A crise do clima também chega à nossa mesa, ameaçando a segurança alimentar. Em Caruaru, no Agreste pernambucano, o Assentamento Normandia mostra que a resposta a esse desafio pode nascer da terra e da resistência.
Prova disso é que, há mais de 30 anos, famílias agricultoras vêm construindo um modelo de produção agroecológica que abastece escolas e creches do Agreste à Zona da Mata, chegando até o Recife.
Símbolo da luta camponesa e um dos territórios mais produtivos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, Normandia nos faz questionar: que agricultura queremos?
Em 2025, o Brasil viveu o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos, conforme sinaliza levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde.
Esse foi o mesmo período em que o Brasil bateu recordes de aprovação de pesticidas. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, 38% a mais do que o ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União.
Solo de terra arada com brotos de plantas agrícolas sob céu parcialmente nublado e vegetação ao fundo.
A produção do assentamento é o cultivo livre de agrotóxicos e transgênicos, um modelo que preserva o solo e a biodiversidade da Caatinga | Foto: Andréia Vitório
No Assentamento Normandia, a história é diferente: famílias agricultoras produzem alimentos a partir da agroecologia, respeitando a biodiversidade e a saúde do solo, sem o uso de agrotóxicos.
É nesse contexto que ocorre, por exemplo, o plantio do milho crioulo, cultivado em parceria com a Cooperativa de Produção Agropecuária Normandia (CoopaNor), envolvendo agricultoras e agricultores assentados, que funcionam como verdadeiros guardiões da soberania alimentar da região.
Por lá, a prática do armazenamento de sementes, que atravessa gerações, segue contribuindo para a autonomia produtiva dessas comunidades.
Nada de alimentos ultraprocessados. O que se vê em Normandia é a adoção de boas práticas de manejo do solo considerando as especificidades do bioma Caatinga para a produção de alimentos como a macaxeira, um dos pilares da agricultura familiar e da alimentação no Brasil, em especial no Nordeste brasileiro.
“Apesar da nossa dificuldade hídrica, ela consegue resistir tanto quanto a gente. Um pingo de água já faz ela desenvolver. A macaxeira tem nos salvado durante toda nossa história”, conta a agricultora e assentada Mauricéia Matias.
Bancas de lona branca da feira da agricultura familiar expõem frutas e hortaliças sob grandes árvores ao ar livre.
A produção de alimentos no Assentamento Normandia é diversificada e baseada em práticas agroecológicas. Na imagem, produtos destinados à comercialização | Foto: Andréia Vitório
Nada se perde: “aproveitamos 100% dela. A gente mói a maniva, que serve para a ração animal. Aquela primeira casca, quando a macaxeira vai para a agroindústria ser beneficiada, volta para a terra para fazer o processo de adubação natural. Já a segunda casca serve para alimentação animal”, exemplifica.
A agroindústria beneficia parte da produção à vácuo e há também uma unidade de pães e bolos à base da macaxeira, conhecida por muitos como aipim ou mandioca. Enquanto a produção segue seu ritmo nos moldes agroecológicos, a comercialização é ainda desafiadora.
“A gente tem saberes, inclusive de nossos antepassados, de produção e colheita, mas na hora de comercialização, há uma certa timidez de não saber o valor que esse produto tem”, comenta Mauricéia. “Não estou dizendo que tem que ser caro, mas tem que ser justo, levar em conta o tempo que a gente dedica a essas produções que não têm agrotóxicos e contam com matérias-primas mais selecionadas. Isso tem que fazer diferença”, destaca.
Outra vantagem para o consumidor é saber de onde vem o alimento que está consumindo. Isso faz ainda mais sentido quando lembramos que 90% de toda a cultura de milho no Brasil é transgênica, segundo dados da Embrapa.
Mas não no Assentamento Normandia: testes químicos e genéticos confirmaram que o cuscuz flocão de milho da marca Normandia é um produto livre de organismos geneticamente modificados (transgênicos) e da contaminação de agrotóxicos. Produzido por agricultores familiares do Assentamento a partir de milho crioulo, o flocão foi lançado oficialmente em 2025.
Assentamento Normandia-Em 1993, 247 famílias de trabalhadores rurais sem-terra, provenientes dos arredores de Caruaru, Agreste Pernambucano, ocuparam a Fazenda Normandia, que contava com 1.100 hectares improdutivos. Juntas, começaram a plantar hortaliças, milho, feijão e abóbora para vender na feira. Também construíram casas de taipa e uma escola.
Nascia, assim, a primeira experiência de educação em assentamentos da região. A ocupação durou quatro anos. Em 1997, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento das famílias na área.
Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares | Foto: Andréia Vitório
Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares. Além disso, Normandia é conhecido por abrigar, desde 1998, o Centro de Formação Paulo Freire, espaço de eventos de formação e mobilização política, responsável por aproximar saberes tradicionais, populares, políticos e acadêmicos para o fortalecimento da agricultura familiar e suas boas práticas, mantendo viva a semente da resistência.
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