MARIO QUINTANA: ELES PASSARÃO...EU PASSARINHO

 "Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!"

Versos simples, pontiagudos e bem-sacados sobre coisas cotidianas com a habilidade de um cronista. Textos curtos, mas intensos. O estilo marcante da poesia do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), nascido há 120 anos, combina tão bem com a lógica das redes sociais que sua poesia acabou ganhando uma nova vida em posts contemporâneos, compartilhada mesmo por quem nem sequer sabe a autoria de tais versos.

"Ele faz parte das referências poéticas das pessoas comuns", diz o professor e escritor Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Para ele, os textos atribuídos a Quintana, "verdadeiramente ou falsamente", demonstram que seu estilo "se impôs nos frequentadores das redes sociais".

"Dadas as referências ao banal, à experiência humana de renúncia e de amor à vida, sua poesia é um pão e vinho sagrados, que se multiplicam entre os que têm fome de poesia", analisa.

O escritor contemporâneo Saulo Florentino, que tem se debruçado sobre a presença da literatura nas redes sociais, associa essa fama atual de Quintana ao seu jeito de poetizar "sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade". "Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas", diz.

Florentino concorda que o estilo curto, sintético, do poeta gaúcho parece feito para a era das redes. "A sociedade atual vive da circulação de frases. As pessoas se acostumaram a pequenos comprimidos de poesia", define.

Tal protagonismo digital tem como efeito colateral os versos erroneamente atribuídos a Quintana. "Isso também diz algo interessante", avalia Florentino. "Mostra que existe uma espécie de imaginário coletivo sobre quem foi Mario Quintana e que, quando alguém encontra uma frase melancólica ou delicada, acredita que a mesma foi escrita por ele."

Para o escritor contemporâneo, existe um "reconhecimento involuntário da identidade estética e textual" de Mario Quintana.

Criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor de literatura Emerson Rossetti vê na poética de Quintana uma tríade de elementos que funcionam muito bem na era das redes. "São aspectos convergentes", afirma.

O primeiro é a simplicidade de sua linguagem. "Com grande apelo poético que atrai bastante a atenção", diz. Outro ponto é a escolha dos temas — privilegiando o cotidiano e a busca do sentido para as coisas banais da vida. "A terceira questão, muito importante, é a sua expressão sintética", acrescenta o professor. "Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet."

Para o cantor e compositor Márcio de Camillo, que desde 2018 tem um espetáculo infantil chamado Crianceiras Mario Quintana, a poética do gaúcho ficou pop "porque o verso é uma maneira rápida de leitura".

Para ele, as redes estão "democratizando mais a poesia" e, neste fenômeno, autores "com versos fantásticos" como Quintana acabam funcionando.

E a poética de Quintana se encaixa no universo infantil da adaptação de Camillo. "Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida", argumenta Camillo.

"Mario Quintana conquistou um lugar especial na literatura brasileira porque soube fazer algo aparentemente simples, mas muito difícil: encontrar poesia nas coisas comuns", contextualiza o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

"Ele não precisava recorrer a grandes acontecimentos ou a uma linguagem complicada para falar de questões profundas. Uma rua silenciosa, uma lembrança de infância, um objeto antigo ou a passagem do tempo podiam se transformar, em seus versos, em reflexões sobre a vida."

"Além disso, Quintana tinha uma maneira muito própria de brincar com as palavras, criando versos que pareciam conversas, mas que carregavam muita reflexão. Sua poesia consegue unir profundidade e simplicidade, fazendo o leitor sorrir e, ao mesmo tempo, pensar", afirma Martins.

E viraliza nas redes porque "consegue dizer muito usando poucas palavras", destaca Martins. Nada mal para alguém que morreu longe da fama em 1994 — depois de viver o auge aos 60 anos, seis décadas atrás.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo a sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

O  IMS ainda atesta que o jovem Quintana não era dos melhores nem em álgebra nem em geografia, mas "as notas altas em francês eram prenúncio do tradutor que ele seria no futuro".

O caminho das letras começou a ser pavimentado em 1924, quando, aos 18 anos, conseguiu emprego na Livraria do Globo, que depois se tornaria importante editora de livros. Inicialmente, Quintana trabalhava como desempacotador.

Gradualmente passou a integrar o quarteto que faria da livraria a lendária editora — a partir de 1928, Edições da Livraria do Globo; depois de 1956, Editora Globo. Eram eles os amigos Henrique Bertaso (1906-1977), o filho do dono do empreendimento; o escritor Erico Verissimo (1905-1975); e o editor Mauricio Rosenblatt (1906-1988).

Era uma trupe que trabalhava junto durante o dia e se divertia durante a noite. No livro Um Certo Henrique Bertaso, Verissimo conta algumas dessas histórias. Por exemplo, a do jantar organizado na casa de um amigo imigrante italiano que tinha, entre os bibelôs decorativos, um gigantesco ovo de avestruz sobre a mesinha de centro.

"Não sei que demônio me soprou ao ouvido a ideia de começar um jogo, já que aquele 'objeto' oval se parecia um pouco com a bola usada no futebol norte-americano", escreveu. E então ele detalhou que foi um amigo arremessando o gigante ovo para o outro até que alguém "teve a trágica ideia de jogar a improvisada bola para Mario Quintana".

"Ora, o nosso querido poeta, que não é bem deste mundo, ergueu-se de repente, recuando e recusando agarrar aquela coisa branca que arremessavam sobre ele…", relatou Verissimo.

"O ovo caiu sobre a mesa e partiu-se, espalhando sobre a toalha um líquido gosmento, dum amarelo sujo, e dum fedor sulfuroso de podridão milenar — um fedor pré-histórico, que nos entrava pelas narinas, medonho, ácido, apocalíptico, como um resumo de todas as decomposições do mundo através dos séculos… um horror!"

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O RÁDIO E A MODERNIDADE DIGITAL

Quando grupos de mídia querem falar sobre a relevância da radiodifusão no Brasil, usualmente destacam a confiança da população no rádio, TV, jornais e revistas no combate à desinformação. Nesses tempos de IA, em que tudo é manipulável, não é segredo que a mídia tradicional tem se tornado um dos principais pilares da democracia. Ainda assim, existe um nítido descompasso que abala a sustentabilidade do setor. 

Diversas pesquisas apontam a liderança da mídia tradicional em confiança. TV, rádio, jornais e revistas também são massivamente consumidos pelos brasileiros em todas as plataformas. Mesmo assim, o dinheiro da publicidade segue rumo às plataformas digitais controladas por um punhado de gigantes de tecnologia. Pior, o destino deste dinheiro é cada vez a mídia programática, o que, na prática, significa menos receita até mesmo para os grupos de mídia que se digitalizam. 

O investimento publicitário realizado por meio de agências no Brasil somou R$ 28,9 bilhões em 2025, crescimento de 10% em relação ao ano anterior, segundo dados do Painel Cenp-Meios. A verba cresce, mas a receita da mídia tradicional encolhe.

Se nosso conteúdo é confiável e seguro, e principalmente, altamente eficiente para vender produtos e comunicar mensagens para uma imensa parte da população, por que estamos perdendo terreno para as gigantes de tecnologia?]

Passamos uma década explicando ao mercado que os anúncios em nossos meios aparecem ao lado de conteúdo verificado, num ambiente sem fraude, sem bots, sem o adjacente tóxico que assombra a open web. Vale notar que nem mesmo as gigantes de tecnologia questionam a qualidade do conteúdo em mídia tradicional. Prova disso é que usam conteúdo de mídia tradicional para treinar suas IAs e até o YouTube diz que quer virar TV.

Talvez o nosso problema seja usar argumentos racionais sobre segurança de conteúdo, quando para CEOs, CFOs e executivos que decidem onde alocar os orçamentos de mídia, isso seja irrelevante. 

Quem assina o cheque não perde o sono ao investir no Google e Meta, mesmo diante das sucessivas polêmicas dessas empresas. Qualquer executivo medianamente informado sabe que Google e Meta foram condenadas por viciarem até menores de idade em seus apps. Alguém ainda pode dizer que desconhece o fato de as gigantes de tecnologia lucrarem com polarização e fraudes em suas plataformas? 

Porém, o que realmente tira o sono dos executivos é o medo de vender menos que seus concorrentes. Ou seja, a mídia tradicional precisa mostrar que, além de confiável e brand-safety, é melhor para vender do que as outras plataformas. 

E esta é uma das maiores ironias do mercado de comunicação, porque o rádio, a TV, os jornais e as revistas ainda são altamente efetivos para mover negócios. Não somente por serem mais seguras e confiáveis, mas simplesmente pelo fato de que são amplamente consumidas pelos brasileiros. E mais, hoje nos tornamos até mais baratos em comparação às plataformas das gigantes de tecnologia.

O problema não é a TV, rádio ou mídias tradicionais em geral medirem menos ou possuírem menos dados. Em muitos aspectos, medimos demais, mas medimos a coisa errada. Alcance, frequência e viewability são ideias abstratas para CFOs, CEOs e donos de negócio. Confiabilidade e brand safety, também. Veja o exemplo da TV, bilhões de dólares deixam de ser investidos no mundo todo pelo fato de ainda não termos uma métrica cross-media universal.

Obviamente, as gigantes de tecnologia dificultam o lançamento de soluções de medição que indiquem números negativos para elas mesmas. Afinal, o mercado usa números criados pelas próprias plataformas. Ainda assim, as empresas de tecnologia criaram uma narrativa poderosa de infalibilidade de seus próprios números e soluções. É uma grande falácia.

Nesta semana, clientes da Meta, que até pouco estavam encantados com a perspectiva de comprar anúncios criados por IA nas plataformas do Instagram e Facebook, descobriram que as peças não raro continham problemas como imagens distorcidas e informações incorretas. Quando os clientes cobraram uma solução, a Meta respondeu que a culpa era de quem produziu os anúncios, ou seja, do cliente e não da plataforma.

No sucesso, o mérito é da Meta. No erro, a culpa é do cliente que “não entende a tecnologia”. Não faz sentido nem é racional, mas o encanto da ciência é poderoso. Mesmo com a IA ainda sendo falha e insuficiente para resolver demandas de mídia, é uma narrativa que atrai clientes. 

Estamos fora desse jogo porque, em boa medida, não estamos falando a língua dos CFOs, CEOs e executivos, que querem ver números que indiquem vendas. Simples assim.

A Tenk TV, associação das três principais emissoras da Noruega, fez a publicidade em TV crescer mais rápido que o mercado. Alcançaram uma alta recorde de 7,9%, com o streaming (BVOD) já superando o YouTube e mais anunciantes aumentando o investimento em TV (de 10% em 2024 para 17% em 2025).

As emissoras norueguesas se uniram em torno do objetivo comum de reconquistar a verba das redes sociais. Para isso, alinharam discurso, dados, eventos e pesquisas. Focaram nos pontos fortes da TV, evitaram a mídia programática em favor de negociações diretas, ofereceram soluções coletivas de MMM, levaram anunciantes em viagens de estudo e passaram a modernizar a medição para representar melhor a TV nos dados locais. Agora miram o mercado de PMEs. 

A lição dos noruegueses é agir como bloco, e não como concorrentes. Essa é uma das formas mais eficazes de atrair investimentos em disputas com big techs.

A mídia tradicional tem uma oportunidade enorme em um mundo pautado pela IA. Mas precisamos ser mais ambiciosos e organizados. Se não temos os bilhões de dólares das multinacionais de tecnologia, devemos ampliar as alianças entre os grupos tradicionais para produzir pesquisas e mostrar resultados da mesma forma que fazem as gigantes de tecnologia. Também precisamos de soluções de publicidade unificadas, mais acessíveis e exclusivas de veículos tradicionais.

Gigantes de tecnologia publicam constantemente resultados (pesquisados por eles mesmos) que mostram sua efetividade e como entregam valor ao cliente. Nossos esforços ainda são limitados neste sentido. Além de estudos mais amplos mostrando a eficiência da mídia tradicional, precisamos lutar por maior regulação do setor digital, como fizeram a Austrália, o Canadá e a União Europeia.

Entidades de setor nunca foram tão importantes, como mostra a Tenk TV. Elas são uma forma eficiente de alinhar e organizar demandas institucionais e criar oportunidades. Enquanto persistir a ideia de que concorremos uns com os outros, seguiremos sendo consumidos por adversários maiores e mais poderosos. Apenas ter conteúdo seguro e confiável, infelizmente, hoje não é o bastante.

Guilherme Ravache – consultor digital, colunista e palestrante, com publicações de artigos sobre inovação, marketing e mídia no Valor Econômico. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época

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HUBERTO CABRAL É INTERNADO EM JUAZEIRO DO NORTE, CEARÁ

O jornalista cratense Huberto Cabral, de 89 anos, foi internado na tarde desta terça-feira (28) no Hospital Regional do Cariri (HRC), em Juazeiro do Norte, após apresentar suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo a unidade hospitalar, ele está sendo acompanhado pela equipe médica e responde bem ao tratamento. NotíciasCrajubar

De acordo com o diretor do HRC, Wilton Almeida, Huberto Cabral deu entrada na unidade por volta das 13h e passou por atendimento de emergência. 

"Já foi recebido, medicado, foram tomados todos os exames dele necessários. Os médicos estão fechando o diagnóstico para ver o que é precisamente. Os exames de emergência já foram feitos e ele está sendo bem acompanhado", informou Wilton ao jornalista Franzé Souza.

Em nota, a Rádio Educadora do Cariri FM, onde Huberto Cabral atua como colaborador desde a fundação da emissora, há 67 anos, pediu orações pela recuperação do jornalista.

"A Família Rádio Educadora do Cariri FM pede orações a todos e aguarda novas informações do HRC, na torcida pela breve recuperação do colega colaborador", diz o comunicado.

Com mais de sete décadas dedicadas ao jornalismo, Huberto Cabral é considerado um dos maiores memorialistas do Cariri e frequentemente chamado de "enciclopédia viva" da região por sua memória sobre fatos históricos. NotíciasCrajubar

Ele cobriu acontecimentos marcantes do Ceará e entrevistou presidentes da República, como Castello Branco, Ernesto Geisel, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Em reconhecimento à contribuição para a preservação da memória regional, recebeu, em 2019, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri (Urca).


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Fórum pede compromisso de candidatos com comunicação democrática

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) vai lançar, no próximo sábado (1º), uma carta de compromisso com a defesa da democracia e com a comunicação democrática para toda a sociedade. A ideia é buscar a adesão pública de candidatos e pré-candidatos às eleições deste ano.

O documento traz uma série de pontos com o objetivo de fortalecer a democratização da comunicação no Brasil. Segundo o FNDC, também são propostas para defender a comunicação pública, comunitária e educativa, além de fazer frente ao monopólio das grandes empresas de comunicação digital.

Soberania Tecnológica e Infraestrutura Nacional: investimento no desenvolvimento de aplicações próprias gratuitas para reduzir a dependência de corporações estrangeiras. Proibir a privatização de empresas como Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Dataprev.

Regulação da tecnologia de Inteligência Artificial: firmar regras para o desenvolvimento e uso da Inteligência Artificial voltadas à garantia de direitos que vetem o uso com risco excessivos (como reconhecimento facial na segurança pública), combatam o racismo e a violação de direitos.

Proteção a Jornalistas e Comunicadores: fortalecimento de programas de proteção contra violências e intimidações, especialmente para profissionais da comunicação e comunicadores que atuam em territórios de conflito.

Proibição da Propriedade de Mídia por Políticos: efetivar o Artigo 54 da Constituição para impedir que pessoas detentoras de mandato possuam concessões de rádio e TV.

Fortalecimento e independência da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e demais empresas públicas de comunicação: garantir orçamento adequado, autonomia editorial, concurso público para as empresas de comunicação pública. Restabelecer o Conselho Curador da EBC e expandir a Rede Nacional de Comunicação Pública.

A leitura da carta, com todos os compromissos, será feita no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Também será feito o anúncio das primeiras campanhas que aderiram ao documento

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FAZENDA NORMANDIA, CARUARU E A AGRICULTURA FAMILIAR

A crise do clima também chega à nossa mesa, ameaçando a segurança alimentar. Em Caruaru, no Agreste pernambucano, o Assentamento Normandia mostra que a resposta a esse desafio pode nascer da terra e da resistência. 

Prova disso é que, há mais de 30 anos, famílias agricultoras vêm construindo um modelo de produção agroecológica que abastece escolas e creches do Agreste à Zona da Mata, chegando até o Recife.  

Símbolo da luta camponesa e um dos territórios mais produtivos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, Normandia nos faz questionar: que agricultura queremos? 

Em 2025, o Brasil viveu o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos,  conforme sinaliza levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. 

Esse foi o mesmo período em que o Brasil bateu recordes de aprovação de pesticidas. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, 38% a mais do que o ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União. 

Solo de terra arada com brotos de plantas agrícolas sob céu parcialmente nublado e vegetação ao fundo.

A produção do assentamento é o cultivo livre de agrotóxicos e transgênicos, um modelo que preserva o solo e a biodiversidade da Caatinga | Foto: Andréia Vitório

No Assentamento Normandia, a história é diferente: famílias agricultoras produzem alimentos a partir da agroecologia, respeitando a biodiversidade e a saúde do solo, sem o uso de agrotóxicos. 

É nesse contexto que ocorre, por exemplo, o plantio do milho crioulo, cultivado em parceria com a Cooperativa de Produção Agropecuária Normandia (CoopaNor), envolvendo agricultoras e agricultores assentados, que funcionam como verdadeiros guardiões da soberania alimentar da região. 

Por lá, a prática do armazenamento de sementes, que atravessa gerações, segue contribuindo para a autonomia produtiva dessas comunidades. 

Nada de alimentos ultraprocessados. O que se vê em Normandia é a adoção de boas práticas de manejo do solo considerando as especificidades do bioma Caatinga para a produção de alimentos como a macaxeira, um dos pilares da agricultura familiar e da alimentação no Brasil, em especial no Nordeste brasileiro. 

“Apesar da nossa dificuldade hídrica, ela consegue resistir tanto quanto a gente. Um pingo de água já faz ela desenvolver. A macaxeira tem nos salvado durante toda nossa história”, conta a agricultora e assentada Mauricéia Matias. 

Bancas de lona branca da feira da agricultura familiar expõem frutas e hortaliças sob grandes árvores ao ar livre.

A produção de alimentos no Assentamento Normandia é diversificada e baseada em práticas agroecológicas. Na imagem, produtos destinados à comercialização | Foto: Andréia Vitório

Nada se perde: “aproveitamos 100% dela. A gente mói a maniva, que serve para a ração animal. Aquela primeira casca, quando a macaxeira vai para a agroindústria ser beneficiada, volta para a terra para fazer o processo de adubação natural. Já a segunda casca serve para alimentação animal”, exemplifica.

A agroindústria beneficia parte da produção à vácuo e há também uma unidade de pães e bolos à base da macaxeira, conhecida por muitos como aipim ou mandioca. Enquanto a produção segue seu ritmo nos moldes agroecológicos, a comercialização é ainda desafiadora.

“A gente tem saberes, inclusive de nossos antepassados, de produção e colheita, mas na hora de comercialização, há uma certa timidez de não saber o valor que esse produto tem”, comenta Mauricéia. “Não estou dizendo que tem que ser caro, mas tem que ser justo, levar em conta o tempo que a gente dedica a essas produções que não têm agrotóxicos e contam com matérias-primas mais selecionadas. Isso tem que fazer diferença”, destaca.

Outra vantagem para o consumidor é saber de onde vem o alimento que está consumindo. Isso faz ainda mais sentido quando lembramos que 90% de toda a cultura de milho no Brasil é transgênica, segundo dados da Embrapa. 

Mas não no Assentamento Normandia: testes químicos e genéticos confirmaram que o cuscuz flocão de milho da marca Normandia é um produto livre de organismos geneticamente modificados (transgênicos) e da contaminação de agrotóxicos. Produzido por agricultores familiares do Assentamento a partir de milho crioulo, o flocão foi lançado oficialmente em 2025. 

Assentamento Normandia-Em 1993, 247 famílias de trabalhadores rurais sem-terra, provenientes dos arredores de Caruaru, Agreste Pernambucano, ocuparam a Fazenda Normandia, que contava com 1.100 hectares improdutivos. Juntas, começaram a plantar hortaliças, milho, feijão e abóbora para vender na feira.  Também construíram casas de taipa e uma escola. 

Nascia, assim, a primeira experiência de educação em assentamentos da região. A ocupação durou quatro anos.  Em 1997, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento das famílias na área.

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares | Foto: Andréia Vitório

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares. Além disso, Normandia é conhecido por abrigar, desde 1998, o Centro de Formação Paulo Freire, espaço de eventos de formação e mobilização política, responsável por aproximar saberes tradicionais, populares, políticos e acadêmicos para o fortalecimento da agricultura familiar e suas boas práticas, mantendo viva a semente da resistência. 



 






 




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FORMAÇÃO DE JUVENTUDES PARA A CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Foi com lágrimas e abraços apertados, como demonstração de afeto construído pela aproximação ao longo de 14 dias de convivência e também com mística e ato simbólico do plantio de duas árvores de licuri, que chegou ao fim, na segunda-feira (20), a 32ª Escola de Formação de Juventudes para a Convivência com o Semiárido (EFJCSA). 

Nas diversas falas ao longo do encerramento, frases como “saio daqui com o coração rebelde em busca de mudanças” e “vou levar o que aprendi aqui para minha comunidade” ilustram muito do que a EFJCSA representa. A programação contou com atividades e discussões intensas sobre temas sociais urgentes, como a luta antirracista, a diversidade de gênero e os desafios atuais enfrentados pelas juventudes; também houve estudos a respeito de diversos assuntos relacionados à Convivência com o Semiárido, que perpassam desde os cuidados básicos com o solo, a criação, a água e as práticas nos quintais produtivos até os assuntos mais estruturantes, como educação contextualizada, os direitos ainda negados às comunidades rurais, as possibilidades para a geração de renda e as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. 

Com o tema “Corpo, terra, água e memória: ancestralidade e saúde no Semiárido”, essa tradicional Escola de Formação, realizada pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), reuniu, nesta edição, 40 jovens dos estados da Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Nesse sentido, mais uma vez, a EFJCSA proporcionou o encontro de uma diversidade de vozes, rostos e vivências. E o resultado, novamente, foi a construção de um espaço de rica troca de saberes e que mantêm a esperança em uma juventude que faz acontecer, que assume o protagonismo das suas histórias e o compromisso com a coletividade, a defesa dos territórios e as causas sociais populares. 

“Uma das coisas que levo, com certeza, é a diversidade de opções que o Semiárido nos dá para sobreviver, para nosso sustento, para cuidar dele também. O Semiárido é muito resiliente e isso nos proporciona refazer nossa trajetória por diversos caminhos. Levando sempre em consideração que, nesses caminhos, a gente precisa mantê-lo (o Semiárido, os biomas) de pé, que a vida depende do nosso cuidado”, ressalta a jovem participante Brice Reis, integrante da Rede Pintadas – Cooperação e articulação no semiárido baiano, do município de Pintadas-BA.

Para o jovem oceanógrafo que atua como assessor de pescadoras artesanais em Recife-PE e  integrante do Projeto Jandaíras, Matthews Rocha, os conhecimentos da Escola de Formação o inspiram a trabalhar a Convivência com a realidade dele:

“O que aprendi aqui tá para além do Semiárido, se a gente pensar o nosso litoral, o agreste, a gente pode fazer relações, confluências com outros biomas, com outros espaços, outras pessoas e organizações. Levo muito aprendizado, muita gratidão por tudo que aprendi aqui (…) Aprendi com a juventude que é possível viver bem onde quer que a gente esteja, porque a gente não é só futuro, a gente é presente; a gente tem apresentado perspectivas de vida, de viver bem onde a gente está vivendo, nos nossos territórios, nas nossas comunidades”. 

Matthews complementa ainda sobre a importância das discussões relacionadas à contextualização do ensino e que, diante da realidade atual, é preciso mesmo ter “uma educação antirracista, uma educação feminista, anticapacitista, que sabe dialogar, que sabe escutar, que sabe conviver com as pessoas, sabendo que cada pessoa tem algo a dizer e a ensinar”.

As abordagens de assuntos como as oportunidades para a juventude em suas respectivas realidades e da sucessão rural chamaram a atenção da participante Mirela Nascimento. “Não precisa sair da nossa vida no meio rural atrás de empregos na cidade, que é o que acontece muito. Eu acredito que você pode sim ter uma vida muito melhor trabalhando no rural”, defende. 

Mirela, que participa de um projeto voltado a jovens multiplicadores no Assentamento Vieira dos Carlos, em Trairi-CE, também destacou o tema da ancestralidade, pautado nessa edição da Escola: “Não tem um presente e um futuro sem a ancestralidade, sem um passado, porque todos nós temos uma história e essa história foi construída com os nossos antepassados”. 

O técnico em agropecuária e estudante de agronomia João Pedro Bueno ressalta que os conhecimentos também vão contribuir para o trabalho desenvolvido na área da Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER), pois ele atua como Agente Comunitário Rural (ACR) e nas ações do Projeto Dom Helder Câmara em Cajazeiras-PI.

"Aprendi muito, desde a questão da conservação dos solos e das águas (…) Essa imersão foi muito importante para a  minha a vida, porque a partir desse momento, vai agregar bastante para levar para a minha comunidade e para todas as pessoas que eu trabalho com a assistência técnica”.

Vivências de intercâmbios no Território 

Além de todas as atividades teóricas e práticas realizadas no Centro de Formação do José Rodrigues, a roça do Irpaa, também houve visitas a lugares marcantes do Território Sertão do São Francisco e que representam uma parte significativa das lutas dos povos do Semiárido: a força da coletividade que Canudos ensina; o impacto da construção da Barragem de Sobradinho na vida das famílias que viviam na região; a potência que é a Educação Contextualizada e a Pedagogia da Alternância, representadas pelas práticas da Escola Família Agrícola de Sobradinho; os cuidados com Velho Chico e a vitrine da Agricultura Familiar e do Cooperativismo, no Armazém da Caatinga em Juazeiro.

Em cada vivência, as juventudes puderam conhecer detalhes da história, refletir sobre as narrativas não contadas oficialmente, os desafios atuais e o quanto cada um/a pode se inspirar para seguir construindo um futuro melhor. Nesse sentido, o jovem Matthews enfatizou o que os intercâmbios significaram:

“Se não fosse pela Escola de Formação talvez eu nunca estivesse em Canudos, talvez eu nunca estivesse em Sobradinho. São lugares diferentes do ponto de vida dos destinos que foram impostos para aquele território. Canudos é esse lugar de muita resistência, que nos mostra que Canudos foi uma construção de resistência, na base da luta, da solidariedade, da Convivência com o Semiárido. Canudos é um lugar que inspira, principalmente nós, a construir um presente, um futuro melhor para nossas comunidades mostra que os movimentos sociais, as lutas populares, os grupos organizados vêm apresentando alternativas há muitos anos para um mundo melhor, uma vida melhor, com base na solidariedade, da fraternidade, do amor, companheirismo (…) Tem muita história que às vezes são invisibilizadas; acho que só com os intercâmbios a gente consegue ter essa capacidade de olhar, de sentir; estando lá pisando naquele chão, olhando com os nossos olhos, abrindo o coração para tudo aquilo que está na nossa frente”.

A jovem Brice Reis afirma que as reflexões em Sobradinho são importantes para compreender os detalhes históricos e quais os impactos causados por grandes empreendimentos, como a barragem: “Quando você conhece a história você percebe que aquela paisagem bonita nasceu da extinção de uma cultura, de todo um costume, de um povo. Então isso acaba deixando a gente reflexivo a respeito do solo que estamos pisando hoje: quem foi que pisou antes de nós?”.

A partir das avaliações dos intercâmbios em todos os espaços, em resumo, a juventude demonstrou a necessidade de conhecer cada vez mais as realidades, de se apropriar da história, de se inspirar nos ensinamentos dos antepassados e de estar atenta aos desafios e potencialidades dos tempos atuais.  

Durante a mística de encerramento da Escola, o presidente do Irpaa, José Moacir dos Santos, agradeceu a participação de cada jovem e reforçou o papel fundamental da juventude no trabalho de multiplicação de saberes. “Vocês têm um conhecimento que a maioria das pessoas não tem. Então, a gente volta com mais esse compromisso: ‘vou ser aquele que me calei, com medo das dificuldades’ ou vou ser ‘aquela que me juntei com outras tantas que tem aí e tocamos essa luta para a frente’?”, estimulou.

“Vamos continuar fazendo essa formação e construir essa rede de lutas por esse Semiárido vivo, por esse Semiárido rico, com nós dentro e vivendo bem. Essa é a ideia dessa Escola”, concluiu Moacir.

A 32ª EFJCSA  foi apoiada por projetos do Irpaa com a cooperação internacional, a exemplo do “Agenda 2030 no Semiárido Baiano”. Esta edição também contou com o apoio do “Projeto Baraúnas dos Sertões”.

Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa | Fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa e participantes da 32ª EFJCSA

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56 MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA.

A 56ª edição da Missa do Vaqueiro reuniu milhares de fiéis e vaqueiros neste domingo (26), no Parque Estadual João Câncio, em Serrita, no Sertão Central. Considerada uma das mais importantes manifestações de fé e cultura popular do Nordeste.

Compreender que a história vem se tecendo com a força da própria vida. E por isto, disse o cantador Virgilio Siqueira, daí não ser possível guardar na própria alma a transbordante força de uma causa. Daí não ser possível retornar, afinal, a gente nem sabe ao certo se de fato partiu algum dia...

Tengo/legotengo/lengotengo/lengotengo … O vaqueiro nordestino/morre sem deixar tostão/o seu nome é esquecido/ nas quebradas do Sertão ...” Os versos ecoam pelo lugar, realçados pelo trote dos animais e o balançar natural dos chocalhos trazidos pelos donos, todos em silêncio. É música. É arte.

Cada arte emociona o ser humano e maneira diferente! Literatura, pintura e escultura nos prendem por um viés racional, já a música nos fisga pelo lado emocional. Ao ouvir música penetramos no mundo das emoções, viajamos sem fronteiras.

Realizada anualmente sempre no quarto domingo do mês de julho, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga e criada com os amigos Padre João Câncio e Pedro Bandeira.

A Morte do Vaqueiro, música composta por Nelson Barbalho, ainda ecoa nos sertões brasileiros: Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja de seus colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Luiz Gonzaga queria mais. Dessa forma, ele se juntou a João Câncio dos Santos, na época padre que ao ver a pobreza e as injustiças sociais cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão, para fazer do caso do vaqueiro Raimundo Jacó o mote para o ofício do trabalho e para a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Raimundo Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas, como chapéu de couro, chicotes e berrantes, ao altar de pedra rústica em formato de ferradura. 

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre. A Missa do Vaqueiro enche os olhos e coração de alegria e reflexões. Poetas e cantadores se fazem presente ao evento e iluminam com uma mágica leveza rimas e versos nos improvisos da inteligência. Vaqueiros e suas mãos calejadas, rostos enrugados pelo sol iluminam almas.

Em Serrita ouvimos sanfonas tocando alto o forró e o baião. Corpo e espírito ali em comunhão. A música do Quinteto Violado, composto por Janduhy Filizola é fonte de emoção. A presença de Jesus Cristo está no pão, cuscuz, rapadura e queijo repartidos/divididos na liturgia da palavras.

Emoção! Forte Emoção é que sinto na Missa do Vaqueiro ao ouvir sanfona e violeiros:

“Quarta, quinta e sexta-feira/sábado terceiro de julho/Carro de boi e poeira/cerca, aveloz, pedregulho/Só quando o domingo passa/É que volta os viajantes aos seu locais primitivos/Deixa no caminho torto/ o chão de um vaqueiro morto úmido com lágrimas dos vivos.

E aqui um assunto místico: quando o gado passa diante do mourão onde se matou uma rês, ou está esticado um couro, é comum o gado bater as patas dianteiras no chão e chorar o sentimento pelo “irmao” morto. O boi derrama lágrimas e dá mugidos em tons graves e agudos, como só acontece nos sertões do Nordeste!

Assim eu escutei e aqui reproduzo...

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EDGAR MORIN 100 ANOS PRODUZINDO OBRAS

Edgar Morin soube conquistar pelos seus textos. Introdução ao Pensamento Complexo é um livro escrito, suponho, para aquelas pessoas que, pela primeira vez, entram em contato com as ideias desse pensador. Em seis capítulos, por 120 páginas, somos gradualmente introduzidos às ideias da Complexidade, ou do Pensamento Complexo, segundo uma visão convincente, que reúne múltiplos conceitos que, ao seu melhor estilo, se complementam, concorrem, antagonizam.

Para pessoas formadas nas ciências tradicionais, onde o espaço cartesiano é a possível descrição do mundo, onde equações regem não só a física e a química, mas as relações e comportamentos humanos, as ideias de Morin surgem, ao mesmo tempo, como um choque e uma luz.

O choque advém de sabermos que nossa forma de ver e analisar a realidade é incompleta e limitada. Todo nosso conhecimento disciplinar irá nos levar, inefavelmente, a limites insuperáveis.

A luz, por outro lado, mostra que podemos viver, cientificamente, com os contrassensos que não serão superados. Eles existem e vão persistir, não por falta de uma explicação mais ampla, uma teoria unificadora, mas porque sua presença demonstra nossa incapacidade de lidar com a natural existência de conflitos e oposições.

Quando Morin se propõe a explicar essas situações, usa formas simples e claras. Afirma que o ser humano é, ao mesmo tempo, formador e formado pela sociedade. Que nós somos feitos de células. Mas cada célula individual contém nossa totalidade.

Explica também que, embora as ideias e os conceitos surjam dos humanos, eles de repente adquirem vida autônoma e fazem com que nós próprios, seres humanos, os sigamos, lutemos e morramos por eles. Ou não é isso que acontece com as religiões, os sistemas políticos e econômicos, as ciências?

É difícil uma pessoa não ter sua forma de ver o mundo profundamente alterada depois de ser tocada pelo Pensamento Complexo. A frase tão comum: “na verdade, isso é complexo”, adquire um significado diferente, maior, onde a compreensão de que o todo influencia as partes que, por sua vez, influenciam e formam o todo, passa a moldar essa nova perspectiva.

Mas, é claro, esta não foi sua primeira obra.

A carreira de escritor cientista, ou podemos dizer, de arguto observador da realidade, começa ainda em 1946, quando ele tinha 25 anos e parte para a Alemanha derrotada, como soldado do exército francês de ocupação com o objetivo autoimposto de tentar entender como a bestialidade havia tomado conta de um país como aquele. Das impressões desta experiência resulta seu primeiro livro, Alemanha Ano Zero.

Sua perplexidade com a morte, inicialmente provocada pelo falecimento da mãe em 1931, não o havia deixado e, então escreve o segundo livro, O homem e a morte. Nele, Morin tenta uma abordagem multidisciplinar para um tema que, segundo ele mesmo, nunca havia sido tratado de forma científica.

A Europa se recupera economicamente e a sociedade de massas fascina Morin que busca apreender os fenômenos de seu tempo. E assim, volta sua atenção ao cinema para compreender o surgimento das estrelas, um fenômeno tão característico do pós-guerra. Escreve, em 1956, Cinema ou o homem imaginário e, em 1957, As estrelas, mostrando como o surgimento dos ídolos cinematográficos, na verdade, atende à necessidade humana por heróis.

É marcante como Morin migra de temas e interesses como alguém sensível aos fenômenos que motivam e moldam a sociedade humana europeia e contemporânea.

E assim, na década de 1960, parte para uma aventura científico-antropológica. Vai viver com um time que conta com alguns pesquisadores e pesquisadoras, em uma pequena comunidade na Bretanha, sul da França. Lá se integra com a sociedade local e registra seu comportamento.

Posteriormente publica, em 1967, o livro Commune en France. La métamorphose de Plodémet. Embora Morin e sua equipe acreditem que era um relato de pesquisa, são duramente criticados pela própria comunidade que se sentiu usada e teve sua confiança traída.

O colega e cientista Jaques Monod, que havia ido dirigir o Instituto Salk nos EUA, convida Morin para uma temporada na qual ele permanece entre 1968 e 1969. Estuda as teorias cibernéticas de Norbert Wiener e colegas, as teorias sistêmicas de Bertalanffy e demais e ainda a teoria da informação, de Shannon, Weaver e Brillouin. O fruto desta estadia foi o início da escrita d’O Método.
O primeiro volume, cujo subtítulo é A Natureza da Natureza, foi publicado em 1977. O texto é uma verdadeira saga científica na qual Morin funde e combina conceitos da física, teoria da informação, auto-organização entre muitos outros.

A proposta de abordar os múltiplos conhecimentos humanos a partir de visões de diferentes ciências disciplinares, integrando-as em um conjunto, prosseguiu por muitos anos e culminou com a publicação do sexto volume, Ética, em 2004.

Nesse um quarto de século, Morin construiu não só as bases do Pensamento Complexo como produziu várias outras obras que influenciaram cientistas e leigos pelo mundo, com especial destaque para a América Latina.

Seria prepotente tentar condensar o conteúdo de O Método, obra tão abrangente, em poucos parágrafos. Ainda assim, para tentar fazer jus ao autor sem, no entanto, obrigar leitoras e leitores a ir à fonte, segue um breve relato de cada volume. De qualquer modo, a leitura da obra completa de Morin é profundamente gratificante.

Volume 1
Na Natureza da Natureza (vol. 1), Morin menciona e define alguns conceitos. Argumenta que, a partir da ideia de sistema, temos uma interação entre todos e partes, que as organizações são sistemas auto-organizados, que esta organização ocorre através de um fluxo de informações.

Explica que ordem e desordem são faces da mesma realidade. Precisamos que os elementos estejam desorganizados para organizá-los. Mas se tudo estiver organizado, haveria um cenário de equilíbrio estável no qual nada mais mudaria. Então é função da desorganização entrar em ação e mudar o status quo. Ele diferencia os sistemas das organizações quando afirma que os primeiros enfatizam as relações enquanto os segundos formam um todo coeso.

Outro aspecto destacado é a relação entre observador e sistema observado. Von Foerster já havia destacado esse aspecto na cibernética de segunda ordem. Na concepção de Morin, não existe um “fora do sistema”. Estamos imbricados nele, que nos influencia e, o que evidenciamos são nossas verdades parciais, não uma “realidade absoluta”.

Morin amplia o conceito de máquina. Enquanto, em geral, se pense em máquinas como dispositivos artificiais criados por humanos, ele as considera simplesmente como fenômenos de produção, como o Sol ou os Seres Humanos.

A Emergência é outro conceito complexo que merece atenção neste volume. Nesse sentido, a discussão se dá em torno da realimentação (conhecida como feedback) que, ao reintroduzir partes das saídas nas entradas, suscita a criação do novo.

Ressalta a importância do erro, que não seria o equívoco mas a fonte da novidade. Sem o erro, as coisas permaneceriam como estão, pela eternidade.

No final do volume, destaca que o conhecimento complexo não é operacional com a ciência clássica mas esta é operadora de manipulação. A verificação implica na manipulação (em seu mais amplo sentido). E isso nos leva à barbárie de nosso tempo.

Assim, a ciência complexa busca a ação mas que seja liberação, autoconhecimento, solidariedade. Ela reconhece o mistério presente em todas as coisas.

Volume 2
Em A vida da vida, Morin discute as questões da biologia que, de forma geral, não foram discutidas anteriormente. O tema é tão amplo que o índice se estende por seis páginas.

Talvez a essência deste volume possa ser “resumida” no conceito da auto-geno-feno-ego-eco-re-organização. Assim, a vida é, antes de tudo, uma forma de organização (dos elementos químicos, proteínas, de formas de manutenção e reprodução). Cada um destes prefixos salienta um aspecto da organização viva. Re- pois ela se reorganiza permanentemente; Eco- pois está intrinsecamente ligada ao meio; Ego- pois é voltada a si mesma, necessário à sua sobrevivência; Feno- é a manifestação do externo em cada um; Geno- pois carregamos em nós nossa história e genética; e por fim Auto- pois tudo isso ocorre de forma autônoma, para que a vida possa se perpetuar.

Volume 3
O conhecimento do conhecimento trata da discussão do que é nossa compreensão e como ela se forma em nós e nós a formamos.

Em sua análise, a discussão da relação entre mito e logos é, antes de tudo, uma questão de discurso. E mostra como antigos mitos (hoje vistos como superstição) foram substituídos por novos “mitos” como democracia, capitalismo ou burguesia e proletariado.

É fascinante ver descortinar no nosso entendimento como as oposições convivem. Nas suas conclusões, Morin afirma que o conhecimento objetivo produz-se na esfera subjetiva que, por sua vez, está situada no mundo objetivo.

Afirma que conhecimento seria impossível em um mundo determinista ou totalmente aleatório. “Só podemos conhecer um mundo fenomenal situado no espaço e no tempo, comportando unidade, pluralidade, homogeneidade, diversidade, invariância e mudança. Trata-se de nosso mundo uno/diverso dos fenômenos físicos/biológicos/antropológicos submetidos à dialógica da ordem/desordem/organização.”

Volume 4
Diferente dos outros, este tem um subtítulo maior: As ideias: habitat, vida, costumes, organizações.

Ao descrever o conceito de noosfera, criado por Teilhard de Chardin nos anos 1920, Morin descreve um cenário no qual as ideias (conceitos, mitos, ideologias) se formam entre humanos mas, como se adquirissem vida própria, passam a habitar um plano superior. E de lá, comandam a nós, humanos, a lutar pela sua hegemonia e permanência. Ao nos distanciarmos de conceitos como capitalismo e socialismo, ou qualquer religião, vemos o quanto tal noção é verdadeira.

É ainda neste volume que Morin discute a ideia de mindscapes de Magoroh Maruyama, segundo a qual observamos e interpretamos o mundo segundo nossos filtros e conhecimentos.

Volume 5
A humanidade da humanidade descreve o percurso do enraizamento cósmico à emergência humana. É, de certa forma, uma síntese dos volumes anteriores mas discute aspectos que não haviam sido tratados antes.

Ao invés de explicar, Morin descreve sua fascinação com a improvável e inexplicável emergência da vida e da humanidade. Do surgimento do cérebro, do espírito, da linguagem e da cultura.

Trata de três “trindades”: indivíduo/sociedade/espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Esses conjuntos que, normalmente, são tratados separadamente na ciência, passam a ser analisados em sua unidade, como que fazendo parte de um todo mas, como partes individualizáveis, se influenciando e complementando.

Volume 6
Ética. Neste seu último volume, Morin propõe um caminho para a humanidade. Enquanto nos outros, a análise foi exploratória e analítica, neste caso a proposta defende um comportamento que traga esperança aos seres humanos, esperança esta que ele nunca perdeu.

O livro desenvolve a Ética em três planos: a autoética, a socioética e a antropoética.

Em um mundo carente de certezas absolutas e na falta de crenças transcendentes, a autoética é fundamental. Ela comporta uma permanente autoanálise, autocrítica, tolerância e tomada de responsabilidade. Requer compreensão e abertura à magnanimidade. Uma Ética da cordialidade, cortesia e amizade. É notável como ele anteviu as nossas mais prementes necessidades nesse caminhar do século 21, onde os antagonismos e divisões ficaram exacerbados.

A socioética é uma proposta de comunidade com solidariedade e liberdade. Ainda no contexto das noções antagônicas e complementares, afirma que os governos dependem dos cidadãos que por sua vez, dependem do governo. Assim, democracias produzem cidadãos e estes produzem a democracia. O enfraquecimento de um, faz desvanecer o outro.

No plano mais abrangente e ambicioso, temos a antropoética. Com ela Morin defende a ideia de um destino comum da humanidade. Que precisamos de uma tomada de consciência em vários âmbitos: na identidade humana comum e na sua diversidade, na necessidade da compreensão mútua, na nossa relação com a biosfera, na solidariedade com as crianças da terra, no destino comum do planeta.

Este último volume é concluído com uma discussão do Mal e do Bem. Do primeiro destaca que suas causas são irredutíveis, originadas da hubris e dos excessos, da parte demens do humano. E que temos que resistir à crueldade do mundo. Sobre o segundo, elabora mais sobre a Ética complexa. Nela, convivem as antinomias humanas sapiens/demens, faber/mitologicus, economicus/ludens.

E assim, tal Ética precisa enfrentar estas ambiguidades e contradições. Mas deve deixar-nos prontos a regenerar. Que há uma possibilidade no invisível que é real.

Morin conclui o trabalho com esperança e crença que um futuro melhor é possível.

Durante o período em que escreveu O Método, Morin publicou muitas outras obras, algumas influenciadas por esta escrita, outras que, acredito, a influenciaram.

Publica Ciência com Consciência, que é antes um chamado à responsabilidade de cientistas para o uso de suas pesquisas e descobertas.

Em uma linha mais pessoal, escreve um livro biográfico sobre seu pai, Vidal e os seus. Trata, em Sociologia, da sua visão desta ciência disciplinar, e em Terra-Pátria faz seu apelo ecologista, mostrando os efeitos globais da poluição, contaminação e destruição dos recursos naturais, afirmando que estamos todos, seres humanos, nessa nave planeta.

Em Meus Demônios faz um balanço da sua militância no partido comunista, sua expulsão por discordar das linhas do partido e que precede a divulgação dos crimes de Stalin. Já em Cabeça bem- feita discute as necessárias mudanças na educação. A este volume se juntam Religar os conhecimentos e Os Sete saberes necessários para a educação do futuro, que formam uma trilogia sobre os rumos da educação. O último título foi uma encomenda da Unesco que o publicou em muitas línguas e projetou o nome de Morin globalmente.

Continua publicando intensamente, uma média de dois livros por ano, desde os anos 1980 até 2025. São aproximadamente 100 livros, alguns em coautoria. Escreve também prefácios e artigos em numerosos periódicos.

A referência em francês na Wikipedia lista grande parte de suas publicações nesta língua.

Curiosamente, a oferta de títulos em inglês é diminuta, o que daria lugar a boas discussões sobre hegemonia cultural mas que não será tratado neste artigo.

Por outro lado, a presença de obras de Morin em português e espanhol é considerável. Só na lista dos 130 títulos diferentes disponíveis nas bibliotecas da USP, em levantamento deste autor, foram localizados 100, a maioria em português sendo alguns em espanhol.

Além dos temas citados, Morin também tratou da sua visão da questão judaica, tanto na sua relação nas obras biográficas como depois, discutindo mais amplamente temas do conflito israelense-palestino.

Diversas obras tratam de cidades onde viveu, especialmente Paris e outros textos são balanços de sua própria vida e obra. Destas vale destacar Meus filósofos, na qual passeia pelos nomes que vão de Aristóteles à Escola de Frankfurt, passando por muitos outros nomes, não só da filosofia.

Ao contemplar tão vasta obra que reflete o inconformismo de Morin com o status quo, seja da sociedade acomodada, da cultura fossilizada ou dos indivíduos acríticos, a lição que se pode aprender é a do exemplo de alguém que, não só viveu muitos anos mas que soube, nesse longo tempo, manter anseios contemporâneos e a motivação de enfrentar desafios do presente.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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A FORÇA DA AMIZADE, POR JOSÉ SARNEY

 Sempre digo que a amizade é a melhor coisa da vida. O primeiro amigo que Deus me deu foi o livro. Ele me acompanha por toda a minha vida, cada ano com maior presença e estreito aconchego. O livro nos conforta e nos suporta nos momentos difíceis e nas horas tristes. Acredito que tenha passado um quarto de minha vida lendo. Muitas vezes, troquei a companhia do meu sono pela de um livro.

Na verdade, o primeiro amigo que tive, à frente do livro, foi o meu pai. Quando eu tinha poucos anos, durante minha infância, mas já com a consciência presente, meu pai chamou-me e disse: "José, ninguém nasce sem um pai. Eu já sou o teu, agora quero ser também teu amigo". Assim, passei a viver ao seu lado até a sua morte — novo ainda, aos 58 anos —, desfrutando do seu carinho e do seu amor de pai, mas também da convivência com um amigo, na sorte de estarmos sempre juntos: eu ouvindo seus conselhos, as histórias que ele contava, no prazer e na força dessa amizade, numa constante troca de ideias, aprendendo seus ensinamentos sobre educação, disciplina, paciência, prudência, solidariedade e amor.

Deus concedeu-me a felicidade de ter amigos da vida inteira, e não canso de agradecer todos os dias por compartilharem comigo as tristezas e alegrias desta existência. Alguns amigos da infância me acompanharam na adolescência e maturidade. Hoje velhos estamos, velha a nossa amizade permanece. Maranhão, minha terra e meus amigos. (Buzar, diga a todos que estão sempre em meu coração.) E que saudade de Bandeira Tribuzzi, Ferreira Gullar…

Nessas amizades antigas estão as pessoas que nos mostram um "espelho do tempo", não nos deixando esquecer de quem somos verdadeiramente, pois nos conhecem há tanto tempo que, às vezes, nos enxergam com mais clareza do que nós mesmos. Se consideram que agimos de forma que não nos reconhecem em algum momento, nos tropeços da vida, logo dizem: "Que é isso, meu amigo? Nem o conheço mais." E assim nos ajudam a "acertar o passo." 

Não resisto e vou citar alguns nomes para homenagear todos os amigos do início de minha vida parlamentar, pois também não saem do meu coração. Primeiramente, Odylo Costa, filho e Josué Montello. Em seguida, Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Gilberto Amado, Jorge Amado, nossa querida Zélia, Rachel de Queiroz, Alceu Amoroso Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Austregésilo de Athayde, Carlos Chagas Filho, João Cabral de Mello Neto, Otto Lara Resende, Carlos Castelo Branco, José Américo de Almeida.

Nos meus 60 anos de vida política, em que tive a sorte e a ventura de ser deputado federal, governador, senador por dois estados, Maranhão e Amapá, e presidente da República, pude colecionar uma miríade de amigos. Mais do que os cargos que ocupei, muito me orgulho das amizades: políticos, diplomatas, jornalistas, chefes de Estado, com muitos ainda desfruto do gosto da convivência e da troca de ideias que me enchem a alma.

Sempre tive muito gosto de ter amigos. Os que trabalham comigo, ou com quem tenho qualquer relação profissional, transformam-se em amigos, tornando-se quase familiares. Assim tenho sido a vida inteira. E não me arrependo.

Nesta altura de minha vida, descobri que tenho gosto também de fazer novos amigos. Comecei a pensar na poderosa força do outro, como ensinou Cristo, quando recentemente, nesta minha idade, tive alegria de estreitar convivência com pessoas da Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na USP — que, no ano de 2026, completa 200 anos —, que me convidaram para fazer parte da comissão de assuntos que deverão marcar essa data, sob a presidência da celebrada diretora eleita da Faculdade, Profª Drª Ana Elisa Bechara, grande talento, muito querida pelos alunos da Casa.

Assim conheci Rui Caminha, excelente pessoa, dedicado a servir a história da entidade, zelando por ela com total doação. Conheci também homens vitoriosos, novos de idade, mas já grandes advogados de São Paulo, ex-alunos com as raízes na velha faculdade de sua formação. Com eles, gente nova de fora do mundo da política, em agradáveis almoços, percebi um outro lado da realidade brasileira: o quanto essa gente nova está preocupada não só com o país, mas também com a literatura, com a cultura.

Ao nos despedirmos após um encontro, instintivamente, chamei-os de "amigos" e descobri uma força também nas novas amizades abrindo os horizontes de nossas vidas.

AMIGOS Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade. Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade.

Os teólogos buscam compreender as raízes da amizade desde o Livro do Gênesis. Eu acho que só não se pode dizer que ela é a motivação, mas, sem dúvida, uma das alegrias de sustentação do viver é essa forma de comunhão humana que une as pessoas e faz com que essa união seja sinônimo de felicidade e caminho para muitas alegrias e satisfações.

A primeira vez que eu senti a força do que era a amizade foi numa conversa com meu pai, quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Ele me chamou e, no meio da nossa conversa, já então um relacionamento de estreita ternura e grande amor, me disse: "José, eu sou teu pai. Ninguém nasce sem ter um pai. Sou parte da missão de Deus para que tu tivesses vida. Assim, eu já sou teu pai, quero ser também teu amigo."

Talvez eu não soubesse àquele tempo a profundidade do que ele tinha me dito, mas hoje ele está no caminho da eternidade, e eu, aqui, nos caminhos da existência que Deus me deu, através dele e de minha mãe, posso afirmar que o pedido dele para que fôssemos amigos me indicava o melhor caminho. E posso dizer que sua amizade foi a primeira, a maior e a mais profunda de minha vida, dividida com minha mãe, que também marcou esta minha jornada.

Sempre fui muito amigo de meu pai, e nessa amizade estava a confidência e, sobretudo, a confiança — sinônimo de amizade, porque esta não existe se antes não existir aquela. É a confiança que dá a segurança de unidade, de revelação e de certeza de que a amizade é, como diz Dom Bento de Aviz, "uma das experiências universais mais estruturantes do humano, como o amor, a dor, o vínculo, a festa, a amizade", considerando, inclusive, que ela faz parte do próprio dom de Deus com os homens.

Que ela faz parte da sublimação da alegria do relacionamento humano não tenho dúvida e deixo essa busca religiosa de sua origem para afirmar da vivência e da existência de cada um. Atrevo-me a dizer que quem não tem amigos não viveu, pois deixou de experimentar o que há de mais humano em nós; quem não fez amigos ou os abandonou corre o risco de ficar condenado à frustração e à infelicidade.

São os amigos aqueles que nos sustentam nos momentos difíceis, e nós os sustentamos nas horas iguais. São os amigos que nos dão segurança na necessidade dos conselhos e das opiniões. Muitas vezes, são os que nos salvam. Reconheço que não são muitos e, ao longo da nossa trajetória na face da Terra, o próprio viver nos faz ir decantando e vendo sobrar aqueles que foram testados e juntos nos asseguram a felicidade de poder chamá-los de amigos.

Meu pai, para mim, colocou a amizade senão acima da paternidade, pelo menos no mesmo andar em que elas realmente se encontram. Cristo, igualmente, fez a mesma coisa quando, na Última Ceia, fala aos seus apóstolos: "Já não vos chamo 'servos', porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado 'amigos', porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer." (Evangelho de São João, 15:15.)

Assim, nós descobrimos que, quando o Redentor se refere aos amigos não é o mesmo de quando Ele se refere aos irmãos. A Irmandade está vinculada à nossa origem divina, na certeza de que todos somos filhos de Deus. Já para ser amigo precisamos da vida; e acredito que a base da amizade é a intimidade — intimidade esta que Cristo tinha com os que, com Ele, assumiram a missão de evangelizar. 

São Gregório, contudo, em sua divergência com São Basílio, nos adverte em sua autobiografia sobre a profunda decepção que sofreu em sua relação de confiança com esse seu grande amigo, companheiro de juventude, São Basílio Magno, relatando ter sido pressionado por ele a assumir a cátedra episcopal na isolada e árida Sássima, expressando sua dor pelo abalo na relação de confiança: "Pela força me fez assumir o trono episcopal, assim, com seu amor paternal, enganou-me duas vezes: por nossa parte, tiramos um lucro de sua amizade: não confiar em amigos e não considerar nada mais valioso do que Deus".

É verdade que, depois, impedido pelas circunstâncias de assistir São Basílio em seus momentos finais, São Gregório uniu-se novamente ao amigo em espírito, reconciliando-se na eternidade e na memória: São Gregório dedicou-se a defender o legado de São Basílio e a eternizar aquela amizade na memória da Igreja.

Não vou mais senão afirmar que a verdadeira amizade não acaba, se reconstrói sempre, porque é tão forte, tão grande e tanto espaço ocupa na vida de todos nós que não podemos viver sem os amigos que conquistamos. Até hoje sou amigo de meu pai, de minha mãe — através da sua memória e do seu eterno amor.


 


 






 





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TRÊS MOVIMENTOS NECESSÁRIOS PARA UMA LEITURA DE PEDRO AMÉRICO E A MONALISA, POR JANAÍNA AZEVEDO

Penso em três movimentos necessários para uma leitura de Pedro Américo e a Monalisa, bem como para a biografia Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas (2022), do advogado e escritor campinense Thélio Queiroz Farias. O primeiro movimento passa, necessariamente pelo biografado. Aqui, o areiense Pedro Américo, o maior pintor brasileiro do império, político, romancista, cientista, ensaísta, professor. Pedro Américo enquanto personagem histórico foi biografado em dezenas de obras desde o século XIX. Thélio Farias enumera por ordem de edição todas as biografias e livros inspirados em Pedro Américo, em sua recente obra Pedro Américo e a Monalisa (2025). 

O segundo movimento abraça a cidade como organismo vivo, “lugar de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.”, como bem disse Ítalo Calvino. Penso que para se conhecer um personagem histórico faz-se necessário conhecer bem o lugar e a época em que ele viveu e atuou. Pedro Américo, em seu romance “O Holocausto” (1882) acusa a localização geográfica da cidade, o clima, os abismos como responsáveis pela inclinação às artes e à melancolia, inclusive.

 O terceiro movimento é o do biógrafo, o escritor de vidas. Para o pesquisador, Sérgio Vilas Boas, uma das instâncias que pode interferir no resultado da biografia é o próprio biógrafo (autor e interpretante). Pierre Bourdier chama de ilusão biográfica, a tentativa de o biógrafo ordenar os acontecimentos de uma vida de forma linear, na ilusão de que se obtenha dessa organização uma narrativa coerente, autônoma e estável. Segundo o sociólogo francês, o máximo que a biografia pode oferecer seria uma reconstrução, um efeito de real. Nesse caminho, o biógrafo contará com a sua própria capacidade de reconstrução, de sua “vigilância sobre valores e juízos”. A responsabilidade do biógrafo, pois, é grande, ele não pode correr o risco de construir simplesmente um mito. Mito não é história e nem se confunde com esta, embora a construção mítica possa falar sobre ela, mesmo que de maneira enviesada, reorganizando significados e concepções criados ao longo do processo de elaboração. O biógrafo Thélio Farias, a despeito de seu rigor de pesquisador, se não constrói um mito, cuidadoso que é, ouso dizer que sofre de uma obsessão, no sentido de obstinação e fixação, pela figura de Pedro Américo. O advogado ilustrado tem se dedicado, compulsivamente, à vida e à obra do pintor paraibano: refez todos os lugares por onde este passou, leu e releu todos os documentos e demais impressos de e sobre o multifacetado personagem. Tem dedicado grandes pedaços da vida a refazer os caminhos, interpretar obras, refazer genealogias, buscar detalhes que sirvam à sua fome de biógrafo. Mas se detém pouco a uma crítica da obra propriamente dita, do pintor e escritor, até porque seu foco são as multifacetas do personagem inspirador, o renomado pintor e os fatos em torno de sua vida. Prova é sua mais recente produção, lançada em Areia, no Teatro Minerva, no último dia 02 de Julho. Thélio, se foge de uma narração mítica, não exclui, portanto, a paixão ao falar do ilustre areiense (e por que deveria?). 

Nesta obra em particular, o biógrafo encontra a ligação de Pedro Américo com o pintor Leonardo da Vinci, ao descobrir que o palácio onde Pedro Américo se instalara para residir e trabalhar, fora erigido onde antes era a casa em que Mona Lisa nascera e crescera. Fato pitoresco, com notas de uma feliz coincidência. Ou sincronicidade, diriam os mais espiritualistas, que acreditam não haver coincidência no universo. Ou mais profundamente, podemos citar o paradoxo do tempo bergsoniano, para quem o passado puro é o lugar onde todas as experiências podem se realizar, uma linha horizontal, estado permanente de coexistência, invisível e real, tempo que, a meu ver, serve bem à proposta de Thélio Queiroz, biógrafo de Pedro Américo. 

Por último, o biógrafo, para além de um rigor e de uma rigidez histórica e científica, também é factível a paixões, o maior perigo humano real. Na fala do advogado da antiga Vila Nova da Rainha, a paixão aparece na entonação, na postura, nos gestos. No texto, ela se insinua na adjetivação, nas construções entusiásticas, na criação do perfil temático nas redes sociais, como o perfil no Instagram, @pedroaméricovive, assinado por Thélio, em que este assume a persona do pintor. Thélio Farias, enquanto biógrafo de Pedro Américo, segue nos apresentando, não um Pedro Américo absoluto, mas um Pedro Américo cuja imagem ainda nos apresenta sujeitos possíveis dentro da construção histórica e humana. Prova é que a obra Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas teve uma nova edição, revista, ampliada, aumentada e comentada. A fonte inesgotável. 

JANAINA DE CASTRO AZEVEDO SILVA, professora mestre em letras,  Autora de três livros: Marias (1999 - Prêmio Novos Autores Paraibanos, livro indicado para o Vestibular 2012 da Universidade Estadual da Páraíba); Orquídea de Cicuta (Contos, 2002) e Canção para dois amores (Poemas, 2005). Professora, produtora e ativista cultural na cidade de Areia, PB.


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FESTIVAL JUÁ LITERÁRIA CELEBRA LEGADO DE PAULO FREIRE COM PALESTRA

Juazeiro amanheceu, nesta terça-feira (21), lembrando a década de 1980, quando recebeu a ilustre visita do educador Paulo Freire. Foi totalmente demais a mesa da segunda edição do festival Juá Literária, com o tema 'Quem Educa Marca o Corpo do Outro', que trouxe à terrinha a pedagoga, Fátima Freire Dowbor, a filha do educador pernambucano que colaborou para o processo de educação popular no município e é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Na Tenda das Palavras, falando sobre seu livro, que leva o mesmo nome da palestra, a pedagoga Fátima Freire, conduziu o público suavemente através da prática da reflexão sobre nosso agir ao pensar, sobre o que buscamos na área da educação e sobre que caminhos podemos construir atuando com crianças. "Uma experiência fascinante e enriquecedora que nos trouxe a ideia de que educação é emoção, sentimento, paixão, generosidade, apego e desapego", segundo a também professora Grotas Benvindo, uma das primeiras a chegar ao encontro na arena do Centro de Cultura João Gilberto.

No segundo dia do Juá Literária, o público também pôde conferir, na Feira dos Livros, o acervo de mais de 600 editoras; as mesas literárias do Espaço Flijuá e as apresentações das escolas, lançamentos de livros e contação de histórias na Carreta Literária e no Busarte (ônibus palco com sala de teatro para ver espetáculos), além de um mergulho pelos movimentos literários de Juazeiro e um show musical com o grupo O Trio.

Até o sábado (25), estão confirmadas atrações, a exemplo de rodas de conversa; mesas, oficinas, teatro; contação de histórias e shows musicais, reunindo cerca de 200 artistas e escritores de várias partes do país em mais de 180 atrações. Nomes representativos no segmento literário, a exemplo de Bob Fernandes e Daniel Munduruku, além de Osvaldo Montenegro e Adriana Calcanhoto, no cenário musical nacional, irão se revezar em ações como a Tenda das Palavras e Canções do Rio, numa super estrutura montada na Orla Nova do município, à beira do Rio São Francisco, no Centro de Cultura João Gilberto e na Casa do Artesão.

O Festival Juá Literária é uma realização da Prefeitura Municipal de Juazeiro, por meio da Secretaria de Educação, dentro do Programa Juá Literária, com apoio da Editora IMEPH, Andelivros, Governo do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon, e produção da Carranca Produções e Melodia Produções.


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MARIA DO INGÁ, MARINGA, A CANÇÃO DE POMBAL, POR TARCISIO PEREIRA

Tenho acompanhado, nos últimos dias, uma polêmica em torno do romance que eu sempre quis escrever. Depois de tantas décadas, discutimos agora sobre a existência, ou não, de uma jovem cabocla provavelmente linda, pobre e retirante, chamada Maria do Ingá.

De princípio, esteja claro, quero dizer que tudo o que sei sobre ela me foi contado por um grande músico brasileiro chamado Joubert de Carvalho. Não conheci Joubert de Carvalho, claro, mas de tanto ouvir a sua canção, lançada em 1932, estou limitado às informações que ele me transmite na letra da música.

O nome Maria do Ingá, pela imposição rítmica da letra, foi abreviado pelo compositor e ficou como “Maringá”, hoje uma espécie de grife da cidade de Pombal, sertão da Paraíba, berço da minha vida. Esse é um detalhe menor, mas que deve ser levado em conta por quem defende a existência dessa retirante. Não é o meu caso, ainda fico com a obra de arte. E uma obra de arte que, por si só, sem nenhum propósito de cunho midiático, já serviu de propaganda ao nome da minha terra. Para sempre!

A canção é famosa e, portanto, todos devem lembrar do trecho que diz assim:

“Antigamente, uma alegria sem igual

Dominava aquela gente

Da cidade de Pombal,

Mas veio a seca, levou tudo e foi embora

Só restando então as águas

Dos meus olhos quando choram.”

A moça que partiu, deixando um moço apaixonado a chorar de saudade, teria sido um famoso político do século passado, senador da Republica que também governou a Paraíba como interventor, chamado Ruy Carneiro.

Se isso fosse mesmo verdade (ou se for), então poderíamos dizer que temos em Pombal, ou teríamos, um grande drama de amor digno de qualquer filme brasileiro. Mas as mentes férteis devem ter criado esse fato em função de outra história curiosa, amplamente dissecada por alguns cronistas e pesquisadores pombalenses.

Quando José Américo de Almeida foi ministro da Viação e Obras Públicas, o cantor e compositor Joubert de Carvalho, já famoso pela marchinha carnavalesca chamada “Taí”, gravada por Carmem Miranda, ambicionava um cargo de médico marinho e queria uma audiência com o ministro. Ruy Carneiro, que conhecia Joubert das noites boêmias no Rio de Janeiro, era assessor de José Américo e levou o compositor ao seu gabinete.

Alguns cronistas afirmam que Joubert conseguiu o emprego, mas o único meio de retribuição era com o talento de sua arte. Comporia uma canção em homenagem à Paraíba, terra do ministro, e para tanto procurou saber qual era a cidade dele. Quando soube que Zé Américo era de Areia, ponderou que o nome dessa cidade não era bom de rima. Assim, matando dois coelhos numa só cajadada, meteu na letra o nome de Pombal, que era bom de rima, sendo uma forma de também agradar ao pombalense Ruy Carneiro.

Não sei até que ponto esta história procede. Estou apenas reproduzindo, de forma sucinta, o que li dos meus conterrâneos. A única coisa que quero acrescentar, como um dado que ainda não foi levantado, é a similaridade da letra da música com a trama do romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida…

Ao longo das décadas, sapecaram histórias para todos os lados. Até penso que a canção “Maringá”, ao invés de um romance, já merece um ensaio em torno das controvérsias que têm surgido ao seu redor. Se, por um lado, temos a lenda de um caboclo atormentado numa saudade de amor, chorando pela cabocla que foi embora por causa da seca, por outro temos a história de um amor proibido, vivido em surdina por um alto figurão da política paraibana que não podia se expor, haja vista que a namorada secreta era uma mulher da pobreza.

Para a segunda hipótese, há sempre um narrador mexendo no vespeiro. O escritor e promotor de Justiça Severino Coelho, também de Pombal, transcreveu um texto do jornalista Armando Lira, publicado em 1991, com o seguinte título: “O Amor Proibido de Ruy Carneiro – a Verdadeira História de Maringá”.

A história narrada por Armando Lira, verdadeira ou não, é de fato linda, tão linda que a gente quer mesmo acreditar nela. Diz que Ruy Carneiro amou essa moça pobre, foi afastado dela, depois governou a Paraíba e em pleno exercício do cargo voltou a encontrá-la, ele já casado e ela pobrezinha, pedindo esmolas para ele.

Notem bem. Eu também tenho direito de dizer, agora, que a minha versão sobre “Maringá” é também “verdadeira”. Me arvoro nesse direito porque vejo todas as semelhanças dessa cabocla retirante com uma outra, chamada Soledade, personagem de Zé Américo no romance “A Bagaceira”. Soledade veio do sertão da Paraíba com sua família, chegou na Fazenda Marzagão, em Areia, e bagunçou a vida do dono da casa, Dagoberto Marçal. Depois foi embora e deixou chorando o jovem rapaz chamado Lúcio, filho do fazendeiro, recentemente formado. O curioso é que, anos depois, Soledade reaparece na fazenda, maltrapilha, e pede esmolas ao novo fazendeiro, justamente aquele rapaz que ela deixara chorando.

A música foi lançada em 1932. Quatro anos antes, 1928, Zé Américo tinha lançado “A Bagaceira”, e o livro estava na crista dos mais importantes acontecimentos literários da época. “A Bagaceira” já era considerado, como ainda o é até hoje, o precursor do romance regionalista nordestino, pois trazia os requintes de uma estética inovadora na linguagem, ao contrário de outros clichês da ocasião. A história desse livro também é marcada pelo poder de influência que conseguiu causar junto a outros autores. No seu rastro vieram outros romances com a mesma temática – a exemplo de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; e “Seara Vermelha”, de Jorge Amado.

Aliás, se me esticar mais ainda, vou entrar noutro romance de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela”, outra cabocla retirante que bagunçou o coração do árabe Nacib, na cidade de Ilhéus, estado da Bahia. Esse tema, convenhamos, é bastante recorrente, e nada mais apropriado para um compositor de coração grato, retribuindo a um ministro que lhe dera o emprego tão almejado, o qual já contara essa mesma história num romance famoso

Na peça teatral “O Santo Inquérito”, cujo cenário é também a Paraíba, também existem controvérsias sobre a existência ou não de Branca Dias, a heroína, torrada no fogo da Inquisição porque salvara um padre de morrer afogado, quando lhe fazia respiração boca a boca. A história é tão linda que todos a querem como verdadeira – mas o próprio autor, o dramaturgo Dias Gomes, afirma que se baseou apenas numa lenda. Até hoje permanece o mistério.

No caso de “Maringá”, creio que a arte, mais uma vez, está muito acima das invenções ou comprovações históricas. Seja lá o que for, o fato é que essa cabocla, como bem diz a letra, foi a retirante “que mais dá o que falar”… E que se orgulhem os filhos de Pombal, como eu, por possuírem essa canção de amor como o seu hino quase oficial.

Tarcísio Pereira-Escritor, Teatrólogo, Jornalista e Publicitário

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ROMARIA DOS 92 ANOS DE MORTE DO PADRE CÍCERO REÚNE MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE

Uma multidão de fiéis tomou conta do Largo da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte, na manhã desta segunda-feira (20). O público acompanhou a primeira missa de encerramento da Romaria pelos 92 anos de morte de Padre Cícero Romão Batista.

A celebração foi presidida pelo bispo da Diocese de Crato, dom Magnus Henrique Lopes. O evento reuniu romeiros vestidos de preto, em referência à batina usada pelo sacerdote, e de chapéu de palha, um dos símbolos do sertanejo nordestino.

A missa das 6h tem um significado especial para os devotos. Segundo historiadores, esse foi o horário em que Padre Cícero morreu, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. O marco deu origem à tradicional missa do dia 20, realizada mensalmente em memória do religioso.

Ao longo desta segunda-feira, outras quatro missas encerram a programação religiosa da romaria. As celebrações ocorrem às 10h, 12h, 16h e 18h.

A tradição relata que, pouco antes de morrer, Padre Cícero pediu a amigos e familiares que rezassem por sua alma. O pedido deu origem a um costume que atravessa gerações e reúne milhares de devotos na Capela do Socorro todos os meses.

No túmulo do "Padim", os romeiros fazem orações, agradecem graças alcançadas e renovam promessas. Segundo a Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, cerca de 100 mil pessoas devem passar pela cidade durante a programação, iniciada em 17 de julho.

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COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM DEBATE, Antonia Pellegrino - Presidente da EBC

 Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

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