AGROFLORESTAS TRANSFORMAM SEMIÁRIO

 Sob o sol das três da tarde, Francisco das Chagas Filho caminha pela propriedade como quem conhece cada sombra pelo nome. Aos 70 anos, no Maciço de Baturité, em Acarape (CE), ele fala do Semiárido sem pressa e sem lamento. Não como quem descreve uma paisagem distante, mas como quem apresenta a própria casa. “Falar de Semiárido é muito fácil pra mim. Aqui nasci, me criei, estudei um pouquinho… e trabalhei minha vida”, recorda.

A Geografia de Milton Santos – um dos maiores intelectuais do século 20 – ajuda a entender o que Seu Chagas aprendeu na prática: o território não é apenas chão, mapa ou cenário. É espaço usado, vivido e atravessado por trabalho, técnica, memória, conflito e futuro. No Semiárido, essa ideia ganha corpo quando a produção deixa de disputar lugar com a natureza e passa a se organizar com ela.

A escala desse território ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Semiárido brasileiro reúne 1.477 municípios em 11 estados, incluindo o Ceará. Não se trata, portanto, de uma paisagem marginal à vida econômica do País, mas de uma região onde permanência, produção e adaptação precisam caminhar juntas.

A primeira ferramenta de Chagas veio cedo. Aos cinco anos, em Forquilha, ganhou do pai uma enxadinha de madeira. Depois, saiu de casa, trabalhou em banco, percorreu o País, conheceu outros biomas, passou pelo Cerrado, pela Amazônia e pela Mata Atlântica. Mas a terra de origem nunca deixou de chamá-lo de volta.

Ao fundar a Acarape Agroindústria de Alimentos (Acaragri), uma microempresa de base familiar, decidiu transformar seu pedaço de chão em prova concreta de que o Semiárido não é sinônimo de falta. Dos 33 hectares da propriedade, mais da metade permanece coberta por floresta nativa preservada.

Na área agricultável, a produção segue sem defensivos químicos, em uma lógica que aproxima trabalho, cuidado ambiental e permanência no território. Em 2026, essa trajetória começou a ganhar desenho formal de agrofloresta: um hectare da propriedade foi preparado para receber um sistema agroflorestal.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam árvores nativas ou exóticas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustos e outras espécies, em arranjos planejados no espaço e no tempo. A proposta é otimizar o uso da terra, conservar o solo, reduzir a pressão por novas áreas agrícolas e recuperar áreas degradadas.

Mas nenhuma definição técnica se sustenta sozinha no Semiárido. Para entender o que está em jogo nesse hectare, é preciso ouvir outro Francisco, ou Xico, como é mais conhecido. Enquanto em Acarape o sistema ainda está sendo implantado, em Viçosa, na Serra da Ibiapaba, Xico já mantém uma área agroflorestal em pleno funcionamento.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador. Em cerca de um hectare e meio, cultiva café, pimenta-do-reino, frutíferas e espécies nativas. Técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia, ele divide o dia a dia entre educação ambiental, produção agroecológica e o manejo da própria agricultura em sistema agroflorestal. Para ele, agrofloresta não é uma receita pronta. “Não é um modelo só”, defende.

A explicação começa antes do plantio. “Quando eu penso em implantar uma agrofloresta, eu tenho que olhar o solo, a água, o relevo, o clima, os recursos disponíveis e a realidade de quem está produzindo”, explica Xico. “O que dá certo numa área pode não dar certo em outra. A agrofloresta tem que responder ao lugar”.

Um homem de óculos e barba rala surge em meio a uma vegetação densa, cercado por grandes folhas verdes em primeiro plano e troncos ao fundo.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia | Foto: Acervo pessoal / Gracilene Pereira

Isso significa pensar em alimento, renda e restauração em tempos diferentes. A própria Embrapa observa que as primeiras receitas podem vir ainda no primeiro ano, com culturas anuais, hortaliças e espécies semiperenes, enquanto frutíferas e espécies de ciclo mais longo se consolidam depois. “Quando se pensa uma agricultura nesse formato, nós estamos pensando para agora e para o futuro”, resume Xico.

Na terra dele, esse planejamento já saiu do papel. O sistema começou com um objetivo direto: produzir alimentos para a família, recuperar espécies da região e gerar trabalho. Com o tempo, passou também a oferecer frutas, geleias, doces e licores. O percurso mostra que a agrofloresta não nasce necessariamente como negócio pronto. Primeiro, recompõe o chão, alimenta a casa e organiza a produção. Depois, quando há excedente e beneficiamento, pode chegar à renda.

É esse caminho que ajuda a olhar de volta para Acarape. No hectare preparado por Francisco das Chagas, o sistema ainda começa a ser implantado. Mas a lógica que sustenta a agrofloresta já aparece antes: na mata preservada, na produção sem agroquímicos, na introdução de árvores nativas e na tentativa de produzir sem romper com o ambiente.

Transformar para permanecer-A solução que Seu Chagas enxerga, portanto, não se sustenta apenas no plantio. Ela depende também de quem colhe, transforma, vende e encontra saída quando a produção ameaça se perder. Na Acaragri, esse papel passa por Rosemeire Eloi, esposa dele e gestora comercial da microempresa.

Durante a pandemia, com as roças mais vazias e a mão de obra escassa, parte dos frutos começou a apodrecer no pé. O problema obrigou o casal a olhar para a propriedade de outro jeito. Se não era possível vender tudo in natura, era preciso aprender a transformar a safra antes que ela se perdesse. Vieram os testes, as receitas, os erros e os primeiros produtos beneficiados: doces, farinha de banana verde e licores artesanais.

Um homem de cabelos grisalhos e camisa listrada sorri ao lado de uma mulher de óculos, enquanto ambos brindam com taças de espumante.

A mudança não ficou restrita à porteira da família. Para Rosemeire, produzir no território também significa comprar de quem está perto. “A gente sempre busca no nosso território”, conta. Quando falta caju para os doces, por exemplo, ela compra do vizinho. Quando precisa de castanha, paga produtores locais para beneficiar o próprio produto e depois revende. O que não encontra em Acarape, busca em Redenção, cidade vizinha. A capital, Fortaleza, só entra no caminho quando as alternativas próximas se esgotam.

Na prática, a agroindústria familiar passou a funcionar como um pequeno ponto de ligação entre a floresta, a produção e a vizinhança. A fruta que poderia se perder vira doce. A castanha que poderia sair sem valor agregado permanece mais tempo no território. O dinheiro circula primeiro entre agricultores, beneficiadores e pequenos fornecedores do Maciço de Baturité.

Mas esse arranjo ainda depende de uma condição que nenhuma máquina resolve sozinha: gente. É aí que a voz de Rosemeire muda de tom. Ela teme que o trabalho no campo seja cada vez mais visto como falta de opção, e não como possibilidade de vida e renda. “Ah, trabalhar na roça não dá… isso está se perdendo”, desabafa. Para ela, a tecnologia ajuda, mas não substitui a presença humana. “Se não tiver quem plante… a gente tem máquina, mas, de toda forma, precisa do ser humano, do capital humano”.

A volta como futuro-A pergunta que perpassa a fala de Rosemeire – quem vai continuar? – encontra uma resposta possível em outra experiência do Maciço de Baturité. Em Mulungu, Rodrigo Vieira da Silva fez o caminho que muitos jovens do campo são ensinados a desejar: saiu do município nativo para estudar. A diferença é que voltou.

Aos 28 anos, agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea, pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal, Rodrigo voltou para uma lavoura que já existia antes dele, do pai e do avô.

Close-up de mãos segurando uma embalagem de café branca com rótulo vermelho e despejando os grãos dentro da abertura de um moedor cilíndrico prateado.

A Ecoffea é um pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Na propriedade da família, o café nunca cresceu sozinho. Dividia espaço com ingazeiras, bananeiras e outras plantas que faziam sombra, seguravam umidade e ajudavam a lavoura a atravessar os meses mais quentes. “O café só sobreviveu por causa desse clima de agrofloresta”, conta, resumindo a prática antiga que hoje ganha nome técnico.

No manejo de Rodrigo, a palhada da bananeira cobre o solo, conserva umidade e protege a terra dos raios solares. As árvores criam sombra e ajudam a formar um microclima. O esterco animal e alguns complementos reduzem a dependência de insumos externos. “Uma coisa casa com a outra”, explica.

O café também carrega uma história que Rodrigo tenta compreender com o olhar de agricultor e de pesquisador. Segundo ele, a variedade cultivada pela família é a típica, associada às primeiras linhagens de café que chegaram ao Brasil.

Um homem barbudo veste camiseta verde clara e segura um grande cesto de vime trançado enquanto colhe pequenos frutos em um cafeeiro.

Não houve, afirma, introdução de variedades modernas na propriedade. Hoje, ele participa de estudos para investigar melhor a origem genética desse material. A hipótese é valiosa, mas pede cuidado: mais do que transformar a lavoura em relíquia, Rodrigo quer mostrar que um café do passado também pode ter futuro.

Quando saiu de Mulungu para estudar Agronomia em Fortaleza, em 2018, ele ainda não tinha essa clareza. “O café que eu entendia era o que tinha aqui no quintal, que não era tão valorizado na época”, lembra. Entre as aulas e as idas ao sítio, começou a testar o que aprendia no curso e a olhar para aquela produção familiar com outros olhos. “Essa história ia ficar apagada se eu não fizesse alguma coisa”.

O que poderia ser apenas memória virou marca, produto e modelo de negócio. A Ecoffea vende em pequenas lojas de Fortaleza, mas encontrou nas assinaturas uma forma mais direta de se relacionar com quem consome. O café deixa de ser apenas grão: chega como história, origem e experiência. A cada entrega, Rodrigo não vende só um produto do Maciço. Mostra que um território pode permanecer vivo quando aquilo que nasce dele encontra valor sem precisar abandonar suas raízes.

Quando Rodrigo fala de origem, toca em uma palavra que também aparece em outras experiências agroflorestais: ancestralidade. No caso dele, ela aparece na memória familiar, na variedade antiga de café e no cultivo sombreado que resistiu ao tempo. Mas, nos territórios indígenas, essa palavra ganha outra profundidade. (Agencia Econordeste)

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