FORMAÇÃO DE JUVENTUDES PARA A CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Foi com lágrimas e abraços apertados, como demonstração de afeto construído pela aproximação ao longo de 14 dias de convivência e também com mística e ato simbólico do plantio de duas árvores de licuri, que chegou ao fim, na segunda-feira (20), a 32ª Escola de Formação de Juventudes para a Convivência com o Semiárido (EFJCSA). 

Nas diversas falas ao longo do encerramento, frases como “saio daqui com o coração rebelde em busca de mudanças” e “vou levar o que aprendi aqui para minha comunidade” ilustram muito do que a EFJCSA representa. A programação contou com atividades e discussões intensas sobre temas sociais urgentes, como a luta antirracista, a diversidade de gênero e os desafios atuais enfrentados pelas juventudes; também houve estudos a respeito de diversos assuntos relacionados à Convivência com o Semiárido, que perpassam desde os cuidados básicos com o solo, a criação, a água e as práticas nos quintais produtivos até os assuntos mais estruturantes, como educação contextualizada, os direitos ainda negados às comunidades rurais, as possibilidades para a geração de renda e as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. 

Com o tema “Corpo, terra, água e memória: ancestralidade e saúde no Semiárido”, essa tradicional Escola de Formação, realizada pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), reuniu, nesta edição, 40 jovens dos estados da Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Nesse sentido, mais uma vez, a EFJCSA proporcionou o encontro de uma diversidade de vozes, rostos e vivências. E o resultado, novamente, foi a construção de um espaço de rica troca de saberes e que mantêm a esperança em uma juventude que faz acontecer, que assume o protagonismo das suas histórias e o compromisso com a coletividade, a defesa dos territórios e as causas sociais populares. 

“Uma das coisas que levo, com certeza, é a diversidade de opções que o Semiárido nos dá para sobreviver, para nosso sustento, para cuidar dele também. O Semiárido é muito resiliente e isso nos proporciona refazer nossa trajetória por diversos caminhos. Levando sempre em consideração que, nesses caminhos, a gente precisa mantê-lo (o Semiárido, os biomas) de pé, que a vida depende do nosso cuidado”, ressalta a jovem participante Brice Reis, integrante da Rede Pintadas – Cooperação e articulação no semiárido baiano, do município de Pintadas-BA.

Para o jovem oceanógrafo que atua como assessor de pescadoras artesanais em Recife-PE e  integrante do Projeto Jandaíras, Matthews Rocha, os conhecimentos da Escola de Formação o inspiram a trabalhar a Convivência com a realidade dele:

“O que aprendi aqui tá para além do Semiárido, se a gente pensar o nosso litoral, o agreste, a gente pode fazer relações, confluências com outros biomas, com outros espaços, outras pessoas e organizações. Levo muito aprendizado, muita gratidão por tudo que aprendi aqui (…) Aprendi com a juventude que é possível viver bem onde quer que a gente esteja, porque a gente não é só futuro, a gente é presente; a gente tem apresentado perspectivas de vida, de viver bem onde a gente está vivendo, nos nossos territórios, nas nossas comunidades”. 

Matthews complementa ainda sobre a importância das discussões relacionadas à contextualização do ensino e que, diante da realidade atual, é preciso mesmo ter “uma educação antirracista, uma educação feminista, anticapacitista, que sabe dialogar, que sabe escutar, que sabe conviver com as pessoas, sabendo que cada pessoa tem algo a dizer e a ensinar”.

As abordagens de assuntos como as oportunidades para a juventude em suas respectivas realidades e da sucessão rural chamaram a atenção da participante Mirela Nascimento. “Não precisa sair da nossa vida no meio rural atrás de empregos na cidade, que é o que acontece muito. Eu acredito que você pode sim ter uma vida muito melhor trabalhando no rural”, defende. 

Mirela, que participa de um projeto voltado a jovens multiplicadores no Assentamento Vieira dos Carlos, em Trairi-CE, também destacou o tema da ancestralidade, pautado nessa edição da Escola: “Não tem um presente e um futuro sem a ancestralidade, sem um passado, porque todos nós temos uma história e essa história foi construída com os nossos antepassados”. 

O técnico em agropecuária e estudante de agronomia João Pedro Bueno ressalta que os conhecimentos também vão contribuir para o trabalho desenvolvido na área da Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER), pois ele atua como Agente Comunitário Rural (ACR) e nas ações do Projeto Dom Helder Câmara em Cajazeiras-PI.

"Aprendi muito, desde a questão da conservação dos solos e das águas (…) Essa imersão foi muito importante para a  minha a vida, porque a partir desse momento, vai agregar bastante para levar para a minha comunidade e para todas as pessoas que eu trabalho com a assistência técnica”.

Vivências de intercâmbios no Território 

Além de todas as atividades teóricas e práticas realizadas no Centro de Formação do José Rodrigues, a roça do Irpaa, também houve visitas a lugares marcantes do Território Sertão do São Francisco e que representam uma parte significativa das lutas dos povos do Semiárido: a força da coletividade que Canudos ensina; o impacto da construção da Barragem de Sobradinho na vida das famílias que viviam na região; a potência que é a Educação Contextualizada e a Pedagogia da Alternância, representadas pelas práticas da Escola Família Agrícola de Sobradinho; os cuidados com Velho Chico e a vitrine da Agricultura Familiar e do Cooperativismo, no Armazém da Caatinga em Juazeiro.

Em cada vivência, as juventudes puderam conhecer detalhes da história, refletir sobre as narrativas não contadas oficialmente, os desafios atuais e o quanto cada um/a pode se inspirar para seguir construindo um futuro melhor. Nesse sentido, o jovem Matthews enfatizou o que os intercâmbios significaram:

“Se não fosse pela Escola de Formação talvez eu nunca estivesse em Canudos, talvez eu nunca estivesse em Sobradinho. São lugares diferentes do ponto de vida dos destinos que foram impostos para aquele território. Canudos é esse lugar de muita resistência, que nos mostra que Canudos foi uma construção de resistência, na base da luta, da solidariedade, da Convivência com o Semiárido. Canudos é um lugar que inspira, principalmente nós, a construir um presente, um futuro melhor para nossas comunidades mostra que os movimentos sociais, as lutas populares, os grupos organizados vêm apresentando alternativas há muitos anos para um mundo melhor, uma vida melhor, com base na solidariedade, da fraternidade, do amor, companheirismo (…) Tem muita história que às vezes são invisibilizadas; acho que só com os intercâmbios a gente consegue ter essa capacidade de olhar, de sentir; estando lá pisando naquele chão, olhando com os nossos olhos, abrindo o coração para tudo aquilo que está na nossa frente”.

A jovem Brice Reis afirma que as reflexões em Sobradinho são importantes para compreender os detalhes históricos e quais os impactos causados por grandes empreendimentos, como a barragem: “Quando você conhece a história você percebe que aquela paisagem bonita nasceu da extinção de uma cultura, de todo um costume, de um povo. Então isso acaba deixando a gente reflexivo a respeito do solo que estamos pisando hoje: quem foi que pisou antes de nós?”.

A partir das avaliações dos intercâmbios em todos os espaços, em resumo, a juventude demonstrou a necessidade de conhecer cada vez mais as realidades, de se apropriar da história, de se inspirar nos ensinamentos dos antepassados e de estar atenta aos desafios e potencialidades dos tempos atuais.  

Durante a mística de encerramento da Escola, o presidente do Irpaa, José Moacir dos Santos, agradeceu a participação de cada jovem e reforçou o papel fundamental da juventude no trabalho de multiplicação de saberes. “Vocês têm um conhecimento que a maioria das pessoas não tem. Então, a gente volta com mais esse compromisso: ‘vou ser aquele que me calei, com medo das dificuldades’ ou vou ser ‘aquela que me juntei com outras tantas que tem aí e tocamos essa luta para a frente’?”, estimulou.

“Vamos continuar fazendo essa formação e construir essa rede de lutas por esse Semiárido vivo, por esse Semiárido rico, com nós dentro e vivendo bem. Essa é a ideia dessa Escola”, concluiu Moacir.

A 32ª EFJCSA  foi apoiada por projetos do Irpaa com a cooperação internacional, a exemplo do “Agenda 2030 no Semiárido Baiano”. Esta edição também contou com o apoio do “Projeto Baraúnas dos Sertões”.

Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa | Fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa e participantes da 32ª EFJCSA

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