SOCIABILIDADES E DIVERSIDADE NA EXPERIÊNCIA FESTIVA NO CONTEXTO DAS QUADRILHAS É TEMA DE SEMINÁRIO

Verdadeiras instituições entre as expressões juninas, as quadrilhas nordestinas exercem um papel para além da beleza estética e alegórica diante de um animado público. É para falar sobre sociabilidade e diversidade no contexto das quadrilhas que o Cais do Sertão, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Observatório de Museus e Patrimônios Culturais (Observamus), promove hoje (25) e sexta (27) o seminário "Sociabilidades e Diversidade na Experiência Festiva".

A iniciativa conta ainda com o apoio da Federação de Quadrilhas Juninas de Pernambuco (Fequajupe). Pesquisadores de vários Estados e artistas das quadrilhas juninas locais vão refletir sobre gênero, sexualidade, gestão e integração, em lives no Google Meet com transmissão simultânea no YouTube do Cais. 

As mesas temáticas terão duas horas e meia de duração. A primeira mesa, hoje, vai contemplar “A experiência festiva das quadrilhas juninas: sociabilidades, interação, produção de coletividades e identidades em fluxo”. Ela será mediada pelo antropólogo, pesquisador e gestor cultural Eduardo Sarmento, da UFPE, junto aos professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (UFPE) Luciana Chianca e Hugo Menezes. O doutorando em Sociologia da Universidade Federal do Ceará Thiago de Castro também participa do debate.

Nesta sexta-feira (26), a primeira roda, das 10h às 12h30, dá voz aos quadrilheiros e artistas sobre “Gênero e sexualidade na experiência quadrilheira LGBTQI+”. Mediada pelo educador do Cais do Sertão Perácio Gondim, com Fábio Andrade (Quadrilha Junina Lumiar), Mel de Carvalho (Quadrilha Junina Zabumba), Stephany Araújo (Quadrilha Junina Dona Matuta) e Marcone Costa (diretor da Quadrilha Junina Tradição).
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CAETANO VELOSO: REVELA A HISTÓRIA DA COMPOSIÇÃO DA MÚSICA CAJUÍNA

"Existirmos: a que será que se destina? Pois quando tu me deste a rosa pequenina/ Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina/ Tampouco turva-se a lágrima nordestina/Apenas a matéria vida era tão fina e éramos olharmo-nos intacta retina/ A cajuína cristalina em Teresina.

“O rapaz chorou muito aquele dia.” O rapaz era Caetano Veloso e a frase é a atribuída a "Doutor Heli", pai de Torquato Neto. Naquele dia, em Teresina, algum tempo depois da morte trágica do poeta piauiense, um encontro entre Caetano e Heli resultou em uma das canções mais conhecidas do repertório da música brasileira: Cajuína. Aos que escutam a música sem conhecer a história por trás dela, é quase impossível saber do que se trata. Mas Caetano tratou de explicar a passagem.

"Existirmos, a que será que se destina?", questiona Caetano Veloso no primeiro verso de Cajuína, clássico de sua carreira que apareceu no disco Cinema Transcendental, de 1979 e que ele mesmo admitiu, em uma entrevista no começo dos anos 2000, que é uma de suas preferidas. A resposta não vem na sequência da canção, justamente porque parece ser uma provocação que cabe ao ouvinte (ou leitor) responder.

Caetano provavelmente se fez essa pergunta também na cena que o inspirou a escrever a música, durante uma visita à casa do pai do poeta Torquato Neto, que havia se suicidado em 1972 em Teresina, no Piauí, sua terra natal.

Em Verdade Tropical, o cantor dá a sua versão mais acabada para o episódio, contando que fora um grande amigo de Torquato nos anos 1960 e que, na época de sua morte, eles estavam um tanto afastados um do outro, o poeta tinha se tornado mais próximo do cantor e compositor Chico Buarque, que estava ao lado de Caetano quando ambos receberam a notícia de sua morte.

O poeta e escritor piauiense Paulo José Cunha escreveu há alguns anos que a ocasião da visita de Caetano ao pai de Torquato, Heli Nunes, aconteceu durante uma turnê em que o cantor desembarcou na capital do estado para um show. "Ele retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo", disse.

O próprio Caetano afirmou o seguinte durante o programa Altas Horas, da Rede Globo, em 2014: "Torquato era um parceiro, letrista do Tropicalismo, e ficamos muito abalados com sua morte, mas eu não chorei quando soube. Mas quando eu fui a Teresina, anos depois, e encontrei o pai do Torquato no hotel -- ele foi me procurar. Quando eu o vi, chorei muito. No final, ele ficou me consolando e me levou à casa dele. Ele estava sozinho porque a esposa dele estava hospitalizada e Torquato era filho único", começou.

"A casa dele tinha muitas fotografias do Torquato e nós ali, sozinhos, ficamos em silêncio. Ele ficava passando a mão na minha cabeça e dizendo: 'Não chore tanto'. Aí ele foi na geladeira, pegou uma garrafa de cajuína, colocou dois copos e ficamos bebendo sem falar nada. Depois ele foi no jardim, colheu uma rosa-menina e me trouxe. Cada coisa que ele fazia eu chorava mais".

Dr. Heli, como se desejasse relembrar a beleza da vida, deu ao amigo de seu filho uma rosa-menina colhida diretamente do quintal; e também serviu cajuína, como se quisesse adocicar aquele instante. Caetano continuava a derramar lágrimas, mas não mais de tristeza ou amargura. “Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei”, definiu Caetano.

Na cidade seguinte à turnê de Caetano pelo Nordeste, na primeira parada, ele diz ter composto a canção. Em Verdade Tropical, Caetano diz que assim que soube da morte de Torquato, sentiu uma "dureza de ânimo". "Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental", o que foi quebrado apenas quando ele foi à casa de Heli.

O poeta e letrista Torquato Neto surgiu no cenário nacional em 1967, ao lado dos compositores mais famosos do movimento que seria chamado de Tropicalismo. Com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jards Macalé compôs canções como Geleia Real, Louvação, Marginália 2, Mamãe Coragem e Deus vos Salve esta Casa Santa. Além disso, também trabalhava como jornalista -- tinha uma coluna chamada Música Popular no jornal O Sol e outra, batizada de Geleia Real, no Última Hora. O aumento da repressão durante a ditadura militar fez com que ele se afastasse dos amigos e do trabalho e se internasse em uma clínica diante de um quadro de instabilidade mental.

Conhecido como o Anjo Torto da Tropicália, Torquato se suicidou em novembro de 1972, um dia depois do seu aniversário de 28 anos. Os amigos tinham acabado de deixar sua casa, no Rio de Janeiro, quando ele entrou no banheiro e ligou todas as torneiras de gás, morrendo asfixiado. Os jornais da época relataram que as últimas anotações encontradas em seu caderno de espiral traziam frases como "Pra mim chega" e "O amor é imperdoável", esta última atribuída justamente a Caetano Veloso. (Fonte: Livro Verdade Tropical)

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HISTORIADORA AFIRMA QUE NADA SE COMPARA À PANDEMIA DO CORONAVÍRUS E SÓ A SECA FEZ CANCELAR FESTEJO DE SÃO JOÃO

O São João, oficialmente comemorado nesta quarta-feira (24), terá uma configuração diferente do habitual neste ano. Por conta do novo coronavírus, as festas em todo o estado da Bahia foram canceladas pelo governo estadual e por prefeituras locais. Você sabe a última vez que isto aconteceu? Os dados históricos não são claros neste sentido.

Contudo, estima-se que, neste atual modelo da festa, as festividades juninas só foram canceladas de forma ampla em 1961, com uma seca devastadora que atingiu o Nordeste do Brasil e ficou famosa na literatura sertaneja.

Esta é uma análise do historiador Clóvis Ramaiana. Ele explica que, somente após a década de 1960, o São João ganhou configurações de festa de massa. “Como é muito raro uma seca que atinge o Nordeste todo, só nos grandes cataclismos que deve ter havido suspensão geral, como a seca de 1961, que é a seca mais tenebrosa segundo pessoas que conversei”, explica, em entrevista ao Bahia Notícias.

Em 2010, outra grande seca também culminou em cancelamentos por toda a região. No entanto, nada que se compare à pandemia do novo coronavírus ou à seca de 1961. 

Em relação às pandemias, o pesquisador é enfático: nenhuma cancelou o São João de forma tão intensa como a Covid-19. Principalmente pelo fato de que, nos momentos em que essas doenças aconteceram, o Nordeste não foi tão atingido – e também não havia festas juninas nos atuais moldes, com aglomerações e contornos mercadológicos. 

“O São não é uma festa assim tão plurissecular. Provavelmente, é a primeira pandemia que o São João pega é essa. A gripe espanhola não fez um grande estrago no sertão, e a peste bubônica na década de 1920 também não chegou forte. Teve algumas regiões que sim, como Riachão do Jacuípe, Tanquinho, que foi bem devastadora”, supõe. “Mas aí você tem um fenômeno de que o São João não era uma festa de massa, mas bem mais caseira. Provavelmente é a primeira experiência de suspensão geral do São João”, acrescenta.

Ainda segundo o historiador, o São João, no atual formato que conhecemos, ganhou ainda mais força a partir da década de 1990, com a chamada “carnavalização”. Neste cenário, tradicionais festas privadas e shows em praças públicas passaram a ganhar força. “O São João já foi suspenso outras vezes, mas pontualmente. Por exemplo: morre uma pessoa na cidade e aí suspende. Mas a primeira suspensão geral é essa, porque é depois que a festa também virou geral”, indica.

Para a jornalista e doutora em antropologia, Cleidiana Ramos, embora o poder público tenha promovido a suspensão das festas com aglomerações, a população não vai deixar de comemorar a data. Para a pesquisadora, “a própria forma ou dinâmica da festa não permite ser colocada numa camisa de força”. “O que a gente percebe é que esse sentimento de festejar é muito rebelde à norma. Então, não adianta você dizer que 2 de Julho não é 2 de Julho, porque as pessoas vão lembrar do 2 de Julho. As pessoas que, por exemplo, usam a data para celebrar um aspecto mais religioso, possivelmente vão lembrar dos caboclos e vão fazer alguma coisa naquele dia, porque para elas é 2 de Julho e acabou. Não interessa se tem decretou ou não”, opina.

Vale ressalta que tanto 2 de Julho quanto São João tiveram seus feriados antecipados em nove municípios baianos, numa estratégia para conter a disseminação da pandemia.

Ainda para Cleidiana, as mídias digitais servirão para fomentar os festejos, mesmo que eles não possam ocorrer de maneira presencial. “O que eu acho é que as pessoas vão achar as mais variadas formas, seja fazendo o ‘arraiá’, se conectando, fazendo chamada no WhatsApp. Mas é interessante porque, talvez, por muitas décadas, possivelmente a gente tenha um São João, mesmo que virtual, como era antes da espetacularização. Eu digo nessa coisa de família, de confraternizar”, pontua.

Já para Ramaiana, a data não terá esta configuração “pé de serra”, como ele classifica o São João das décadas pré-culturalização de massa. “Em história a gente fala de longa duração. É um fenômeno que, para ser refeito, teria que ter uma duração maior. E uma parcela significativa do pé de serra é ter gente no pé de serra. E, para usar a expressão de um velho amigo meu, 'a roça acabou'. Diminuiu a população. Boa parte das pessoas ou é muito idosa ou muito jovem. Para formar uma sociabilidade, duraria muito tempo. Só a pandemia não teria esse efeito”, argumenta.

IMPACTOS NO TURISMO
Segundo o turismólogo e professor do curso de Eventos da Unifacs, Ednilson Andrade, os impactos no interior do estado vão ser significativos. “O São João, tirando a festa da padroeira ou cívica do município, é o principal investimento em termos de turismo, de movimentação, de receitas, de investimentos. Isso, realmente, trouxe um grande impacto, pois não vai haver a comercialização de produtos e serviços como houve no ano passado, os grandes shows e entretenimento, e não haverá o fluxo turístico para movimentar hotéis, pousadas e negócios”, analisa.

Na visão de Andrade, estes impactos podem ser refletidos até no São João do próximo ano. “Até você ter pessoas no geral com confiança de sair da sua residência pra ir para uma festa de São João em um estado de um país que é o segundo do ranking mundial de Covid por falta de políticas públicas federais... Em termos do turismo de pessoas saírem de outro estado ou de outros países, é complicado”, teme.

Ele indica que, para além do controle epidemiológico e da retomada da confiança dos turistas, é necessário observar também as dificuldades que as empresas patrocinadoras de eventos de grande porte enfrentam durante a crise.

“O São João desse ano já foi. Nesse mesmo caminho, creio que vá Natal, Revéillon, todas as festas de verão, o Carnaval também, eu acredito. Vai ser justamente o período de imunização da população e da recuperação financeira das empresas, e vamos ter outro trabalho: a recuperação da imagem do Brasil enquanto destino seguro no mundo para as pessoas poderem fazer turismo sem o risco de contaminação. Então, talvez isso ainda passe 2021 e só venha a acontecer em 2022”, desconfia. 

De acordo com o diretor de indicadores da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) e presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-BA), Gustavo Pessoti, não há números precisos sobre os impactos econômicos específicos em relação aos impactos da suspensão das festas de São João. Contudo, ele alerta que, em 2019, somente as festas privadas atraíram cerca de 500 mil turistas às cidades do interior da Bahia. 

Embora não haja dados precisos sobre o período junino, Pessoti revela que, no ano passado, todas as festas municipais no interior do estado movimentaram um montante de R$ 191 milhões. “Fiz uma avaliação nas prestações de contas dos municípios baianos com base nos relatórios disponibilizados pelo Tribunal de Contas e percebi que os gastos com todos os festejos somaram, em todos os 417 municípios, em 2019, R$ 191 milhões. Se não temos com precisão a informação única do São João, podemos dizer que esses festejos são importantes para a dinâmica municipal”, conclui.(Fonte> Matheus Caldas / Bruno Leite Bahia Noticias)
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"O SERTÃO É A MINHA FONTE DE INSPIRAÇÃO. FLORA, FAUNA, COSTUMES E O DIA A DIA DAS FESTAS DOS SERTANEJOS", DIZ O CORDELISTA J.BORGES

É no ateliê em Bezerros, no Agreste de Pernambuco, que o xilogravurista e cordelista J. Borges passa todas as tardes, traduzindo em palavras e ilustrações em preto e branco toda a imensidão da paisagem e do cotidiano do sertanejo.

 “O Sertão é a minha maior fonte de inspiração. Todo o meu trabalho é baseado na flora, na fauna, nos costumes, no dia a dia e nas festas do povo sertanejo. Eu exploro com gosto mesmo”, conta, em entrevista ao Viver. As obras lançam mão dos recursos mais tradicionais da xilogravura e cordel e simbolizam a cultura nordestina, com a singular e inconfundível assinatura do mestre.

Patrimônio Vivo de Pernambuco, o artesão de 84 anos é o homenageado do São João na Rede da Fundação Joaquim Nabuco, que será realizado nesta quarta-feira (24) no site www.saojoaodafundaj.com.br e nas redes sociais da instituição (@fundajoficial). A programação terá com apresentação do ator Adriano Cabral. 

Diante da pandemia do novo coronavírus, o festejo será totalmente on-line e contará com oficina gastronômica, atividades recreativas, espetáculos, debates, exibições de filmes e show da cantora Cristina Amaral, além da presença de folcloristas e historiadores.

“É muito bom receber essa homenagem, eu engrosso meu currículo com essas coisas”, agradece J. Borges. “Estou satisfeito, veio na hora certa. Espero que todos continuem acreditando no meu trabalho”, completa o artista, desculpando-se ao telefone pelo jeito informal de falar, com gentileza e humildade tão grandes quanto sua obra. Dentro da programação, um depoimento do homenageado será exibido para o público. Borges já recebeu da Fundaj a medalha de honra ao mérito, em 2000, e foi agraciado no ano passado com a Medalha Gilberto Freyre, na celebração dos 40 anos do Museu do Homem do Nordeste. Também em 2019, o artista assinou a decoração do São João de Caruaru e criou quatro peças exclusivas para a ocasião.

José Francisco Borges nasceu em 1935 no município de Bezerros, onde iniciou a vida artística e reside até hoje, escrevendo, ilustrando e publicando os seus folhetos. J. Borges começou a trabalhar aos 10 anos, dedicando-se à agricultura e à venda da colheita nas feiras da região. Como um dos primeiros impulsos artísticos, o jovem aproveitava a oportunidade para comercializar colheres de pau que ele mesmo fabricava. Em 1964, começou a escrever cordel e a fazer xilogravuras, entalhando madeira de pinho e imburana.

Na década de 1970, o artesão teve suas obras e técnicas reconhecidas nacionalmente como uma atividade cultural. O ateliê, que no início fabricava figuras apenas para ilustrar suas histórias, atingiu uma marca de 200 cordéis e dezenas de xilogravuras de capa. Atualmente, os produtos que narram o cotidiano do sertanejo pobre, do cangaço, do amor, dos folguedos juninos e até de crimes e corrupção são impressos em larga escala e vendidos para colecionadores e público vindo de diversas partes do mundo.

Apaixonado pelo São João, Borges lamenta que não terá a tradicional festa neste ano. “O São João é a festa melhor do mundo, anima todo lugar e todas as pessoas. Até nos lugares distantes que têm só um ranchinho de palha na beira da mata, todo mundo fica vibrando com a fogueirinha. É uma festa muito social, eu adoro. Vamos apelar para que no próximo ano tenha, porque nunca faltou”, deseja, ao lembrar de um São João que perdeu por estar nos Estados Unidos a trabalho. “Eu passei o feriado todo trabalhando, parecia como um dia comum, nunca vi uma coisa dessa”, relembra.

“Quando eu era jovem mesmo e tinha as pernas boas, eu dançava os três dias. Santo Antônio, São João e São Pedro, fazia forró lá em casa, ficava todo mundo dançando, bebendo e batendo papo.” Oscilando com o isolamento social entre o ateliê e a sua casa, J. Borges não demonstra cansaço.

“Eu faço quarentena a vida toda. Eu passo o dia no meu ateliê e depois volto pra casa, uma vez por semana vou na rua resolver as coisas e nem do carro eu saio”, confessa. “Espero que o coronavírus não me pegue, porque eu não tenho condições de escapar dessa doença. Ela desperta muito cuidado. Desde que nasci e me criei, nunca vi um problema como esse no mundo.”

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PANDEMIA APAGA TRADIÇÃO DO SÃO JOÃO E ESVAZIA CIDADES DO NORDESTE

O artesão Sebastião Luiz da Silva, 78, morador de Caruaru, no interior de Pernambuco, diz que não reconhece sua cidade. Nunca viveu um mês de junho assim. "Este não é o meu planeta", resume a ausência, pela primeira vez na história, da maior celebração do interior nordestino: o São João. A pandemia apagou o que foi preparado durante o ano inteiro e ignorou o calendário junino, mais tradicional em cidades como Caruaru (PE), Campina Grande (PB), Mossoró (RN), Cruz das Almas, Amargosa e Senhor do Bonfim (BA).

Morador do Alto do Moura, um pedaço pequeno de Caruaru que recebe uma multidão no São João durante 30 dias, Sebastião personifica o sentimento de milhares de nordestinos. Sente falta de tudo. Do milho assado, da fogueira na frente de casa, do forró esticado até o dia amanhecer, das quadrilhas, dos tiros ensurdecedores dos bacamarteiros e do movimento intenso de visitantes que vai de maio até o início de julho. Reclama até de não sentir a ansiedade da espera.

"Quando chega maio, tudo já vai se transformando por aqui. É uma fartura, muita gente na rua. A chuva começa e o milho vem. Esperar chegar o dia do São João é muito bom", diz.

Perto da casa dele, uma máscara de pano cobre o rosto da estátua do mestre Vitalino (1909-1963), o mais famoso artesão de bonecos de barro de Caruaru. É o sinal de que está tudo pelo avesso. Não há qualquer decoração alusiva ao São João. Bares e restaurantes permanecem fechados.

No vazio do principal pátio de eventos de Caruaru, um Luiz Gonzaga gigante em pedra se impõe na paisagem com uma proteção no rosto. No local, onde uma multidão se espremia durante esta época do ano para acompanhar shows, resto de frutas, pessoas passeando com cachorros e crianças andando de bicicleta.

"Eu já chorei muito. Choro quando lembro que não teremos essa festa. A gente respira o São João", diz Lucineia Ferreira, responsável pela Molecadrilha, a mais antiga quadrilha de São João de Caruaru. "Já estava quase tudo preparado. Começamos a ensaiar em agosto", conta.

Só em Caruaru, onde ocorrem mais de 800 apresentações artísticas durante um mês inteiro do ciclo junino, 3 milhões de pessoas eram aguardas neste ano. A cidade deixou de movimentar R$ 200 milhões na economia. "O calendário de Caruaru é dividido em dois períodos: antes do São João e depois do São João. É o momento em que a gente se enxerga protagonista durantes dois meses", lamenta a prefeita da cidade, Raquel Lyra (PSDB).

A prefeita decidiu não bancar lives de artistas, mas usar as apresentações virtuais para fazer o chamado São João Solidário. As lives vão servir para arrecadar alimentos para quem ficou sem trabalhar na festa, caso de artistas populares. A cidade já tinha captado com a iniciativa privada R$ 7 milhões. O dinheiro será utilizado na festa do próximo ano. "Vivemos um sentimento de profunda tristeza. A gente se pega ouvindo uma música e chorando. Não é simples", lamenta a prefeita.

Os hotéis e pousadas da cidade estão vazios ou com taxa de ocupação mínima. Dono de um dos principais hotéis de Caruaru, o empresário Fábio Couto teve que demitir 17 funcionários. Após um período fechado, retomou as atividades há dez dias, mas a ocupação não passa de 10%.

Na Bahia, o governador Rui Costa (PT) emitiu um decreto cancelando os festejos juninos em todos os municípios baianos devido à pandemia e antecipou o feriado estadual do dia 24 de junho para o mês de abril. O estado tradicionalmente tem festas de santo Antônio, são João e são Pedro espalhadas por todo o território. As maiores acontecem nas cidades de Cruz das Almas, Amargosa e Senhor do Bonfim.

Em Cruz das Almas, cidade de 63 mil habitantes do recôncavo baiano, a prefeitura optou por cancelar o São João e não ter nenhuma programação festiva durante o de junho neste ano. Não haverá shows, apresentações de quadrilha, bumba-meu-boi, nem tradições como pau de fita e o casamento na roça. "Estamos todos muito tristes, mas tristeza maior é esta pandemia. Entendemos que não havia clima para celebrar nada quando estão morrendo 1.200 pessoas por dia no país", afirma o prefeito Orlando Peixoto (PT).

A cidade chega a ter até 100 mil pessoas por dia nas ruas durante cinco dias de festa do São João, incluindo entre 30 a 40 mil turistas que circulam pela cidade e movimentam a economia. Muitos deles vêm em grupos e hospedam-se em pousadas e alugam casas na cidade.

A prefeitura estima que a festa movimente cerca de R$ 30 milhões na economia da cidade, incluindo hotéis, bares, restaurantes, quituteiras, fabricantes de licor e de fogos de artifício. Sem a festa, a prefeitura orientou a população a evitar acender fogueiras, soltar fogos de artifício e receber parentes de fora da cidade. Também vai intensificar a fiscalização nas entradas da cidade, com um reforço nas barreiras sanitárias que já estão em atuação.

Além do setor de turismo, o comércio deve sofrer um baque com o cancelamento dos festejos juninos. Na Bahia, o São João é considerada a segunda principal data de vendas, superando até o Dia das Mães. De acordo com cálculos da Fecomércio Bahia, o cancelamento dos festejos deve provocar uma queda nas vendas de 23%, afetando principalmente os setores de supermercados e vestuário.(Diário de Pernambuco)

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SECRETÁRIO DE SAÚDE DA BAHIA CRÍTICA GUERRA DE ESPADAS REGISTRADAS EM SENHOR DO BONFIM

O secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, criticou, em entrevista ao Jornal da Manhã desta quarta-feira (24), a realização de "guerras de espadas" registradas na noite de terça (23), véspera de São João, em Cachoeira, cidade do recôncavo baiano, e Senhor do Bonfim, no norte do estado.

Apesar da pandemia de coronavírus e das recomendações por isolamento social, moradores das duas cidades se reuniram nas ruas e soltaram fogos.

“A guerra de espadas é por si só um ato de vandalismo. Entendo que é uma tradição baiana, mas é algo que hoje, no século XXI, compreendendo a racionalidade das complicações que isso pode trazer... Quando eu era adolescente, quando era estudante de medicina, tive a oportunidade ir a Senhor do Bonfim e ver de perto como era a guerra de espadas. É um ambiente de alto risco. A pessoa tem que ir de capacete, casaco de couro, duas calças jeans, ambiente de fumaça terrível, que irrita as vias aéreas, e nessa época de Covid isso é extremamente prejudicial para o pulmão”, disse o secretário.

“Deveria ser considerado um crime acender uma espada. Antes de haver restrição, era a principal causa de atendimento no nosso hospital em Santo Antônio de Jesus. O centro de queimados vivia cheio de pessoas sequeladas de espadas. Rogo para que haja repressão, para que isso seja proibido e reprimido de forma extensiva pelas autoridades”, disse Vilas-Boas.

Vilas-Boas afirmou que a taxa de novos casos de coronavírus por dia na Bahia está atualmente em 3.5%. Porém, algumas cidades ainda estão com números altos. O secretário apontou a migração de pessoas de fora do estado e também a flexibilização do comércio como principais fatores para o descontrole.

“Temos um processo de interiorização da pandemia para municípios de pequeno e médio porte. Processo causado por migração, principalmente de São Paulo, através de ônibus clandestinos. Mas também temos municípios que adotam estratégias inadequadas, de abrir o comércio, como foi o caso de Vitória da Conquista e Feira de Santana. A história se repete. É a terceira vez que esses municípios abrem o comercio, o número de casos dispara e tem que voltar atrás e fechar de novo. Não é hora de flexibilizar atividade comercial. É preciso manter o controle por mais algumas semanas. Definimos que só haverá qualquer tipo de flexibilização quando houver uma neutralização do crescimento por 14 dias sustentados”, afirmou o secretário.

Segundo o último boletim da Secretaria de Saúde do estado (Sesab), divulgado no fim da tarde da última terça-feira, a Bahia possui 49.084 casos confirmados de coronavírus, com 1.491 mortes em decorrência da doença. (Fonte: G1 Bahia)
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NUVEM DE GAFANHOTOS PASSA PELA ARGENTINA E PREOCUPA AUTORIDADES NO BRASIL

A nuvem de gafanhotos que chegou à Argentina e se aproxima do Brasil preocupa pesquisadores e autoridades brasileiras por ser uma praga ainda pouco conhecida e que é capaz de causar danos enormes às lavouras agrícolas.

Antes de chegar à Argentina, a nuvem de gafanhotos passou pelo Paraguai e, por lá, destruiu plantações de milho. De acordo com monitoramento da Argentina, os insetos devem seguir em direção ao Uruguai.

Isso preocupa o Ministério da Agricultura do Brasil, já que, ao realizarem este percurso, os gafanhotos passarão pelo oeste dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Segundo um relatório do Ministério da Agricultura da Argentina, a espécie de gafanhoto que avança na América do Sul, chamada Schistocerca cancellata, causou danos severos à produção do país nos anos 1960 e ainda é "pouco conhecida". Novos ataques do inseto voltaram a ser relatados no país vizinho somente em 2015.

“Esta espécie causa danos em todas as suas fases de crescimento, possui um aparelho típico de boca para mastigar e ataca a parte aérea dos vegetais silvestres e cultivados.”

Segundo o Ministério da Agricultura do Brasil, esses insetos estão no país desde o século 19 e causaram grandes perdas às lavouras de arroz na região Sul do país nas décadas de 1930 e 1940. Mas as nuvens não se formam desde então.

"(A praga) Tem permanecido na sua fase 'isolada', que não causa danos às lavouras, uma vez que não forma as chamadas 'nuvens de gafanhotos'. Recentemente, voltou a causar danos à agricultura na América do Sul, em sua fase gregária (formação de nuvens)", afirmou o ministério.

Ivo Pierozzi Júnior, doutor em ecologia, participou de um estudo pela Embrapa no final da década de 1980 de um fenômeno parecido ocorrido em Mato Grosso, porém com uma outra espécie do inseto.

“Essas infestações são periódicas, fazem parte parte do ciclo da espécie. Já houve surtos no passado, na década de 1940, 1970, no Sul”, afirmou Pierozzi Júnior.

“Vivemos poucas experiências no Brasil para dizer como as espécies de gafanhotos respondem ao ambiente, não dá para definir quais são os ciclos (de surgimento de nuvens)”, completou o pesquisador.

Pierozzi Júnior conta que os insetos têm um mecanismo genético de gregarismo, ou seja, vivem em grupos, agregados. É um comportamento natural dos gafanhotos viverem próximos, inclusive para facilitar a reprodução.

“Se encontram condição de reprodução, sobrevivência e alimentação, elas se agregam mais, para ter mais chances de se reproduzir. É como se aproveitassem o momento favorável para potencializar (o aumento da população). É uma 'tempestade perfeita'”, explica.

Após esse ciclo de expansão, a tendência é que os insetos se dispersem e o nível populacional se estabilize. Os gafanhotos podem viver de meses até um ano, tudo varia conforme a espécie, o clima e as condições do enxame.

“Podem vir a ser um problema se, eventualmente, chegarem ao Brasil. Vai depender muito das condições que eles vão encontrar pelo caminho, o clima e o que vão ter para comer, que culturas ainda estão sendo plantadas… os gafanhotos não diferenciam uma vegetação natural de uma cultura economicamente importante para o ser humano.”

Segundo o governo, os fatores que levaram ao ressurgimento desta praga em "sua fase mais agressiva" na América do Sul ainda estão sendo avaliados pelos especialistas e podem estar relacionados a uma conjunção de fatores climáticos, como temperatura, índice pluviométrico e dinâmica dos ventos.

O professor de entomologia da Universidade de Cruz Alta Maurício Pazzini afirmou à RBS TV que a estiagem que o Rio Grande do Sul passou neste verão poder facilitar a chegada dos insetos ao Brasil.

"Se nós tivéssemos na nossa condição ideal de inverno, temperaturas frias, aquele ambiente nosso do Rio Grande do Sul no inverno, consequentemente a gente não teria essas populações porque o nosso frio iria impedir. Como a gente não tem esse frio, e como a gente não tem vento que favorece essa dispersão, a minha perspectiva é muito forte de que isso possa acontecer no estado do Rio Grande do Sul".

No entanto, Pierozzi Júnior diz que não é possível afirmar que apenas a seca e a mudança de clima que atingiu o estado e, por consequência, o Sul do continente neste ano, tenha estimulado a formação da nuvem de gafanhotos.

O entomologista e pesquisador da Embrapa de Londrina (PR), Adeney de Freitas Bueno, diz que o crescimento excessivo da população de gafanhotos é estimulado pelo clima quente e seco associado a um desequilíbrio ambiental provocado pelo uso excessivo e incorreto de agrotóxicos nas lavouras.

Ele explica que o manejo incorreto dos inseticidas destrói agentes que são controladores naturais do crescimento de insetos e da proliferação de pragas. Esses agentes naturais são, por exemplo, os sapos, pássaros, bactérias e fungos.

"Há fungos, por exemplo, que são responsáveis por causarem doenças que matam os percevejos e gafanhotos. E, quando você usa incorretamente os agrotóxicos, você destrói todos esses microrganismos que seriam importantes para controlar, naturalmente, o crescimento da população de insetos”.

"É como o nosso organismo. Se você tomar muito antibiótico, você destrói bactérias que são importantes para o nosso organismo".

Segundo Bueno, da Embrapa, uma forma de combater a nuvem de gafanhotos é utilizar inseticidas específicos nas plantações para matar os insetos.

"Porém, o uso de inseticida é paliativo e pode não ter um resultado tão bom. Pois são muitos insetos que voam de forma muito rápida a longas distâncias, em grande quantidade. Quando eles chegam, devoram rapidamente tudo o que é verde. Então, até o produtor tomar a decisão de colocar inseticida e o produto fazer efeito leva alguns dias. Somente para o inseticida fazer efeito são dois dias", explica Bueno.

Por isso, o pesquisador ressalta que o monitoramento, neste momento, é muito importante.

Já para prevenir esse estrago no longo prazo, a saída, segundo Bueno, é fazer um uso racional dos agrotóxicos e manejo integrado de pragas e doenças.

Pierozzi Júnior reforça que o controle dessas pragas deve ser feito e indicado pelas autoridades, no caso o Ministério da Agricultura. “Até porque, se o agricultor fosse aplicar (inseticida), ele precisaria de um receituário agronômico para comprar o defensivo, e isso é fiscalizado.”

O ministério pediu que a Superintendências Federais de Agricultura e aos órgãos estaduais de Defesa Agropecuária para que realizem o monitoramento das lavouras e orientem os agricultores, principalmente os do Rio Grande do Sul, a adotarem eventuais medidas de controle da praga, caso a nuvem chegue ao Brasil.

"As autoridades fitossanitárias brasileiras encontram-se em permanente contato com as autoridades argentinas, bolivianas e paraguaias, por meio do Grupo Técnico de Gafanhotos do Comitê de Sanidade Vegetal (Cosave)", reforçou o Mapa, em nota divulgada. (Fonte: G1)

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