HUBERTO CABRAL É INTERNADO EM JUAZEIRO DO NORTE, CEARÁ

O jornalista cratense Huberto Cabral, de 89 anos, foi internado na tarde desta terça-feira (28) no Hospital Regional do Cariri (HRC), em Juazeiro do Norte, após apresentar suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo a unidade hospitalar, ele está sendo acompanhado pela equipe médica e responde bem ao tratamento. NotíciasCrajubar

De acordo com o diretor do HRC, Wilton Almeida, Huberto Cabral deu entrada na unidade por volta das 13h e passou por atendimento de emergência. 

"Já foi recebido, medicado, foram tomados todos os exames dele necessários. Os médicos estão fechando o diagnóstico para ver o que é precisamente. Os exames de emergência já foram feitos e ele está sendo bem acompanhado", informou Wilton ao jornalista Franzé Souza.

Em nota, a Rádio Educadora do Cariri FM, onde Huberto Cabral atua como colaborador desde a fundação da emissora, há 67 anos, pediu orações pela recuperação do jornalista.

"A Família Rádio Educadora do Cariri FM pede orações a todos e aguarda novas informações do HRC, na torcida pela breve recuperação do colega colaborador", diz o comunicado.

Com mais de sete décadas dedicadas ao jornalismo, Huberto Cabral é considerado um dos maiores memorialistas do Cariri e frequentemente chamado de "enciclopédia viva" da região por sua memória sobre fatos históricos. NotíciasCrajubar

Ele cobriu acontecimentos marcantes do Ceará e entrevistou presidentes da República, como Castello Branco, Ernesto Geisel, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Em reconhecimento à contribuição para a preservação da memória regional, recebeu, em 2019, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri (Urca).


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Fórum pede compromisso de candidatos com comunicação democrática

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) vai lançar, no próximo sábado (1º), uma carta de compromisso com a defesa da democracia e com a comunicação democrática para toda a sociedade. A ideia é buscar a adesão pública de candidatos e pré-candidatos às eleições deste ano.

O documento traz uma série de pontos com o objetivo de fortalecer a democratização da comunicação no Brasil. Segundo o FNDC, também são propostas para defender a comunicação pública, comunitária e educativa, além de fazer frente ao monopólio das grandes empresas de comunicação digital.

Soberania Tecnológica e Infraestrutura Nacional: investimento no desenvolvimento de aplicações próprias gratuitas para reduzir a dependência de corporações estrangeiras. Proibir a privatização de empresas como Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e Dataprev.

Regulação da tecnologia de Inteligência Artificial: firmar regras para o desenvolvimento e uso da Inteligência Artificial voltadas à garantia de direitos que vetem o uso com risco excessivos (como reconhecimento facial na segurança pública), combatam o racismo e a violação de direitos.

Proteção a Jornalistas e Comunicadores: fortalecimento de programas de proteção contra violências e intimidações, especialmente para profissionais da comunicação e comunicadores que atuam em territórios de conflito.

Proibição da Propriedade de Mídia por Políticos: efetivar o Artigo 54 da Constituição para impedir que pessoas detentoras de mandato possuam concessões de rádio e TV.

Fortalecimento e independência da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e demais empresas públicas de comunicação: garantir orçamento adequado, autonomia editorial, concurso público para as empresas de comunicação pública. Restabelecer o Conselho Curador da EBC e expandir a Rede Nacional de Comunicação Pública.

A leitura da carta, com todos os compromissos, será feita no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Também será feito o anúncio das primeiras campanhas que aderiram ao documento

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FAZENDA NORMANDIA, CARUARU E A AGRICULTURA FAMILIAR

A crise do clima também chega à nossa mesa, ameaçando a segurança alimentar. Em Caruaru, no Agreste pernambucano, o Assentamento Normandia mostra que a resposta a esse desafio pode nascer da terra e da resistência. 

Prova disso é que, há mais de 30 anos, famílias agricultoras vêm construindo um modelo de produção agroecológica que abastece escolas e creches do Agreste à Zona da Mata, chegando até o Recife.  

Símbolo da luta camponesa e um dos territórios mais produtivos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, Normandia nos faz questionar: que agricultura queremos? 

Em 2025, o Brasil viveu o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos,  conforme sinaliza levantamento da Repórter Brasil com base em dados do Ministério da Saúde. 

Esse foi o mesmo período em que o Brasil bateu recordes de aprovação de pesticidas. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, 38% a mais do que o ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União. 

Solo de terra arada com brotos de plantas agrícolas sob céu parcialmente nublado e vegetação ao fundo.

A produção do assentamento é o cultivo livre de agrotóxicos e transgênicos, um modelo que preserva o solo e a biodiversidade da Caatinga | Foto: Andréia Vitório

No Assentamento Normandia, a história é diferente: famílias agricultoras produzem alimentos a partir da agroecologia, respeitando a biodiversidade e a saúde do solo, sem o uso de agrotóxicos. 

É nesse contexto que ocorre, por exemplo, o plantio do milho crioulo, cultivado em parceria com a Cooperativa de Produção Agropecuária Normandia (CoopaNor), envolvendo agricultoras e agricultores assentados, que funcionam como verdadeiros guardiões da soberania alimentar da região. 

Por lá, a prática do armazenamento de sementes, que atravessa gerações, segue contribuindo para a autonomia produtiva dessas comunidades. 

Nada de alimentos ultraprocessados. O que se vê em Normandia é a adoção de boas práticas de manejo do solo considerando as especificidades do bioma Caatinga para a produção de alimentos como a macaxeira, um dos pilares da agricultura familiar e da alimentação no Brasil, em especial no Nordeste brasileiro. 

“Apesar da nossa dificuldade hídrica, ela consegue resistir tanto quanto a gente. Um pingo de água já faz ela desenvolver. A macaxeira tem nos salvado durante toda nossa história”, conta a agricultora e assentada Mauricéia Matias. 

Bancas de lona branca da feira da agricultura familiar expõem frutas e hortaliças sob grandes árvores ao ar livre.

A produção de alimentos no Assentamento Normandia é diversificada e baseada em práticas agroecológicas. Na imagem, produtos destinados à comercialização | Foto: Andréia Vitório

Nada se perde: “aproveitamos 100% dela. A gente mói a maniva, que serve para a ração animal. Aquela primeira casca, quando a macaxeira vai para a agroindústria ser beneficiada, volta para a terra para fazer o processo de adubação natural. Já a segunda casca serve para alimentação animal”, exemplifica.

A agroindústria beneficia parte da produção à vácuo e há também uma unidade de pães e bolos à base da macaxeira, conhecida por muitos como aipim ou mandioca. Enquanto a produção segue seu ritmo nos moldes agroecológicos, a comercialização é ainda desafiadora.

“A gente tem saberes, inclusive de nossos antepassados, de produção e colheita, mas na hora de comercialização, há uma certa timidez de não saber o valor que esse produto tem”, comenta Mauricéia. “Não estou dizendo que tem que ser caro, mas tem que ser justo, levar em conta o tempo que a gente dedica a essas produções que não têm agrotóxicos e contam com matérias-primas mais selecionadas. Isso tem que fazer diferença”, destaca.

Outra vantagem para o consumidor é saber de onde vem o alimento que está consumindo. Isso faz ainda mais sentido quando lembramos que 90% de toda a cultura de milho no Brasil é transgênica, segundo dados da Embrapa. 

Mas não no Assentamento Normandia: testes químicos e genéticos confirmaram que o cuscuz flocão de milho da marca Normandia é um produto livre de organismos geneticamente modificados (transgênicos) e da contaminação de agrotóxicos. Produzido por agricultores familiares do Assentamento a partir de milho crioulo, o flocão foi lançado oficialmente em 2025. 

Assentamento Normandia-Em 1993, 247 famílias de trabalhadores rurais sem-terra, provenientes dos arredores de Caruaru, Agreste Pernambucano, ocuparam a Fazenda Normandia, que contava com 1.100 hectares improdutivos. Juntas, começaram a plantar hortaliças, milho, feijão e abóbora para vender na feira.  Também construíram casas de taipa e uma escola. 

Nascia, assim, a primeira experiência de educação em assentamentos da região. A ocupação durou quatro anos.  Em 1997, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento das famílias na área.

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares | Foto: Andréia Vitório

Organizado em agrovilas, o assentamento reúne hoje 41 famílias, cada uma com seu quintal produtivo, em uma área de 568,58 hectares. Além disso, Normandia é conhecido por abrigar, desde 1998, o Centro de Formação Paulo Freire, espaço de eventos de formação e mobilização política, responsável por aproximar saberes tradicionais, populares, políticos e acadêmicos para o fortalecimento da agricultura familiar e suas boas práticas, mantendo viva a semente da resistência. 



 






 




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FORMAÇÃO DE JUVENTUDES PARA A CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Foi com lágrimas e abraços apertados, como demonstração de afeto construído pela aproximação ao longo de 14 dias de convivência e também com mística e ato simbólico do plantio de duas árvores de licuri, que chegou ao fim, na segunda-feira (20), a 32ª Escola de Formação de Juventudes para a Convivência com o Semiárido (EFJCSA). 

Nas diversas falas ao longo do encerramento, frases como “saio daqui com o coração rebelde em busca de mudanças” e “vou levar o que aprendi aqui para minha comunidade” ilustram muito do que a EFJCSA representa. A programação contou com atividades e discussões intensas sobre temas sociais urgentes, como a luta antirracista, a diversidade de gênero e os desafios atuais enfrentados pelas juventudes; também houve estudos a respeito de diversos assuntos relacionados à Convivência com o Semiárido, que perpassam desde os cuidados básicos com o solo, a criação, a água e as práticas nos quintais produtivos até os assuntos mais estruturantes, como educação contextualizada, os direitos ainda negados às comunidades rurais, as possibilidades para a geração de renda e as políticas públicas voltadas para a agricultura familiar. 

Com o tema “Corpo, terra, água e memória: ancestralidade e saúde no Semiárido”, essa tradicional Escola de Formação, realizada pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), reuniu, nesta edição, 40 jovens dos estados da Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Nesse sentido, mais uma vez, a EFJCSA proporcionou o encontro de uma diversidade de vozes, rostos e vivências. E o resultado, novamente, foi a construção de um espaço de rica troca de saberes e que mantêm a esperança em uma juventude que faz acontecer, que assume o protagonismo das suas histórias e o compromisso com a coletividade, a defesa dos territórios e as causas sociais populares. 

“Uma das coisas que levo, com certeza, é a diversidade de opções que o Semiárido nos dá para sobreviver, para nosso sustento, para cuidar dele também. O Semiárido é muito resiliente e isso nos proporciona refazer nossa trajetória por diversos caminhos. Levando sempre em consideração que, nesses caminhos, a gente precisa mantê-lo (o Semiárido, os biomas) de pé, que a vida depende do nosso cuidado”, ressalta a jovem participante Brice Reis, integrante da Rede Pintadas – Cooperação e articulação no semiárido baiano, do município de Pintadas-BA.

Para o jovem oceanógrafo que atua como assessor de pescadoras artesanais em Recife-PE e  integrante do Projeto Jandaíras, Matthews Rocha, os conhecimentos da Escola de Formação o inspiram a trabalhar a Convivência com a realidade dele:

“O que aprendi aqui tá para além do Semiárido, se a gente pensar o nosso litoral, o agreste, a gente pode fazer relações, confluências com outros biomas, com outros espaços, outras pessoas e organizações. Levo muito aprendizado, muita gratidão por tudo que aprendi aqui (…) Aprendi com a juventude que é possível viver bem onde quer que a gente esteja, porque a gente não é só futuro, a gente é presente; a gente tem apresentado perspectivas de vida, de viver bem onde a gente está vivendo, nos nossos territórios, nas nossas comunidades”. 

Matthews complementa ainda sobre a importância das discussões relacionadas à contextualização do ensino e que, diante da realidade atual, é preciso mesmo ter “uma educação antirracista, uma educação feminista, anticapacitista, que sabe dialogar, que sabe escutar, que sabe conviver com as pessoas, sabendo que cada pessoa tem algo a dizer e a ensinar”.

As abordagens de assuntos como as oportunidades para a juventude em suas respectivas realidades e da sucessão rural chamaram a atenção da participante Mirela Nascimento. “Não precisa sair da nossa vida no meio rural atrás de empregos na cidade, que é o que acontece muito. Eu acredito que você pode sim ter uma vida muito melhor trabalhando no rural”, defende. 

Mirela, que participa de um projeto voltado a jovens multiplicadores no Assentamento Vieira dos Carlos, em Trairi-CE, também destacou o tema da ancestralidade, pautado nessa edição da Escola: “Não tem um presente e um futuro sem a ancestralidade, sem um passado, porque todos nós temos uma história e essa história foi construída com os nossos antepassados”. 

O técnico em agropecuária e estudante de agronomia João Pedro Bueno ressalta que os conhecimentos também vão contribuir para o trabalho desenvolvido na área da Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER), pois ele atua como Agente Comunitário Rural (ACR) e nas ações do Projeto Dom Helder Câmara em Cajazeiras-PI.

"Aprendi muito, desde a questão da conservação dos solos e das águas (…) Essa imersão foi muito importante para a  minha a vida, porque a partir desse momento, vai agregar bastante para levar para a minha comunidade e para todas as pessoas que eu trabalho com a assistência técnica”.

Vivências de intercâmbios no Território 

Além de todas as atividades teóricas e práticas realizadas no Centro de Formação do José Rodrigues, a roça do Irpaa, também houve visitas a lugares marcantes do Território Sertão do São Francisco e que representam uma parte significativa das lutas dos povos do Semiárido: a força da coletividade que Canudos ensina; o impacto da construção da Barragem de Sobradinho na vida das famílias que viviam na região; a potência que é a Educação Contextualizada e a Pedagogia da Alternância, representadas pelas práticas da Escola Família Agrícola de Sobradinho; os cuidados com Velho Chico e a vitrine da Agricultura Familiar e do Cooperativismo, no Armazém da Caatinga em Juazeiro.

Em cada vivência, as juventudes puderam conhecer detalhes da história, refletir sobre as narrativas não contadas oficialmente, os desafios atuais e o quanto cada um/a pode se inspirar para seguir construindo um futuro melhor. Nesse sentido, o jovem Matthews enfatizou o que os intercâmbios significaram:

“Se não fosse pela Escola de Formação talvez eu nunca estivesse em Canudos, talvez eu nunca estivesse em Sobradinho. São lugares diferentes do ponto de vida dos destinos que foram impostos para aquele território. Canudos é esse lugar de muita resistência, que nos mostra que Canudos foi uma construção de resistência, na base da luta, da solidariedade, da Convivência com o Semiárido. Canudos é um lugar que inspira, principalmente nós, a construir um presente, um futuro melhor para nossas comunidades mostra que os movimentos sociais, as lutas populares, os grupos organizados vêm apresentando alternativas há muitos anos para um mundo melhor, uma vida melhor, com base na solidariedade, da fraternidade, do amor, companheirismo (…) Tem muita história que às vezes são invisibilizadas; acho que só com os intercâmbios a gente consegue ter essa capacidade de olhar, de sentir; estando lá pisando naquele chão, olhando com os nossos olhos, abrindo o coração para tudo aquilo que está na nossa frente”.

A jovem Brice Reis afirma que as reflexões em Sobradinho são importantes para compreender os detalhes históricos e quais os impactos causados por grandes empreendimentos, como a barragem: “Quando você conhece a história você percebe que aquela paisagem bonita nasceu da extinção de uma cultura, de todo um costume, de um povo. Então isso acaba deixando a gente reflexivo a respeito do solo que estamos pisando hoje: quem foi que pisou antes de nós?”.

A partir das avaliações dos intercâmbios em todos os espaços, em resumo, a juventude demonstrou a necessidade de conhecer cada vez mais as realidades, de se apropriar da história, de se inspirar nos ensinamentos dos antepassados e de estar atenta aos desafios e potencialidades dos tempos atuais.  

Durante a mística de encerramento da Escola, o presidente do Irpaa, José Moacir dos Santos, agradeceu a participação de cada jovem e reforçou o papel fundamental da juventude no trabalho de multiplicação de saberes. “Vocês têm um conhecimento que a maioria das pessoas não tem. Então, a gente volta com mais esse compromisso: ‘vou ser aquele que me calei, com medo das dificuldades’ ou vou ser ‘aquela que me juntei com outras tantas que tem aí e tocamos essa luta para a frente’?”, estimulou.

“Vamos continuar fazendo essa formação e construir essa rede de lutas por esse Semiárido vivo, por esse Semiárido rico, com nós dentro e vivendo bem. Essa é a ideia dessa Escola”, concluiu Moacir.

A 32ª EFJCSA  foi apoiada por projetos do Irpaa com a cooperação internacional, a exemplo do “Agenda 2030 no Semiárido Baiano”. Esta edição também contou com o apoio do “Projeto Baraúnas dos Sertões”.

Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa | Fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa e participantes da 32ª EFJCSA

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56 MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA.

A 56ª edição da Missa do Vaqueiro reuniu milhares de fiéis e vaqueiros neste domingo (26), no Parque Estadual João Câncio, em Serrita, no Sertão Central. Considerada uma das mais importantes manifestações de fé e cultura popular do Nordeste.

Compreender que a história vem se tecendo com a força da própria vida. E por isto, disse o cantador Virgilio Siqueira, daí não ser possível guardar na própria alma a transbordante força de uma causa. Daí não ser possível retornar, afinal, a gente nem sabe ao certo se de fato partiu algum dia...

Tengo/legotengo/lengotengo/lengotengo … O vaqueiro nordestino/morre sem deixar tostão/o seu nome é esquecido/ nas quebradas do Sertão ...” Os versos ecoam pelo lugar, realçados pelo trote dos animais e o balançar natural dos chocalhos trazidos pelos donos, todos em silêncio. É música. É arte.

Cada arte emociona o ser humano e maneira diferente! Literatura, pintura e escultura nos prendem por um viés racional, já a música nos fisga pelo lado emocional. Ao ouvir música penetramos no mundo das emoções, viajamos sem fronteiras.

Realizada anualmente sempre no quarto domingo do mês de julho, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga e criada com os amigos Padre João Câncio e Pedro Bandeira.

A Morte do Vaqueiro, música composta por Nelson Barbalho, ainda ecoa nos sertões brasileiros: Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja de seus colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Luiz Gonzaga queria mais. Dessa forma, ele se juntou a João Câncio dos Santos, na época padre que ao ver a pobreza e as injustiças sociais cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão, para fazer do caso do vaqueiro Raimundo Jacó o mote para o ofício do trabalho e para a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Raimundo Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas, como chapéu de couro, chicotes e berrantes, ao altar de pedra rústica em formato de ferradura. 

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre. A Missa do Vaqueiro enche os olhos e coração de alegria e reflexões. Poetas e cantadores se fazem presente ao evento e iluminam com uma mágica leveza rimas e versos nos improvisos da inteligência. Vaqueiros e suas mãos calejadas, rostos enrugados pelo sol iluminam almas.

Em Serrita ouvimos sanfonas tocando alto o forró e o baião. Corpo e espírito ali em comunhão. A música do Quinteto Violado, composto por Janduhy Filizola é fonte de emoção. A presença de Jesus Cristo está no pão, cuscuz, rapadura e queijo repartidos/divididos na liturgia da palavras.

Emoção! Forte Emoção é que sinto na Missa do Vaqueiro ao ouvir sanfona e violeiros:

“Quarta, quinta e sexta-feira/sábado terceiro de julho/Carro de boi e poeira/cerca, aveloz, pedregulho/Só quando o domingo passa/É que volta os viajantes aos seu locais primitivos/Deixa no caminho torto/ o chão de um vaqueiro morto úmido com lágrimas dos vivos.

E aqui um assunto místico: quando o gado passa diante do mourão onde se matou uma rês, ou está esticado um couro, é comum o gado bater as patas dianteiras no chão e chorar o sentimento pelo “irmao” morto. O boi derrama lágrimas e dá mugidos em tons graves e agudos, como só acontece nos sertões do Nordeste!

Assim eu escutei e aqui reproduzo...

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EDGAR MORIN 100 ANOS PRODUZINDO OBRAS

Edgar Morin soube conquistar pelos seus textos. Introdução ao Pensamento Complexo é um livro escrito, suponho, para aquelas pessoas que, pela primeira vez, entram em contato com as ideias desse pensador. Em seis capítulos, por 120 páginas, somos gradualmente introduzidos às ideias da Complexidade, ou do Pensamento Complexo, segundo uma visão convincente, que reúne múltiplos conceitos que, ao seu melhor estilo, se complementam, concorrem, antagonizam.

Para pessoas formadas nas ciências tradicionais, onde o espaço cartesiano é a possível descrição do mundo, onde equações regem não só a física e a química, mas as relações e comportamentos humanos, as ideias de Morin surgem, ao mesmo tempo, como um choque e uma luz.

O choque advém de sabermos que nossa forma de ver e analisar a realidade é incompleta e limitada. Todo nosso conhecimento disciplinar irá nos levar, inefavelmente, a limites insuperáveis.

A luz, por outro lado, mostra que podemos viver, cientificamente, com os contrassensos que não serão superados. Eles existem e vão persistir, não por falta de uma explicação mais ampla, uma teoria unificadora, mas porque sua presença demonstra nossa incapacidade de lidar com a natural existência de conflitos e oposições.

Quando Morin se propõe a explicar essas situações, usa formas simples e claras. Afirma que o ser humano é, ao mesmo tempo, formador e formado pela sociedade. Que nós somos feitos de células. Mas cada célula individual contém nossa totalidade.

Explica também que, embora as ideias e os conceitos surjam dos humanos, eles de repente adquirem vida autônoma e fazem com que nós próprios, seres humanos, os sigamos, lutemos e morramos por eles. Ou não é isso que acontece com as religiões, os sistemas políticos e econômicos, as ciências?

É difícil uma pessoa não ter sua forma de ver o mundo profundamente alterada depois de ser tocada pelo Pensamento Complexo. A frase tão comum: “na verdade, isso é complexo”, adquire um significado diferente, maior, onde a compreensão de que o todo influencia as partes que, por sua vez, influenciam e formam o todo, passa a moldar essa nova perspectiva.

Mas, é claro, esta não foi sua primeira obra.

A carreira de escritor cientista, ou podemos dizer, de arguto observador da realidade, começa ainda em 1946, quando ele tinha 25 anos e parte para a Alemanha derrotada, como soldado do exército francês de ocupação com o objetivo autoimposto de tentar entender como a bestialidade havia tomado conta de um país como aquele. Das impressões desta experiência resulta seu primeiro livro, Alemanha Ano Zero.

Sua perplexidade com a morte, inicialmente provocada pelo falecimento da mãe em 1931, não o havia deixado e, então escreve o segundo livro, O homem e a morte. Nele, Morin tenta uma abordagem multidisciplinar para um tema que, segundo ele mesmo, nunca havia sido tratado de forma científica.

A Europa se recupera economicamente e a sociedade de massas fascina Morin que busca apreender os fenômenos de seu tempo. E assim, volta sua atenção ao cinema para compreender o surgimento das estrelas, um fenômeno tão característico do pós-guerra. Escreve, em 1956, Cinema ou o homem imaginário e, em 1957, As estrelas, mostrando como o surgimento dos ídolos cinematográficos, na verdade, atende à necessidade humana por heróis.

É marcante como Morin migra de temas e interesses como alguém sensível aos fenômenos que motivam e moldam a sociedade humana europeia e contemporânea.

E assim, na década de 1960, parte para uma aventura científico-antropológica. Vai viver com um time que conta com alguns pesquisadores e pesquisadoras, em uma pequena comunidade na Bretanha, sul da França. Lá se integra com a sociedade local e registra seu comportamento.

Posteriormente publica, em 1967, o livro Commune en France. La métamorphose de Plodémet. Embora Morin e sua equipe acreditem que era um relato de pesquisa, são duramente criticados pela própria comunidade que se sentiu usada e teve sua confiança traída.

O colega e cientista Jaques Monod, que havia ido dirigir o Instituto Salk nos EUA, convida Morin para uma temporada na qual ele permanece entre 1968 e 1969. Estuda as teorias cibernéticas de Norbert Wiener e colegas, as teorias sistêmicas de Bertalanffy e demais e ainda a teoria da informação, de Shannon, Weaver e Brillouin. O fruto desta estadia foi o início da escrita d’O Método.
O primeiro volume, cujo subtítulo é A Natureza da Natureza, foi publicado em 1977. O texto é uma verdadeira saga científica na qual Morin funde e combina conceitos da física, teoria da informação, auto-organização entre muitos outros.

A proposta de abordar os múltiplos conhecimentos humanos a partir de visões de diferentes ciências disciplinares, integrando-as em um conjunto, prosseguiu por muitos anos e culminou com a publicação do sexto volume, Ética, em 2004.

Nesse um quarto de século, Morin construiu não só as bases do Pensamento Complexo como produziu várias outras obras que influenciaram cientistas e leigos pelo mundo, com especial destaque para a América Latina.

Seria prepotente tentar condensar o conteúdo de O Método, obra tão abrangente, em poucos parágrafos. Ainda assim, para tentar fazer jus ao autor sem, no entanto, obrigar leitoras e leitores a ir à fonte, segue um breve relato de cada volume. De qualquer modo, a leitura da obra completa de Morin é profundamente gratificante.

Volume 1
Na Natureza da Natureza (vol. 1), Morin menciona e define alguns conceitos. Argumenta que, a partir da ideia de sistema, temos uma interação entre todos e partes, que as organizações são sistemas auto-organizados, que esta organização ocorre através de um fluxo de informações.

Explica que ordem e desordem são faces da mesma realidade. Precisamos que os elementos estejam desorganizados para organizá-los. Mas se tudo estiver organizado, haveria um cenário de equilíbrio estável no qual nada mais mudaria. Então é função da desorganização entrar em ação e mudar o status quo. Ele diferencia os sistemas das organizações quando afirma que os primeiros enfatizam as relações enquanto os segundos formam um todo coeso.

Outro aspecto destacado é a relação entre observador e sistema observado. Von Foerster já havia destacado esse aspecto na cibernética de segunda ordem. Na concepção de Morin, não existe um “fora do sistema”. Estamos imbricados nele, que nos influencia e, o que evidenciamos são nossas verdades parciais, não uma “realidade absoluta”.

Morin amplia o conceito de máquina. Enquanto, em geral, se pense em máquinas como dispositivos artificiais criados por humanos, ele as considera simplesmente como fenômenos de produção, como o Sol ou os Seres Humanos.

A Emergência é outro conceito complexo que merece atenção neste volume. Nesse sentido, a discussão se dá em torno da realimentação (conhecida como feedback) que, ao reintroduzir partes das saídas nas entradas, suscita a criação do novo.

Ressalta a importância do erro, que não seria o equívoco mas a fonte da novidade. Sem o erro, as coisas permaneceriam como estão, pela eternidade.

No final do volume, destaca que o conhecimento complexo não é operacional com a ciência clássica mas esta é operadora de manipulação. A verificação implica na manipulação (em seu mais amplo sentido). E isso nos leva à barbárie de nosso tempo.

Assim, a ciência complexa busca a ação mas que seja liberação, autoconhecimento, solidariedade. Ela reconhece o mistério presente em todas as coisas.

Volume 2
Em A vida da vida, Morin discute as questões da biologia que, de forma geral, não foram discutidas anteriormente. O tema é tão amplo que o índice se estende por seis páginas.

Talvez a essência deste volume possa ser “resumida” no conceito da auto-geno-feno-ego-eco-re-organização. Assim, a vida é, antes de tudo, uma forma de organização (dos elementos químicos, proteínas, de formas de manutenção e reprodução). Cada um destes prefixos salienta um aspecto da organização viva. Re- pois ela se reorganiza permanentemente; Eco- pois está intrinsecamente ligada ao meio; Ego- pois é voltada a si mesma, necessário à sua sobrevivência; Feno- é a manifestação do externo em cada um; Geno- pois carregamos em nós nossa história e genética; e por fim Auto- pois tudo isso ocorre de forma autônoma, para que a vida possa se perpetuar.

Volume 3
O conhecimento do conhecimento trata da discussão do que é nossa compreensão e como ela se forma em nós e nós a formamos.

Em sua análise, a discussão da relação entre mito e logos é, antes de tudo, uma questão de discurso. E mostra como antigos mitos (hoje vistos como superstição) foram substituídos por novos “mitos” como democracia, capitalismo ou burguesia e proletariado.

É fascinante ver descortinar no nosso entendimento como as oposições convivem. Nas suas conclusões, Morin afirma que o conhecimento objetivo produz-se na esfera subjetiva que, por sua vez, está situada no mundo objetivo.

Afirma que conhecimento seria impossível em um mundo determinista ou totalmente aleatório. “Só podemos conhecer um mundo fenomenal situado no espaço e no tempo, comportando unidade, pluralidade, homogeneidade, diversidade, invariância e mudança. Trata-se de nosso mundo uno/diverso dos fenômenos físicos/biológicos/antropológicos submetidos à dialógica da ordem/desordem/organização.”

Volume 4
Diferente dos outros, este tem um subtítulo maior: As ideias: habitat, vida, costumes, organizações.

Ao descrever o conceito de noosfera, criado por Teilhard de Chardin nos anos 1920, Morin descreve um cenário no qual as ideias (conceitos, mitos, ideologias) se formam entre humanos mas, como se adquirissem vida própria, passam a habitar um plano superior. E de lá, comandam a nós, humanos, a lutar pela sua hegemonia e permanência. Ao nos distanciarmos de conceitos como capitalismo e socialismo, ou qualquer religião, vemos o quanto tal noção é verdadeira.

É ainda neste volume que Morin discute a ideia de mindscapes de Magoroh Maruyama, segundo a qual observamos e interpretamos o mundo segundo nossos filtros e conhecimentos.

Volume 5
A humanidade da humanidade descreve o percurso do enraizamento cósmico à emergência humana. É, de certa forma, uma síntese dos volumes anteriores mas discute aspectos que não haviam sido tratados antes.

Ao invés de explicar, Morin descreve sua fascinação com a improvável e inexplicável emergência da vida e da humanidade. Do surgimento do cérebro, do espírito, da linguagem e da cultura.

Trata de três “trindades”: indivíduo/sociedade/espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Esses conjuntos que, normalmente, são tratados separadamente na ciência, passam a ser analisados em sua unidade, como que fazendo parte de um todo mas, como partes individualizáveis, se influenciando e complementando.

Volume 6
Ética. Neste seu último volume, Morin propõe um caminho para a humanidade. Enquanto nos outros, a análise foi exploratória e analítica, neste caso a proposta defende um comportamento que traga esperança aos seres humanos, esperança esta que ele nunca perdeu.

O livro desenvolve a Ética em três planos: a autoética, a socioética e a antropoética.

Em um mundo carente de certezas absolutas e na falta de crenças transcendentes, a autoética é fundamental. Ela comporta uma permanente autoanálise, autocrítica, tolerância e tomada de responsabilidade. Requer compreensão e abertura à magnanimidade. Uma Ética da cordialidade, cortesia e amizade. É notável como ele anteviu as nossas mais prementes necessidades nesse caminhar do século 21, onde os antagonismos e divisões ficaram exacerbados.

A socioética é uma proposta de comunidade com solidariedade e liberdade. Ainda no contexto das noções antagônicas e complementares, afirma que os governos dependem dos cidadãos que por sua vez, dependem do governo. Assim, democracias produzem cidadãos e estes produzem a democracia. O enfraquecimento de um, faz desvanecer o outro.

No plano mais abrangente e ambicioso, temos a antropoética. Com ela Morin defende a ideia de um destino comum da humanidade. Que precisamos de uma tomada de consciência em vários âmbitos: na identidade humana comum e na sua diversidade, na necessidade da compreensão mútua, na nossa relação com a biosfera, na solidariedade com as crianças da terra, no destino comum do planeta.

Este último volume é concluído com uma discussão do Mal e do Bem. Do primeiro destaca que suas causas são irredutíveis, originadas da hubris e dos excessos, da parte demens do humano. E que temos que resistir à crueldade do mundo. Sobre o segundo, elabora mais sobre a Ética complexa. Nela, convivem as antinomias humanas sapiens/demens, faber/mitologicus, economicus/ludens.

E assim, tal Ética precisa enfrentar estas ambiguidades e contradições. Mas deve deixar-nos prontos a regenerar. Que há uma possibilidade no invisível que é real.

Morin conclui o trabalho com esperança e crença que um futuro melhor é possível.

Durante o período em que escreveu O Método, Morin publicou muitas outras obras, algumas influenciadas por esta escrita, outras que, acredito, a influenciaram.

Publica Ciência com Consciência, que é antes um chamado à responsabilidade de cientistas para o uso de suas pesquisas e descobertas.

Em uma linha mais pessoal, escreve um livro biográfico sobre seu pai, Vidal e os seus. Trata, em Sociologia, da sua visão desta ciência disciplinar, e em Terra-Pátria faz seu apelo ecologista, mostrando os efeitos globais da poluição, contaminação e destruição dos recursos naturais, afirmando que estamos todos, seres humanos, nessa nave planeta.

Em Meus Demônios faz um balanço da sua militância no partido comunista, sua expulsão por discordar das linhas do partido e que precede a divulgação dos crimes de Stalin. Já em Cabeça bem- feita discute as necessárias mudanças na educação. A este volume se juntam Religar os conhecimentos e Os Sete saberes necessários para a educação do futuro, que formam uma trilogia sobre os rumos da educação. O último título foi uma encomenda da Unesco que o publicou em muitas línguas e projetou o nome de Morin globalmente.

Continua publicando intensamente, uma média de dois livros por ano, desde os anos 1980 até 2025. São aproximadamente 100 livros, alguns em coautoria. Escreve também prefácios e artigos em numerosos periódicos.

A referência em francês na Wikipedia lista grande parte de suas publicações nesta língua.

Curiosamente, a oferta de títulos em inglês é diminuta, o que daria lugar a boas discussões sobre hegemonia cultural mas que não será tratado neste artigo.

Por outro lado, a presença de obras de Morin em português e espanhol é considerável. Só na lista dos 130 títulos diferentes disponíveis nas bibliotecas da USP, em levantamento deste autor, foram localizados 100, a maioria em português sendo alguns em espanhol.

Além dos temas citados, Morin também tratou da sua visão da questão judaica, tanto na sua relação nas obras biográficas como depois, discutindo mais amplamente temas do conflito israelense-palestino.

Diversas obras tratam de cidades onde viveu, especialmente Paris e outros textos são balanços de sua própria vida e obra. Destas vale destacar Meus filósofos, na qual passeia pelos nomes que vão de Aristóteles à Escola de Frankfurt, passando por muitos outros nomes, não só da filosofia.

Ao contemplar tão vasta obra que reflete o inconformismo de Morin com o status quo, seja da sociedade acomodada, da cultura fossilizada ou dos indivíduos acríticos, a lição que se pode aprender é a do exemplo de alguém que, não só viveu muitos anos mas que soube, nesse longo tempo, manter anseios contemporâneos e a motivação de enfrentar desafios do presente.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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A FORÇA DA AMIZADE, POR JOSÉ SARNEY

 Sempre digo que a amizade é a melhor coisa da vida. O primeiro amigo que Deus me deu foi o livro. Ele me acompanha por toda a minha vida, cada ano com maior presença e estreito aconchego. O livro nos conforta e nos suporta nos momentos difíceis e nas horas tristes. Acredito que tenha passado um quarto de minha vida lendo. Muitas vezes, troquei a companhia do meu sono pela de um livro.

Na verdade, o primeiro amigo que tive, à frente do livro, foi o meu pai. Quando eu tinha poucos anos, durante minha infância, mas já com a consciência presente, meu pai chamou-me e disse: "José, ninguém nasce sem um pai. Eu já sou o teu, agora quero ser também teu amigo". Assim, passei a viver ao seu lado até a sua morte — novo ainda, aos 58 anos —, desfrutando do seu carinho e do seu amor de pai, mas também da convivência com um amigo, na sorte de estarmos sempre juntos: eu ouvindo seus conselhos, as histórias que ele contava, no prazer e na força dessa amizade, numa constante troca de ideias, aprendendo seus ensinamentos sobre educação, disciplina, paciência, prudência, solidariedade e amor.

Deus concedeu-me a felicidade de ter amigos da vida inteira, e não canso de agradecer todos os dias por compartilharem comigo as tristezas e alegrias desta existência. Alguns amigos da infância me acompanharam na adolescência e maturidade. Hoje velhos estamos, velha a nossa amizade permanece. Maranhão, minha terra e meus amigos. (Buzar, diga a todos que estão sempre em meu coração.) E que saudade de Bandeira Tribuzzi, Ferreira Gullar…

Nessas amizades antigas estão as pessoas que nos mostram um "espelho do tempo", não nos deixando esquecer de quem somos verdadeiramente, pois nos conhecem há tanto tempo que, às vezes, nos enxergam com mais clareza do que nós mesmos. Se consideram que agimos de forma que não nos reconhecem em algum momento, nos tropeços da vida, logo dizem: "Que é isso, meu amigo? Nem o conheço mais." E assim nos ajudam a "acertar o passo." 

Não resisto e vou citar alguns nomes para homenagear todos os amigos do início de minha vida parlamentar, pois também não saem do meu coração. Primeiramente, Odylo Costa, filho e Josué Montello. Em seguida, Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Gilberto Amado, Jorge Amado, nossa querida Zélia, Rachel de Queiroz, Alceu Amoroso Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Austregésilo de Athayde, Carlos Chagas Filho, João Cabral de Mello Neto, Otto Lara Resende, Carlos Castelo Branco, José Américo de Almeida.

Nos meus 60 anos de vida política, em que tive a sorte e a ventura de ser deputado federal, governador, senador por dois estados, Maranhão e Amapá, e presidente da República, pude colecionar uma miríade de amigos. Mais do que os cargos que ocupei, muito me orgulho das amizades: políticos, diplomatas, jornalistas, chefes de Estado, com muitos ainda desfruto do gosto da convivência e da troca de ideias que me enchem a alma.

Sempre tive muito gosto de ter amigos. Os que trabalham comigo, ou com quem tenho qualquer relação profissional, transformam-se em amigos, tornando-se quase familiares. Assim tenho sido a vida inteira. E não me arrependo.

Nesta altura de minha vida, descobri que tenho gosto também de fazer novos amigos. Comecei a pensar na poderosa força do outro, como ensinou Cristo, quando recentemente, nesta minha idade, tive alegria de estreitar convivência com pessoas da Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na USP — que, no ano de 2026, completa 200 anos —, que me convidaram para fazer parte da comissão de assuntos que deverão marcar essa data, sob a presidência da celebrada diretora eleita da Faculdade, Profª Drª Ana Elisa Bechara, grande talento, muito querida pelos alunos da Casa.

Assim conheci Rui Caminha, excelente pessoa, dedicado a servir a história da entidade, zelando por ela com total doação. Conheci também homens vitoriosos, novos de idade, mas já grandes advogados de São Paulo, ex-alunos com as raízes na velha faculdade de sua formação. Com eles, gente nova de fora do mundo da política, em agradáveis almoços, percebi um outro lado da realidade brasileira: o quanto essa gente nova está preocupada não só com o país, mas também com a literatura, com a cultura.

Ao nos despedirmos após um encontro, instintivamente, chamei-os de "amigos" e descobri uma força também nas novas amizades abrindo os horizontes de nossas vidas.

AMIGOS Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade. Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade.

Os teólogos buscam compreender as raízes da amizade desde o Livro do Gênesis. Eu acho que só não se pode dizer que ela é a motivação, mas, sem dúvida, uma das alegrias de sustentação do viver é essa forma de comunhão humana que une as pessoas e faz com que essa união seja sinônimo de felicidade e caminho para muitas alegrias e satisfações.

A primeira vez que eu senti a força do que era a amizade foi numa conversa com meu pai, quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Ele me chamou e, no meio da nossa conversa, já então um relacionamento de estreita ternura e grande amor, me disse: "José, eu sou teu pai. Ninguém nasce sem ter um pai. Sou parte da missão de Deus para que tu tivesses vida. Assim, eu já sou teu pai, quero ser também teu amigo."

Talvez eu não soubesse àquele tempo a profundidade do que ele tinha me dito, mas hoje ele está no caminho da eternidade, e eu, aqui, nos caminhos da existência que Deus me deu, através dele e de minha mãe, posso afirmar que o pedido dele para que fôssemos amigos me indicava o melhor caminho. E posso dizer que sua amizade foi a primeira, a maior e a mais profunda de minha vida, dividida com minha mãe, que também marcou esta minha jornada.

Sempre fui muito amigo de meu pai, e nessa amizade estava a confidência e, sobretudo, a confiança — sinônimo de amizade, porque esta não existe se antes não existir aquela. É a confiança que dá a segurança de unidade, de revelação e de certeza de que a amizade é, como diz Dom Bento de Aviz, "uma das experiências universais mais estruturantes do humano, como o amor, a dor, o vínculo, a festa, a amizade", considerando, inclusive, que ela faz parte do próprio dom de Deus com os homens.

Que ela faz parte da sublimação da alegria do relacionamento humano não tenho dúvida e deixo essa busca religiosa de sua origem para afirmar da vivência e da existência de cada um. Atrevo-me a dizer que quem não tem amigos não viveu, pois deixou de experimentar o que há de mais humano em nós; quem não fez amigos ou os abandonou corre o risco de ficar condenado à frustração e à infelicidade.

São os amigos aqueles que nos sustentam nos momentos difíceis, e nós os sustentamos nas horas iguais. São os amigos que nos dão segurança na necessidade dos conselhos e das opiniões. Muitas vezes, são os que nos salvam. Reconheço que não são muitos e, ao longo da nossa trajetória na face da Terra, o próprio viver nos faz ir decantando e vendo sobrar aqueles que foram testados e juntos nos asseguram a felicidade de poder chamá-los de amigos.

Meu pai, para mim, colocou a amizade senão acima da paternidade, pelo menos no mesmo andar em que elas realmente se encontram. Cristo, igualmente, fez a mesma coisa quando, na Última Ceia, fala aos seus apóstolos: "Já não vos chamo 'servos', porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado 'amigos', porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer." (Evangelho de São João, 15:15.)

Assim, nós descobrimos que, quando o Redentor se refere aos amigos não é o mesmo de quando Ele se refere aos irmãos. A Irmandade está vinculada à nossa origem divina, na certeza de que todos somos filhos de Deus. Já para ser amigo precisamos da vida; e acredito que a base da amizade é a intimidade — intimidade esta que Cristo tinha com os que, com Ele, assumiram a missão de evangelizar. 

São Gregório, contudo, em sua divergência com São Basílio, nos adverte em sua autobiografia sobre a profunda decepção que sofreu em sua relação de confiança com esse seu grande amigo, companheiro de juventude, São Basílio Magno, relatando ter sido pressionado por ele a assumir a cátedra episcopal na isolada e árida Sássima, expressando sua dor pelo abalo na relação de confiança: "Pela força me fez assumir o trono episcopal, assim, com seu amor paternal, enganou-me duas vezes: por nossa parte, tiramos um lucro de sua amizade: não confiar em amigos e não considerar nada mais valioso do que Deus".

É verdade que, depois, impedido pelas circunstâncias de assistir São Basílio em seus momentos finais, São Gregório uniu-se novamente ao amigo em espírito, reconciliando-se na eternidade e na memória: São Gregório dedicou-se a defender o legado de São Basílio e a eternizar aquela amizade na memória da Igreja.

Não vou mais senão afirmar que a verdadeira amizade não acaba, se reconstrói sempre, porque é tão forte, tão grande e tanto espaço ocupa na vida de todos nós que não podemos viver sem os amigos que conquistamos. Até hoje sou amigo de meu pai, de minha mãe — através da sua memória e do seu eterno amor.


 


 






 





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