ROMARIA DOS 92 ANOS DE MORTE DO PADRE CÍCERO REÚNE MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE

Uma multidão de fiéis tomou conta do Largo da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte, na manhã desta segunda-feira (20). O público acompanhou a primeira missa de encerramento da Romaria pelos 92 anos de morte de Padre Cícero Romão Batista.

A celebração foi presidida pelo bispo da Diocese de Crato, dom Magnus Henrique Lopes. O evento reuniu romeiros vestidos de preto, em referência à batina usada pelo sacerdote, e de chapéu de palha, um dos símbolos do sertanejo nordestino.

A missa das 6h tem um significado especial para os devotos. Segundo historiadores, esse foi o horário em que Padre Cícero morreu, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. O marco deu origem à tradicional missa do dia 20, realizada mensalmente em memória do religioso.

Ao longo desta segunda-feira, outras quatro missas encerram a programação religiosa da romaria. As celebrações ocorrem às 10h, 12h, 16h e 18h.

A tradição relata que, pouco antes de morrer, Padre Cícero pediu a amigos e familiares que rezassem por sua alma. O pedido deu origem a um costume que atravessa gerações e reúne milhares de devotos na Capela do Socorro todos os meses.

No túmulo do "Padim", os romeiros fazem orações, agradecem graças alcançadas e renovam promessas. Segundo a Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, cerca de 100 mil pessoas devem passar pela cidade durante a programação, iniciada em 17 de julho.

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COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM DEBATE, Antonia Pellegrino - Presidente da EBC

 Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

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FESTIVAL QUARITERÊ DESTACA MEMÓRIAS E SABERES DE MULHERES NEGRAS

O Sesc Petrolina realiza, entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, a terceira edição do Festival Quariterê, iniciativa da Rede Sesc PE de Bibliotecas que promove a valorização das mulheres negras como produtoras de conhecimento, memória, cultura e redes de cuidado nos territórios.

Inspirado na trajetória de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê no século XVIII, o festival reconhece e amplia os saberes, fazeres e tecnologias sociais produzidos pelas comunidades negras e suas contribuições para a construção da identidade coletiva.

Nesta edição, o festival traz como tema “Memórias negras territoriais: pensar a contribuição dos saberes e fazeres das mulheres negras, trazendo uma cartografia da identidade”, propondo reflexões sobre as experiências, trajetórias e contribuições das mulheres negras para a cultura e a memória dos territórios.

A programação gratuita inclui debates, apresentações musicais, contação de histórias, oficinas e atividades recreativas. Entre os destaques está o encontro “Cartografias Negras do Vale: mulheres quilombolas e suas trajetórias”, com representantes das comunidades Mata de São José e Rodeadouro, além da apresentação musical do grupo Curimba de Yá, no dia 30, às 19h, no Teatro Dona Amélia.

O festival também recebe a arte-educadora e contadora de histórias Nini Kemba Nayo, do coletivo LiteafroInfantil, de Salvador (BA), com apresentações de oralidade e uma oficina de contação de histórias no dia 1º de agosto, voltada para crianças. As inscrições para a oficina podem ser realizadas mediante a doação de 1kg de alimento não perecível para pessoas em situação de vulnerabilidade atendidas pelo programa Sesc Mesa Brasil.

O festival conta ainda com brincadeiras de origem africana, oficina de autodefesa para mulheres, o encontro “Poesia no Jardim de Ana” e a ação gastronômica “Sabores Ancestrais – comidas afro-brasileiras”, realizada no restaurante da unidade. A programação completa está disponível no site do Sesc Pernambuco:  www.sescpe.org.br.


 


 


 



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VEREDAS DA RESISTÊNCIA REALIZA 4 EDIÇÃO ENTRE CANUDOS E UAUÁ COM CAMINHADA E PROGRAMAÇÃO CULTURAL

A IV edição das Veredas da Resistência será realizada entre os dias 23 e 26 de julho. A caminhada de aproximadamente 65 quil&o circ;metros ocorre entre o Parque Estadual de Canudos e o município de Uauá, no sertão baiano. A iniciativa reúne cerca de 60 caminhantes de diferentes regiões da Bahia e de outros estados brasileiros para uma imersão na história, na cultura e nos aspectos socioambientais da Caatinga.

A programação tem início na quinta-feira (23), no Parque Estadual de Canudos, com atividades culturais e rodas de conversa. Na manhã de sexta-feira (24), o grupo inicia a travessia, passando por comunidades rurais e locais emblemáticos da Guerra de Canudos. A chegada a Uauá está prevista para o domingo (26), às 12h, quando será realizada a I Feira da Resistê ncia, espaço voltado ao encontro, à troca de experiências e ao fortalecimento das redes de trabalhadores e trabalhadoras da cultura, da Caatinga, do campo e da cidade.

Mais do que uma atividade de ecoturismo ou aventura, a Veredas da Resistência propõe uma experiência de educação patrimonial, memória e valorização dos territórios do Semiárido. Ao longo dos três dias de caminhada, os participantes percorrem trechos historicamente conhecidos como "Madeira da Discórdia", visitando lugares que marcaram os combates da Guerra de Canudos, como Alto da Favela, Vale da Morte e Lagoa de Sangue, além das comunidades de Mandaipó, Barra da Fortuna, Algodões e Maria Preta.

Durante o percurso, os caminhantes são acolhidos pelas comunidades locais, onde acontecem os acampamentos. A alimentação é preparada por mulheres da região com produtos da agricultura familiar, valorizando a culinária sertaneja e fortalecendo a economia local.

A programação inclui apresentações musicais, intervenções artísticas, exibição de documentários, rodas de conversa e atividades formativas conduzidas por pesquisadores, lideranças comunitárias, agricultores, artistas e moradores que compartilham conhecimentos sobre a Guerra de Canudos, os povos tradicionais, os sistemas de Fundo de Pasto, as agroflorestas, a ancestralidade afro-indígena e a preservação da Caatinga.

Segundo a organização, a caminhada também busca ampliar o debate sobre a importância da conservação do bioma e das formas de vida construídas historicamente pelas populações sertanejas.

Para a organizadora Mayara Andrade, moradora de Uauá, a iniciativa representa "uma oportunidade de adentrar os aspectos socioambientais, territoriais e culturais que permeiam a Caatinga do Semiárido baiano".

Realizada desde 2019, a Veredas da Resistência passou a receber inscrições abertas ao público a partir de 2023. A expedição adota diferentes modalidades de participação para ampliar o acesso de pessoas interessadas, incluindo alternativas de financiamento para quem não possui condições financeiras de custear integralmente a experiência.

A iniciativa conta com apoio das Prefeituras de Canudos e Uauá, da Coopercuc e de parceiros locais.

Além da caminhada, a programação reafirma Canudos como referência histórica de resistência popular. Mais de um século após a Guerra de Canudos, o percurso convida os participantes a refletirem sobre a memória do conflito, os desafios contemporâneos do Semiárido e a permanência das comunidades que seguem construindo formas de resistência cultural, social e ambiental.

PROGRAMAÇÃO

23 de julho (quinta-feira) – Canudos

17h30 – Intervenção Artística

Grupo de Capoeira Esquiva (Canudos)

Museu Casa de Vó Izabel

19h – Programação Musical

Banda de Pífanos de Canudos Velho

Terreiro de Dona Maria Botão

20h30 – Veredas dos Saberes

Roda de conversa com Dona Maria Botão, Dona Zefinha e Dona Tereza

Tema: Histórias de vida e as histórias de Canudos passadas de geração em geração

Mediação: João Batista

24 de julho (sexta-feira) – Algodões

7h – Intervenção Artística

Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

12h – Veredas dos Saberes

Seu Alcides e Fabrício Bianchini

Tema: Fundo de Pasto e os desafios da Mata Branca para sobreviver, resistir e permanecer

16h30 às 18h – Intervenções da Banda de Pífanos de Canudos Velho

18h – Apresentação dos alunos da Escola Municipal Miguel Avelino Gomes

19h – Veredas dos Saberes

Dona Edite, Rita dos Santos e Nathalia Alves

Tema: Mulheres, lutas, vitórias e histórias das comunidades

Mediação: Gorete Cardoso

20h – Jam Sertaneja

Mel do Cumbe

Jarbas Nogueira

Lucas Sanfoneiro

21h30 – Fogueira e Leito Aberto

Intervenções artísticas livres

25 de julho (sábado) – Maria Preta

13h – Veredas dos Saberes

Diana Dias e Marcela Santana

Tema: Presença e ancestralidade afro-indígena na Caatinga contadas pelas mulheres que atuam nas comunidades tradicionais

Mediação: Lorrayne Trindade

13h40 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

19h – Homenagem a Dona Maria Trindade

Exibição de documentário e bate-papo com Taiane Costa

Tema: Agroflorestas e Recaatingamento

Mediação: Egídio Trindade

20h30 – Show

Junior do Acordeon e Banda

26 de julho (domingo) – Uauá

10h – Abertura da I Feira da Resistência

12h – Chegada dos caminhantes

12h30 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

13h – Mística de encerramento e agradecimentos

14h30, 16h, 17h30 e 19h – DJ EmersonBEAT

15h – Jarbas Nogueira e Grupo Circuladô

16h30 às 17h30 – Apresentações de quadrilhas

18h – Lucas Sanfoneiro e Forró Tabuleiro

19h30 – Encerramento


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GRANDE SERTÃO VEREDAS 70 ANOS. LIVRO CONTINUA A DESPERTAR LEITURAS E DEBATES

Depois de 70 anos de seu lançamento, o livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa continua encantando leitores e é comemorado por especialistas. Para o professor, economista e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Eduardo Giannetti, é um dos livros mais ousados e inovadores da literatura brasileira.

Na observação dele, Grande Sertão: Veredas tem “um cuidado e um apuro formal, inexcedível” e, ao mesmo tempo, é resultado de uma entrega criativa de Guimarães Rosa, a ponto de dizer que praticamente transcrevia alguma coisa que vinha de fora dele. “Ele chega a dizer que é um experimento quase mediúnico”, seguiu em entrevista à Agência Brasil.

“Grande Sertão combina dois elementos. Tem um lado de pesquisa de apuro formal, de um cuidado lapidar com a linguagem hiperconsciente, mas, ao mesmo tempo, é resultado de uma possessão. Ele diz que se sentia tomado por alguma coisa que ele não sabe de onde”, completou.

Sobre esse assunto, Giannetti lembrou de uma expressão que acha muito boa, usada por Rosa em uma entrevista. “‘De repente, o diabo me cavalga’. O milagre do processo criativo de Guimarães Rosa é justamente essa combinação”.

O escritor João Guimarães Rosa deu a personagens de Grande Sertão: Veredas, nomes de pessoas do seu conhecimento - Divulgação/ Centro Cultural São Paulo

A criatividade do autor mineiro era tanta que entre 1946 e 1956 produziu paralelamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, uma coletânea de novelas. Os dois foram concluídos e lançados em 1956, depois de começarem a ser escritos em Paris, na França; continuarem em Bogotá, na Colômbia; e em 1951, na volta de Rosa para o Rio de Janeiro.

“O Grande Sertão era uma história do Corpo de Baile, que ele desmembrou e tornou um romance independente”, disse, em entrevista à Agência Brasil, o jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia sobre o escritor mineiro.

A viagem com um amigo ao interior mineiro foi a inspiração para escrever Grande Sertão: Veredas, obra marcante da literatura brasileira. 

“Esse livro começou quando ele fez uma viagem pelo interior de Minas com o amigo Pedro Barbosa Moreira e percorreu toda a região de Veredas. Ele passou a usar esse ambiente das veredas e buritizais na obra dele Grande Sertão, porque o primeiro [Sagarana] nem tinha”, informou o biógrafo.

Assim como Guimarães Rosa, que levou dez anos para concluir Grande Sertão, o jornalista passou esse mesmo tempo estudando e pesquisando a vida do mineiro, que contou em João Guimarães Rosa, biografia, a primeira publicação deste tipo dedicada a ele. 

“Ele é considerado o mais inventivo dos nossos escritores e ninguém nunca escreveu uma biografia dele. Havia uma demanda de biografar o maior escritor brasileiro de todos os tempos”, pontuou.

Leonêncio Nossa começou a levantar dados e a colher informações para trabalhar na biografia em 2006 e gostou do que conheceu. “A vida dele é muito agitada, apesar de ter sido escritor. Viveu tempos de guerra com riscos de morte e [essa história] não estava descrita. Foi uma surpresa a cada dia”, contou.

“O que me chamou muita atenção é que desde criança ele tinha um projeto de literatura e a vida toda se dedicou a esse projeto. Era um homem que vivia para contar histórias”, disse, acrescentando que Rosa nasceu em Cordisburgo e depois foi levado pelo avô para estudar em Belo Horizonte.

Características-O biógrafo revelou que Rosa deu a personagens de Grande Sertão: Veredas, nomes de pessoas do seu conhecimento, tanto da família e da cultura quanto da política. Entre os jagunços do romance, está, por exemplo, o Dos Anjos, que é referência a Augusto dos Anjos e também parentes: o avô dele, o major Luiz Guimarães. 

“Ele trouxe pessoas com quem convivia, de certa forma, para dentro do romance, que tem um caráter muito autobiográfico, algo que não estava colocado antes da biografia”, comentou.

Rosa tinha ainda outro comportamento interessante: enquanto escrevia o livro, ele ouvia programas da Rádio Nacional com artistas como as cantoras Marlene, Emilinha Borba, Ademilde Fonseca e Virgínia Lane. O cinema também o inspirava e um dos filmes que assistiu durante a produção de Grande Sertão foi Os Sete Samurais, do diretor Akira Kurosawa.

Além disso, trabalhava muito na divulgação dos seus livros. No lançamento de Sagarana, foram publicados mil exemplares. O autor ficou com 500 cópias e fez uma lista das pessoas mais importantes que escreviam em jornais do país e mandou o livro para elas. 

“Mandou para Getúlio Vargas, para Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade. O Rosa trabalhava muito na divulgação”, relatou Nossa, informando ainda que o lançamento de Grande Sertão: Veredas foi na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, no dia 16 de julho de 1956.

Linguagem-Quando o livro foi lançado, recebeu muitas críticas, especialmente pela linguagem popular dos personagens usada por Rosa e identificada como "de outro planeta".

“Os personagens que os críticos diziam que falavam como em Marte na verdade falavam como o povo do interior do Brasil. Mostrou que parte da intelectualidade desconhecia este ‘outro planeta’, que é o Brasil”, contou Nossa.

“Rosa disse uma vez que as pessoas achavam que ele tinha inventado uma língua. ‘Eu não inventei uma língua. Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim’. Parte da intelectualidade não entendeu o Grande Sertão”, observou o biógrafo.

Leonêncio reforçou a avaliação lembrando que o começo do livro é com a palavra “nonada”, que muita gente pensa ser um neologismo. 

“Na verdade, era muito recorrente nos jornais brasileiros que escreviam, por exemplo, ‘o governo acha que “nonada” o que ocorre com a população’. O Rosa usa palavras que não são mais usadas no seu livro e aí acham que é um neologismo”, afirmou, completando que há neologismos na obra do escritor, mas não é só isso.

Ao mesmo tempo em que era considerado um livro difícil, destacou o jornalista, estava sempre entre os mais vendidos. “Isso já em 56. O que ocorre é que a musicalidade no linguajar dos personagens causa muita empatia, tanto que é um livro que deve ser lido em voz alta porque com a musicalidade é fácil de entender”, apontou.

Registros-A cantora e compositora Adriana Calcanhoto que tem nas obras de Guimarães Rosa uma fonte de inspiração, destacou que se não o escritor não tivesse usado a linguagem no livro correria o risco de não ter mais registros daquela forma de falar popular. 

“É um trabalho extraordinário que ele faz, antes da escrita dele do Grande Sertão, é da compilação que ele faz daquela fala e aí, claro tem o gênio dele na escrita e na história”, disse em entrevista à Agência Brasil.

“É uma leitura obrigatória. Grande Sertão é um livro que todo mundo tem que ler pelo menos uma vez. Quando você lê ele mais de uma vez, e é um clássico, por isso, é outro livro e a gente é outra pessoa depois disso”, apontou, destacando ainda a aceitação mundial da obra.

“É uma coisa louca que seja mundialmente, porque é difícil tradução. É um livro que interessa ao mundo todo, exatamente por ser tão regional e universal. Cada ano que passa, ele só cresce”, observou.

Cadeira 2-Ocupar a cadeira 2 que já foi de Guimarães Rosa na ABL não é a única proximidade que Eduardo Giannetti tem com o escritor que aprendeu a admirar ainda na infância. Lendo a biografia de Leonêncio Nossa, descobriu que tem um parentesco com o escritor.

“Uma coisa que me deixou bastante surpreso e até emocionado lendo a biografia do Leonêncio é que o Guimarães Rosa é meu parente. O pai do Guimarães Rosa se chamava Florduardo e o apelido era Fulô, que era primo do meu bisavô João Pinheiro. Ele chegou a morar na casa do pai do Guimarães Rosa”.

Esse fato não era de conhecimento da família do acadêmico e isso ele ainda não chegou a conversar com o biógrafo que esclareceu essa linhagem. “O Guimarães Rosa a certa altura, jovem ainda, esboçou o desejo em cartas ao pai, de escrever uma biografia do João Pinheiro que é meu bisavô lá de Caeté. Ele admirava muito João Pinheiro ouvindo as histórias que o pai contava do primo”, apontou Giannetti.

“Ainda por cima teve isso”, disse satisfeito, confirmando que fechando o círculo, a cadeira 2 tinha que ser ocupada por ele. “Como diria o Guimarães ‘nada nesse mundo é por acaso’. A grande pena é que os meus pais não sobreviveram para saber que o Guimarães vem de uma família mineira muito próxima que é a de João Pinheiro, avô do meu pai”, comentou o acadêmico.

Ao saber que ocuparia a cadeira 2 se sentiu “um pouco oprimido, um pouco opressivo”, mas reconheceu que foi bom porque suscitou um emprenho renovado de aprofundamento na obra de Rosa, resultando em um ensaio que escreveu para a Revista Piauí, publicado na edição de junho. Fez ainda uma versão compacta do ensaio destinada à publicação da edição comemorativa dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas que foi lançada pela editora Companhia das Letras.

“Fico feliz sempre que me chamam para falar de Guimarães Rosa”, revelou Giannetti.

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DESEMBARGADOR ONALDO QUEIROGA VISITA AREIA PARAIBA, PATRIMÔNIO NACIONAL DA CULTURA

O presidente da Comissão de Cultura e Memória do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), desembargador Onaldo Queiroga, realizou, na quinta-feira (9), uma visita institucional à Comarca de Areia, no Brejo paraibano. Acompanhavam a comitiva o coordenador de Apoio aos Núcleos, Comitês e Comissões (Coapo), Romero Cavalcanti, e o servidor Marcos Alcântara.

No Fórum da Comarca, a equipe foi recebida pela diretora da unidade, juíza Alessandra Varandas Paiva, acompanhada da gerente, Vera Lúcia. Ainda no Fórum, o desembargador Onaldo Queiroga se encontrou com o promotor de Justiça Renato Martins Leite e a defensora pública Laura Neuma Câmara Bonfim Sales.

Durante a agenda, foi realizada uma inspeção no acervo documental histórico do Fórum. A iniciativa é dar continuidade ao trabalho iniciado em abril, quando os documentos passaram por um processo de identificação e triagem conduzido pelos assessores da Comissão, Patrício Fontes e Marcos Alcântara, com o apoio das servidoras Auricélia da Silva, do Arquivo do Fórum de Areia, e Jacira Bezerra, do Arquivo Geral do TJPB.

Após essa etapa, o material selecionado será encaminhado à Sala de Arquivo Histórico do Tribunal, em João Pessoa, onde passará pelos processos de higienização, conservação e digitalização.

Durante a triagem, a equipe técnica separou os documentos passíveis de preservação daqueles que apresentavam elevado grau de deterioração, comprometidos por agentes biológicos e sem condições de restauração. A ação integra o trabalho desenvolvido pela Comissão de Cultura e Memória, que busca identificar, preservar, sistematizar e disponibilizar informações históricas dos acervos das comarcas mais antigas da Paraíba.

"As caixas de processos já selecionadas serão transferidas para João Pessoa ainda neste mês de julho. O objetivo é dar continuidade ao trabalho de preservação e, em breve, disponibilizar esse acervo ao público em formato digital. A proposta é reunir documentos de relevante valor histórico para integrar o Memorial do Judiciário, contribuindo para a preservação da memória institucional do Tribunal de Justiça e da própria história da Comarca de Areia", destacou o desembargador Onaldo Queiroga.

Já no Casarão José Rufino, localizado no Município, o presidente da Comissão de Cultura e Memória do TJPB esteve reunido com representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura. Na pauta, trataram sobre a adequação do espaço histórico para a implantação do Centro de Memória no local. 

Conforme pontuou, o desembargador Onaldo Queiroga, discutiram sobre as ações a serem realizadas para a adequação do espaço histórico, com a finalidade de preservar e valorizar um dos principais bens culturais de Areia, que é o Casarão José Rufino.  

Na reunião, trataram sobre o reordenamento do convênio entre as instituições, como passo necessário para viabilizar a permanência do Iphan no processo, além de possibilitar avanços na captação de recursos para melhorias no imóvel. “Com isso, a expectativa é consolidar um espaço voltado à preservação da história, à educação patrimonial e ao fortalecimento dos vínculos entre a sociedade e o patrimônio cultural de Areia”, explicou o desembargador Onaldo Queiroga.

Durante a agenda, representantes do Iphan detalharam o papel do Escritório Técnico que atua em Areia desde 2018, explicando que o órgão oferece assessoria técnica, elabora projetos de restauração e conservação, autoriza obras, fiscaliza o patrimônio e promove ações de educação patrimonial. 

A Prefeitura de Areia, representada pelo secretário municipal de Turismo e Cultura, Rinaldo Bandeira, reafirmou o compromisso da gestão com a preservação do patrimônio histórico e com a criação de um espaço de memória no Casarão José Rufino. “A iniciativa reforça a parceria entre o poder público municipal, o TJPB e o IPHAN para dar novo fôlego a um dos mais importantes bens patrimoniais do município”.

Para o chefe da divisão técnica do Iphan na Paraíba, Orlando Cavalcante, a parceria fortalece a preservação do patrimônio histórico de Areia, pois além do tombamento, o Instituto pode oferecer instrumentos de gestão do centro histórico com a instalação do Escritório Técnico, vinculado ao Casarão José Rufino. 

“Além de ser um espaço de memória, fortalece os vínculos com a sociedade a partir do espaço de diálogo em contato direto com os proprietários do patrimônio tombado", salientou.


Por sua vez, a chefe do escritório técnico do Iphan em Areia, Natállia Azevêdo, observou que “os proprietários e cidadãos podem contar com assistência técnica antes das intervenções que desejam realizar, resultando no acompanhamento contínuo do patrimônio, o que favorece o gerenciamento das obras autorizadas de acordo com as normas de preservação”.





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ENIGMAS DO EU, POR ONALDO QUEIROGA

Quantos segredos guarda o eu? São infinitos os enigmas do "eu". Nele sempre há um algo que nos surpreende, contrariando qualquer expectativa. Será que podemos prever ações e atitudes dos outros? A história humana mostra que jamais seremos capazes de penetrar no "eu". 

No nosso âmago temos a capacidade, dentro do nosso imaginário, de viajar por pensamentos insondáveis, que, em horas certas ou incertas, se revelam em atos ou em omissões. Mas o certo é   que quando o medo habita o "eu", a tristeza galopa para mostrar-se iminente, fechando os espaços para a coragem. Quando paredes divisórias residem no "eu", o perdão é desprezado, tornando nosso coração ponto frágil sem espaço para o amor. Quando a tentação caminha pela sala do "eu", os pecados dominam nossas ações, provocando traições e ingratidões. Quando a inveja se faz presente no "eu", os fardos se elevam de peso, nos afastando de Deus. 
No eu, existem desertos imensos, esquinas que nos levam à escuridão, mas também à fé. Do "eu" emergem os mistérios dos sonhos, das visões e das sombras. Nele encontramos a maldade, que impõe sofrimento. E a área dos pântanos nos transmite a humildade de caminhar por solos difíceis de transpor. No "eu" também há o pavilhão do egoísmo e nele existem submundos que se exteriorizam por meio do olho gordo.
A desconfiança que multiplica a insegurança do homem, afasta-o da paz. Mas é preciso olhar para o rio da perseverança, que nos permite romper desfiladeiros e nos braços da fé vencer os obstáculos e, no final, abraçar o amor. O "eu" também é poético, é filho da Lua e do violão. Nele, Deus instalou enigmas, tantos quantos guardam as profundezas oceânicas. Com isso, é de se indagar: O que seria do homem sem os segredos do eu? 

 Onaldo Queiroga escrito, juiz, atual Desambargador Tribunal de Justiça da Paraiba
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NEY VITAL SACODE O FORRÓ NO RITMO DO JORNALISMO

O Programa ‘Nas Asas da Asa Branca – Viva Luiz Gonzaga e seus Amigos’ agora tem novo horário e é apresentado aos domingos a partir das 10h na Rádio Educadora do Cariri FM 102.1, no Crato, Ceará.

Em defesa do Meio Ambiente e Valorização da Cultura Brasileira o jornalista Ney Vital recebeu Moção de Aplausos da Câmara de Vereadores, terra onde nasceu Padre Cícero. A homenagem, aprovada pelo Poder Legislativo, foi apresentada pelo vereador José Wilson da Silva Gomes (Wilson do Rosto) e aprovada por unanimidade.

A produção e apresentação do programa é do jornalista Ney Vital, colaborador da REDEGN. O programa é pautado em músicas de Luiz Gonzaga, informações em defesa do meio ambiente, agroecologia (destacando a Floresta Nacional da Chapada do Araripe e o Rio São Francisco), a cultura da região, seus cantadores de Pífano, aboiadores e violeiros.

‘Nas Asas da Asa Branca – Viva Luiz Gonzaga e seus Amigos’ segue uma trilogia amparada na cultura, cidadania e informação. Programa com roteiro usado para contar a história da música brasileira a partir da voz e sanfona de Luiz Gonzaga, seus amigos e seguidores.

Ney Vital considera o programa “o encontro da família brasileira”. Ele não promove rituais regionalistas, a mesquinhez saudosista dos que não se encontram com a arte e cultura, a não ser na lembrança. Ao contrário, o programa evoluiu para a tecnologia digital e forma de espaço reservado à cultura mais brasileira, universal, autêntica, descortinando um mar, cariri sertões de ritmos variados e escancarando a infinita capacidade criadora dos que fazem arte no Brasil.

É o conteúdo dessa autêntica expressão nacional que faz romper as barreiras regionais, esmagando as falsificações e deturpações do que costuma se fazer passar como patrimônio cultural brasileiro. Também por este motivo no programa o sucesso pré-fabricado não toca e o modismo de mau gosto passa longe.

“Existe uma desordem, inversão de valores no jornalismo e na qualidade das músicas apresentadas no rádio”, avalia Ney Vital que recebeu o Título de Cidadão de Exu, Terra de Luiz Gonzaga, título Amigo Gonzagueano Orgulho de Caruaru, e Troféu Luiz Gonzaga do Espaço Cultural Asa Branca de Caruaru e o Troféu Viva Dominguinhos-Amizade Sincera em Garanhuns.

Bagagem profissional-Ney Vital usa a credibilidade e experiência de 30 anos atuando no rádio e TV. Nas afiliadas da Rede Globo (TV Grande Rio e São Francisco), foi um dos produtores do Globo Rural, onde exibiu reportagens sobre Missa do Vaqueiro de Serrita e festa de aniversário de Luiz Gonzaga e dos 500 anos do Rio São Francisco, além de dezenas de reportagens pautadas no meio ambiente do semiárido e ecologia.

Membro da Rede Brasileira de Jornalismo, Ney Vital é formado em Jornalismo na Paraíba e com Pós-Graduação em Ensino de Comunicação Social pela Uneb/Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

“Nas Asas da Asa Branca, ao abrir as portas à mais genuína música brasileira, cria um ambiente de amor e orgulho pela nossa gente, uma disseminação de admiração e confiança de identidade cultural em nosso povo, experimentada por quem o sintoniza a RADIO EDUCADORA em todas as regiões do Brasil", finaliza Ney Vital.

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JACKSON DO PANDEIRO 44 ANOS DE SAUDADES

 Negro, de uma família pobre, com baixas expectativas, como muitos, mas que se tornou um Rei, como poucos. Essa é a história de José Gomes Filho, que viu que tinha muito Zé na Paraíba e se transformou em Jackson do Pandeiro, hoje reconhecido como um dos maiores nomes da história da música nordestina. Se a realeza não veio de berço, a verve artística de Jackson veio. O pai de Sebastiana, que completaria 100 anos neste sábado (31), teve na mãe, Flora Mourão, a maior inspiração para entrar no mundo da música.

Jackson nasceu na zona rural de Alagoa Grande, na região do Brejo da Paraíba. O pai era o oleiro José Gomes, conhecido como Zé Preto. A mãe era Flora Mourão, uma mulher que pode ser considerada à frente do seu tempo. Natural de Timbaúba, em Pernambuco, ela chegou ao município paraibano ainda adolescente. Foi parar lá com um grupo de coco no qual se apresentava na região, conheceu Zé Preto e se casou. Além de Jackson, ou José Gomes Filho, o casal teve outros dois filhos, Severina e João.

Flora tocava em feiras, batizados e casamentos na região. E através da arte ajudava no sustento da família. Ela dividia a chefia familiar com o marido Zé Preto, que não gostava do lado artístico da esposa, mas respeitava.

Já o menino José acompanhava as apresentações e era encantado pelo trabalho da mãe. As rodas de coco de Flora Mourão criaram uma consciência artística no filho primogênito e foram fundamentais para a formação dele como músico. Nestes momentos ele começou a memorizar os passos e as batidas do coco.

E foi exatamente ao lado da mãe que José ou Jack, como os amigos chamavam - já que ele gostava de imitar o astro dos faroestes Jack Perrin - estreou como artista. Um zabumbeiro do grupo de Flora adoeceu e faltou à apresentação. José tocou no lugar dele. O menino tinha apenas nove anos. Era o primeiro passo da carreira daquele que mais tarde seria chamado de Rei do Ritmo e ficaria marcado por um outro instrumento, que adotaria como sobrenome.

"O que se sabe sobre Flora é muito pouco, mas o suficiente para a gente entender como Jackson chegou a ser o que foi, tendo ela como base. A influência veio dela. Como Januário influenciou Luiz Gonzaga, Flora Mourão influenciou Jackson de forma penetrante”, afirma o jornalista e biógrafo de Jackson do Pandeiro, Fernando Moura.

Antes do reinado de Jackson, Flora reinou. Ela foi considerada uma das mais respeitadas coquistas da região, entre o final da década de 1910 e 1930. A cantora se afastou das apresentações após o nascimento do terceiro filho, João. Pouco tempo depois, Zé Preto morreu e a família começou a enfrentar dificuldades, chegando a passar fome. Flora então decidiu ir embora com os filhos para Campina Grande, buscando uma melhoria de vida.

“Eles tinham familiares em Campina Grande e decidiram se mudar, mas foram a pé, demoraram quase uma semana para chegar”, destaca Fernando Moura.

O ano era 1931. José Gomes filho tinha apenas 11 anos, a irmã Severina, 6 anos, e João, apenas um. Em Campina Grande, o lado artístico de José afloraria de uma vez por todas. Mas ele também precisou trabalhar pesado para sustentar a mãe e os irmãos. O futuro Rei do Ritmo foi servente de pedreiro, pintor de paredes, limpador de fossas e ajudante de padeiro. Ele também ganhava algum dinheiro como baterista em casas noturnas. Nessa época era conhecido como Zé Jack.

Em 1937, a mudança definitiva. Trabalhando numa padaria, durante o carnaval um grupo passou cantando. Jackson foi atrás e viu que o queria de verdade era manter o legado de Flora como artista.

Já acompanhado do Pandeiro, José, ou Zé Jack, fez carreira em Campina Grande até 1944, ano em que se mudou para João Pessoa. Na capital paraibana ele passou a integrar a Orquestra Tabajara.

Flora Morreu em 1946 sem ver o sucesso do filho, que viria sete anos depois. Já em Recife, fazendo parte do elenco da Rádio Jornal do Commercio, José ganhou o nome que lhe consagraria. Virou Jackson do Pandeiro por ideia de um diretor da emissora, que achou o nome mais sonoro e melhor para o marketing.

Em 1953, Jackson lança a música 'Sebastiana', de autoria de Rosil Cavalcanti, em um programa de rádio na capital pernambucana. O lançamento foi meio de improviso, pois o Rei do Ritmo estava preparado para apresentar outra música. O produtor do programa pediu que ele mudasse em cima da hora e meio que evocou a figura de Flora no pedido. “Você vai cantar aquele negócio que 'cê' canta, aqueles 'coquinho', do tempo da sua mãe”, revelou o próprio Jackson ao relembrar o pedido no programa 'Ensaio', da TV Cultura, nos anos 70.

O som acabou alavancando o nome do paraibano. No mesmo ano, ele é contratado pela gravadora Copacabana e lança o primeiro disco que, além de 'Sebastiana', tinha 'Forró em Limoeiro'.

Jackson estourou com o ritmo da mãe, mas não passou só por ele. Muito pelo contrário. Passeou pelo forró, samba, baião, frevo e outros.

Além de ser inspiração, Flora também foi homenageada por Jackson em algumas músicas. Em 'Xexeu da Bananeira' ele relembra as apresentações artísticas da mãe. A composição tem versos como 'Ô Menina bonita, formosa, brejeira/Que só sai de casa para fazer a feira/Arrastando a saia, levanta poeira'.

Em 'Verdadeiro Amor', Jackson fala do sentimento por ela. 'Mãe é o grande tesouro/Cheio de sublimação/ O segundo nazareno/Na história do perdão', é um dos trechos do samba.

Jackson morreu em 1982, vítima de embolia pulmonar, em Brasília. Ele teve uma carreira de altos e baixos e gravou mais de 100 discos. Inspirou e até hoje inspira artistas, nomes como Gilberto Gil, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e muitos outros beberam na fonte do que foi produzido por aquele menino pobre que foi a pé de Alagoa Grande para Campina Grande e se tornou rei. "Jackson é um pilar, se a gente for pensar na música brasileira, popular, ele é um dos alicerces", afirma o cantor pernambucano Lenine.

Por mais que Flora Mourão, a maior inspiração, não tenha visto o filho se tornar o músico que se tornou, Jackson nunca esqueceu da mãe durante o seu reinado. Até o último show que fez, Jackson levou na mala um vestido branco que Flora usava nas apresentações com o grupo de coco. "Mais que uma mestra, ela foi a fonte inspiradora (..). Mais que uma mãe, foi um ícone", ressalta Fernando Moura na biografia de Jackson. (Jornal da Paraiba)


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LITERATURA DO VALE DO SÃO FRANCISCO GANHA DESTAQUE NO JUAZEIRO DA BAHIA

A literatura regional volta a ocupar um lugar de destaque na programação do Festival Juá Literária. A Prefeitura de Juazeiro, por meio da Secretaria de Educação (Seduc), divulga a lista dos autores selecionados para o Cais da Palavra, espaço dedicado ao lançamento de obras de escritores e escritoras do Vale do São Francisco.

Nesta edição, o edital bateu recorde de participação, com quase 100 inscrições. Desse total, 30 autores foram selecionados por uma comissão de curadoria para integrar a programação do festival.

A ação faz parte do Festival Juá Literária 2026, que acontecerá entre os dias 20 e 25 de julho, como parte das comemorações pelo aniversário de Juazeiro. Durante o evento, os autores contemplados participarão de mesas literárias e terão a oportunidade de lançar, divulgar e comercializar suas obras em um dos mais importantes encontros literários do Nordeste.

Confira a lista dos autores selecionados no site oficial da Prefeitura de Juazeiro, por meio do endereço eletrônico: www.juazeiro.ba.gov.br. 




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HUBERTO CABRAL, O JORNALISTA QUE CONVIVEU COM LUIZ GONZAGA, PATATIVA DO ASSARÉ E PADRE VIEIRA

Em plena atividade na Rádio Educadora do Cariri, FM 102.1, na cidade do Crato Ceará, o jornalista e cerimonialista, Huberto Cabral, é um dos Patrimônios da História Cultural e da educação Brasileira. Considerado uma ‘enciclopédia viva’ da história regional e reconhecido como uma das personalidades históricas do Cariri é Doutor Honoris Causa título aprovado por unanimidade pelo Conselho Superior da Universidade Regional do Cariri (URCA), em 2024.

Nascido no dia 20 dezembro de 1936, Huberto Cabral caminha para completar 90 anos. Em conversa com o colaborador da REDEGN, jornalista Ney Vital, Huberto Cabral, demostrou o motivo de carregar e espalhar sabedoria na alma refletida em palavras de humildade.

No passado teve atividades em jornais, como O Levita, que foi um dos editores, que passou a editar ainda no Seminário, e depois a Ação, porta-voz da Diocese do Crato. Huberto Cabral também atuou na amplificadora cratense, pioneiro no serviço de auto-falante da região do Cariri. Com a fundação da Rádio Araripe do Crato, primeira emissora do interior cearense, Huberto Cabral passou a atuar na emissora dos Diários Associados, maior conglomerado de mídia da América Latina.

Chamado de ‘enciclopédia viva do Crato’, Huberto passou a ser uma testemunha ocular de episódios históricos da cidade, e uma das fontes essenciais de muitos acontecimentos. "É um guardião e documentos de notável relevância, além de ser requisitado com frequência por pesquisares de universidades da região, além da imprensa, para dar depoimentos relevantes para pesquisar acadêmicas e matérias que são veiculadas junto à imprensa".

Huberto é um jornalista que entrevistou até presidente da República. Mas é o assunto Cariri que faz os olhos brilharem. "Estive com Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Padre Antônio Vieira, Zé Clementino, Pedro Bandeira, figuras geniais. É uma vida de muitas histórias", diz Huberto Cabral.

Ele conta que Luiz Gonzaga tinha grande amizade pelo Crato e cita: Luiz Gonzaga, ao deixar sua terra natal e fugir para Fortaleza, passou pelo Crato, pegou um trem na estação com destino à Fortaleza, onde serviu no quartel do 23º BC. "Quando menino, o pai de Luiz Gonzaga, seu Januário e a mãe Santana vinham sempre que podia para o Crato onde comercializava seus produtos na feira, principalmente farinha".

Huberto Cabral é testemunha vivo da história que Luiz Gonzaga participou de alguns momentos marcantes do Crato. Em 1946, por exemplo, ele retorna ao Crato para animar e tocar em leilões da festa de São Francisco. Maçom que era, Luiz Gonzaga teve vários trabalhos filantrópicos desenvolvidos a favor do bem estar do povo.

Em 1951 Luiz Gonzaga esteve presente à inauguração da Rádio Araripe, primeira emissora de rádio do Interior do Ceará, junto com o pai, Januário, e o irmão, Zé Gonzaga. Em 1953 Luiz Gonzaga participou da festa do centenário do Crato realizando show na Praça da Sé. Em 1974 recebeu o título de cidadão cratense outorgado pela Câmara Municipal em iniciativa do vereador Ivan Veloso.

Em 1987 na Expocrato o presidente da Comissão Gestora, Francisco Henrique Costa, promoveu grande show folclórico na história da exposição numa homenagem a quatro heróis do ciclo do Jumento. “Pela primeira vez e única vez reuniram-se no palco Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Padre Antonio Vieira e José Clementino que foram saudados pelo violeiro Pedro bandeira”. revela Hubeto Cabral.

Huberto Cabral já foi agraciado com a Comenda Bárbara de Alencar, a maior do Município do Crato, além dos diplomas da Câmara Municipal do Crato, Mérito Legislativo e Jornalista João Brígido dos Santos, e a Comenda Irineu Pinheiro, do Instituto Cultural do Cariri – ICC.

Atualmente aos domingos 7hs da manhã e ao meio dia, Huberto Cabral apresenta e produz os programas de rádio transmitidos pela Educadora FM 102.1.

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RÁDIO NACIONAL 90 ANOS

A Rádio Nacional completa neste ano nove décadas de existência reafirmando seu papel histórico como um dos principais veículos de comunicação do país. A emissora, que hoje integra o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), é reconhecida como a maior rádio pública da América Latina, destacando-se por sua ampla capilaridade e pela presença multiplataforma no cenário radiofônico.

A Rádio Nacional foi fundada no Rio de Janeiro (RJ) pelo grupo do Jornal A Noite em 12 de setembro de 1936 com o prefixo PRE-8. Começou a ganhar força em 1940, quando foi incorporada à União e se firmou como fenômeno de expressão da cultura popular brasileira. Teve papel fundamental na transmissão de notícias para todo o território brasileiro com o Repórter Esso, apresentado pelo jornalista Heron Domingues e que se tornou sucesso de audiência. Na época, a emissora chegava a receber milhares de cartas por dia enviadas por ouvintes de todo país.

Atualmente, a Rádio Nacional é a única emissora brasileira com atuação simultânea em FM para todos os estados, operando também em AM e Ondas Curtas (OC) de alta potência, o que faz o sinal chegar em lugares remotos e para além das fronteiras brasileiras. A programação também pode ser acompanhada pela internet via streaming, garantindo alcance para diferentes realidades geográficas e sociais do país.

O presidente da EBC, Andre Basbaum, comenta que a Rádio Nacional carrega uma trajetória que se mescla com a própria história da comunicação brasileira.

 “Ao completar 90 anos, a Rádio Nacional reafirma sua relevância como patrimônio da comunicação pública e como serviço essencial para a população. Sua força está justamente na capacidade de unir tradição e presença contemporânea, em uma infraestrutura tecnológica robusta que permite chegarmos mais longe, em lugares onde muitas vezes não há nenhum outro veículo de comunicação. Celebrar a Rádio Nacional é reconhecer que ela segue viva, atual e comprometida com a missão de informar. O direito à informação está expresso em nossa Constituição Federal e é uma bússola para a nossa atuação na EBC”, declara Basbaum.

A rede própria da Rádio Nacional conta com cinco emissoras FM localizadas no Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Brasília (DF), São Luís (MA) e Tabatinga (AM), além de presença em AM na capital federal. Em Recife (PE), a Rádio Nacional é operada em parceria com a Empresa Pernambuco de Comunicação (EPC).  

A transmissão da Rádio Nacional da Amazônia para longas distâncias, por sua vez, acontece por meio de transmissores de ondas curtas (OC) instalados no Parque do Rodeador, localizado a cerca de 40km do centro de Brasília (DF) e que se configura como um dos maiores complexos de transmissão radiofônica do país. Inaugurado em 11 de março de 1974, o parque completou 50 anos em 2024. A sua área abriga quatro conjuntos de antenas gigantes, sendo uma de ondas médias, com 142 metros de altura, além de mais três conjuntos com torres mais altas, atingindo 147 metros para as ondas curtas. O projeto foi desenvolvido com os recursos mais modernos da época para obter maior ganho e alcance de transmissão.

O sistema próprio da EBC para a Rádio Nacional é complementado por um pilar estratégico: a Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP) de Rádios, que hoje é formada por 168 emissoras espalhadas por todo o Brasil. Essa rede amplia a presença da Rádio Nacional por meio de parcerias com emissoras públicas, educativas e culturais em todas as cinco regiões do país. A articulação fortalece o caráter público da comunicação e garante diversidade regional na programação.

Segundo os acordos firmados com a EBC, essas parceiras devem retransmitir um mínimo de quatro horas da programação da Rádio Nacional, não sendo obrigatória a simultaneidade. As emissoras também devem transmitir um mínimo de uma hora de produção local por dia.

Em 2026, a estratégia de expansão da RNCP vai levar o sinal da Rádio Nacional para mais localidades, ampliando o seu raio de atuação de alcance. Em março, por exemplo, as rádios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) passaram a integrar a rede. Vale destacar que, também em março, entrou em operação na cidade de Fortaleza (CE) a Rádio Educativa FM 86,7, neste caso integrando conteúdos da Rádio MEC e produções locais.

Com uma programação diversa e estrutura capilarizada, a Rádio Nacional tem conquistado cada vez mais ouvintes nos últimos anos. Dados do Ibope mostram que, tanto no ano de 2024 quanto no de 2025, a rede alcançou mensalmente mais de 400 mil ouvintes. As estatísticas referem-se apenas às praças do Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Distrito Federal e Recife (PE), onde a EBC possui medição de audiência. Na prática, esse número é ainda maior – não é aferida, por exemplo, a audiência registrada pela Rádio Nacional da Amazônia em ondas curtas.

A Nacional no Rio de Janeiro, especificamente, teve aumento de 49% de ouvintes entre os anos de 2024 e 2025. E, já em 2026, a Rádio Nacional FM de Brasília teve resultados históricos de audiência no Distrito Federal. A emissora alcançou, no primeiro bimestre do ano, a maior participação de mercado (share) de toda a série histórica de medições, iniciada em 2010. A emissora mantém uma curva contínua de crescimento: os anos de 2023, 2024 e 2025 concentram três das quatro melhores performances da rádio nos últimos 15 anos, com participações de 1,36%, 1,42% e 1,49%, respectivamente.

A infraestrutura de ondas curtas da Rádio Nacional destaca-se também por sua importância diante de eventos climáticos e tragédias ambientais. Um dos exemplos refere-se às tempestades que castigaram o Rio Grande do Sul em 2024. Com o objetivo de ampliar a prestação de serviços para a comunidade impactada pelas enchentes, foi criado à época o programa “Sintonia com o Sul” com programação dedicada à divulgação de informações para a região afetada. Para esse objetivo ser concretizado, uma parte das antenas do Parque do Rodeador foi direcionada para o sul do país.

Também faz parte da EBC a Rádio Nacional do Alto Solimões. A sua programação combina as notícias locais e nacionais com protagonismo para a produção e a cultura regional. Referência na cidade amazonense de Tabatinga (AM), onde está localizada, a rádio também faz a diferença para os moradores da região do Alto Solimões. A emissora FM interliga nove municípios e serve de ponte de informação e comunicação com a população urbana, povos indígenas e comunidades tradicionais da Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

No ambiente digital, a Radioagência Nacional integra o sistema público de comunicação e atua como um importante eixo de distribuição de conteúdo jornalístico. Pautada pela missão de levar informação gratuita, plural e de qualidade, a plataforma disponibiliza reportagens, boletins e matérias especiais que podem ser acessadas por emissoras de rádio de todo o país. Os conteúdos produzidos pelo Radiojornalismo da EBC e veiculados pela Rádio Nacional também estão disponíveis no site.

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POETA PATATIVA DO ASSARÉ 24 ANOS DE SAUDADES

 

A cidade de Assaré, no Sul do Ceará, está recebendo o Festival Patativa do Assaré – Minha Terra, Minha Gente, Minha Vida – 24 Anos de Memória, evento que iniciou nesta terça-feira (7) e marca o lançamento dos Circuitos Criativos do Cariri. A programação, realizada no Memorial Patativa do Assaré, segue até esta quarta-feira 8. 

O encontro reúne pesquisadores, artistas, poetas, violeiros, grupos culturais e representantes de instituições em homenagem aos 24 anos da memória do maior poeta cearense, além de promover a valorização da cultura popular. Patativa morreu em 8 de julho de 2002.

“Patativa do Assaré transformou a cultura popular em um patrimônio reconhecido dentro e fora do Ceará. Iniciar os Circuitos Criativos a partir de sua memória fortalece esse legado e cria novas oportunidades para que sua obra continue sendo preservada, estudada e compartilhada por meio da cultura e das iniciativas desenvolvidas no território”, afirma a  presidente da Fundação Memorial Patativa do Assaré e neta do poeta, Avaí Gonçalves,.

Mais cedo, o público pôde acompanhar conferências e mesas de debate sobre literatura de cordel e autoria feminina. Também houve o lançamento do cordel “Os tesouros das mãos do povo assareense”, de Milena Matias, que homenageia personalidades da cultura local, além de apresentações culturais e exposição. 

Já nesta quarta-feira (8), a programação contará com encontro temático sobre o legado poético de Patativa, recital de poesia, cantoria de viola, apresentações da cultura tradicional, feira criativa, exposição de artesanato, gastronomia regional e encerramento musical em celebração à cultura popular do Cariri. 

O evento inaugura os Circuitos Criativos do Cariri, projeto desenvolvido pelo Sebrae Ceará que conecta os municípios de Assaré, Salitre e Potengi através da valorização da cultura, do turismo, da economia criativa e dos saberes tradicionais. O festival foi a primeira grande ação pública do projeto. 

“Os Circuitos Criativos do Cariri são um reconhecimento de que a cultura é uma das maiores riquezas do nosso território. Iniciar essa trajetória a partir da memória de Patativa do Assaré é uma forma de homenagear um legado que continua inspirando gerações e de mostrar que a arte, a tradição e os saberes populares são capazes de fortalecer a identidade regional e impulsionar novas oportunidades para o Cariri”, destaca Elizangela Melo, gerente do Sebrae Cariri.

A ação acontece em parceria com a Secretaria de Cultura de Assaré, o Instituto Federal do Ceará (IFCE) – Campus Juazeiro do Norte, a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), a Universidade Federal do Cariri (UFCA) e Sesc Crato. Também integram a iniciativa instituições, coletivos culturais e lideranças comunitárias.


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MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA: ASSIM OUVI E AQUI REPRODUZO

Compreender que a história vem se tecendo com a força da própria vida. E por isto, disse o cantador Virgilio Siqueira, daí não ser possível guardar na própria alma a transbordante força de uma causa. Daí não ser possível retornar, afinal, a gente nem sabe ao certo se de fato partiu algum dia...

“Tengo/legotengo/lengotengo/lengotengo … O vaqueiro nordestino/morre sem deixar tostão/o seu nome é esquecido/ nas quebradas do Sertão ...” Os versos ecoam pelo lugar, realçados pelo trote dos animais e o balançar natural dos chocalhos trazidos pelos donos, todos em silêncio. É música. É arte.

Cada arte emociona o ser humano e maneira diferente! Literatura, pintura e escultura nos prendem por um viés racional, já a música nos fisga pelo lado emocional. Ao ouvir música penetramos no mundo das emoções, viajamos sem fronteiras.

A viagem dessa vez é o destino Serrita, Pernambuco, município próximo a Exu, terra onde nasceu Luiz Gonzaga, ali no sítio Lages, um primo do Rei do Baião, no ano de 1951, Raimundo Jacó, homem simples, sertanejo autêntico, tendo por roupa gibão, chapéu de couro tombou assassinado.

Realizada anualmente sempre no quarto domingo do mês de julho, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga e criada com os amigos Padre João Câncio e Pedro Bandeira, violeiro e o único que vive e participa da Missa. Pedro Bandeira atualmente mora em Juazeiro do Norte, Ceará.

Este ano a Missa do Vaqueiro de Serrita completa 56 anos.

A música composta por Nelson Barbalho, ainda ecoa nos sertões brasileiros: Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja de seus colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Luiz Gonzaga queria mais. Dessa forma, ele se juntou a João Câncio dos Santos, na época padre que ao ver a pobreza e as injustiças sociais cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão, para fazer do caso do vaqueiro Raimundo Jacó o mote para o ofício do trabalho e para a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Raimundo Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas, como chapéu de couro, chicotes e berrantes, ao altar de pedra rústica em formato de ferradura. 

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre. A Missa do Vaqueiro enche os olhos e coração de alegria e reflexões. O poeta cantador de Viola, Pedro Bandeira se faz presente ao evento e o peso dos seus mais de 80 anos ilumina com uma mágica leveza rimas e versos nos improvisos da inteligência. Vaqueiros e suas mãos calejadas, rostos enrugados pelo sol iluminam almas.

Em Serrita ouvimos sanfonas tocando alto o forró e o baião. Corpo e espírito ali em comunhão. A música do Quinteto Violado, composto por Janduhy Filizola é fonte de emoção. A presença de Jesus Cristo está no pão, cuscuz, rapadura e queijo repartidos/divididos na liturgia da palavras.

Emoção! Forte Emoção é que sinto na Missa do Vaqueiro ao ouvir sanfona e violeiros:

“Quarta, quinta e sexta-feira/sábado terceiro de julho/Carro de boi e poeira/cerca, aveloz, pedregulho/Só quando o domingo passa/É que volta os viajantes aos seu locais primitivos/Deixa no caminho torto/ o chão de um vaqueiro morto úmido com lágrimas dos vivos.

E aqui um assunto místico: quando o gado passa diante do mourão onde se matou uma rês, ou está esticado um couro, é comum o gado bater as patas dianteiras no chão e chorar o sentimento pelo “irmao” morto. O boi derrama lágrimas e dá mugidos em tons graves e agudos, como só acontece nos sertões do Nordeste!

Assim eu escutei e aqui reproduzo...

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MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA E OS 90 ANOS DO PADRE JOÃO CÂNCIO

A Missa do Vaqueiro, na cidade de Serrita, a 535 quilômetros do Recife para o ano completará meio século. Em sua 49° edição, a festa traz o sagrado e o profano, preservando assim as tradições, a cultura e a fé do povo sertanejo. Este ano completa 37 anos de morte do Padre João Câncio e 90 anos do nascimento. Ele juntamente com Luiz Gonzaga e o poeta Pedro Bandeira idealizaram e criaram a Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco. 

Em Petrolina a reportagem do Blog Geraldo José, com exclusividade, encontrou parte da história que deve ser contada, e está no sangue (DNA) dos fatos que se tornaram páginas que as novas gerações precisam conhecer. Trata-se da irmã de João Cancio, dona Maria Helena Santos Costa e de Fabricio Alex Santos Costa, sobrinho. Eles moram em Petrolina e são testemunhas do tempo vivido por um João, que se tornou, Padre, casou e se tornou quase lenda nos sertões. Padre João Câncio foi o fundador da Pastoral dos Vaqueiros.

Detalhe: na capa do disco LP 1988, Missa do Vaqueiro,  consta Fabricio presente no altar em Serrita durante a última participação de Luiz Gonzaga na missa. Entre os celebrantes estava o bispo emérito de Petrolina, Dom Paulo Cardoso. Uma autêntica e histórica reunião de vaqueiros contada através de canções que homenageiam e retratam a coragem, a força e a fé do homem sertanejo. É assim que pode ser definida a Missa do Vaqueiro. 

Todavia, nascida em 30 de abril de 1946, Maria Helena vai logo afirmando: "História que tem muitas páginas mal contadas", ri Helena, no vigor da alegria e da memória que guarda os fatos. Na família ela é a única mulher. Além de Maria Helena vivem Daniel, Antonio e Avelino. Luiz já faleceu. "João me chamava de "Neguinha".

"Lembro quando meu irmão resolveu ser Padre e entrar no seminário. Foi uma surpresa. Tenho lembranças da primeira Missa do Vaqueiro de Serrita e das conversas entre Luiz Gonzaga e meu irmão. Eles queriam justiça pela morte do vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado. Com o passar do tempo tudo foi se modificando, esquecendo o lado cultural, o protesto e de fé da missa", revela, Maria Helena.

Enquanto foi Padre, João foi da ala progressista ligada a igreja. Atuante na região João Cancio contribui para fortalecer o nome do sertão. "Infelizmente vim tomar conhecimento que escreveram a biografia dele pelas redes sociais, não consultaram a família".

Fabricio faz referência que ao contrário do que ocorre agora durante as homenagens do 30 anos de morte do Padre João, a biografia escrita pelo jornalista Machado Freire, com o título, João Cancio-a saga do Padre Vaqueiro, esta sim, o autor manteve contato com a família. "Uma das ideias do meu tio era que durante a semana da Missa do Vaqueiro fosse realizado seminário, palestras para fortalecer e valorizar cada vez mais o lado cultural e da história", conta Fabricio.

Maria Helena revela que o seu irmão João Cancio exerceu também  a função de diretor do Colégio Dom Bosco de Petrolina e do Colégio Barbara de Alencar, em Exu, Pernambuco.

Os restos mortais do Padre João Cancio encontra-se no Cemitério Campos das Flores, em Petrolina.

A Missa do Vaqueiro, um dos maiores eventos culturais dos Sertões, tem sua origem na história de Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso que, segundo a história, foi assassinado numa emboscada por um desafeto da profissão. 

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi definitivamente consagrada pelo canto e voz  de Luiz Gonzaga. 

O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou a música “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Os versos da música foram feitos em 1957 por Nelson Barbalho durante uma conversa com Luiz Gonzaga, que lhe contou sua vontade de prestar uma homenagem ao primo e a dificuldade por sempre se emocionar quando pensava na história. 

Por volta de 1974, Luiz Gonzaga solicitou ao amigo Janduhy Finizola, em frente a centenas de vaqueiros, que criasse uma música especialmente para a missa. Nem um pouco intimidado, Janduhy declarou que não faria uma, mas sim todas as músicas, todas seguindo a estruturas dos ritos da igreja, tendo sempre como protagonistas o vaqueiro e a religião.

Das nove canções, apenas três foram gravadas por Luiz Gonzaga. Mas, em 1976 todas as composições foram gravadas, com a liberação do Rei do Baião e Janduhy, e então Quinteto Violado, que estava em início de carreira, grava. "Tenho história para contar o ano inteiro", finalizou dona Maria Helena.

Redação jornalista Ney Vital Fotos: Ney Vital

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JOÃO GILBERTO LIGA PARA A FRANÇA E DIZ: LUIZ GONZAGA MORREU

 Na madrugada fria de Paris, França,  o telefone toca. Do outro lado a reclamação: Ninguém lembra do fuso horário, só pode ser do Brasil. A ligação era do músico João Gilberto cuja voz sussurrou triste e informa: Luiz Gonzaga morreu!!. Foi neste tom que a pesquisadora, jornalista e cineasta Dominique Dreyfus, soube do falecimento de Luiz Gonzaga, numa quarta-feira 02 de agosto de 1989. Francesa, Dominique é autora do livro “A Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga”,  livro que considero a mais completa biografia do sanfoneiro Luiz Gonzaga.

Dominique foi professora em Letras e Literatura pela Universidade Paris I (Sorbonne), trabalhou como repórter, editora e diretora de revistas e programas especializados em música, colabora para conceituadas publicações de arte sul-americanas e é doutora em música popular brasileira. Além desse gabarito acadêmico e profissional, ela passou a infância e parte da adolescência entre Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Olinda e Recife. Mudou-se com a família da França para o Brasil para ficar longe da 2° Guerra que assolava a Europa. 

Poucos sabem, mas, João Gilberto homenageou Luiz Gonzaga e a voz do Rei do Baião gravou um LP O Canto Jovem, repleto de modernidade, incluindo composições de Edu Lobo, Jocafi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outros que transitaram entre a Bossa Nova e o Tropicalismo. Os dois, João e Luiz, considerados gênios e citados pelos mais talentosos músicos da música brasileira e internacional sempre mantiveram a distância física, mas o respeito de almas revolucionárias.

Mostro aqui a homenagem que João Gilberto fez acontecer durante o Festival de Rock de Águas Claras, interior de São Paulo. Este festival tinha como objetivo promover a paz, a união, a liberdade. Na oportunidade João Gilberto cantou a música Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, acompanhado apenas pelo ritmo sincopado do seu violão.

Tom Jobim sobre esta homenagem declarou: "É algo que jamais ouvi igual e acho que não ouvirei...e João Gilberto como nordestino nascido às margens do Rio São Francisco, não fugiu à regra: era fã de Luiz Gonzaga. A prova disso é o telefonema entristecido que deu para Dominique Dreyfus, biógrafa de Luiz Gonzaga, residente em Paris, a 02/08/1989, comunicando-lhe o falecimento do criador do baião".

Com a chegada da Bossa Nova, Luiz Gonzaga e os sanfoneiros tiveram um período difícil. As rádios, publicidade e produtores de shows e TV da época "esqueceram", o reinado do baião. A Bossa Nova "fez Luiz Gonzaga tombar" e momentaneamente o Rei do Baião chegou até a ensaiar a sua retirada do campo da nossa música. "Ninguém me quer mais", ele resmungou aos ouvidos de Dominguinhos, seu mais autêntico sucessor. Mas recompôs-se ao surgir o boato de que os beatles iam gravar Asa Branca.

Dominique Dreyfus garante que o sanfoneiro Luiz Gonzaga, de certo modo,  sabia da sua importância no cenário musical brasileiro, mesmo quando ele foi “atropelado” pela bossa nova. “Ele encarava com tranquilidade e até certo humor. Dizia que 'aquela' bossa nova acabou com todo mundo, que ninguém mais queria saber dele, mas que continuaria a fazer música para o povo dele.”

Outro detalhe: A importância do gênero musical inventado por Luiz Gonzaga foi reverenciado também por João Gilberto no baião Bim, Bom, no qual ele diz: “É só isso o meu baião/ E nao tem mais nada não"...

Mas isto é assunto para outra prosa" Além de Luiz Gonzaga, Dominique Dreyfus também escreveu sobre a vida de um dos maiores violonistas brasileiros em “Violão Vadio de Baden Powell”, de 1999.

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O CANTO JOVEM DE LUIZ GONZAGA

Porque hoje é dia 8 de julho 2026, vou recontar esse momento sutil. Enquanto descia de Santa Teresa, Tio de Janeiro, num tempo bem passado, com o ator Beto Quirino, com o saudosíssimo poeta Chico Salles e com o também poeta Ivamberto Albuquerque, eu procurava na imaginação o disco gonzagueano no qual o Rei do Baião encantara para a eternidade suas versões para canções completamente estranhas ao seu repertório tradicional.

O Canto Jovem de Luiz Gonzaga veio e vem, de certa forma, contrapor-se ao discurso segregador. Procurando um melisma que também avoasse pelo dissonante, a sanfona e a voz do bardo encaixaram-se com certa delicadeza, mastigando mansamente as notas quase deslocadas da bossa nova e do tropicalismo.

Naquele disco não havia arranjos sertanejos, rascantes, severos. Havia, e está lá, um diálogo com o que se chamava, na época, de novo, de jovem. Gonzaga teve coragem, enfrentou. A célebre Caminho de Pedra, de Tom e Vinícius, é um ponto a se prestar bem atenção. Em Asa Branca, com alguma novidade no arranjo, a participação de Gonzaguinha marcará o reencontro de pai e filho.

Seguem-se Nelson Mota, Dori Caymmi, Antonio Carlos e Jocafi, Capinan e Edu Lobo, presentes. Note-se a fotografia de capa tendo como cenário o Edifício Avenida Central, no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Note-se, ainda, a pose e o figurino atualizado à cidade e à moda bossanovidadosa.

As faixas:

Chuculatera (Jocafi – Antônio Carlos)

Procissão (Gilberto Gil)

Morena (Gonzaguinha)

Cirandeiro (Capinan – Edu Lobo)

Caminho de Pedra (Tom Jobim – Vinicius de Moraes)

Asa Branca (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)

Vida ruim (Catulo de Paula)

O milagre (Nonato Buzar)

No dia que eu vim me embora (Caetano Veloso – Gilberto Gil)

Fica mal com Deus (Geraldo Vandré)

O cantador (Nelson Motta – Dori Caymmi)

Bicho, eu vou voltar (Humberto Teixeira)

O Nordeste continuaria existindo caso Luiz Gonzaga não tivesse aterrissado por lá há cem anos. Teria a mesma paisagem, os mesmos problemas. Seria o mesmo complexo de gentes e regiões. Comportaria os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões. Mas faltaria muito para adornar-lhe a alma. Sem Gonzaga quase seríamos sonâmbulos.

Ele, mais que ninguém, brindou-nos com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. A isso resolveu chamar de BAIÃO.

Luiz Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores.

O olhar de Gonzaga furou o ventre de todas as coisas e seres, escaneou suas vísceras, revirou seus mistérios, escrutinou suas entranhas. A mão do homem deslizou pelas teclas sensíveis da concertina, seus dedos pressionaram os pinos, procurando os sons baixos e harmônicos. Os pés do homem organizavam o primeiro passo, sentindo o caminho, testando o equilíbrio. A cabeça erguida, o queixo pra frente, a barriga desforrada e o pulmão vertendo cem mil libras de oxigênio, vibrando as cordas vocais: era Lua nascendo.

O peito de Gonzaga abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali buscando eternidade. Viva Luiz Gonzaga do Nascimento, sempre na mira de nossos corações.

Aderaldo Luciano é professor, pesquisador, doutor em Ciência da Literatura

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LUIZ GONZAGA VIVE NA ALMA BRASILEIRA

Gilberto Amado disse a propósito da morte de sua mãe: "Apagou-se aquela luz no meio de todos nós". Para o Nordeste, e tenho certeza para todo o país, a morte de Luiz Gonzaga foi o apagar de um grande clarão. Mas com seu desaparecimento não cessou de florescer a mensagem que deixou, por meio da poesia, da música e da divulgação da cultura mais brasileira.

Nascido em Exu, no alto sertão de Pernambuco, na chapada do Araripe, na divisa com o Ceará, "arribou" e ganhou o Brasil e o mundo, mas nunca se esqueceu de sua origem. Sua música, a música de Luiz Gonzaga e parceiros compositores é politicamente comprometida com a busca de solução para a questão regional nordestina, com o desafio de um desenvolvimento nacional mais homogêneo, mais orgânico e menos injusto.

Telúrico sem ser provinciano, Luiz Gonzaga sabia manter-se preso às circunstâncias regionais sem perder de vista o universal. Sua sensibilidade para com os problemas sociais, sobretudo nas músicas em parceria com Zé Dantas, era evidente: prenhe de inconformismo, denúncia do abandono a que ainda hoje está sujeito pelo menos um terço da população brasileira, mormente a que vive no chamado semiárido.

Luiz Gonzaga é o responsável pelo que atualmente existe de melhor na música brasileira. A força da voz e a puxada da sanfona presente nas toadas e cantorias tonificou a nossa música, retirando-a do empobrecimento cultural em que se encontrava nos ano 40 e cá prá nós, continua atual nos tempos de hoje de tanta pobreza cultural.

A música de Luiz Gonzaga é o sentido de nossa identidade cultural pois consegue ser genuinamente nacional, posto que de defesa de nossas tradições e evocação de nossos valores. Luiz Gonzaga interpretou o sofrimento e também as poucas alegrias de nossa gente em ritmos até então desconhecidos, como o baião, o forró, o xaxado, as marchinhas juninas e tantos outros.

Pesquisadores e estudiosos da obra gonzagueana apontam que até hoje por meio da letra da toada "Asa Branca", Luiz Gonzaga continua elevando à condição de epopéia a questão nordestina. Parafraseando Gilberto Freyre, podemos afirmar que "Asa Branca" é o hino do Nordeste: o Nordeste na sua visão mais significativamente dramática, o Nordeste na aguda crise da seca.

 Luiz Gonzaga não morreu! Em sua obra Luiz Gonzaga está vivo e vive no sertão, no pampa, na cidade grande, na boca do povo, no gemer da sanfona, no coração e na alma da gente brasileira, pois, como disse Fernando Pessoa, "quem, morrendo, deixa escrito um belo verso, deixou mais ricos os céus e a terra, e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente".


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EL NINO DEVE AGRAVAR SECA NO NORDESTE E ELEVAR TEMPERATURAS

A Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) emitiu um alerta para a alta probabilidade de desenvolvimento do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, cenário que pode intensificar a seca em Pernambuco, especialmente nas regiões do interior. A previsão é de chuvas abaixo da média no Leste do Estado entre julho e setembro, além de temperaturas acima da média em todo o território pernambucano.

O alerta da Apac acompanha as projeções dos principais centros meteorológicos internacionais e da Organização Meteorológica Mundial, que indicam rápida intensificação do El Niño nos próximos meses. Segundo o organismo internacional, o fenômeno já está em desenvolvimento no Oceano Pacífico e tem potencial para atingir intensidade forte entre o fim de 2026 e o início de 2027, aumentando o risco de ondas de calor, estiagens e eventos climáticos extremos em diversas partes do mundo.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Historicamente, esse fenômeno altera o regime de chuvas no Brasil, favorecendo precipitações acima da média nas regiões Sul e Sudeste e reduzindo as chuvas em parte do Norte e do Nordeste.

Em Pernambuco, a preocupação está voltada principalmente para a possibilidade de agravamento da seca após um primeiro semestre considerado mais favorável. Entre fevereiro e maio deste ano, as chuvas dentro da normalidade contribuíram para reduzir gradualmente as áreas sob seca, melhorando parcialmente as condições dos reservatórios e da produção agrícola.

Segundo a meteorologista da Apac, Edvânia Pereira, a intensidade dos impactos dependerá do comportamento do fenômeno e da interação com outros sistemas climáticos.


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