos prontos a regenerar. Que há uma possibilidade no invisível que é real.

Morin conclui o trabalho com esperança e crença que um futuro melhor é possível.

Durante o período em que escreveu O Método, Morin publicou muitas outras obras, algumas influenciadas por esta escrita, outras que, acredito, a influenciaram.

Publica Ciência com Consciência, que é antes um chamado à responsabilidade de cientistas para o uso de suas pesquisas e descobertas.

Em uma linha mais pessoal, escreve um livro biográfico sobre seu pai, Vidal e os seus. Trata, em Sociologia, da sua visão desta ciência disciplinar, e em Terra-Pátria faz seu apelo ecologista, mostrando os efeitos globais da poluição, contaminação e destruição dos recursos naturais, afirmando que estamos todos, seres humanos, nessa nave planeta.

Em Meus Demônios faz um balanço da sua militância no partido comunista, sua expulsão por discordar das linhas do partido e que precede a divulgação dos crimes de Stalin. Já em Cabeça bem- feita discute as necessárias mudanças na educação. A este volume se juntam Religar os conhecimentos e Os Sete saberes necessários para a educação do futuro, que formam uma trilogia sobre os rumos da educação. O último título foi uma encomenda da Unesco que o publicou em muitas línguas e projetou o nome de Morin globalmente.

Continua publicando intensamente, uma média de dois livros por ano, desde os anos 1980 até 2025. São aproximadamente 100 livros, alguns em coautoria. Escreve também prefácios e artigos em numerosos periódicos.

A referência em francês na Wikipedia lista grande parte de suas publicações nesta língua.

Curiosamente, a oferta de títulos em inglês é diminuta, o que daria lugar a boas discussões sobre hegemonia cultural mas que não será tratado neste artigo.

Por outro lado, a presença de obras de Morin em português e espanhol é considerável. Só na lista dos 130 títulos diferentes disponíveis nas bibliotecas da USP, em levantamento deste autor, foram localizados 100, a maioria em português sendo alguns em espanhol.

Além dos temas citados, Morin também tratou da sua visão da questão judaica, tanto na sua relação nas obras biográficas como depois, discutindo mais amplamente temas do conflito israelense-palestino.

Diversas obras tratam de cidades onde viveu, especialmente Paris e outros textos são balanços de sua própria vida e obra. Destas vale destacar Meus filósofos, na qual passeia pelos nomes que vão de Aristóteles à Escola de Frankfurt, passando por muitos outros nomes, não só da filosofia.

Ao contemplar tão vasta obra que reflete o inconformismo de Morin com o status quo, seja da sociedade acomodada, da cultura fossilizada ou dos indivíduos acríticos, a lição que se pode aprender é a do exemplo de alguém que, não só viveu muitos anos mas que soube, nesse longo tempo, manter anseios contemporâneos e a motivação de enfrentar desafios do presente.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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A FORÇA DA AMIZADE, POR JOSÉ SARNEY

 Sempre digo que a amizade é a melhor coisa da vida. O primeiro amigo que Deus me deu foi o livro. Ele me acompanha por toda a minha vida, cada ano com maior presença e estreito aconchego. O livro nos conforta e nos suporta nos momentos difíceis e nas horas tristes. Acredito que tenha passado um quarto de minha vida lendo. Muitas vezes, troquei a companhia do meu sono pela de um livro.

Na verdade, o primeiro amigo que tive, à frente do livro, foi o meu pai. Quando eu tinha poucos anos, durante minha infância, mas já com a consciência presente, meu pai chamou-me e disse: "José, ninguém nasce sem um pai. Eu já sou o teu, agora quero ser também teu amigo". Assim, passei a viver ao seu lado até a sua morte — novo ainda, aos 58 anos —, desfrutando do seu carinho e do seu amor de pai, mas também da convivência com um amigo, na sorte de estarmos sempre juntos: eu ouvindo seus conselhos, as histórias que ele contava, no prazer e na força dessa amizade, numa constante troca de ideias, aprendendo seus ensinamentos sobre educação, disciplina, paciência, prudência, solidariedade e amor.

Deus concedeu-me a felicidade de ter amigos da vida inteira, e não canso de agradecer todos os dias por compartilharem comigo as tristezas e alegrias desta existência. Alguns amigos da infância me acompanharam na adolescência e maturidade. Hoje velhos estamos, velha a nossa amizade permanece. Maranhão, minha terra e meus amigos. (Buzar, diga a todos que estão sempre em meu coração.) E que saudade de Bandeira Tribuzzi, Ferreira Gullar…

Nessas amizades antigas estão as pessoas que nos mostram um "espelho do tempo", não nos deixando esquecer de quem somos verdadeiramente, pois nos conhecem há tanto tempo que, às vezes, nos enxergam com mais clareza do que nós mesmos. Se consideram que agimos de forma que não nos reconhecem em algum momento, nos tropeços da vida, logo dizem: "Que é isso, meu amigo? Nem o conheço mais." E assim nos ajudam a "acertar o passo." 

Não resisto e vou citar alguns nomes para homenagear todos os amigos do início de minha vida parlamentar, pois também não saem do meu coração. Primeiramente, Odylo Costa, filho e Josué Montello. Em seguida, Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Gilberto Amado, Jorge Amado, nossa querida Zélia, Rachel de Queiroz, Alceu Amoroso Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Austregésilo de Athayde, Carlos Chagas Filho, João Cabral de Mello Neto, Otto Lara Resende, Carlos Castelo Branco, José Américo de Almeida.

Nos meus 60 anos de vida política, em que tive a sorte e a ventura de ser deputado federal, governador, senador por dois estados, Maranhão e Amapá, e presidente da República, pude colecionar uma miríade de amigos. Mais do que os cargos que ocupei, muito me orgulho das amizades: políticos, diplomatas, jornalistas, chefes de Estado, com muitos ainda desfruto do gosto da convivência e da troca de ideias que me enchem a alma.

Sempre tive muito gosto de ter amigos. Os que trabalham comigo, ou com quem tenho qualquer relação profissional, transformam-se em amigos, tornando-se quase familiares. Assim tenho sido a vida inteira. E não me arrependo.

Nesta altura de minha vida, descobri que tenho gosto também de fazer novos amigos. Comecei a pensar na poderosa força do outro, como ensinou Cristo, quando recentemente, nesta minha idade, tive alegria de estreitar convivência com pessoas da Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na USP — que, no ano de 2026, completa 200 anos —, que me convidaram para fazer parte da comissão de assuntos que deverão marcar essa data, sob a presidência da celebrada diretora eleita da Faculdade, Profª Drª Ana Elisa Bechara, grande talento, muito querida pelos alunos da Casa.

Assim conheci Rui Caminha, excelente pessoa, dedicado a servir a história da entidade, zelando por ela com total doação. Conheci também homens vitoriosos, novos de idade, mas já grandes advogados de São Paulo, ex-alunos com as raízes na velha faculdade de sua formação. Com eles, gente nova de fora do mundo da política, em agradáveis almoços, percebi um outro lado da realidade brasileira: o quanto essa gente nova está preocupada não só com o país, mas também com a literatura, com a cultura.

Ao nos despedirmos após um encontro, instintivamente, chamei-os de "amigos" e descobri uma força também nas novas amizades abrindo os horizontes de nossas vidas.

AMIGOS Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade. Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade.

Os teólogos buscam compreender as raízes da amizade desde o Livro do Gênesis. Eu acho que só não se pode dizer que ela é a motivação, mas, sem dúvida, uma das alegrias de sustentação do viver é essa forma de comunhão humana que une as pessoas e faz com que essa união seja sinônimo de felicidade e caminho para muitas alegrias e satisfações.

A primeira vez que eu senti a força do que era a amizade foi numa conversa com meu pai, quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Ele me chamou e, no meio da nossa conversa, já então um relacionamento de estreita ternura e grande amor, me disse: "José, eu sou teu pai. Ninguém nasce sem ter um pai. Sou parte da missão de Deus para que tu tivesses vida. Assim, eu já sou teu pai, quero ser também teu amigo."

Talvez eu não soubesse àquele tempo a profundidade do que ele tinha me dito, mas hoje ele está no caminho da eternidade, e eu, aqui, nos caminhos da existência que Deus me deu, através dele e de minha mãe, posso afirmar que o pedido dele para que fôssemos amigos me indicava o melhor caminho. E posso dizer que sua amizade foi a primeira, a maior e a mais profunda de minha vida, dividida com minha mãe, que também marcou esta minha jornada.

Sempre fui muito amigo de meu pai, e nessa amizade estava a confidência e, sobretudo, a confiança — sinônimo de amizade, porque esta não existe se antes não existir aquela. É a confiança que dá a segurança de unidade, de revelação e de certeza de que a amizade é, como diz Dom Bento de Aviz, "uma das experiências universais mais estruturantes do humano, como o amor, a dor, o vínculo, a festa, a amizade", considerando, inclusive, que ela faz parte do próprio dom de Deus com os homens.

Que ela faz parte da sublimação da alegria do relacionamento humano não tenho dúvida e deixo essa busca religiosa de sua origem para afirmar da vivência e da existência de cada um. Atrevo-me a dizer que quem não tem amigos não viveu, pois deixou de experimentar o que há de mais humano em nós; quem não fez amigos ou os abandonou corre o risco de ficar condenado à frustração e à infelicidade.

São os amigos aqueles que nos sustentam nos momentos difíceis, e nós os sustentamos nas horas iguais. São os amigos que nos dão segurança na necessidade dos conselhos e das opiniões. Muitas vezes, são os que nos salvam. Reconheço que não são muitos e, ao longo da nossa trajetória na face da Terra, o próprio viver nos faz ir decantando e vendo sobrar aqueles que foram testados e juntos nos asseguram a felicidade de poder chamá-los de amigos.

Meu pai, para mim, colocou a amizade senão acima da paternidade, pelo menos no mesmo andar em que elas realmente se encontram. Cristo, igualmente, fez a mesma coisa quando, na Última Ceia, fala aos seus apóstolos: "Já não vos chamo 'servos', porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado 'amigos', porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer." (Evangelho de São João, 15:15.)

Assim, nós descobrimos que, quando o Redentor se refere aos amigos não é o mesmo de quando Ele se refere aos irmãos. A Irmandade está vinculada à nossa origem divina, na certeza de que todos somos filhos de Deus. Já para ser amigo precisamos da vida; e acredito que a base da amizade é a intimidade — intimidade esta que Cristo tinha com os que, com Ele, assumiram a missão de evangelizar. 

São Gregório, contudo, em sua divergência com São Basílio, nos adverte em sua autobiografia sobre a profunda decepção que sofreu em sua relação de confiança com esse seu grande amigo, companheiro de juventude, São Basílio Magno, relatando ter sido pressionado por ele a assumir a cátedra episcopal na isolada e árida Sássima, expressando sua dor pelo abalo na relação de confiança: "Pela força me fez assumir o trono episcopal, assim, com seu amor paternal, enganou-me duas vezes: por nossa parte, tiramos um lucro de sua amizade: não confiar em amigos e não considerar nada mais valioso do que Deus".

É verdade que, depois, impedido pelas circunstâncias de assistir São Basílio em seus momentos finais, São Gregório uniu-se novamente ao amigo em espírito, reconciliando-se na eternidade e na memória: São Gregório dedicou-se a defender o legado de São Basílio e a eternizar aquela amizade na memória da Igreja.

Não vou mais senão afirmar que a verdadeira amizade não acaba, se reconstrói sempre, porque é tão forte, tão grande e tanto espaço ocupa na vida de todos nós que não podemos viver sem os amigos que conquistamos. Até hoje sou amigo de meu pai, de minha mãe — através da sua memória e do seu eterno amor.


 


 






 





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