No mês de junho de 2026, a jornalista Gabriela Castello Buarque/Folha de Pernambuco visitou Exu Pernambuco. A jornalista revela que a cidade de Exu, no Sertão de Pernambuco, terra do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, mantém uma tradição secular de celebrar São João Batista de forma familiar e com muita devoção.
Principal símbolo de resistência dessa tradição, a igreja de São João Batista, na Fazenda Araripe, Zona Rural de Exu, onde o Rei do Baião cresceu, é o epicentro de tudo. “A fé em São João Batista é o que traz as pessoas para celebrarem. E essa fé se juntou à música, que vem da raiz de seu Januário, pai de Luiz Gonzaga, que é muito forte para nós”, explica a administradora e pesquisadora da história de Exu, Maria Carlina Alencar, que reside no vilarejo desde a infância.
As celebrações têm início no novenário dedicado ao santo, que começa no dia 14 de junho, com missa e o hasteamento da bandeira de São João Batista. Depois do novenário, além da quermesse, o forró é tradição.
“Antigamente era o tradicional samba de latada (ritmo que passeia entre o forró e o samba), que acontecia todas as noites após a novena, depois veio o forró. Também era muito forte antigamente amanhecer o dia com os pífanos tocando na alvorada, era a coisa mais linda. Era bem mais simples, mas já era uma coisa muito significativa. Essa tradição sempre foi muito forte”, lembra Carlina.
De acordo com a pesquisadora, foi depois de Januário José dos Santos, mais conhecido como Mestre Januário, sanfoneiro de oito baixos e pai de Luiz Gonzaga, que tocava nos sambas de latada, que o São João começou a ter outra característica.
"Foi assim que juntou a fé com a questão da música, que vem dessa raiz de Januário e que é muito forte para nós. Depois, Luiz Gonzaga foi crescendo, como adolescente também tocava, e assim o Araripe começou a ter toda essa festividade, não só religiosa como profana", relata Carlina.
Carlina afirma também que, conforme suas pesquisas, é possível que a estética do São João, como conhecemos hoje com fogueiras, fogos, zabumbas, triângulo, sanfona, tenha nascido no Araripe. "É preciso mais pesquisas, mas tudo indica que o São João, com a festividade dançante e todos esse elementos, nasceu aqui, no Araripe e foi transmitida por Luiz Gonzaga para o mundo todo", declara a administradora.
Gonzagão fazia questão de honrar suas vivências no Araripe e o amor que ele tinha por São João Batista em suas músicas:
"Falando de São João, se pensa em Luiz Gonzaga. Quando se tornou o Rei do Baião ele deu uma entrevista para o Globo Repórter, na igreja de São João Batista, e disse: 'todas as músicas juninas que eu componho, é lembrando daqui. São João Batista é o santo que me intuiu a ser o artista que sou'", completa a pesquisadora.
Januário, também conhecido como o maior sanfoneiro da região do Sertão do Araripe, era devoto de São João e tinha como obrigação pessoal fazer uma fogueira com quase dois metros de altura quando morava no Povoado do Araripe.
“Ele não admitia, mesmo velhinho e com os passos já curtos, que ninguém acendesse a sua fogueira. Colocava uma cadeira perto e ficava apreciando. Ali ele fazia também suas preces. Segundo a tradição, a fogueira de São João tem um poder tão forte que nos dá o direito até de escolhermos alguém como padrinho e madrinha”, conta João Batista Januário, vaqueiro e poeta, conhecido como João Gonzaga, filho adotivo de Januário.
Adotado com três dias de nascido por Januário e a sua segunda esposa, Maria Raimunda de Jesus, João ressalta que a convivência com o pai foi de extrema importância para que ele mantivesse a tradição de São João da família, de não ser só uma festa dançante, mas uma celebração onde a espiritualidade está sempre presente.
“Sempre foi um legado de ‘matuto’ e até hoje essa tradição continua aqui no Exu. O primeiro café do dia após a fogueira tinha que ser passado nas brasas, para consagrar a festa e ter as bençãos de São João", completa João.
Um misticismo que, segundo o irmão e padrinho de batismo de Luiz Gonzaga, utilizava bastante em suas composições ao falar do Sertão. “Gostaria muito que o universo entendesse que São João é Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga é o próprio São João, porque até fazer prece nas suas músicas ele fazia, como em São João do Carneirinho”, afirma.
“Ai São João, São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho
Fale com São José, fale lá com São José
Peça pra ele me ajudar
Peça pra meu milho dá
20 espiga em cada pé”.
Durante o período junino, os moradores da área urbana costumam ir para os sítios e chácaras de famíliares na Zona Rural, que fazem as fogueiras e esperam os parentes que vem de fora. Na mesa, não podem faltar os tradicionais bolo de milho, pamonha e canjica.
“A gente faz aquela festa na beira da fogueira, com bastante forró. Geralmente, o sanfoneiro já é alguém da família ou algum amigo da região. A maioria aqui já tem uma base”, comenta a diretora do Bordados em Cantos de Exu, Socorro Duarte.
O cantor e sanfoneiro Joquinha Gonzaga, sobrinho e sanfoneiro do Rei do Baião até a sua morte, assumiu a missão de levar adiante a tradição da família Gonzaga, inclusive da sanfona de oito baixos que sempre foi o símbolo da família.
“Começou com o meu avô Januário, que consertava sanfonas e era o maior sanfoneiro do Sertão. Ele passou esse conhecimento para a família, mas é uma sanfona que, infelizmente, está em extinção. Você não encontra mais tocador de oito baixos em qualquer lugar e, quando encontra, não tem espaço. Vejo muitos tocando oito baixos como eu, por admirar, pelo prazer, mas não vivendo da oito baixos”, lamenta o músico.
Ainda segundo Joquinha, nas cidades onde o São João conta com grandes polos festivos, o forró tradicional tem perdido espaço.
“O nosso São João está mudando, diria que piorando. O forró nunca cai, mas ele é injustiçado. Tem aparecido muitos artistas bons, mas infelizmente não estamos tendo espaço. Vão entrando outras pessoas no mercado da música, que julgam ter mais valor do que nós, e vão nos substituindo e assim transformando a nossa festa”, relatou o músico.
Cantor, compositor e instrumentista, Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha e neto do Rei do Baião, corrobora o pensamento do primo Joquinha: "A invasão do espaço do São João e forró por artistas e público diferentes não é por acaso e não acontece organicamente. De certa forma, sim, porque é moldado pelo que o público quer ver nos festivais. Mas há muita coisa aí por trás. É preocupante sim, temo pelo nome da festa, de um dia não ser mais São João".
Em relação ao fato de a tradição junina estar diretamente ligada à sua família, Daniel afirma que não acredita em uma "criação de um São João, porque isso vem de antes". Porém, concorda que a disseminação do arquétipo e imaginário da festa podem ser atribuídos aos seus parentes.
"O que eu entendo que aconteceu é que Luiz Gonzaga virou o próprio arquétipo do São João com seus discos juninos, que a gravadora colocava para sair sempre em época junina. Isso alimentou o imaginário desse São João que a gente vê. Então, esse arquétipo todo foi, sim, criado por imagens provenientes das músicas de Gonzaga", avalia o cantor.
Apaixonado pela terra do avô, Daniel conta que já ouviu muitas queixas em relação à celebração do ciclo junino na cidade.
"Já ouvi de pessoas coisas como: 'vim para o Exu achando que ia encontrar o maior São João do mundo. A cidade estava toda apagada e não tinha uma menção a São João, me frustrou muito'. Na terra do Luiz Gonzaga não tem uma grande festa de São João, mas tem o início do arquétipo. Não é o poder público que leva para frente um arquétipo típico de festa junina como a gente conhece. É familiar, no sentido de haver festas em sítios e povoados", compartilha Daniel.
O instrumentista acredita que, mais cedo ou mais tarde, as novas gerações transformarão essa tradição. Uma vez que, passada para frente, "alguma coisa se transforma".
"É sempre uma dinâmica e é para ser assim, porque se a festa ficar parada no passado ela morre. O Exu sempre foi mais ou menos do jeitinho que ele é, um lugar muito duro, em que as tradições são feitas na rua e de uma forma popular. Eu nunca fui a uma festa junina no Exu, mas vejo a cultura popular acontecer na rua, com bandas de pífano, com o forró, e isso é bom porque percebemos a cultura quando ela acontece na rua, principalmente a cultura popular", completa o compositor.
De acordo com a secretária de cultura e turismo de Exu, Isa Apolinário, o objetivo da gestão do município é perpetuar as raízes e investir para que as tradições do povo não se percam em meio às modernidades.
“Procuramos sempre fortalecer o São João raiz, esse que quase não existe mais em lugar nenhum do mundo. Então aqui, a tradição é essa: cada casa faz sua fogueira, comemora com sua família, tanto na cidade quanto na zona rural, mas isso ocorre mais na Zona Rural. O nosso turismo e a nossa cultura é mais rural, então buscamos fortalecer isso”, explica a secretária.
A secretária de cultura e turismo de Exu, Isa Apolinário. Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco.
Com o objetivo de fortificar e divulgar as tradições e os costumes locais, a secretária desenvolveu um projeto de turismo de base comunitária com imersão cultural em diversas áreas e temas, como música, bordado, trabalho social, manejo do couro, culinária local e, é claro, o São João.
“Nós oferecemos aos turistas que vem para Exu uma imersão cultural nas nossas comunidades, como o povoado do Araripe, para que possamos dar essa continuidade. Porque era isso que Luiz Gonzaga queria, era isso que ele gostava e é isso que os nossos visitantes também querem ver. E é fantástico, porque é divertido e gostoso, estar sentado com a sua família, com seus amigos, ao redor de uma fogueira, comendo, conversando”, detalha Isa.
Apesar de ter uma festa dimensionalmente pequena, mais íntima e tranquila, durante o São João, Exu não economiza quando o assunto é celebrar o Rei do Baião.
No dia 2 de agosto, data que marca o aniversário de morte de Luiz Gonzaga, é feriado municipal instituído pela Câmara Municipal do Exu. A tradicional "Festa da Saudade" acontece no icônico Parque Aza Branca, última residência do Gonzagão e local que abriga o museu e o mausoléu do Rei do Baião. A celebração costuma iniciar pela manhã, com uma missa solene, seguida por apresentações gratuitas de forró pé-de-serra e artistas regionais ao longo do dia.
Em meados de dezembro, Exu realiza anualmente o Festival Viva Gonzagão, para celebrar o nascimento de Luiz Gonzaga. A data coincide com o feriado municipal do Dia de Santa Luzia, celebrado no dia 13, e a festa geralmente dura entre três e quatro dias.
“Em dezembro reunimos tudo isso no Festival Viva Gonzagão, que foi uma festa criada pelo próprio Luiz Gonzaga. Era a festa de aniversário dele e se tornou um festival porque todo mundo, do município, da zona rural, dos distritos, cidades vizinhas, de toda a região do Araripe, vem para Exu e comemora junto”, relata a secretária.
Segundo Isa Apolinário, o Festival Viva Gonzagão busca sempre reunir na grade de programação amigos famosos de Luiz Gonzaga, como Fagner, Gilberto Gil, Elba Ramalho e vários outros artistas, além dos familiares que seguem na luta para dar continuidade ao legado do Rei do Baião.
“O sobrinho dele, Joquinha Gonzaga, abre o festival todos os anos. Agora, Daniel Gonzaga, que é filho de Gonzaguinha e neto de Luiz Gonzaga, também participa dessa luta. O festival é tudo para nós. É o nosso São João, Carnaval, festa da Páscoa, vaquejada, é tudo isso junto”, conclui.
0 comentários:
Postar um comentário