COMEÇA A VALER O PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA 2026-2030

Começam a valer nesta quarta-feira (29) novas metas de incentivo à leitura em todo o país. Pelos próximos dez anos, o Plano Nacional do Livro e Leitura 2026-2036 pretende ampliar o número de bibliotecas e facilitar o acesso da população a livros.

O documento, publicado no Diário Oficial da União, serve de instrumento para que estados, municípios e sociedade civil conheçam e implantem os novos normativos de gestão cultural aprovados desde 2023, como o Sistema Nacional de Cultura, o Programa Escola em Tempo Integral e o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares.

A base do plano é a compreensão de que a leitura e a escrita são instrumentos indispensáveis ao desenvolvimento das capacidades individuais e coletivas, de acordo com os princípios a seguir:

compreensão do livro como economia, da leitura como cidadania e da literatura como valor simbólico criativo;

valorização da leitura como ato criativo de construção de sentidos;

promoção do direito à literatura;

desenvolvimento da escrita criativa e literária;

garantia de acesso ao livro e a outros materiais de leitura.

Página exclusiva-O Ministério da Cultura lançou no dia 23 deste mês a nova página do Plano Nacional do Livro e Leitura. A navegação foi organizada em áreas temáticas que facilitam o acesso aos conteúdos. Entre os destaques estão as seções Políticas e Programas, Legislação, Guias e Cartilhas.

Após um período de desatualização desde o ciclo anterior (2006–2016), a retomada do Ministério da Cultura, em 2023, recolocou a construção do novo Plano como prioridade. A execução do plano envolve, além do Ministério da Cultura e da Educação, instâncias colegiadas responsáveis por sua governança.


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FLORESTA NACIONAL DO ARARIPE COMPLETA 80 ANOS NESTE SÁBADO 02 DE MAIO

A Floresta Nacional Araripe-Apodi, criada em 2 de maio de 1946, constitui a primeira Unidade de Conservação de sua categoria estabelecida no Brasil, cuja estratégia era conservar os recursos florestais, para manter as nascentes d’água que irrigavam os vales.

A Flona tem sua administração e gestão a cargo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Conhecida como o Oásis do Sertão, a FLONA é uma rica área de conservação ambiental, que abriga nascentes, fauna e flora diversificadas, além de paisagens únicas da Chapada do Araripe. O espaço também desempenha papel fundamental na preservação dos recursos hídricos e na manutenção do equilíbrio climático da região, sendo um dos principais patrimônios naturais do Cariri.

Por isso, celebrar sua existência, com respeito, cuidado e valorização, é um compromisso de todos que fazem parte desta região.

No dia 2 de maio, dia do aniversário da floresta, o Mirante do Caldas promoverá uma programação cultural com a Feira Mirarte, show musical Em-CANTA-mentos: uma Odisséia Musical e Ecológica, com Luiz Carlos Salatiel, Cleivan Paiva, Abidoral Jamacaru, Pachely Jamacaru, Pedro Paulo, Cláudio Mappa e Ney Alencar, às 20h; e a apresentação da Nazirê, às 22h, com o projeto Reggae Love.

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ENCONTRO DEBATE IMPORTÂNCIA DE JORNALISMO DIANTE DE INTELIGENCIA ARTIFICIAL

Os avanços das tecnologias de inteligência artificial (as IAs) e também da desinformação impõem às faculdades de jornalismo a necessidade de potencializar uma formação humana baseada em crítica e ética. Essa é uma das considerações da professora Marluce Zacariotti, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej). 

Para ela, é indispensável que esses pilares sejam responsáveis para a permanente conquista da confiança social, em dias tão desafiadores. A pesquisadora está em Brasília para o 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). As atividades acontecem até 24 de abril.

Não precisa nova disciplina-A pesquisadora entende que a formação e a profissão passam por momentos que pedem reflexão e ações. Não se trata, então, apenas de aperfeiçoamento técnico, de acrescentar uma disciplina de inteligência artificial ou de combate à desinformação na matriz curricular. Para ela, esses temas devem ser trabalhados de forma transversal nas disciplinas do curso. “É preciso olhar para a pedagogia do jornalismo com o objetivo de reafirmar o papel clássico da atividade”, disse à Agência Brasil. 

A formação não deve abrir mão, segundo ela Marluce, de trabalhar a pesquisa jornalística e as metodologias de verificação de dados. Para ela, as tecnologias devem potencializar essas atividades, mas é preciso que seja reforçado o papel humano do fazer jornalístico. Olhar além dos muros da faculdade. Esse seria um papel da extensão universitária. Pensar em públicos e parcerias que vão colaborar com o aprendizado. “O jornalismo é um curso, por natureza, extensionista”. 

No evento em Brasília, ela citou que é fundamental que os cursos de jornalismo estabeleçam parcerias para reafirmar o papel da extensão no processo de ensino e aprendizagem.

As instituições podem ajudar à pedagogia para ajudar a decifrar o “novo universo”, a fim de identificar contextos econômicos e políticos. “É preciso entender que a gente vive nesse novo universo. Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos”.

O viés social seria, então, inerente à formação. Dentro desse olhar humano que se exige do estudante e do jornalista, a formação, segundo entende, não deve vilanizar as tecnologias. Ela defende que os pesquisadores não devem olhar para as novidades de forma apocalíptica. 

“É preciso olhar e entender que são ferramentas que a gente precisa saber usar da melhor maneira possível. É não negar, mas aproveitar o potencial que elas podem ter para nos ajudar”. 

Para ela, há alunos também sem entender como fazer a utilização dessas ferramentas. O diálogo com os alunos é fundamental para a busca de soluções. 

Expor o método-Ela ressalta que é preciso que o jornalista seja formado com consciência cidadã. “É um caminho do qual não podemos abrir mão para o fortalecimento perante a sociedade. É preciso investir em educação midiática, a literacia midiática a fim de explicar para o público sobre o ecossistema mediático. 

Neste cenário, será preciso compreender as diferenças sobre o que fazem os jornalistas e o que realizam os influenciadores. “Muitas vezes, as pessoas não sabem se aquilo é uma informação jornalística produzida por profissionais, com visões, abordagens e contextualização do tema”. 

Sistema midiático-Não obstante, os professores devem levar em consideração que, na escalada da desinformação, o cenário é de completa reconfiguração do ecossistema midiático. Ela explica que os pesquisadores avaliam que as grandes corporações midiáticas são as big techs (gigantes de tecnologia) e não mais os veículos tradicionais. 

“Se antes a gente falava de impérios midiáticos, agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos”, argumenta. Um sistema midiático em que cada indivíduo é um gerador de dados. Esse sistema midiático, “digitalizado e plataformizado”, requer colocar a crítica e a ética antes da técnica. 

Até por isso, ela diz que a formação em jornalismo deve prever uma preparação para encarar os desafios de forma responsável a fim de fazer o diferencial. “Não reproduzindo, mas produzindo com essas possibilidades tecnológicas”. 

Presença-A pesquisadora também destaca que a formação na profissão deveria priorizar aspectos presenciais. “O jornalismo é uma atividade coletiva, que exige a troca. É sempre muito difícil imaginar como fazer isso totalmente online”.

Da mesma forma, as redações coletivas no campo profissional são mais ricas de discussão do que o trabalho virtual. “Isso afeta, inclusive, o perfil do próprio jornalista”. O jornalista está cada vez mais na redação e menos na rua. Isso também tem relação com as condições precarizadas de trabalho.

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TVE EXIBE O DOCUMENTÁRIO XINGU, CARIRI, CARUARU, CARIOCA NESTA QUINTA-FEIRA (23)

Raízes, ancestralidade, história, música e memória são os elementos centrais da narrativa do documentário "Xingu, Cariri, Caruaru, Carioca". A obra mergulha na busca pelas origens do pife, instrumento musical que marcou a cultura nordestina. O filme será exibido pela TVE nesta quinta-feira (23), às 21h.

O documentário apresenta o músico Carlos Malta em busca das raízes do instrumento, investigando as transformações pelas quais ele passou ao longo do tempo até chegar aos dias atuais. Em sua viagem pela matriz histórica da sonoridade do pife, Malta transita entre as culturas populares e a cultura pop, debruçando-se sobre a influência indígena na musicalidade.

Lançado em 2017, com direção de Beth Formaggini, o documentário tem início na aldeia Kuikuro, onde apresenta os flautistas indígenas do Alto Xingu, no estado de Mato Grosso. Os pontos de parada seguintes são as comunidades do Cariri, no Ceará, e de Caruaru, em Pernambuco, até chegar ao Rio Carioca, no Rio de Janeiro.

"Xingu, Cariri, Caruaru, Carioca" foi premiado como melhor filme no Festival IN-EDIT SP/Barcelona, Festival In-Edit Brasil (8ª edição) e no 10º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões, além de ter sido eleito melhor filme pelo júri popular na mostra competitiva de longas do Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe (Curta-SE).

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POBRES NÃO PODEM PAGAR POR IRRESPONSABILLIDADE DAS GUERRAS, DIZ LULA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um duro discurso contra as guerras em curso e em defesa do fortalecimento do multilateralismo, na manhã deste sábado (18), em Barcelona, na Espanha. Ele participa da quarta reunião de alto nível do Fórum de Defesa da Democracia. 

O presidente está na Europa onde cumprirá agenda em três países. Em sua manifestação, Lula destacou que as consequências dos conflitos armados recaem sobre os mais pobres.

"O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil, o milho no México, aumenta a gasolina em outro país. É o pobre que vai pagar pela irresponsabilidade de guerras que ninguém quer?", questionou.  

Lula destacou que os países têm outros problemas para enfrentar e o mundo "não está precisando de guerra".

"Temos mais de 760 milhões de pessoas passando fome, temos milhões de pessoas analfabetas, tivemos milhões de pessoas que morreram porque não tinha vacina contra a covid-19", continuou.

Lula observou que o mundo vive o período com o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e pediu ação coordenada da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Precisamos exigir que o secretário-geral da ONU convoque reuniões extraordinárias, mesmo sem pedir aos cinco membros do Conselho de Segurança", afirmou.

O presidente criticou algumas das principais guerras em andamento, como a invasão da Ucrânia pela Rússia, a destruição da Faixa de Gaza por Israel e a o conflito dos Estados Unidos contra o Irã, no Oriente Médio.

"Nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países. Nenhum. E os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU devem se reunir para mudar seu comportamento.Nós não podemos levantar todo dia de manhã, e dormir todo dia a noite, com tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra. Ou seja, e todos eles tomam decisão sem consultar a ONU, da qual são eles membros e fazem parte do conselho", prosseguiu Lula.

O presidente brasileiro lamentou o silêncio dos países e pontuou que a democracia nas Nações Unidas depende do envolvimento dos países. "Fortalecer o multilateralismo depende de nós". (Agencia Brasil)


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RÁDIO EDUCADORA DO CARIRI: NAS ASAS DA ASA BRANCA O VOO GONZAGUEANO COM NEY VITAL

O Programa ‘Nas Asas da Asa Branca – Viva Luiz Gonzaga e seus Amigos’, apresentado aos domingos às 10h na Rádio Educadora do Cariri FM 102.1, no Crato (CE), recebeu no dia (16) de setembro de 2025  uma Moção de Aplausos da Câmara de Vereadores. A homenagem, aprovada pelo Poder Legislativo, foi apresentada pelo vereador José Wilson da Silva Gomes (Wilson do Rosto) e aprovada por unanimidade.

A produção e apresentação do programa é do jornalista Ney Vital. O programa é pautado em músicas de Luiz Gonzaga, informações em defesa do meio ambiente, agroecologia (destacando a Floresta Nacional da Chapada do Araripe), a cultura da região do Cariri, seus cantadores de Pífano e violeiros.

Ney Vital, que atua há mais de 35 no jornalismo, agradeceu à Moção de Aplausos do presidente e aos demais vereadores.

‘Nas Asas da Asa Branca – Viva Luiz Gonzaga e seus Amigos’ segue uma trilogia amparada na cultura, cidadania e informação. Programa com roteiro usado para contar a história da música brasileira a partir da voz e sanfona de Luiz Gonzaga, seus amigos e seguidores.

Fiquei surpreso e em dobro muito feliz. Moção de Aplausos para toda equipe da Rádio Educadora comandada pelo Padre Ricardo Pereira. A voz da Câmara Municipal representa a população do Crato e assim aumenta nosso compromisso com a vida e obra de Luiz Gonzaga, ética e condução do programa, visto que a Rádio Educadora vai completar 67 anos de serviços prestados à região do Cariri e ao Brasil“, afirmou Ney Vital.

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O DERRADEIRO ABOIO, POR ONALDO QUEIROGA

Se existe algo que lembra o sertão, sem dúvida, que é o aboio de um vaqueiro. Esse canto vagaroso que transparece um compasso que segue o ritmo da boiada e que termina por afervorar os animais, tem realmente a cara do Nordeste, apesar de também lembrar o interior das Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul e do Goias. 

Parece que estou vendo, o vaqueiro tangendo o gado pelas veredas levando-o para as  pastagens e de volta ao curral. Ei boi! Ei boi! Boi, boi, boi. Com esse introito, o vaqueiro vai conduzindo os animais e construindo seus versos em forma de aboio, modalidade de origem moura, cultura trazida pelos escravos portugueses da Ilha da Madeira. 
Com versos centrados em temas agropastoris, o aboio é um dos mais belos traços da nossa cultura. Encantador  também é quando estamos diante de uma vaqueirama. Nessa reunião de vaqueiros para apartar o gado em meio ao movimento de apartação, eles aboiam, numa erupção de versos dolentes, parecem  conversar com o gado. O barulho do chocalho misturado com o mugido e os aboios, são sons místicos que ainda ecoam no sertão nordestino. 

Embrenhado nas ressequidas e cinzentas terras sertanejas, com suas indumentárias típicas e montados em seus cavalos, os vaqueiros desviam cactus espinhosos, buscam pegar no rabo do boi, levá-lo ao chão, dominá-lo e conduzi-lo ao curral. Toda essa cena é comumente retratada nos aboios que sonorizam o mundo chamado sertão. Falando em aboio, não podemos deixar de registrar que o Gonzagão foi um grande aboiador.  Uma simples incursão por sua obra constata este aspecto. Com o Padre João Câncio criou a própria "Missa do Vaqueiro", em Serrita, onde no curso das celebrações aboiou muitas vezes para uma imensidão de vaqueiros, que sob um causticante sol carregavam uma inquebrantável de fé. 

Conversando com Joquinha Gonzaga, seu sobrinho, ele me relatou que presenciou o derradeiro aboio. Imaginem Gonzaga muito doente, interno no Hospital Santa Joana, Recife, numa última madrugada, tomado pelas dores ósseas que lhe dominavam impiedosamente. Ele não gritava, me falou Joquinha com os olhos marejando: - "Não, doutor. Ele olhava para mim e Edeuzuíta Rabelo e aboiava. Aboiava com toda força de sua alma, e de forma dolente, ecoava um aboio tangendo um gado imaginário, aboiava como se tangesse as suas dores e sofrimentos. Eram aboios do adeus, algo que nos levava às lágrimas. Era um homem forte demais". 

O aboiador não morreu, nunca morrerá. Continua vivo nos aboios que ainda ecoam pelo Nordeste, denunciando injustiças e para mostrar a fortaleza e alegria de seu povo.

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ABRAHÃO COSTA ANDRADE, BOM POETA ME ACOMPANHA. POR HILDEBERTO BARBOSA FILHO

Abrahão Costa Andrade nasceu em 1974 tem formação em filosofia. Sua poesia tem acentos filosóficos, mas o poeta não se deixa cair na armadilha fácil do apelo doutrinário. Evita a teorização didática e investe, de maneira sólida e original, na energia poética das palavras e na espessura de um pensamento lírico que nos renova a percepção das coisas e do mundo.

Sua data de nascimento me diz que ele integra uma geração posterior a minha, que deu um Lúcio Lins, um José Antônio Assunção e um Águia Mendes. Sua geração é a de Edônio Alves Nascimento, Ed Porto, Antônio Mariano, André Ricardo Aguiar, Linaldo Guedes e, entre os mais novos, Astier Basílio e Bruno Gaudêncio, só para citar aqueles de presença visível e com inegável desenvoltura no trato com a linguagem.

Afroameríndia (tratado da sensibilidade) (1992); Mulãria da Macambária (1994); O idioma dos pães (1996); Educação do esquecimento (2009); Punhal a língua (2014) e A casca do tempo (poemas de tempo & desaforo) (2017) constituem, por enquanto, o seu patrimônio poético, numa demonstração de um esforço criador dos mais disciplinados e mais instigantes, se tenho como medida a meditação estética e a sondagem existencial.

Quero crer que, a partir deste instante de leitura e releitura de seus versos, sua arte expressiva ganha maturidade, sobretudo em Educação do esquecimento, já em seu talhe borgeano, e em A casca do tempo, que vejo e sinto como um pequeno tratado reflexivo acerca dessa categoria metafísica que tanto inquietou Santo Agostinho e Henry Bergson.

Mas não pense o leitor que as aporias e os silogismos do discurso filosófico enfeixam-se, aqui, no truque vazio dos hermetismos de ocasião em que tantos poetastros se comprazem, como se participassem de uma farra de cadáveres, embriagados com a sua própria podridão. Não. Em Abrahão Costa Andrade a realidade (o tempo, principalmente o tempo, a cidade, a casa, a irmã, as ideias e as emoções) não se esconde através da máscara dos falsos experimentalismos linguísticos, porém, revela-se, inteira e enigmática, na sua densidade semântica, na sua capacidade de ser e não ser, de ser mais e muito mais que aquilo a ser domado pelas táticas e artifícios de um paradigma estilístico.

Se no primeiro poema de A casca do tempo, “A cidade e seu duplo”, versos como “o rio sabe-se a si mesmo ∕ como a cidade nele se sabe”, lembram certos ecos cabralinos, embora esta elegia sobre o rio Tietê possa nos levar às águas escuras do longo poema de Mário de Andrade, Abrahão não perde, por sua vez, a autonomia de seu foco lírico, pois, nele, introduz o giroscópio da metalinguagem e amplia o espaço das margens, quem sabe, para uma terceira, misturando palavra e existência, como podemos inferir na possível mensagem destes versos magistrais:

o rio não está nem aí com o que se diga dele:

são confissões,

e o que vem de dentro já o atinge

anterior à fala;

é suporte para a sua autoimagem.

Para sondar o mistério do tempo e os outros motivos de sua seleção poética, o autor socorre-se de formas variadas. O minimalismo do haicai coexiste com a pegada mais expansiva de um texto como “Cotidiano”, na sua cadência aforismática, ou, em “Eu quero ficar em casa”, no seu tom monocórdico, quase prosaico, meio à Álvaro de Campos, mas com aquele sarcasmo tipicamente andradino, donde a poesia pode brotar com seus gumes de fogo, senão vejamos:

Não me chamem para vernissage, lançamentos

de livros ou de nave espacial. Nada tenho

de especial. Sou tranquilo e insuportável

como uma brasa. Por isso, deixem-me,

deixem-me ficar em casa.

“São Tomás de Aquino”, poema dedicado a Alda Costa Andrade, sua irmã, é dos mais tocantes, na sua prosódia subdividida em duas partes, visceralmente interligadas pelo timbre de fervor quase oracional que condiciona poeticamente o ritmo e a ideia que o formatam, na sua intrínseca estrutura artística. Leiamos a primeira parte, e veja, leitor, se tenho razão:

Filha, difícil é outro nome da vida.

É entre espinhos sempre que floresce a rosa.

Acertar é coisa de quem atira, e atirar,

Filha, é contra minha doutrina. Descalços os pés

Melhor sentes a terra que te fiz e de que te fiz.

E isso que chamas de fraquezas, não são.

Filha, é apenas o movimento bambo em direção

Ao eterno recomeço de uma alegria

Que a ti te preparo a cada instante. Olha!.

Outros poemas me parecem antológicos, a exemplo de “Coração precário”, “Palavras redondas”, “Bilhete”, “Agulha”, “Rochas”, “Ode ao presente”, “Ladra, é isso que é a morte”, “A tristeza é uma mendiga velha” e “Quando eu morrer eu quero me encontrar com Borges”. Em todos a poesia se faz aquela “metafísica instantânea” de que fala Gaston Bachelard.

Na Apresentação, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo, Ester Abreu Vieira de Oliveira, afirma, como arremate de suas justas palavras: “Em sua poesia não há confecção intelectual que possa vir de um filósofo intelectual que é”. Assino embaixo.

Mas ainda diria: a poesia de Abrahão Costa Andrade, mormente aqui, neste A casca do tempo, no seu rigoroso equilíbrio entre som e sentido, para lembrar a exigência de Valéry, se tem acentos filosóficos como já disse, e se filosofia é sabedoria, o seu saber não vem das escolas, vem das vértebras incontornáveis da vida, da vida e sua “agitação feroz e sem finalidade”, para lançar mão do grande verso de Manuel Bandeira.

Sua poesia também traz a marca do leitor. Sua poesia também assume os riscos do diálogo. Há muitos textos entranhados nas malhas de seus versos. Há muitos versos que são plurais, não somente pela ambivalência das formas e dos metros, mas, sobremaneira, pelas provas polissêmicas, pelos indícios de sugestão estética, pela verticalidade do pensamento e pela verdade das emoções. Isto me parece mais que suficiente para dizer, sem titubeios e sem louvações ilusórias, lendo Abrahão Costa Andrade leio um dos mais fortes poetas de sua geração. Leio, não, releio e releio, porque um bom poeta me acompanha sempre. (Texto publicado no Jornal da Paraiba)

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NÚMERO DE ELEITORES COM MAIS DE 60 ANOS CRESCEU 74%, APONTA PESQUISA

Um levantamento realizado pela Nexus-Pesquisa e Inteligência de Dados a partir do Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a chamada Geração Prateada, de pessoas 60+ aptas a votar, cresceu cinco vezes mais do que o eleitorado geral nos últimos 16 anos. 

Enquanto o número de eleitores de todas as faixas etárias cresceu 15% entre 2010 e 2026, o eleitorado 60+ aumentou 74% no período, o que revela expansão de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões em março deste ano.

Segundo a Nexus, os números podem aumentar ainda mais até o dia 6 de maio, que é o prazo final para o cadastro de eleitores no TSE. 

Até a data da coleta, 156,2 milhões de pessoas estavam aptas a participar do processo eleitoral no próximo mês de outubro, contra 135,8 milhões, em 2010. O levantamento sugere que em um cenário de polarização aguda, como ocorreu na eleição de 2022, obter o voto da população 60+ é estratégico.

De acordo com o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, a Geração Prateada pode definir o resultado das eleições deste ano. 

“É bastante plausível afirmar que a chamada Geração Prateada (60+) pode ser decisiva nas eleições, embora não se possa dizer que ela, sozinha, definirá o resultado”. 

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LULA CRITICA AMEAÇAS DE TRUMP AO MUNDO E DEFENDE PAPA LEÃO XIV

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta terça-feira (14), que a guerra dos Estados Unidos, liderada por Donald Trump, contra o Irã é inconsequente e que o presidente estadunidense não precisa ameaçar o mundo. Lula também foi solidário ao papa Leão XIV, que trocou críticas com Trump esta semana.

Para o presidente Lula, Trump faz jogo de narrativas na tentativa de agradar à população e para tentar passar a ideia de os Estados Unidos serem “país onipotente, daquele povo superior”. O brasileiro afirmou que admira os Estados Unidos como maior economia do mundo, mas que isso é resultado da capacidade de trabalho do povo do país norte-americano.

“Isso não é pelo autoritarismo do presidente. Isso é pela conjuntura econômica, pela importância do país, pelo grau de universidade que eles têm. Então, o Trump não precisava ficar ameaçando o mundo”, disse Lula.

“Essas ameaças do Trump não fazem bem para a democracia. Essa guerra do Irã é inconsequente”, acrescentou o presidente ao destacar as consequências do conflito na economia, sobretudo nos preços dos combustíveis.

No domingo (12), ao comentar as críticas do papa sobre as ações dos Estados Unidos no Irã e na Venezuela, Trump afirmou que Leão XIV é "terrível em política externa" e pediu que ele deixe de agradar a esquerda radical. O papa respondeu que não tem medo do presidente estadunidense e que acredita na mensagem de paz do Evangelho.

“Estive com ele [papa Leão XIV] e saí muito bem-impressionado. [Quero] ser solidário a ele, porque está correta a crítica que ele fez ao presidente Trump. Ninguém precisa ter medo de ninguém”, disse Lula em entrevista aos veículos Brasil247, Revista Fórum e DCM.


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PADRE CÍCERO, A FÉ OS PRECEITOS ECOLÓGICOS

 “O nome do padre Cícero / ninguém jamais manchará, / porque a fé dos romeiros / viva permanecerá, / pois nos corações dos seus / foi ele um santo de Deus / é e pra sempre será.” Tema de incontáveis folhetos de cordel espalhados pelas feiras sertão afora.

Quem já ouviu falar dos preceitos ecológicos do Padre Cicero, muitos o seguem como exemplo de fé e religiosidade, mas poucos sabem que ele foi um dos primeiros defensores do meio ambiente, do bioma caatinga.

Cícero Romão Batista nasceu em Crato, Ceará no dia 24 de março de 1844. Foi ordenado no dia 30 de novembro de 1870. Celebrou a sua primeira missa em Juazeiro em 1871. No dia 11 de abril de 1872 fixou residência em Juazeiro. Padre Cícero faleceu no dia 20 de julho de 1934, na cidade de Juazeiro.


A jornalista Camila Holanda escreveu que nas entranhas do Cariri do Ceará foi emergido uma versatilidade de ícones que, entrelaçados povoam o imaginário cultural que habita a região.


Nas terras do Ceará ouvi uma das mais belas histórias. Resumo: o teatrólogo, pesquisador cultural Oswaldo Barroso, ressalta um dos mais valiosos símbolos, a vigorosa força mítica e religiosa. Oswaldo, cidadão honorário de Juazeiro do Norte, diz que a primeira vez que esteve no Cariri foi nos anos 70 e a experiência fez com que suas crenças e certezas de ateu fossem desconstruídas e reconstruídas com bases nos sentimentos das novas experiências e epifanias vividas.


"Desde o início, não acreditava em nada de Deus. Mas quando fiz a primeira viagem ao Horto do Juazeiro do Norte, foi que eu compreendi o que era Deus. Isso mudou minha vida completamente", revelou Oswaldo.


Um outra narrativa importante encontrei na mitologia dos Indios Kariris. Nela a região é tratada como sagrada, centro do mundo, onde no final dos tempos, vai abrir um portal que ligará o Cariri  para a dimensão do divino.


A estátua do Padre Cícero encontra-se no topo da Colina. Muitos romeiros percorrem a Trilha do Santo Sepulcro. A pé eles percorrem às 14 estações trajeto marcado por frases e conselhos ambientais do Padre Cícero, que já alertava naquela época para os muitos desequilíbrios ambientais e impactos da agressão humana na natureza.


Padre Cicero descreveu os preceitos ecológicos:

1) Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau;
2) Não toque fogo no roçado nem na caatinga;
3) Não cace mais e deixe os bichos viverem;
4) Não crie o Boi e nem o bode solto; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;
5) Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva;
6) Não plante em serra a cima, nem faça roçado em ladeira que seja muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca sua riqueza;
7) Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta;
8) Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, ate que o sertão todo seja uma mata só;
9) Aprenda tirar proveito das plantas da caatinga a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca;
10) Se o sertanejo obedecer a estes preceitos a seca vai aos poucos se acabando o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer, mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai virar um deserto só.

Rezemos com Fé! . Os sorrisos são a alegria da alma.
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DESTRUIÇÃO DO BIOMA CAATINGA PODE DESERTIFICAR O BRASIL, ALERTA MINISTRO DO MEIO AMBIENTE

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que o governo federal tem ampliado as ações de preservação da Caatinga, de forma a evitar a desertificação de uma área cada vez maior do território nacional.

Capobianco participou, nesta terça-feira (14), do programa Bom Dia, Ministro, produzido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Durante a entrevista, ele lembrou que a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, importante para a biodiversidade do país, sobretudo por servir de barreira natural contra a desertificação.

“A Caatinga é um bioma fascinante, de uma beleza paisagística incrível e de uma biodiversidade também incrível. As pessoas, quando pensam no Brasil, pensam na Amazônia. Quando muito, na Mata Atlântica. Mas esquecem que o Brasil possui seis biomas absolutamente diferentes e complexos, que fazem do país a maior biodiversidade do planeta.”

Desertificação-Capobianco ressaltou que o desmatamento excessivo deste bioma tem contribuído para o avanço da desertificação e que, neste sentido, a conservação da Caatinga é uma prioridade ambiental.

“Está demonstrado que a destruição e o desmatamento excessivo da Caatinga vêm provocando a expansão da área em processo de desertificação no país”, acrescentou.

O ministro informou que o Brasil concluiu o plano nacional de ações para cumprir a Convenção de Combate à Desertificação, que será apresentado na Conferência das Partes (COP 17), marcada para agosto, na Mongólia.

Segundo ele, o plano desenvolve medidas para conter processos de degradação do solo – o que abrange ações a serem adotadas para conter o avanço da desertificação, especialmente nas áreas de Caatinga.

Programa Recatingar-Entre as iniciativas em andamento, Capobianco destacou o lançamento do programa Recatingar, voltado à recuperação de áreas degradadas e à substituição de atividades econômicas predatórias por práticas sustentáveis.

O programa contará com a participação dos estados do Nordeste, que devem discutir ações conjuntas em reunião prevista para a primeira semana de maio, em Brasília.




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FORRÓ A CAMINHO DO TÍTULO DE PATRIMÔNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

Neste momento em que todo nordestino já está preparando as sandálias e contando os dias para o São João, o coração bateu mais forte com a notícia da entrega para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) do dossiê de candidatura do Forró Tradicional ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.

A entrega do documento foi formalizada nesta terça-feira (31), em Brasília, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelo Ministério da Cultura (MinC) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE).

Pedro Santos, coordenador da Câmara Temática de Cultura do Consórcio Nordeste e secretário de Cultura da Paraíba, relembrou a atuação do bloco para o levantamento de informações e para as ações de visibilidade do gênero no Brasil e no mundo.

“Promovemos eventos em Portugal e na França. Estivemos em duas ocasiões reunidos com a Delegação Permanente do Brasil junto à Unesco, inclusive levamos os forrozeiros para falar um pouco sobre a importância da salvaguarda das Matrizes Tradicionais do Forró. Além de termos dado apoio ao Iphan na mobilização dos estados nordestinos e na produção de materiais audiovisuais que integraram o dossiê submetido à Unesco”, explicou.

“E hoje recebemos essa notícia maravilhosa! É um momento simbólico, um momento para a gente celebrar e desejar sucesso a essa candidatura que eu tenho certeza que vai ser exitosa”, completou.

A secretária de Cultura de Pernambuco, Cacau de Paula,  também comemorou a formalização da candidatura. “É mais um avanço importante para fortalecer e valorizar a força da cultura nordestina e da cultura popular!”

O Forró Tradicional, também conhecido como Forró de Raiz, representa uma imersão na identidade e tradição nordestina e brasileira, que envolve desde a música e dança, como baião, xaxado, xote, arrasta-pé, até instrumentos musicais, como sanfona, zabumba e triângulo, passando pelo cordel, bandas pífano e mestres rabequeiros, e todas técnicas, práticas e saberes que envolvem o fazer e o viver o Forró.

Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, a entrega “é um gesto de reconhecimento, reparação e afirmação da cultura brasileira no cenário internacional. Estamos falando de uma expressão profundamente ligada à formação do nosso povo, à memória das migrações, à força criativa do Nordeste e à capacidade da cultura de manter vivos os vínculos entre território, identidade e pertencimento”, afirmou.

Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, a candidatura reflete a consolidação da retomada da política do patrimônio cultural vivida pelo país. “A cultura brasileira voltou a ser reconhecida e valorizada mundialmente”, destacou.

Com a entrega do dossiê, a Unesco inicia uma série de processos internos para analisar as documentações da candidatura. Não existe um prazo determinado para a apreciação.

O Forró Raiz é conhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, pelo Iphan, desde 2021.


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LUIZINHO CALIXO GUARDIÃO DA SANFONA DE OITO BAIXOS

Dia 26 de maio, marca o Dia do Sanfoneiro. A data foi instituída em alusão ao aniversário de Sivuca, paraibano conhecido mundialmente pela excelência no acordeon. E outro paraibano, Luizinho Calixto, tem seguido o legado e "carregado o peso" de ser guardião do fole ou sanfona de oito baixos.

O instrumento conhecido popularmente como fole ou sanfona de oito baixos é uma das variações da sanfona. 

Natural de Campina Grande, cidade paraibana, Luizinho Calixto conheceu a sanfona de oito baixos ainda na infância, aos oito anos de idade, através do pai e dos irmãos. Um dos irmãos dele, Zé Calixto, um dos maiores sanfoneiros do país, já tinha até discos gravados e vários shows por outros estados do Brasil.

Reportagem de Bruna Couto/G1, destaca que Luizinho de tanto ver os familiares tocarem começou a mexer pedaços de madeira, imitando o movimento que se faz com o fole. O pai, percebendo o interesse dele pelo instrumento, pediu que Zé Calixto trouxesse um fole do Rio de Janeiro para Luizinho.

"Um dia sentado numa cadeira eu comecei a tocar uma música do meu pai, que já estava na minha mente. Mexendo para lá e para cá um pedaço de madeira e eu fazendo de conta que era uma sanfona. Minha mãe, que não tinha envolvimento direto com a música, falou pra o meu irmão Zé Calixto que quando viesse do Rio de Janeiro trouxesse uma sanfona pra mim'", relatou.

Do simples interesse manifestado através do movimento da sanfona com madeiras, já no primeiro contato com um fole de verdade Luizinho começou a tocar de forma natural.

"Quando ele (o irmão) veio, trouxe um fole de oito baixos. E quando peguei já comecei a tocar alguma coisa, com uma certa dificuldade, claro... Uma criança pegar (o instrumento) e tocar rápido é difícil, mas porque eu já ouvia, já toquei alguma coisa", disse.

De lá para cá, são mais 60 anos de carreira. Começou a tocar fole aos oito anos, aos 13 passou a acompanhar o pai nos forrós, mas somente aos 20 anos Luizinho Calixto gravou o primeiro disco, no Rio de Janeiro, e se apresentou ao Brasil como músico.

Referências musicais-Luizinho Calixto considera a própria família como sua grande primeira referência musical. Mas além deles, Luizinho também conviveu pessoalmente com vários dos grandes nomes da música brasileira e nordestina.

Com Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo, que era amigo do pai de Luizinho, ele aprendeu a tocar vários instrumentos de percussão. Com Luiz Gonzaga, ele aprofundou o conhecimento sobre o fole de oito baixos. Com Dominguinhos, viu de perto a excelência de um instrumentista. Convivência que formou a base para os anos de carreira construídos até hoje.

"Minha primeira referência foi Zé Calixto, como instrumentista da sanfona de oito baixo. A segunda foi Jackson do Pandeiro. Quando conheci ele eu era criança e ele já era o Rei do Ritmo. Eu já tocava zabumba e depois que vi ele tocando esses instrumentos todos de percussão muito bem também quis aprender. Não vi outros músicos tocar tão perfeitamente como ele! Depois o próprio Luiz Gonzaga. Em conversas que nós tínhamos, vi que seu Luiz era uma enciclopédia, tem hora que não encontro nem palavras pra ele, pra o que ele representa pra mim até hoje. Depois conheci Dominguinhos e vi o que é tocar sanfona. Não tem ninguém que faz o que ele fez (...) aprendi muito com ele. Foram pessoas que me serviram de referência e que até hoje procuro me conduzir dentro disso tudo que aprendi".

Bebendo dessas referências, Luizinho Calixto se tornou um verdadeiro guardião do fole de oito baixos. O instrumento, popular em vários países europeus e no sul do Brasil, tem origem desconhecida no Nordeste.

"A sanfona de oito baixos, dos instrumentos que eu conheço, é o mais complicado. Se você somar flauta, acordeon, violão… Todos eles, nenhuma é tão complicado quanto o fole na afinação que nós tocamos".

Segundo o próprio Luizinho, pelo grau de complexidade de tocar e pela dificuldade de se encontrar o fole de oito baixos, o que explica a resistência do instrumento é o amor passado de geração em geração.

"Eu tenho alunos que quando eu pergunto porque querem tocar sanfona de oito baixos e não outros instrumentos, dizem: 'porque meu pai tocava, meu avô, porque herdei o instrumento e quero dar sequência no trabalho e onde eles tiverem vão ficar feliz", disse.

Segundo Luizinho, existem poucas afinações para o fole oito baixos, e uma delas é a chamada afinação transportada, que ele e outros músicos usam.

Não há informações sobre quem criou o método, ou como ele chegou ao Nordeste brasileiro. Mas, apesar da dificuldade de se aprender e ensinar, Luizinho acredita que é justamente o aprendizado que consegue garantir o legado do fole de oito baixos.

"Os antigos falavam que para aprender a tocar sanfona a pessoa tem que ter um dom, mas se fosse assim eu não existia como professor, porque tenho vários alunos que vivem da música e não sabiam tocar nada, e hoje tem grupos ganhando a vida tocando sanfona de oito baixos", disse.

Amor pelo instrumento-Pelo contato íntimo desde a infância, é difícil separar Luizinho Calixto e a sanfona de oito baixos. O instrumento que o escolheu naturalmente também o levou a lugares como a Europa, onde já tocou em vários importantes festivais, e o proporcionou amizades com artistas como Fagner e Chico César.

"Esse instrumento, a sanfona de oito baixos, me deu inúmeras coisas. Eu fiz amizades com Zé Adriani, Dominguinhos, Nara Leão... Toquei pela primeira vez em um teatro graças a Vital Farias, no Rio de Janeiro, já toquei com Fagner, Chico César, com tantas pessoas importantes...", disse.

Para Luizinho, a sanfona de oito baixos lhe ofereceu muito mais que a capacidade de tocar um instrumento.

"Já fiz tanta coisa! E tudo isso com meu instrumento no peito. Só tenho que agradecer. Criei e formei dois filhos, graças a Deus e a sanfona de oito baixos. E estou na vida musical até hoje com meu instrumento", disse.

Pensando em deixar um legado, Luizinho Calixto passou a dar aulas de fole de oito baixos. Ele ensina na Associação Cultural Balaio Nordeste, na capital paraibana João Pessoa, onde existem oito foles de oito baixos disponíveis para os alunos.

Além das aulas presenciais gratuitas, Luizinho também oferece cursos pela internet. Com a possibilidade da aprendizagem online, Luizinho coleciona alunos de outros estados brasileiros, como Acre, São Paulo, Bahia... Ele relata que já perdeu as contas de quantos alunos possui.

Mesmo com o esforço, o músico acredita que ainda existe um risco de que se deixe de existir sanfoneiros de oito baixos, que se justifica, segundo Luizinho, tanto pelo grau de complexidade do instrumento, quanto pela dificuldade em encontrá-lo em preços acessíveis.

Luizinho Calixto acredita que a alternativa para evitar que isso aconteça é a valorização por parte das instituições que promovem a cultura não apenas na Paraíba, mas em todo o Brasil.

"Não se vê um sanfoneiro de oito baixos no palco do São João, por exemplo, em Campina Grande. Então com isso o instrumento vai entrando pra um processo de esquecimento, e as pessoas não querem lembrar que a sanfona de oito baixos foi o primeiro instrumento de Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, acompanhou Jackson do Pandeiro... São vários acordeonistas que passaram primeiro por ele. Não é resgatar o instrumento, é dar sequência ao trabalho", reitera.

Luizinho Calixto espera que essa realidade mude, apesar de ter consciência do peso que carrega ao ser o guardião da sanfona de oito baixos não apenas na Paraíba, mas no Brasil.


"Que surjam palcos pra o sanfoneiro de oito baixos mostrar o que sabe, porque se não, não tem estímulo pra o aprendiz. Eu estou segurando esse peso com maior prazer. Enquanto eu tiver força, saúde e vida vou divulgar", finaliza.

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GRANDE SERTÃO VEREDAS: OS 70 ANOS DE UM LIVRO ENCANTADO

Da primeira palavra, “Nonada”, à última, “Travessia”, a obra-prima atravessa o tempo sem perder força, profundidade, beleza, vigor e, principalmente, emoção. E chega à atualidade inteira, em corpo e alma. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa (1908-1967), completa sete décadas de lançamento com fôlego suficiente para alcançar a eternidade e seduzir futuras gerações. Mas há outros motivos para se homenagear, neste ano, o escritor natural de Cordisburgo, na Região Central de Minas. Em 2026 são também comemorados os 70 anos de “Corpo de baile”, 80 de “Sagarana”, e 90 do pioneiro “Magma”, premiado, em 1936, pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

Sempre é hora de conhecer os extraordinários escritos de Rosa e saber mais sobre a vida do mineiro que saiu criança da terra natal para morar em Belo Horizonte, onde se formou em medicina. Depois, conheceu o mundo trabalhando como diplomata até ser eleito para a ABL em 1963 – tomou posse em 1967, três dias antes de falecer, no Rio de Janeiro (RJ). Diante do tão vasto currículo e ricas experiências, impossível não querer saber sobre as origens do autor, o nascedouro do “Grande sertão”, a gênese do livro traduzido em vários idiomas e transformado em filme, peça de teatro, minissérie de televisão, documentário, além de matéria-prima para belas canções. Confira texto na integra  Gustavo Werneck - Jornal Estado de Minas

A fim de encontrar respostas, a equipe do Estado de Minas foi a Cordisburgo, diretamente ao imóvel de número 744 da Rua Padre João. Foi lá que o escritor, apelidado Joãozito na infância, morou com a família até os 9 anos. Pelo endereço, passaram outros proprietários e locatários até que o lugar se tornou, em 30 de março de 1974, Museu Casa Guimarães Rosa, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) e vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (SecultMG). Dos tempos de meninice do escritor, restaram o fogão a lenha na cozinha e o tabuado do piso, conforme mostra o coordenador do equipamento cultural, Ronaldo Oliveira. 

Há 24 anos no posto, Ronaldo anuncia atividades que valorizam ainda mais o legado do conterrâneo ilustre. E envolvem crianças e adolescentes. Ainda em 2026, são festejadas três décadas do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, projeto educativo formado por 20 jovens (há mais 20 sendo preparados) de Cordisburgo, que recebem os visitantes na Casa Museu (@museuguimaraesrosa) narrando trechos dos livros, dos quais há exposição das primeiras edições. São eles também que trazem à luz personagens eternizados nas páginas, entre eles Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga, Manuelzão e, claro, Miguilim. 

Na 38ª Semana Rosiana, de 5 a 12 de julho, as reverências à memória estarão completas, com vozes, palavras e atenção direcionadas à vida e obra do autor. 

Importante destacar duas referências literárias. Do jornalista e historiador Leonencio Nossa, acaba de ser lançado “João Guimarães Rosa – Biografia”(Topbooks e Nova Fronteira). Já a biografia escrita pelo professor Gustavo de Castro, da Universidade de Brasília (UnB), será publicada pela Companhia das Letras. 

Então, com respeito, admiração e sede de conhecimento, vamos mergulhar no universo rosiano e emergir com histórias para contar. Travessia sem risco e limite, guiada pelo amor de Guimarães Rosa às palavras. 


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JOSE SARNEY: as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.

Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.

O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e, imediatamente, Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato desses líderes, cairiam o governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.

Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e, por isso, logo demitiu o chefe da Inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.

O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.

Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.

Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O papa, que está com Deus e não com o diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.

Temos que, com o papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.

A paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.

José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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PROFISSÃO DE DOULA É REGULAMENTADA POR PROJETO DE LEI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta quarta-feira (8) o projeto de lei que regulamenta o exercício da profissão de doula, que é a profissional que oferece apoio físico, emocional e informacional à gestante, especialmente durante o parto normal.

O texto foi aprovado no mês passado pela Câmara dos Deputados, depois de ter passado pelo Senado. 

A norma federal lista várias atribuições da doula antes, durante e após o período do parto. Na gravidez, a profissional poderá facilitar o acesso da gestante a informações sobre gestação, parto e pós-parto baseadas em evidências científicas atualizadas, além de incentivá-la a buscar uma unidade de saúde para o acompanhamento pré-natal.

De acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o texto atende uma antiga reivindicação das mulheres no país e vai ajudar no enfrentamento contra a violência obstetrícia e reduzir o que chamou de "indústria de cesarianas" no Brasil. O ministro disse que não houve vetos ao texto.

"Os estudos que mostram que se se a doula acompanhou o pré-natal, se a doula acompanhou o parto, a violência foi menor. O índice de cesárea foi menor. O sofrimento foi menor e a gratidão das mulheres no momento tão importante da geração da vida foi melhor", destacou o ministro durante cerimônia de sanção no Palácio do Planalto.

Ao celebrar a sanção da lei, o presidente Lula lembrou que um outro projeto, ainda em tramitação no Congresso Nacional, deverá regulamentar a profissão de parteira tradicional, compondo assim um corpo de funções para humanizar o atendimento às gestantes do país.

Pelo texto sancionado, a presença da doula, de livre escolha da gestante, não exclui a presença de acompanhante, já garantida pela legislação. Essa garantia de presença abrange a rede pública e a rede privada durante todo o período de trabalho de parto e pós-parto imediato, em todos os tipos de parto, inclusive em casos de intercorrências e situações de abortamento.

Para o exercício da profissão, a nova lei exige diplomas de ensino médio e de curso de qualificação profissional específica em doulagem que, se expedidos por instituições estrangeiras, deverão ser revalidados no Brasil.

A lei também permite a continuidade de atuação aos que, na data de publicação, exerciam, comprovadamente, a atividade há mais de três anos.

Também a partir da vigência, os cursos deverão ter carga horária mínima de 120 horas.

A doula poderá, durante o parto, orientar e apoiar a gestante em relação à escolha das posições mais confortáveis a serem adotadas durante o processo; auxiliar a gestante a utilizar técnicas de respiração e vocalização para obter maior tranquilidade; e utilizar recursos não farmacológicos para conforto e alívio da dor da parturiente, como massagens, banhos mornos e compressas mornas.

No pós-parto, a doula poderá orientar e prestar apoio aos cuidados com o recém-nascido e ao processo de amamentação.

"É o tratamento diferenciado, é o saber conversar, é o saber tratar, é o saber acolher e o acolhimento muda a vida das pessoas, do ponto de vista emocional e afeta diretamente esse tratamento humano, esse tratamento da vida, que é ter realmente um filho com dignidade", disse a senadora Eliziane Gama (PT-MA), relatora do projeto no Senado.

Por outro lado, a nova lei proíbe às doulas utilizar ou manusear equipamentos médico-assistenciais, realizar procedimentos médicos, fisioterápicos ou de enfermagem, administrar medicamentos e interferir nos procedimentos técnicos dos profissionais de saúde.

Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a nova lei beneficia não apenas a gestante, mas toda a família, e assegura uma proteção mais integral às mulheres em um momento tão delicado que é a gravidez.

"Porque a gente entra na sala de parto apavorada, não sabe o que vai acontecer, e quer que seja rápido, e a doula vai acalmando a gente, a doula vai conversando, vai dialogando. É uma lei que, de fato, humaniza, de fato enfrenta a violência obstétrica", afirmou.

*Com informações da Agência Câmara de Notícias.





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ECOVALE: RAIZES E REIVENÇÃO DA COMUNICAÇÃO NO VALE DO SÃO FRANCISCO

Criado em 2010, no campus III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) em Juazeiro-BA, o Encontro de Comunicação do Vale do São Francisco (ECOVALE) nasceu com o objetivo de pensar a comunicação a partir do interior, deslocando o olhar dos grandes centros para as realidades do Semiárido. Ao longo dos anos, o evento se consolidou como um espaço de formação, troca de experiências e construção coletiva do conhecimento na área da comunicação.

Na primeira edição, realizada em 2010, o tema “Jornalismo e suas múltiplas linguagens” abriu espaço para discutir a atuação do jornalista em diferentes formatos. Oficinas de assessoria, diagramação, educomunicação, crítica cinematográfica e fotografia já mostravam o caráter prático e formativo do encontro.

No ano seguinte, o II ECOVALE trouxe o tema “200 anos de imprensa da Bahia” para refletir sobre a trajetória da imprensa e o cenário da comunicação, com foco nas experiências regionais. Em 2013, a terceira edição avançou para o debate sobre “Novas mídias e movimentos sociais”, conectando o local ao global e discutindo o impacto das tecnologias na comunicação.

Em 2016, a quarta edição destacou um tema que continua atual na nossa realidade. “Assessoria, redes sociais e empreendedorismo: desafios do mercado de trabalho”. O jornalista e egresso da UNEB, Pablo Luan, que participou de várias edições entre 2014 e 2019, relembra a importância desse momento. Segundo ele, as discussões sobre empreendedorismo já apontavam caminhos que hoje são realidade no mercado, como o trabalho autônomo, a atuação em redes sociais e a multiplicidade de funções do jornalista. Para Pablo, o ECOVALE sempre trouxe debates que permanecem relevantes ao longo do tempo e ajudam a preparar os estudantes para um cenário profissional em constante transformação.

A quinta edição, em 2019, abordou o “Jornalismo e outras narrativas comunicacionais”, ampliando o olhar para além das formas tradicionais de fazer jornalismo. Já a sexta edição, realizada após o período mais crítico da pandemia de Covid-19, trouxe o tema “os desafios da comunicação e educação em rede” e marcou também as comemorações dos 20 anos do curso de Jornalismo em Multimeios do campus Juazeiro.

Agora, em 2026, o ECOVALE chega à sua 7º edição, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril, em Juazeiro. Com o tema “Processos de reinvenção no jornalismo”, o evento propõe discutir as mudanças estruturais na área da comunicação, como a plataformização da informação  e os desafios impostos pela desinformação.

A estudante de jornalismo, Laise Ribeiro, destaca a importância desse debate, especialmente para quem está prestes a entrar no mercado de trabalho. Para ela, o tema chega em um momento decisivo, já que muitos estudantes se deparam com uma realidade profissional em constante mudança. Ribeiro também ressalta o papel do evento na formação prática, lembrando sua experiência como monitora na edição anterior, que possibilitou vivenciar de perto a organização e a dinâmica do Encontro. Nesta edição, ela participa novamente, agora ainda mais interessada nas discussões que podem ajudar a compreender e lidar com as transformações do jornalismo.

Além dos debates, oficinas e apresentações de trabalhos, a abertura do evento será marcada por uma homenagem a nomes importantes da comunicação no Vale do São Francisco, como Inah Torres e Marcelino Ribeiro (in memoriam), junto com Luiz Manoel Guimarães, serão reconhecidos com o Prêmio Carranca de Jornalismo, que celebra trajetórias marcantes de comunicadores na região.

Mais do que um evento acadêmico, o ECOVALE se tornou um espaço de escuta, reflexão e fortalecimento do jornalismo regional. Para a professora Andréa Cristiana Santos, o Encontro tem um papel fundamental na construção de um olhar sobre o jornalismo no Vale. Segundo ela, o evento contribui para a formação de estudantes e profissionais, fortalece a identidade regional e cria um ambiente de diálogo sobre temas emergentes que impactam o presente e o futuro da profissão.

Ao longo dos anos, o Ecovale tem se consolidado como um espaço de formação crítica e de integração entre a universidade e a comunidade. O evento traz temas que se entrelaçam ao longo de sua trajetória, além de valorizar os saberes regionais.

Por Gabriel Matos e Maria Helena Almeida, estudantes de jornalismo e colaboradores do MultiCiência.


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07 DE ABRIL DIA DO JORNALISTA

Relatório divulgado pela organização não governamental Repórteres sem Fronteira (RSF) destaca o combate à desinformação e o incentivo à educação midiática como medidas para a garantir o jornalismo íntegro e de confiança pelos próximos 10 anos.

O documento recém-lançado contribui para os debates sobre a profissão, lembrada nesta terça-feira no Brasil, como o Dia do Jornalista (7).

A instituição apresenta quatro cenários hipotéticos de onde estará o jornalismo no Brasil daqui a uma década e seis estratégias possíveis para que a sociedade possa contar, ao fim desse período, com “um jornalismo íntegro e de confiança”.

Os quatro cenários, construídos pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI) da Unicamp para o RSF, distinguem-se pelo domínio das plataformas digitais; pelo fortalecimento do jornalismo; pela alta fragmentação da informação produzida e pelo fim do jornalismo.

“O futuro, provavelmente, vai ser muito mais uma mistura dos elementos dos diferentes cenários do que um cenário estanque”, explica Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor-chefe do Projeto Comprova. Lüdtke participou do comitê consultivo do projeto do RSF.

As seis estratégias envolvem:

tornar o método jornalístico amplamente adotado e difundido;

enfrentar a desinformação;

fortalecer redes de cooperação entre organizações de jornalismo e universidades;

diversificar modelos de financiamento do jornalismo;

investir em educação midiática;

defender a regulação do jornalismo.

Desafios-De acordo com a entidade, os riscos para a comunicação virtual decorrentes da falta de clareza entre conceitos como notícia, opinião, desinformação e propaganda, em um ambiente político polarizado, fazem parte da atualidade e influenciam toda essa construção.

A isso se soma o fato de as pessoas alimentam suas convicções a partir do que acreditam ser realidade, de acordo com o conteúdo selecionado pelo algoritmo da rede social.

 “O método jornalístico é um elemento central de apreensão da realidade e do debate público, que está no cerne da qualidade democrática”, resume Artur Romeu, diretor do escritório do RSF para América Latina, na apresentação do relatório.

Plataformas digitais-Para Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o futuro aponta para o cenário de domínio das plataformas digitais.

“Desde os grandes veículos [de comunicação] até a chamada mídia independente alternativa, todos necessitam escorar sua produção jornalística pelas plataformas digitais.”

Segundo ela, que também atuou no comitê consultivo, o jornalismo é refém da política de algoritmo dos meios digitais. “Essas [plataformas] são controladas por empresas multinacionais com total opacidade da sua política algorítmica.”

De acordo com o diretor do escritório do RSF, Artur Romeu, o jornalismo passa a operar dentro das regras que são cada vez mais arquitetadas por essas grandes empresas.

“[O jornalismo] torna-se dependente dos canais de distribuição das plataformas digitais, na medida em que cada vez mais pessoas consomem notícias e informação através dessas plataformas.”

O efeito da “plataformização” é a desvalorização do jornalismo. Essa se deu quando passou a competir “de igual para igual com a desinformação e com a propaganda, e passou a ser vista como mais uma narrativa”, acrescenta Sérgio Lüdtke.

Ele acrescenta que o uso de inteligência artificial pode agravar o esvaziamento da profissão e substituir jornalistas nas atividades de apuração e escrita.



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PROCESSOS DE REIVENÇÃO NO JORNALISMO

A Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Campus III, em Juazeiro, realizará de 7 a 10 deste mês o 7° Encontro de Comunicação do Vale do São Francisco (Ecovale), com o tema "Processos de Reinvenção no Jornalismo". O evento visa promover a troca de experiências entre alunos, professores e pesquisadores da área, além de estimular reflexões sobre o campo da comunicação. Durante quatro dias ocorrerão diversas atividades incluindo oficinas, debates e palestras sobre mudanças no campo profissional, transformações das práticas profissionais, conectando as mudanças econômicas e sociais que reconfiguram o ofício de narrar os acontecimentos nas rotinas produtivas.

Nesta edição, o Ecovale vai conceder pela primeira vez,   o "Prêmio Carranca de Jornalismo" - em caráter de honraria a três profissionais  que atuaram nos meios de comunicação  do Vale do São Francisco, sendo dois deles In memoriam: os jornalistas Marcelino Ribeiro e Inah Torres. O terceiro homenageado é o jornalista Luiz Manoel Guimarães que por  décadas atuou no jornal A Tarde, de Salvador. 

A importância de um prêmio de jornalismo para reconhecer profissionais atuantes vai além da simples celebração. De acordo com a coordenadora do curso de Jornalismo em Multimeios, Carla Paiva, a Uneb já fez duas décadas de contribuição no campo acadêmico, formando profissionais que atuam na região e outros estados, além de fortalecer a troca de experiências entre discentes e meios de comunicação da região.

O prêmio é uma justa honraria de reconhecimento e validação sobre aqueles que tiveram ou tem uma trajetória marcante no jornalismo do Vale do São Francisco", ressalta a coordenadora. Para a diretora do DCH-III, Andréa Cristiana, o Prêmio Carranca de Jornalismo é também uma forma de endossar e reconhecer o valor dos meios de comunicação do Vale e seus profissionais que diariamente estão na linha de frente produzindo, compartilhando informações de forma ética e profissional na construção da cidadania e liberdade de expressão coletiva.

HOMENAGEADOS-Nesta primeira edição do prêmio, os homenageados são o jornalista baiano Luiz Manoel Guimarães Pereira, natural de Remanso (BA) que ingressou na década 1970, na Universidade Federal da Bahia. Foi estagiário no Diário de Notícias e na Tribuna da Bahia e trabalhou por na assessoria de imprensa da reitoria da UFBA. Em Salvador, foi repórter da Geral, Polícia, Política e Esportes. Na década de 1990, retornou a Juazeiro para fazer parte da sucursal do A Tarde na região, foi repórter e editor até assumir a chefia da sucursal, função em que permaneceu até outubro de 2010, quando se aposentou.

Em memória de dois grandes profissionais da comunicação já falecidos, o prêmio reconhece a importância de Marcelino Ribeiro  e Inah Torres. O jornalista Marcelino Ribeiro fez carreira no serviço público, atuando por mais de vinte anos na Embrapa, como supervisor do Núcleo de Comunicação Organizacional.  Jornalista e colunista social com longa trajetória profissional na região, a pernambucana Inah Torres, natural de Caruaru, foi pioneira no lançamento de uma revista do gênero "Com Você".

Sua primeira incursão profissional, ainda na década de 1970, foi na rádio Emissora Rural e depois na Grande Rio AM. Depois atuou como colunistas no extinto O Pharol. Ainda escreveu para o Jornal do Commércio e no Diário de Pernambuco, com colunas falando sobre o sertão do Vale do São Francisco. Inah Torres também integrou a AIP Associação de Imprensa de Pernambuco, Sindicato dos Radialistas de Pernambuco e ABRAJET Associação brasileira de jornalistas de turismo. A jornalista faleceu em janeiro de 2025 em Petrolina.

Serviço ECOVALE - Encontro de Comunicação do Vale do São Francisco 

Datas: 7 a 10 de abril.

Local: UNEB, DCH - Campus III.

Inscrições: https://www.even3.com.br/vii-ecovale-704323/ 

Programação 

07/04 17h: Credenciamento 

18h: Conferência de Abertura "A datificação do trabalho do jornalista e a integridade da informação" com Rasali Fígaro (USP) 

19h: Homenagem ao dia do jornalista.

08/04

14h: Mesa - Jornalismo dá trabalho: Práticas e Processos de Reinvenção com Flávia Santos, Tamara Leal e Angélica Santa Cruz.

16h: Mesa - Processos de Reinvenção no Audiovisual com Renato Nery, Fernando Pereira e Severo Filho.

09/04

14h: Oficinas e Experiências Práticas Simultâneas

10/04

14h: Mesa - Novas Práticas da Comunicação Pública e Cidadania com Elka Macedo, Lorena Simas e Rogério Pelizzari.

16h: Mostra de Experiências de Estágio e Mostra de Produtos do Curso

18h: Cacos Convida: Palco Aberto

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