O DERRADEIRO ABOIO, POR ONALDO QUEIROGA

Se existe algo que lembra o sertão, sem dúvida, que é o aboio de um vaqueiro. Esse canto vagaroso que transparece um compasso que segue o ritmo da boiada e que termina por afervorar os animais, tem realmente a cara do Nordeste, apesar de também lembrar o interior das Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul e do Goias. 

Parece que estou vendo, o vaqueiro tangendo o gado pelas veredas levando-o para as  pastagens e de volta ao curral. Ei boi! Ei boi! Boi, boi, boi. Com esse introito, o vaqueiro vai conduzindo os animais e construindo seus versos em forma de aboio, modalidade de origem moura, cultura trazida pelos escravos portugueses da Ilha da Madeira. 
Com versos centrados em temas agropastoris, o aboio é um dos mais belos traços da nossa cultura. Encantador  também é quando estamos diante de uma vaqueirama. Nessa reunião de vaqueiros para apartar o gado em meio ao movimento de apartação, eles aboiam, numa erupção de versos dolentes, parecem  conversar com o gado. O barulho do chocalho misturado com o mugido e os aboios, são sons místicos que ainda ecoam no sertão nordestino. 

Embrenhado nas ressequidas e cinzentas terras sertanejas, com suas indumentárias típicas e montados em seus cavalos, os vaqueiros desviam cactus espinhosos, buscam pegar no rabo do boi, levá-lo ao chão, dominá-lo e conduzi-lo ao curral. Toda essa cena é comumente retratada nos aboios que sonorizam o mundo chamado sertão. Falando em aboio, não podemos deixar de registrar que o Gonzagão foi um grande aboiador.  Uma simples incursão por sua obra constata este aspecto. Com o Padre João Câncio criou a própria "Missa do Vaqueiro", em Serrita, onde no curso das celebrações aboiou muitas vezes para uma imensidão de vaqueiros, que sob um causticante sol carregavam uma inquebrantável de fé. 

Conversando com Joquinha Gonzaga, seu sobrinho, ele me relatou que presenciou o derradeiro aboio. Imaginem Gonzaga muito doente, interno no Hospital Santa Joana, Recife, numa última madrugada, tomado pelas dores ósseas que lhe dominavam impiedosamente. Ele não gritava, me falou Joquinha com os olhos marejando: - "Não, doutor. Ele olhava para mim e Edeuzuíta Rabelo e aboiava. Aboiava com toda força de sua alma, e de forma dolente, ecoava um aboio tangendo um gado imaginário, aboiava como se tangesse as suas dores e sofrimentos. Eram aboios do adeus, algo que nos levava às lágrimas. Era um homem forte demais". 

O aboiador não morreu, nunca morrerá. Continua vivo nos aboios que ainda ecoam pelo Nordeste, denunciando injustiças e para mostrar a fortaleza e alegria de seu povo.

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