DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIO É REFLEXO DO NOSSO MODO DE VIDA, DIZ CIENTISTA

Tão importante quanto a habilidade de explicar temas científicos com qualidade técnica, está a de fazê-lo com poesia. Para nossa sorte, o agrônomo e correspondente científico do Brasil junto à Convenção das Nações Unidas para o Combate da Desertificação (UNCCD) Aldrin Martin Pérez-Marín discorre sobre desertificação com essa exata maestria.

Dos aspectos geoecológicos às disputas geopolíticas, o assessor técnico do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) explica de que maneira a estigmatização da Caatinga como uma terra inóspita, narrativa repetida em outras zonas áridas e semiáridas do globo, é responsável pela expansão da desertificação e das desigualdades socioeconômicas.

“A Caatinga tem uma dinâmica, uma dança da vida, que confunde aqueles que só enxergam beleza e abundância nas florestas na parte verde do Planeta”, reflete em entrevista exclusiva à Eco Nordeste. “É por isso que eu sempre digo: a Caatinga é verde de esperança. Porque ela lança luzes de esperança contra as mudanças climáticas”.

No Dia Mundial de Combate à Desertificação, celebrado neste 17 de junho, o pesquisador interliga a desertificação, a Caatinga, o El Niño e a crise climática ao modo de vida moderno que segue a lógica das commodities e do colonialismo. Confira:

Aldrin M. Pérez-Marín – A desertificação é um tema que se trata há muito tempo. Existe uma Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, criada na Rio 92 a partir de um movimento histórico.

Aqui no Brasil, esse tema da degradação das terras semiáridas e áridas foi levantado pelo professor João de Vasconcelos Sobrinho, que foi pioneiro nos alertas sobre que no Nordeste brasileiro, o Sertão enfrentava problemas similares aos que se encontravam em outras partes africanas.

Essa convenção é um tratado internacional, do qual o Brasil é signatário, e ela traz diversos conceitos. Por exemplo, o que seria desertificação? Ela define que desertificação seria a degradação das terras, nas zonas áridas, semiáridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as variações climáticas e reações humanas.

É um conceito que tem alguns complicadores. Primeiro porque ele diz que a desertificação só inclui zonas climáticas áridas, semiáridas e sub-úmidas secas. Elas são definidas em relação à quantidade de chuva que cai e a quantidade de chuva que se perde pela evaporação do solo e transpiração das plantas.

Quer dizer, a primeira análise que você pode trazer para isso é que em outras zonas climáticas não haveria desertificação, seria uma degradação ambiental, entende? E isso tem implicações profundas porque define, por exemplo, ações dos estados, dos países, do governo para agir.

Mas se você analisa a fundo, você pode dizer que a desertificação, neste contexto, nasce entre o clima e as nossas ações. Ou seja, o problema não é a terra, é o clima que muda e as pessoas que agem.

Em termos políticos, (a palavra) tem influência porque só se fica falando da degradação que ocorre no Semiárido brasileiro. E isso tem um problema crítico, porque se intensifica aquela visão sobre o Semiárido: de que o clima é responsável pela miséria e que a miséria gera subdesenvolvimento. Se intensifica esse processo de estigmatização da região.

A Caatinga e o Sertão sempre são vistos com um olhar que cria preconceito. Pegue a revista Veja de 1981 que na capa traz em letras fortes: “Tentando vencer a maldição do dinheiro perdido – Não é somente a seca que assusta o Nordeste, mas a imagem de região sem futuro, onde é inútil investir”.

E assim nasceu essa história de Mata Branca, Floresta Pobre, Terra Vazia. É porque, no imaginário, muitos enxergam beleza apenas nas florestas úmidas. Mas o que a Caatinga é? Ciclos.

Branca, cinza e verde. Quando ela está branca, ela indica paz e perspectiva. Quando ela está cinza, ele induz ao renascimento de uma riqueza desentendida, porque cinza é renascimento; e quando ela está verde, ela expressa a plenitude de uma floresta cheia de vida.

É uma dinâmica, uma dança da vida que confunde aqueles que só enxergam beleza e abundância nas florestas úmidas, nas florestas na parte verde do Planeta. É por isso que eu sempre digo: a Caatinga é verde de esperança. Porque ela lança luzes de esperança contra as mudanças climáticas.

CL – Em que sentido ela lança essa esperança?

APM – Ela vem demonstrando que sequestra carbono como nenhum outro bioma brasileiro, e se coloca como a segunda floresta seca que sequestra mais carbono; portanto, o clima global agradece.

E é por isso que essa narrativa (de miséria e inutilidade), que se estende pelas outras zonas áridas do Planeta, não se sustenta. Para você imaginar, as terras secas representam cerca de 47% do globo. Com as mudanças climáticas, você espera que essas áreas aumentem para 52%. O Brasil está em 12ª posição em termos de quantidade de área semiárida. (Agencia Eco Nordeste)


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RÁDIO NACIONAL NOVOS PORTAIS E MODERNIZA PRESENÇA DIGITAL

 A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) lança nesta quarta-feira (17), às 12h, os novos portais das rádios Nacional e MEC. A iniciativa, parte das celebrações dos 90 anos da Rádio Nacional, comemorados em 12 de setembro, moderniza a presença digital das emissoras e oferece uma experiência de navegação mais intuitiva para o público, com melhorias em acessibilidade, desempenho e consumo de conteúdo em diferentes dispositivos.

Com a mudança, todas as informações das rádios Nacional e MEC passam a estar disponíveis em dois ambientes exclusivos: radionacional.ebc.com.br e radiomec.ebc.com.br.

O gerente de Transmídia e Portais da EBC, Daniel Roviriego, avalia que os novos sites representam um avanço importante na estratégia digital das rádios da EBC.

"Além de modernizarmos a experiência visual e a navegação, passamos a oferecer um player integrado que permite ao público continuar ouvindo a programação ao vivo ou sob demanda, enquanto acessa notícias, programas e outros conteúdos", explica.

"A inclusão de uma área dedicada a videocasts e a otimização para celulares e tablets acompanham as novas tendências de consumo de mídia e tornam nossos conteúdos mais acessíveis para diferentes públicos", completa.

Roviriego também lembra que mais novidades e melhorias serão implementadas no segundo semestre do ano e que todo o acervo construído ao longo dos anos no antigo site foi preservado e migrado para as novas plataformas.

Programas, notícias, reportagens e conteúdos históricos continuarão disponíveis, garantindo a manutenção da memória construída ao longo dos anos. Os portais contam, ainda, com páginas exclusivas para cada programa e uma central de podcasts.

A reformulação faz parte da estratégia da EBC de fortalecer a presença digital de seus veículos, ampliar o alcance das emissoras públicas e oferecer aos ouvintes uma experiência mais moderna, integrada e conectada às novas formas de consumo de conteúdo.

Sobre a Rádio Nacional-A marca faz parte da história do país e conta, atualmente, com oito emissoras próprias, em diferentes regiões do Brasil: Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Rádio Nacional de São Paulo, Rádio Nacional de Brasília AM e FM, Rádio Nacional de Recife, Rádio Nacional de São Luís, Rádio Nacional da Amazônia e Rádio Nacional do Alto Solimões.

A Rádio Nacional foi fundada no Rio de Janeiro (RJ) pelo grupo do Jornal A Noite em 12 de setembro de 1936 com o prefixo PRE-8. Começou a ganhar força em 1940, quando foi incorporada à União e se firmou como fenômeno de expressão da cultura popular brasileira.

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17 DE JUNHO DIA MUNDIAL DE COMBATE À DESERTIFICAÇÃO

A preservação da Caatinga, bioma que ocupa grande parte do interior de Pernambuco, está no centro das estratégias do governo federal para conter o avanço da desertificação no Brasil. Com milhares de quilômetros quadrados do Semiárido já afetados pela degradação do solo, a aposta é combinar recuperação ambiental e apoio às comunidades que convivem com os efeitos da seca.

As iniciativas ganharam novo impulso com a retomada de políticas públicas voltadas ao tema, incluindo um plano nacional de combate à desertificação, a criação do Programa Recaatingar e uma nova legislação destinada à recuperação da vegetação nativa do bioma.

Neste 17 de junho, ocorre o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1994 para alertar sobre os impactos da degradação dos solos e das mudanças climáticas. A desertificação é definida como um processo de degradação das terras em áreas áridas, semiáridas e subúmidas secas, provocado por fatores climáticos e pela ação humana, comprometendo a capacidade produtiva dos ecossistemas.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Brasil possui cerca de 1,5 milhão de quilômetros quadrados de áreas suscetíveis à desertificação, distribuídas em 1.649 municípios.

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, explicou que a maior parte dessas áreas está concentrada na Caatinga. “Nós temos no Brasil o que a gente chama de áreas suscetíveis à desertificação. Essas áreas são definidas pelo índice de aridez, que é estabelecido pela Convenção da ONU para o Combate à Desertificação (UNCCD).”

De acordo com o ministro, 57% das áreas suscetíveis à desertificação no país estão localizadas na Caatinga, seguida pelo Cerrado (26,7%), Pantanal (12,1%) e Mata Atlântica (4,2%).

A desertificação ocorre quando a perda de cobertura vegetal, o manejo inadequado dos recursos naturais e as condições climáticas adversas reduzem progressivamente a capacidade produtiva dos solos.

Segundo levantamento do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis/UFAL), mais de 126 mil quilômetros quadrados do Semiárido brasileiro já apresentam processos de desertificação, o equivalente a 12,85% da região. A área é maior do que a de todo o estado de Pernambuco.


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A ULTIMA CARTA DO JORNALISTA E ESCRITOR RAIMUNDO CARRETO

 Ao longo dos últimos dois meses, Raimundo Carrero trouxe às páginas do Diario discussões sobre assuntos diversos que fervilham no mundo cultural brasileiro e pernambucano, sobretudo no universo da literatura.

O escritor, que faleceu na manhã desta terça-feira (16), aos 78 anos, em decorrência de um câncer, começou sua carreira do Diario, em 1969, como estagiário, e, mais de 30 anos depois, retornou ao jornal, passando a assinar uma coluna publicada semanalmente no caderno Viver.

Confira a seguir a última coluna publicada por Raimundo Carrero no Diario de Pernambuco, em 30 de maio de 2026.

Diálogos

-Vamos dormir, meu filho? Ouvia meu pai perguntar todas as noites, aí pelas 23h, convidando-me a apagar a luz no seu jeito sincero, leve, hábil, para não me incomodar. Deitado na rede, eu levantava o braço para chegar ao interruptor que balançava sobre meu peito, pendurado num fio branco que descia desde o teto. Ele sabia que eu estivera lendo, mas preferia não me incomodar, sugerindo a hora do sono. Dormíamos no mesmo quarto desde a morte da minha mãe, ele na cama e eu na rede, sempre ressonando alto de forma linear sem, no entanto, incomodar meu sono que permanecia em estado de vigília.

“Então eu me enfiava debaixo das cobertas e, com a luz de minha lanterna, como se estivesse em uma caverna, voltava a ler. Aquela camuflagem, em que a lanterna era um objeto salvador, transformava a leitura em uma aventura. Acrescentava a ela um caráter secreto e perigoso. Foi nessa posição de expedicionário, dissimulado sob minha tenda de lã, que li meus primeiros livros”.

Encontro nestes dois breves textos similitudes e diferenças básicas que me levam à análise do novo, atormentador e magnífico livro de José Castello, “Histórias Miseráveis” (Maralto Edições), que revela de forma leve e suave a aventura das primeiras leituras em lugares tão diversos e dispersos envolvendo duas crianças de caracteres definitivamente opostos e de comportamentos nada iguais, mas vivendo situações senão iguais, carregadas de sentido e de aproximação. Na verdade, chamo de diálogo esta técnica complexa da prosa contemporânea. 

São pais e filhos em lugares diferentes e distantes, mas já adivinhando entre si o caminho que leva à literatura de leitor, ou de criador, com uma lanterna na mão ou deitado numa rede esperando o sono do pai.O primeiro caso aconteceu comigo, aos 10 anos de idade; o segundo está no conto deste novo livro de Castello. Personagens silenciosos, sem uma palavra entre si. Que tipo de diálogo seria este, então? No meu livro “Os Segredos da Ficção”, catalogo cinco tipos de diálogo e aqui chego a mais este, a que chamo de diálogo sem resposta nas minhas anotações. Ismail Kadaré usa isso muito bem.

O que me interessa dizer é que desde as primeiras leituras, a literatura se apresenta como a vida, depois do primeiro golpe de ar, as cenas e os personagens vão surgindo, muitas vezes sem nenhum esforço. Os pais, tanto o de Castello quanto o meu, ocuparam lugares importantes e, daí em diante, muitos outros vão se jogando nas frases, nos parágrafos, nos capítulos, nos contos, nas novelas, nos romances, como disse Machado de Assis nos seus ensaios sobre a arte de escrever ficção: os enfeitiçados, cada um com seus caracteres, expondo suas personalidades, falando muito ou pouco. Aí o Bruxo de Cosme Velho citava o Hamlet, de Shakeaspeare, e a silenciosa Penélope de Ulisses, na “Odisseia”, de Homero.

O livro de contos de Castello é, na verdade, um romance de ótimos personagens desde aqueles pais que me referi no início. É contundente sem perder a elegância. Saboroso, sem deixar de ser dramático, não raro é trágico. Enfim, uma obra-prima.


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A BÍBLIA E O SEMIÁRIDO

“Tudo pela defesa do território.” Essa frase, que ecoa com força no Semiárido de hoje, serve também como um portal para compreender o passado. Ao olhar para os povos que habitaram as terras semiáridas descritas nos textos bíblicos, descobrimos muito mais do que relatos antigos: encontramos um espelho da nossa própria realidade. Aqueles povos criaram formas de captar água, desenvolveram o manejo de animais adaptados e, inspirados pelo clima quente e seco, transformaram a escassez em sabedoria. 

Os povos resistiram ao avanço de impérios e modelos opressores que tentavam apagar sua história e sua cultura. A partir dos fatos históricos dessas civilizações, observamos que a convivência com o clima só era possível graças à coletividade e a uma espiritualidade profunda, que alimentava a luta e servia como fonte de resistência. Um povo que luta, mas que também festeja, celebra a vida e se torna fonte de inspiração. Compreender a realidade de quem viveu naquela época é mergulhar em uma fonte que nos conecta diretamente com o Semiárido que vivemos hoje, provando que a mística da terra semiárida é atemporal. 

É fundamental compreender essa conexão e “beber da fonte” de outros tempos para fortalecer quem luta pelo território hoje. Afinal, a Bíblia nasceu em uma região de escassez hídrica em alguns períodos do ano, muito similar ao nosso Sertão.

Nossa caminhada deve muito às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), pioneiras em ler o texto sagrado com o olhar de quem convive no território. Nelas, a Bíblia nunca foi um livro estático, mas uma ferramenta viva de interpretação da realidade. Essa metodologia permitiu que os povos do campo se vissem nos personagens bíblicos, transformando o estudo bíblico em um ato político e social.

Nas CEBs, os relatos sagrados foram resgatados como vivências reais de comunidades que enfrentavam desafios climáticos semelhantes aos nossos. Ali, a Bíblia deixou de ser um rito de isolamento para se tornar planejamento territorial: ler a Palavra era também planejar a cisterna, organizar o mutirão e defender o Fundo de Pasto. O povo não lia sobre um deserto distante, lia sobre a sua própria casa, encontrando na mística bíblica a força para afirmar que a vida no Semiárido é possível e que a convivência é uma missão espiritual e comunitária.

O assessor do Irpaa, Johann Gnadlinger, que estuda a relação entre as escrituras e o Semiárido há décadas, relata que a identificação com as escrituras é imediata: “A Leitura Popular da Bíblia a partir do Semiárido aproxima a vida dos povos dos relatos bíblicos com o cotidiano dos povos do semiárido. Assim como enfrentam a escassez de água, uma seca e criavam estratégias para armazenar recursos e produzir alimentos, assim encoraja o povo sertanejo a unir a luta por justiça social à preservação da Caatinga, à colheita da água da chuva e à convivência com o semiárido. Por isso, muitas vezes participantes de cursos e encontros sobre leitura bíblica no semiárido disseram: ‘Eu com minha vida estou me achando dentro da Bíblia!’”

Johann explica que essa aproximação se dá pelas semelhanças práticas da lida no campo: “Profetas como Amós, que era criador de cabras e cultivador e beneficiador de figos, dialogam assim diretamente com a realidade de quem cria um rebanho e beneficia umbu no semiárido.”

Durante séculos, fomos vítimas de uma visão que não era nossa. Os invasores europeus trouxeram o conceito equivocado de “Polígono das Secas”, tratando nosso clima como um erro a ser combatido. Essa lógica ignorou a sabedoria dos povos originários e comunidades tradicionais que já praticavam a convivência diária por sobrevivência, adaptando-se aos ciclos da natureza muito antes de o termo existir.

Esses povos já conheciam a dualidade da nossa mata: a Caatinga (Mata Branca), que repousa no cinza para resistir, e a Caatubi (Mata Verde), que pulsa vida ao primeiro sinal de chuva. A Bíblia valida essa visão ancestral ao provar que o Semiárido não é um erro, mas um ecossistema com leis próprias. Foi apenas há cerca de 40 anos que movimentos sociais e organizações eclesiais voltaram a questionar a lógica do “combate” (baseada no assistencialismo) para afirmar a Convivência (baseada na autonomia). Não se combate o clima, aprende-se com ele.

Ao sobrepor os mapas do Semiárido brasileiro e da Terra Santa, a semelhança é impressionante. Ambos compartilham chuvas irregulares, vegetação resiliente e a dependência vital do manejo da água. Essa identidade entre os dois territórios nos oferece saberes que dispensam grandes e devastadores projetos de irrigação:

Assim como as histórias bíblicas trazem pastores de cabras e ovelhas, o sertanejo encontra autonomia na criação de pequenos animais e na agricultura de sequeiro com sementes crioulas. Além disso, milênios antes das cisternas de placas, o povo bíblico já estocava água na rocha. Isso reforça a tese de que o problema não é a falta de chuva, mas nossa capacidade de guardá-la e geri-la como bem comum. Na Bíblia, privatizar fontes era pecado, pois água é para a vida. Esse princípio ecoa na nossa resistência contra aqueles que tentam controlar a água e o alimento.

O Semiárido deve ser compreendido, não combatido. A Bíblia ensina uma ética do cuidado com a criação que se traduz em políticas de convivência. Ler o texto sagrado no Semiárido permite entender parábolas de sementes e poços com uma clareza que um europeu jamais teria, pois o sertanejo lê a partir de sua sede e de sua luta pela terra.

O Salmo 23 nos fala de encontrar pasto na Caatubi e segurança nos recursos partilhados. Já o Provérbio 27:23-27 destaca a importância de conhecer e cuidar dos rebanhos, garantindo o sustento da casa através da abastança do leite das cabras. Estudar a Bíblia sob esta ótica é um ato de libertação: ela prova que a espiritualidade e a técnica de convivência são faces da mesma moeda.

Estudo bíblico: Cuidando da casa comum no Semiárido brasileiro 

Historicamente, o Irpaa sempre identificou nos espaços formativos uma ferramenta essencial para a desconstrução de preconceitos sobre o clima regional. O acervo institucional acumula ricas experiências de intercâmbios, cursos populares e  eventos tradicionais, desde 1993, já organizou 15 encontros bíblicos, que reuniram lideranças comunitárias, animadores/as sociais e agricultores/as familiares para debater o texto sagrado fincado na realidade, a exemplo dos marcantes Encontros do Uso da Bíblia no Semiárido e das turmas da Escola Bíblica Ecumênica.

Dando continuidade a esse legado metodológico, a equipe técnica do Irpaa passa atualmente por um processo de formação interna focado no estudo bíblico contextualizado, com o tema “Cuidando da casa comum no semiárido brasileiro”. Amparada no lema de Gênesis 2,15 “Deus nos colocou como homens e mulheres no semiárido brasileiro, para cuidar e preservá-lo”, a iniciativa voltada 40 pessoas de diferentes profissões que atuam na Instituição.

Assim, o estudo visa alinhar a equipe com a mística da Convivência, aprimorando as abordagens pedagógicas utilizadas em campo junto às comunidades, associações e movimentos sociais, fortalecendo a missão do Irpaa de promover o Bem Viver.

O cronograma atual do projeto estende-se de 2026 a 2027, estruturado em quatro semestres práticos:

1º Semestre (2026): A natureza e os povos da Bíblia (estudo do livro “Clima e Água na Bíblia”, ocorrido em 26 e 27 de março no Centro de Formação Dom José Rodrigues).

2º Semestre (2026): Ocupação e uso do solo (com visita de estudo a Canudos-BA, previsto para 16 a 18 de outubro). 

3º Semestre (2027): Povos e diversidade sociológica (com visita ao Santuário Padre Ibiapina-PB).

4º Semestre (2027): Problemas emergentes (gênero, juventude e economia solidária).

Esta ação formativa integra o plano de atividades do projeto Estudo Bíblico: Cuidando da casa comum no semiárido brasileiro, viabilizada financeiramente pela Missionsstelle (Apoio para a Missão), grupo solidário de leigos e leigas da Diocese de Linz, na Alta Áustria, contando também com o aporte de recursos próprios, apoio pessoal e execução do Irpaa.

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RÁDIO MEC PRESTA HOMENAGEM AO POETA THIAGO DE MELLO

 Vai ao ar neste domingo (7), às 12h30, na Rádio MEC, mais uma edição inédita do Conversa com o Autor. A jornalista Katy Navarro entrevista o poeta, educador e compositor Thiago Thiago de Mello, em programa que celebra o centenário de seu pai, o ícone da literatura Thiago de Mello (1926-2022), e seu primeiro livro de poesias, Uma varanda no meio do rio. 

Thiago de Mello nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado na Amazônia, ao lado do Rio Andirá, que banha Barreirinha, cidade no interior amazonense onde nasceu seu pai.

Durante o programa, ele conta como surgiu a ideia de escrever um livro durante a pandemia que apresenta textos, poemas e letras de músicas, além de cartas, e-mails, bilhetes e fotos de seus antepassados.  

Thiago também festeja o centenário de nascimento do pai, autor de livros célebres que marcaram a literatura brasileira, como Faz escuro mas eu canto, Os Estatutos do Homem e Silêncio e Palavra.

Amadeu Thiago de Mello foi um jornalista e diplomata que foi preso durante a ditadura e se exilou no Chile, onde conheceu Pablo Neruda e Paulo Freire, figuras históricas que influenciaram sua obra. 

Em paralelo ao trabalho na literatura, Thiago Thiago de Mello também está lançando o seu sexto álbum musical, intitulado Nada vai sumir, no qual canta sobre a Amazônia, o poder da memória e a impermanência.  

Sobre o Conversa com o Autor - Apresentado e produzido pela jornalista Katy Navarro, são quase 30 minutos de uma conversa que gira em torno dos lançamentos, títulos, curiosidades, processo criativo, sugestões de obras, leituras e as diversas narrativas literárias dos autores brasileiros. Em 2023, o programa completou uma década. 

Os episódios da nova temporada também ficam disponíveis em formato de videocast no canal da emissora pública no YouTube. 

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FENAJ DENUNCIA CONSTRAGIMENTOS A JORNALISTAS NOS EUA

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) manifestou preocupação com relatos de profissionais de imprensa que atuam na cobertura da Copa do Mundo de 2026. Eles afirmam ter enfrentado episódios de constrangimento, restrições à circulação e dificuldades para exercer a atividade jornalística nos Estados Unidos, uma das sedes do evento ao lado de México e Canadá.

Em nota divulgada na quinta-feira (11), assinada pela Comissão de Mulheres Jornalistas e pela Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Social (Conajira), a Fenaj destacou como um dos casos mais graves o da jornalista Karine Alves, da TV Globo.

Segundo relato compartilhado pela profissional, ela foi retirada da fila regular da imigração durante o ingresso nos EUA, tratada de forma ríspida por agentes e submetida à revista do cabelo. Karine diz que o procedimento teria sido direcionado apenas a pessoas negras que chegavam ao país.

Para a Fenaj, o episódio representa um tratamento racista e xenófobo e se soma a outros relatos envolvendo profissionais de imprensa e torcedores que acompanham a competição.

A entidade também citou o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que foi impedido de ingressar nos EUA para participar do torneio.

Além dos episódios ocorridos nos postos de imigração, jornalistas relataram obstáculos impostos ao trabalho de cobertura esportiva, o que inclui restrições de circulação em espaços utilizados pelas seleções durante os treinamentos.

Diante desse cenário, a Fenaj informou que defenderá, no âmbito da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), o encaminhamento de um documento à Federação Internacional de Futebol (Fifa), para que a entidade assegure condições adequadas de trabalho aos profissionais credenciados para trabalhar durante as competições.

Entre as propostas estão a garantia de condições de trabalho seguras e livres de discriminação para todas as nacionalidades, a criação de mecanismos independentes para recebimento e apuração de denúncias de assédio, violência e discriminação, a adoção de protocolos específicos de proteção para mulheres jornalistas e o compromisso dos países anfitriões com a liberdade de imprensa, a liberdade de circulação e a independência profissional dos trabalhadores da comunicação.

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COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E A CULTURA DO PERTECIMENTO

 Daqui a pouco mais de 24 horas, a Seleção Brasileira estreia na Copa do Mundo. Jogo duro contra Marrocos. A cada quatro anos, o sentimento de "Pra frente, Brasil" toma conta de boa parte da população, mas confesso que, desta vez, há algo diferente no ar. Veja bem a postagem do ator Selton Mello, um dos nomes mais importantes da nossa dramaturgia nas últimas décadas: "Nenhum interesse na Copa do Mundo. Nem sei quando a gente joga. Parei no Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Romário, Ronaldo, Cafu, Kaká etc. Não há mais amor pela camisa nem paixão em defender o país. Não contagiam, não me pegam. Mais alguém assim?"

Fiquei, durante um bom tempo, com o questionamento de Selton Mello na cabeça. E, sim, há um clima diferente até agora em relação à Copa do Mundo. As ruas não estão pintadas quanto antes. As bandeirolas minguaram nos carros e nas janelas dos apartamentos. A paixão e fanatismo do brasileiro em relação ao futebol desapareceram? Talvez. Mas acredito que os fatores são outros.

O primeiro deles passa pelo convívio social. A pandemia deixou marcas profundas. A polarização política, também. Desde as eleições de 2018, o país mergulhou em um ambiente de permanente confronto entre esquerda e direita. Famílias se afastaram. Amizades acabaram interrompidas. O diálogo ficou mais difícil. E a Copa do Mundo sempre foi, acima de tudo, um grande momento de encontro.

Não é coincidência que até mesmo a tentativa de lançamento de uma terceira camisa vermelha da Seleção tenha se transformado em uma disputa ideológica. O que deveria ser apenas uma discussão esportiva virou mais um capítulo da guerra política. Quando tudo se transforma em embate, sobra menos espaço para a celebração coletiva.

Há ainda outro componente importante: a desconfiança. Embora Carlo Ancelotti tenha conseguido boa aprovação popular, como mostra a pesquisa Quaest de ontem, os brasileiros não parecem acreditar plenamente na capacidade da equipe de conquistar o hexa. Entramos na competição sem o favoritismo de outras épocas. E também existe um fator emocional. Sentimos falta dos grandes heróis. Pelé, Romário, Ronaldos, Garrincha. Craques que transcendiam o futebol. Personagens que mobilizavam até quem não acompanhava esporte. Não é apenas nostalgia. É a ausência de figuras capazes de criar identificação nacional. Neymar teve as suas chances e não vingou. Será que agora consegue?

Ainda assim, não acredito no desinteresse definitivo. Copa do Mundo tem uma capacidade única de despertar emoções adormecidas. Basta uma vitória convincente. Um gol decisivo. Uma classificação dramática. Se a Seleção embalar, a confiança volta. O entusiasmo reaparece. O amor pela camisa ressurge.

Porque, no fim das contas, a Copa continua sendo um dos raros momentos em que milhões de brasileiros olham para a mesma direção. Em tempos de tantas divisões, isso tem um valor enorme. Viva a Copa do Mundo. Ela ocorre apenas a cada quatro anos. Esse clima, essa expectativa e essa sensação de pertencimento são especiais demais para serem ignorados. Daqui a quatro anos, ninguém sabe onde estará. Nem mesmo se estará aqui para viver tudo isso novamente. Vale a pena aproveitar.

Roberto Fonseca/Correio Braziliense


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UNIVASF PROMOVE SEMINÁRIO SOBRE DESERTIFICAÇÃO NA BAHIA

 A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) sediará o Seminário sobre Combate à Desertificação na Bahia. O evento, que busca promover o diálogo sobre a desertificação e seus impactos ambientais, sociais e econômicos, acontecerá em 17 de junho, data que marca o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. O seminário será realizado no Espaço Plural, em Juazeiro (BA), e é promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia (Sema), em parceria com a Univasf. As inscrições estão abertas.

A participação é gratuita e aberta ao público em geral, especialmente a representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, entidades de pesquisa, movimentos sociais e comunidades. Os interessados devem se inscrever por meio de formulário eletrônico.

A programação contará com atividades voltadas ao debate e ao intercâmbio de experiências sobre a desertificação na Bahia. A proposta é promover a troca de conhecimentos e fortalecer as estratégias estaduais de prevenção, mitigação e enfrentamento desse fenômeno.

O seminário terá início às 8h e seguirá até as 17h30, com mesa de abertura, o painel “Panorama da Desertificação na Bahia” e o “Carrossel de Experiências de Combate à Desertificação”. A atividade participativa tem como objetivo compartilhar conhecimentos, práticas e estratégias relacionadas ao enfrentamento da desertificação e à convivência com o Semiárido.

No dia 18 de junho, será realizada a oficina de Atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação (PAE-Bahia), destinada a representantes e especialistas convidados. A atividade apresentará a metodologia de revisão do Plano e promoverá a participação social e institucional na construção das diretrizes, ações e prioridades que orientarão as políticas de combate à desertificação e de convivência com o Semiárido no estado da Bahia.

As atividades contam ainda com a parceria de instituições baianas que integram a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, entre elas o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), a Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia (Agendha) e a Escola Família Agrícola do Sertão (Efase).

Dúvidas sobre o evento podem ser encaminhadas para o e-mail dippa@sema.ba.gov.br.

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JOSÉ SOBRINHO VASCONCELOS E A ECOLOGIA

Para marcar o Mês do Meio do Meio Ambiente, as inscrições para o Prêmio Vasconcelos Sobrinho 2026 (PVS), estão abertas desta quarta-feira (10) até o dia 3 de julho. Voltado para o reconhecimento, divulgação e incentivo a boas práticas socioambientais e de manutenção do meio ambiente em Pernambuco, o prêmio é uma iniciativa do Governo de Estado, por meio da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), com apoio da Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas). O PVS integra a programação da Semana do Meio Ambiente, que oficialmente vai de 31 de maio a 5 de junho, mas será estendida em Pernambuco com atividades até o dia 16 de junho.

O formulário para inscrição, assim como o regulamento e outras informações sobre o prêmio estão disponíveis durante o período de inscrições, (10/06 a 3/07) no portal da Agência CPRH ( www.cprh.pe.gov.br) , com a entrega da premiação prevista para dezembro em data ainda a ser defina. Podem concorrer ao PVS trabalhos ou iniciativas bem sucedidas, ações, experiências de pessoas físicas ou jurídicas, empreendedores, instituições privadas, públicas, associações brasileiras sem fins financeiros, com projetos realizados em Pernambuco, concluídos ou em fase final de conclusão.

A premiação considera as seguintes categorias: Bem-estar animal; Inovação tecnológica; Pesquisa ambiental; Projeto - Prática educacional (ensino fundamental e médio); Destaque municipal; Destaque Comunicação Ambiental; e Personalidade do Meio Ambiente (Exclusivamente para indicação de terceiros). Para o diretor-presidente da CPRH, José de Anchieta, o prêmio é uma "oportunidade para a sociedade conhecer e valorizar projetos ou pessoas que atuam na preservação do meio ambiente, além de contar com o reconhecimento do Governo estadual".

Quem foi Vasconcelos Sobrinho-Nascido em Moreno, na Região Metropolitana do Recife, em abril de 1908, João Vasconcelos Sobrinho formou-se em Engenharia Agrônoma pela antiga Escola Superior de Agricultura de São Bento, hoje, integrante da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Contribuiu fortemente com as causas ambientais, e foi fundador e diretor do Jardim Zoobotânico de Dois Irmãos, atual Parque Dois Irmãos. 

Também foi professor titular da disciplina de Ecologia da UFRPE, fundador e supervisor da Estação Ecológica de Tapacurá. Foi ainda diretor de instituições federais e estaduais, além de membro da Delegação Brasileira para a Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação, em 1977. Vasconcelos Sobrinho publicou mais de 30 livros, sempre abordando estudos, observações, questões florestais e naturais ligadas às matas e regiões naturais de Pernambuco. Vasconcelos Sobrinho faleceu em maio de 1989, aos 81 anos.

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PAU DA BANDEIRA ATRAVESSOU UMA DAS PONTES DO PROJETO DE INTEGRAÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

Há um fato curioso sobre as formigas cortadeiras: apesar do pequeno tamanho, elas conseguem transportar folhas, cascas, galhos e fragmentos vegetais que pesam dezenas de vezes mais do que seus próprios corpos. O feito impressiona pela força, mas também pela organização. 

Em Barbalha, no sul do Ceará, esse princípio se repete em escala humana anualmente. 

Sob um sol que ultrapassa os 30º, cerca de 200 homens carregadores conduziram, no domingo, 31 de maio de 2026, um tronco de angico com 23 metros de comprimento e três toneladas de peso por um percurso de sete quilômetros, do Sítio São Joaquim até o Centro Histórico da cidade. 

O tronco, transformado em mastro para a bandeira de Santo Antônio, inaugura uma das celebrações mais emblemáticas do calendário cultural brasileiro: a Festa do Pau da Bandeira, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural do Brasil.

Como um grupo de homens consegue transportar nos ombros uma estrutura que nenhum deles seria capaz sequer de erguer sozinho? 

Vista de perto, a condução do Pau da Bandeira funciona como uma engrenagem coletiva construída ao longo de quase um século de tradição. Há mecanismos de cooperação e formas de transmissão de conhecimento que passam de geração em geração. O que move o tronco é uma sabedoria distribuída entre centenas de corpos.

“Eu não sou só. Sou um elemento dentro de um mundo, que são os carregadores”, define Rildo Teles. Nascido no bairro do Rosário e criado na Vila Santo Antônio, é capitão do Pau da Bandeira desde os anos 2000, quando foi convocado por João Filgueira Teles, histórico doador de paus da bandeira. 

A responsabilidade do capitão está em acompanhar a escolha da árvore, coordenar as etapas do corte, organizar o carregamento, observar riscos, mediar conflitos e garantir que todos retornem em segurança.

“Capitão é uma espécie de pai. E pai não é só”, resume.

A hierarquia existe, mas não se impõe pela autoridade, se sustenta pela experiência acumulada onde os mais antigos ensinam os mais novos. Os novatos chegam conduzidos por pais, tios, irmãos ou amigos e aprendem observando.

A hora da partida é conhecida. Ao meio-dia, o tronco deixa a zona rural em direção à cidade. A chegada, porém, depende do ritmo dos carregadores.

“O Pau da Bandeira só tem hora para sair”, diz Rildo. “Não tem hora para chegar. Meu compromisso é que ele chegue com os carregadores íntegros.” A frase revela a lógica de que mais importante do que cumprir um suposto horário é preservar o grupo. 

Mas talvez o aspecto mais revelador dessa inteligência não esteja na força, nem na logística: antes do cortejo, os carregadores passam por um ritual conhecido como batismo de terra. Na mata, homens cobrem uns aos outros com barro e poeira, esfregam terra nos rostos e nas roupas numa brincadeira que se tornou uma das imagens mais marcantes da festa.

“Nós, homens e a terra, temos essa ligação. Esse batismo começou lá dentro da mata para a gente se sentir mais perto da terra, jogando terra um no outro, melando o outro, na brincadeira, para nos conectar”, explica.

O ritual funciona como um nivelador simbólico: “Todos são iguais e batizados pela mesma terra.”

A imagem manifesta dois dos princípios fundamentais que sustentam o Pau da Bandeira: a confiança e a entrega. Afinal, carregar três toneladas exige acreditar que o outro fará sua parte, sustentando o peso quando necessário e protegendo quem está ao lado.

Na parte mais pesada do tronco ficam os homens mais experientes. São eles que conhecem o momento exato de levantar, apoiar o ombro, distribuir o peso e perceber quando é hora de baixar a carga.

“Pesou no ombro, vai ao chão”, explica Neto, um dos carregadores durante entrevista coletiva. “O carregador do Pau da Bandeira sabe a hora que ele vai cair.” 

O angico avança aos poucos. Não há instrumentos de medição, nem comandos sistemáticos, o que existe é um conhecimento corporal compartilhado, construído pela repetição. A cada passo, o tronco parece respirar junto com os carregadores. 

Quando o peso muda de direção, centenas de homens respondem quase simultaneamente. Quando um recua, outro avança. Quando alguém demonstra exaustão, o revezamento acontece naturalmente entre companheiros de bairro, amigos ou parentes.

“Tem revisão porque ninguém aguenta levar até lá”, conta Neto. “A gente reveza entre amigos.”

Essa capacidade de coordenação sem centralização absoluta lembra justamente os sistemas cooperativos encontrados na natureza. Nas colônias de formigas, decisões complexas emergem da soma de pequenas ações individuais. Em Barbalha, o movimento do tronco também depende da leitura constante do comportamento do grupo, e quem observa tem a sensação de assistir a um organismo único tentando encontrar equilíbrio.

Os carregadores se organizam historicamente por bairros como Alto da Alegria, Rosário, Vila Santo Antônio, Bela Vista e Cirolândia. No entanto, diante do tronco, essas divisões desaparecem.

“Aqui somos uma só família”, resume Alexandre Luna, carregador há 22 anos. “O mais importante aqui é a união.”

A Associação dos Carregadores do Pau da Bandeira, criada em 2025, surgiu desse esforço de organização e identificação. Hoje, cerca de 120 integrantes são associados formalmente, enquanto entre 150 e 200 homens participam diretamente do transporte a cada edição.

Além disso, nos últimos anos, a tradição passou a seguir protocolos estabelecidos por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público. Entre as medidas estabelecidas estão a identificação dos carregadores por meio de pulseiras e camisas oficiais, que podem manter suas cores e símbolos próprios a partir das turmas. 

“Tem a turma do Alto da Alegria, os Azulzinhos, o Panela de Barro, os Margaridas“, explica Rildo Teles. “Cada um tem sua camisa, mas todos carregam a identificação de carregador oficial.”

O acordo também se estende ao consumo de álcool durante o percurso. “A bebida está controladíssima”, afirma o capitão. Segundo ele, participantes que demonstram sinais de excesso são retirados do transporte.

No percurso, o Pau da Bandeira atravessou uma das pontes do Projeto de Integração do Rio São Francisco. Vista do alto, a cena produz uma imagem rara onde de um lado está o canal de concreto por onde corre a água trazida de longe; do outro, uma corrente humana sustentando um tronco de quase três toneladas.

Por alguns minutos, duas formas distintas de tecnologia social se encontram como se unissem duas histórias do sertão: a luta pela água e a persistência da fé.

Carregador há 56 anos e reconhecido este ano como Mestre Imortal pela Organização Internacional de Folclore e Artes, Antônio Erfo Feitosa Luna acompanha o trajeto. Ele começou na tradição ainda adolescente, carregando a chamada “tesoura” — estrutura menor utilizada no hasteamento — porque era jovem demais para participar do transporte principal.

“Quando eu comecei tinha entre 13 e 14 anos”, recorda. “Depois fui pegando nele até chegar na cabeça do pau.” 

Ao longo de mais de cinco décadas, viu a festa se transformar. “Muita coisa mudou. Mas a força e a emoção são as mesmas.”

À medida que o Pau da Bandeira se aproxima da cidade, as ruas ficam mais estreitas e o público mais denso. Se na mata o tronco era conduzido por um formigueiro humano de pouco mais de duzentos carregadores, na entrada de Barbalha ele encontra outro. 

Das ruas laterais, das janelas, das calçadas e sacadas, milhares de pessoas se espalham pela paisagem. Como acontece quando diferentes trilhas de uma colônia convergem para o mesmo alimento, os fluxos se encontram. 

Sob a camada de barro e suor acumulada ao longo da caminhada, os homens seguem avançando em direção ao mesmo destino. 

Paulo Júnior Veloso, integrante de uma linhagem familiar ligada ao Pau da Bandeira, é neto do lendário mestre Pavão — capitão e animador dos carregadores durante décadas. Ele começou a participar da tradição aos 15 anos.

“Ser carregador para mim é testemunho da fé a Santo Antônio”, afirma. “Meu filho hoje já é carregador.” E assim o conhecimento circula, pela convivência, onde se aprende gestos, cuidados e valores.

Bem como acontece nos formigueiros, há momentos em que milhares de corpos parecem responder ao mesmo chamado. Neste ano, quando o Pau da Bandeira alcançou a Igreja do Rosário, o relógio marcava exatamente 18 horas. 

O sino da igreja tocou e as vozes do cortejo entoaram juntas um dos versos mais conhecidos da música nordestina: “Quando batem as seis horas, de joelhos sobre o chão, o sertanejo reza a sua oração”. A Ave Maria Sertaneja, canção de Luiz Gonzaga, atravessou a multidão como uma prece coletiva.

Durante sete quilômetros, o tronco viaja na horizontal. No hasteamento, porém, ocorre a transformação mais simbólica da jornada. Como um galho que finalmente encontra seu lugar na arquitetura de um formigueiro, o angico deixa de ser carga para se tornar monumento. Toda a energia distribuída ao longo do dia converge para um único gesto coletivo: fazê-lo apontar para o céu.

Quando o angico finalmente chega à Igreja Matriz de Santo Antônio e é erguido diante de milhares de pessoas, já é por volta das 20h55. Ali, o que se vê, é a materialização de uma tecnologia social construída coletivamente durante 98 anos. Alguns carregadores se abraçam, outros permanecem em silêncio. Há quem chore. Há quem agradeça.

A bandeira de Santo Antônio está de pé. Um organismo vivo feito de ombros, memória, fé e cooperação. Como acontece nas colônias, a força individual importa menos do que a capacidade de agir junto.

Por Bibiana Belisário-Arte Brasileiros

Nota: Esta reportagem foi inspirada por uma publicação da fotógrafa Nivia Uchoa nas redes sociais. Seu registro visual de formigas transportando um palito de dente provocou a reflexão sobre o cortejo do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha (CE), e deu origem à pauta sobre cooperação e organização entre os carregadores.

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O PARAIBANO QUE JOGA NESTA COPA DE FUTEBOL 2026 COM A CAMISA 9

 A Seleção Brasileira aposta, mais uma vez, em um camisa 9 diferente. O número terá um novo titular no Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá. A peça que já foi vestida por Coutinho, Tostão e Zinho, e ficou ainda mais famosa com Ronaldo Fenômeno — até hoje considerado como um dos melhores donos da amarelinha — agora está nas costas de um paraibano. 

Matheus Cunha foi eleito pelo técnico Carlo Ancelotti a herdar o peso gigante que essa camisa carrega para o Brasil, vencendo a concorrência diante de outros nomes importantes que estavam no ciclo pré-Copa, como Richarlison (Tottenham), Igor Jesus (Nottingham Forest), Gabriel Jesus (Arsenal), Vitor Roque (Palmeiras), Pedro (Flamengo) e João Pedro (Chelsea).

Mesmo vestindo a 9, Matheus Cunha faz um papel um tanto quanto peculiar. No esquema do treinador italiano, o atleta do Manchester United tem uma funcionalidade muito mais versátil e de mobilidade ao redor da grande área. A disputa para quem realmente irá exercer a função de centroavante está entre Endrick e Igor Thiago. Destaque nos amistosos pré-Copa, os brasilienses, em teoria, começarão na reserva, mas são peças importantes para momentos de necessidade.

Matheus Cunha foi confirmado no Mundial após viver tempestades antes de vislumbrar o nascer do Sol. O meia atacante era um dos cotados para disputar a Copa de 2022, mas não foi chamado por Tite na ocasião. Triste pela não convocação, viu o desempenho e a confiança caírem. Ficou fora do ciclo de Dorival Júnior, mas trabalhou calado em busca de realizar o sonho. Recuperou o bom futebol e virou peça chave do Wolverhampton, da Inglaterra. Em 2025, recebeu convite do português Rúben Amorim para integrar o plantel do Manchester United. Por 74 milhões de euros, mudou de cidade na Inglaterra e chegou com posto de craque nos Red Devils, herdando a camisa 10. Desde que chegou, são 10 gols e quatro assistências em 33 jogos.

A viagem foi longa antes de pisar em Manchester. Natural de João Pessoa, na Paraíba, Matheus Cunha começou a dar os primeiros passos por meio do futsal. Destacou-se no salão pelo Esporte Clube Cabo Branco e recebeu olhares de times maiores. Com ajuda do treinador Barão Xavier, arrumou as malas e foi jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Coritiba, em 2016.

 Acabou levado para disputar um torneio na Suíça pelo clube paranaense, onde continuou sendo destaque e não demorou muito para a Europa abrir as portas para ele. Recebeu uma proposta do Sion, e mesmo com a desconfiança dos pais, Matheus se aventurou em solo suíço. Desde então, nunca mais saiu do Velho Continente. Rodou por Leipzig, Hertha Berlim, Atlético de Madrid e Wolverhampton até chegar ao Manchester United.

Pela Seleção Brasileira, Matheus Cunha sofreu oscilações. Teve a primeira convocação em setembro de 2020, mas demonstrou pouco no ciclo inicial. Ficou longe da Copa no Catar, manteve-se em pé diante das críticas e voltou a vestir a amarelinha com a chegada de Ancelotti. Em meio às tempestades, recebeu a chance de disputar as Olímpiadas-2020 (em 2021) com André Jardine. Brilhou. Gol na final diante da Espanha e ouro olímpico conquistado, justamente com a mesma camisa 9 que usará no Mundial.

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AGROFLORESTAS TRANSFORMAM SEMIÁRIO

 Sob o sol das três da tarde, Francisco das Chagas Filho caminha pela propriedade como quem conhece cada sombra pelo nome. Aos 70 anos, no Maciço de Baturité, em Acarape (CE), ele fala do Semiárido sem pressa e sem lamento. Não como quem descreve uma paisagem distante, mas como quem apresenta a própria casa. “Falar de Semiárido é muito fácil pra mim. Aqui nasci, me criei, estudei um pouquinho… e trabalhei minha vida”, recorda.

A Geografia de Milton Santos – um dos maiores intelectuais do século 20 – ajuda a entender o que Seu Chagas aprendeu na prática: o território não é apenas chão, mapa ou cenário. É espaço usado, vivido e atravessado por trabalho, técnica, memória, conflito e futuro. No Semiárido, essa ideia ganha corpo quando a produção deixa de disputar lugar com a natureza e passa a se organizar com ela.

A escala desse território ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Semiárido brasileiro reúne 1.477 municípios em 11 estados, incluindo o Ceará. Não se trata, portanto, de uma paisagem marginal à vida econômica do País, mas de uma região onde permanência, produção e adaptação precisam caminhar juntas.

A primeira ferramenta de Chagas veio cedo. Aos cinco anos, em Forquilha, ganhou do pai uma enxadinha de madeira. Depois, saiu de casa, trabalhou em banco, percorreu o País, conheceu outros biomas, passou pelo Cerrado, pela Amazônia e pela Mata Atlântica. Mas a terra de origem nunca deixou de chamá-lo de volta.

Ao fundar a Acarape Agroindústria de Alimentos (Acaragri), uma microempresa de base familiar, decidiu transformar seu pedaço de chão em prova concreta de que o Semiárido não é sinônimo de falta. Dos 33 hectares da propriedade, mais da metade permanece coberta por floresta nativa preservada.

Na área agricultável, a produção segue sem defensivos químicos, em uma lógica que aproxima trabalho, cuidado ambiental e permanência no território. Em 2026, essa trajetória começou a ganhar desenho formal de agrofloresta: um hectare da propriedade foi preparado para receber um sistema agroflorestal.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam árvores nativas ou exóticas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustos e outras espécies, em arranjos planejados no espaço e no tempo. A proposta é otimizar o uso da terra, conservar o solo, reduzir a pressão por novas áreas agrícolas e recuperar áreas degradadas.

Mas nenhuma definição técnica se sustenta sozinha no Semiárido. Para entender o que está em jogo nesse hectare, é preciso ouvir outro Francisco, ou Xico, como é mais conhecido. Enquanto em Acarape o sistema ainda está sendo implantado, em Viçosa, na Serra da Ibiapaba, Xico já mantém uma área agroflorestal em pleno funcionamento.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador. Em cerca de um hectare e meio, cultiva café, pimenta-do-reino, frutíferas e espécies nativas. Técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia, ele divide o dia a dia entre educação ambiental, produção agroecológica e o manejo da própria agricultura em sistema agroflorestal. Para ele, agrofloresta não é uma receita pronta. “Não é um modelo só”, defende.

A explicação começa antes do plantio. “Quando eu penso em implantar uma agrofloresta, eu tenho que olhar o solo, a água, o relevo, o clima, os recursos disponíveis e a realidade de quem está produzindo”, explica Xico. “O que dá certo numa área pode não dar certo em outra. A agrofloresta tem que responder ao lugar”.

Um homem de óculos e barba rala surge em meio a uma vegetação densa, cercado por grandes folhas verdes em primeiro plano e troncos ao fundo.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia | Foto: Acervo pessoal / Gracilene Pereira

Isso significa pensar em alimento, renda e restauração em tempos diferentes. A própria Embrapa observa que as primeiras receitas podem vir ainda no primeiro ano, com culturas anuais, hortaliças e espécies semiperenes, enquanto frutíferas e espécies de ciclo mais longo se consolidam depois. “Quando se pensa uma agricultura nesse formato, nós estamos pensando para agora e para o futuro”, resume Xico.

Na terra dele, esse planejamento já saiu do papel. O sistema começou com um objetivo direto: produzir alimentos para a família, recuperar espécies da região e gerar trabalho. Com o tempo, passou também a oferecer frutas, geleias, doces e licores. O percurso mostra que a agrofloresta não nasce necessariamente como negócio pronto. Primeiro, recompõe o chão, alimenta a casa e organiza a produção. Depois, quando há excedente e beneficiamento, pode chegar à renda.

É esse caminho que ajuda a olhar de volta para Acarape. No hectare preparado por Francisco das Chagas, o sistema ainda começa a ser implantado. Mas a lógica que sustenta a agrofloresta já aparece antes: na mata preservada, na produção sem agroquímicos, na introdução de árvores nativas e na tentativa de produzir sem romper com o ambiente.

Transformar para permanecer-A solução que Seu Chagas enxerga, portanto, não se sustenta apenas no plantio. Ela depende também de quem colhe, transforma, vende e encontra saída quando a produção ameaça se perder. Na Acaragri, esse papel passa por Rosemeire Eloi, esposa dele e gestora comercial da microempresa.

Durante a pandemia, com as roças mais vazias e a mão de obra escassa, parte dos frutos começou a apodrecer no pé. O problema obrigou o casal a olhar para a propriedade de outro jeito. Se não era possível vender tudo in natura, era preciso aprender a transformar a safra antes que ela se perdesse. Vieram os testes, as receitas, os erros e os primeiros produtos beneficiados: doces, farinha de banana verde e licores artesanais.

Um homem de cabelos grisalhos e camisa listrada sorri ao lado de uma mulher de óculos, enquanto ambos brindam com taças de espumante.

A mudança não ficou restrita à porteira da família. Para Rosemeire, produzir no território também significa comprar de quem está perto. “A gente sempre busca no nosso território”, conta. Quando falta caju para os doces, por exemplo, ela compra do vizinho. Quando precisa de castanha, paga produtores locais para beneficiar o próprio produto e depois revende. O que não encontra em Acarape, busca em Redenção, cidade vizinha. A capital, Fortaleza, só entra no caminho quando as alternativas próximas se esgotam.

Na prática, a agroindústria familiar passou a funcionar como um pequeno ponto de ligação entre a floresta, a produção e a vizinhança. A fruta que poderia se perder vira doce. A castanha que poderia sair sem valor agregado permanece mais tempo no território. O dinheiro circula primeiro entre agricultores, beneficiadores e pequenos fornecedores do Maciço de Baturité.

Mas esse arranjo ainda depende de uma condição que nenhuma máquina resolve sozinha: gente. É aí que a voz de Rosemeire muda de tom. Ela teme que o trabalho no campo seja cada vez mais visto como falta de opção, e não como possibilidade de vida e renda. “Ah, trabalhar na roça não dá… isso está se perdendo”, desabafa. Para ela, a tecnologia ajuda, mas não substitui a presença humana. “Se não tiver quem plante… a gente tem máquina, mas, de toda forma, precisa do ser humano, do capital humano”.

A volta como futuro-A pergunta que perpassa a fala de Rosemeire – quem vai continuar? – encontra uma resposta possível em outra experiência do Maciço de Baturité. Em Mulungu, Rodrigo Vieira da Silva fez o caminho que muitos jovens do campo são ensinados a desejar: saiu do município nativo para estudar. A diferença é que voltou.

Aos 28 anos, agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea, pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal, Rodrigo voltou para uma lavoura que já existia antes dele, do pai e do avô.

Close-up de mãos segurando uma embalagem de café branca com rótulo vermelho e despejando os grãos dentro da abertura de um moedor cilíndrico prateado.

A Ecoffea é um pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Na propriedade da família, o café nunca cresceu sozinho. Dividia espaço com ingazeiras, bananeiras e outras plantas que faziam sombra, seguravam umidade e ajudavam a lavoura a atravessar os meses mais quentes. “O café só sobreviveu por causa desse clima de agrofloresta”, conta, resumindo a prática antiga que hoje ganha nome técnico.

No manejo de Rodrigo, a palhada da bananeira cobre o solo, conserva umidade e protege a terra dos raios solares. As árvores criam sombra e ajudam a formar um microclima. O esterco animal e alguns complementos reduzem a dependência de insumos externos. “Uma coisa casa com a outra”, explica.

O café também carrega uma história que Rodrigo tenta compreender com o olhar de agricultor e de pesquisador. Segundo ele, a variedade cultivada pela família é a típica, associada às primeiras linhagens de café que chegaram ao Brasil.

Um homem barbudo veste camiseta verde clara e segura um grande cesto de vime trançado enquanto colhe pequenos frutos em um cafeeiro.

Não houve, afirma, introdução de variedades modernas na propriedade. Hoje, ele participa de estudos para investigar melhor a origem genética desse material. A hipótese é valiosa, mas pede cuidado: mais do que transformar a lavoura em relíquia, Rodrigo quer mostrar que um café do passado também pode ter futuro.

Quando saiu de Mulungu para estudar Agronomia em Fortaleza, em 2018, ele ainda não tinha essa clareza. “O café que eu entendia era o que tinha aqui no quintal, que não era tão valorizado na época”, lembra. Entre as aulas e as idas ao sítio, começou a testar o que aprendia no curso e a olhar para aquela produção familiar com outros olhos. “Essa história ia ficar apagada se eu não fizesse alguma coisa”.

O que poderia ser apenas memória virou marca, produto e modelo de negócio. A Ecoffea vende em pequenas lojas de Fortaleza, mas encontrou nas assinaturas uma forma mais direta de se relacionar com quem consome. O café deixa de ser apenas grão: chega como história, origem e experiência. A cada entrega, Rodrigo não vende só um produto do Maciço. Mostra que um território pode permanecer vivo quando aquilo que nasce dele encontra valor sem precisar abandonar suas raízes.

Quando Rodrigo fala de origem, toca em uma palavra que também aparece em outras experiências agroflorestais: ancestralidade. No caso dele, ela aparece na memória familiar, na variedade antiga de café e no cultivo sombreado que resistiu ao tempo. Mas, nos territórios indígenas, essa palavra ganha outra profundidade. (Agencia Econordeste)

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CRISE CLIMÁTICA É O PIOR DESAFIO DA HISTÓRIA HUMANA, DIZ CIENTISTA

A humanidade nunca enfrentou um desafio tão grande como a crise climática. Ainda assim, muitos parecem não ter entendido ainda a gravidade do problema, alertou o escritor e neurobiólogo italiano Stefano Mancuso nessa terça-feira (9), durante a inauguração do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (CCCS) e da Galeria VÃO, no Rio de Janeiro.

"A crise climática é o problema mais grave que a humanidade já enfrentou em toda a sua história. Não se trata de uma crise passageira ou de um ciclo natural superável. Estamos diante de um risco real de extinção da nossa própria espécie se não mudarmos radicalmente a nossa relação com o planeta", lembrou o cientista.

Para Mancuso, a obsessão da humanidade em enxergar apenas a si mesma e ignorar a dependência em relação ao reino vegetal é uma das maiores ameaças à sobrevivência do planeta.

"Viver sob uma lógica de monocultura humana, como se pudéssemos existir isolados das outras espécies e sem depender diretamente delas, é uma ilusão perigosa que está nos conduzindo ao colapso", afirmou o cientista.

Professor da Universidade de Florença, Mancuso é uma das maiores referências mundiais em neurobiologia vegetal. Suas obras são publicadas no país pela Ubu Editora, que conta com os títulos A revolução das plantas — vencedor do Prêmio Galileo de divulgação científica em 2018 —, A incrível viagem das plantas, A planta do mundo, Nação das plantas e Fitópolis.

Mancuso defendeu o papel do conhecimento acadêmico diante das transformações climáticas globais e criticou negacionistas que relativizam dados científicos sobre o aquecimento global.

"É uma tremenda estupidez tratar a ciência como se fosse apenas uma opinião, especialmente quando estamos discutindo a crise climática. A ciência trabalha com fatos, evidências e dados consolidados, não com pontos de vista subjetivos que podem ser aceitos ou descartados ao gosto de cada um", afirmou.

Como alternativa prática para conter o aquecimento urbano, o pesquisador defendeu medidas urgentes de renaturalização, como a substituição do asfalto por alternativas verdes. Segundo ele, é preciso agir rapidamente para remover coberturas impermeáveis e arborizar as cidades em massa.

"Temos que retirar 20% das ruas e do asfalto das cidades para dar espaço às plantas. As administrações municipais que fizerem isso primeiro serão as que vão evitar milhões de mortes e poupar gastos econômicos colossais. As outras serão obrigadas a fazê-lo daqui a dez anos, sob regime de emergência, gastando dez vezes mais e carregando na consciência as mortes que poderiam ter sido evitadas", concluiu.

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SITUAÇÃO DOS OCEANOS É GRAVE, DIZ RELATÓRIO

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nessa segunda-feira (8), concluiu que a situação dos oceanos é grave e demanda respostas urgentes e coordenadas entre governos, pesquisadores, setor privado, organismos multilaterais e comunidades costeiras.

O terceiro ciclo da Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA-3, na sigla em inglês), principal análise multidisciplinar sobre o estado dos oceanos, reuniu mais de 550 cientistas e outros especialistas de 86 países. Os dados do WOA-3 referem-se principalmente ao período entre 2018 e 2023.

O documento alerta que diversos indicadores críticos da saúde do oceano pioraram significativamente desde a última edição do estudo, publicada em 2022, incluindo aquecimento, elevação do nível do mar, perda de gelo polar, biodiversidade, pesca e poluição marinha. Essa é a versão mais extensa desde que a série de relatórios foi lançada em 2017.

O relatório destaca deslocamento de espécies marinhas para águas mais frias; impactos crescentes das ondas de calor marinhas sobre a pesca; e vulnerabilidade crescente de comunidades costeiras dependentes do oceano.

“O oceano é o principal amortecedor da crise climática, mas os sinais de estresse estão se tornando cada vez mais evidentes prejudicando sua atuação na regulação climática”, afirmou o professor Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos coautores brasileiros do relatório.

Os impactos para o Brasil incluem maior vulnerabilidade costeira, riscos para cidades litorâneas, pressão sobre pesca e aumento de eventos extremos associados ao Atlântico tropical.

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O SÃO JOÃO DE TODOS NÓS: IDENTIDADE CULTURAL E PERTECIMENTO EM TEMPOS DE CONSUMO, POR ALDY CARVALHO

 A Banda de Pífanos de Pernambuco apresentou-se recentemente em Salgueiro. Uma manifestação artística reconhecida nacionalmente, herdeira de séculos de tradição popular, expressão legítima da alma sertaneja e nordestina. No entanto, diante do palco, um cenário desolador: praticamente não havia plateia  para prestigiar uma das mais autênticas representações de nossa identidade cultural.

     O fato torna-se ainda mais significativo quando lembramos que estamos justamente no período junino, entre os meses de junho e julho, época em que o Nordeste celebra o ponto mais alto de suas tradições populares. É o tempo das fogueiras, dos pífanos, das sanfonas, do forró, das quadrilhas, dos cordéis, dos aboios e das inúmeras manifestações que compõem o rico mosaico cultural nordestino. Trata-se de um período em que não apenas festejamos, mas também transmitimos às novas gerações os valores, saberes e símbolos que herdamos de nossos antepassados. Ver uma expressão tão genuína de nossa cultura encontrar tão pouco acolhimento justamente nesse contexto revela o tamanho do desafio que enfrentamos para preservar e fortalecer nosso patrimônio cultural.

     O episódio transcende a simples questão da presença de público. Ele nos obriga a refletir sobre algo mais profundo: o progressivo distanciamento de nossa sociedade das referências simbólicas que sustentam sua memória coletiva. Quando uma comunidade deixa de reconhecer valor naquilo que a constituiu historicamente, corre o risco de perder o sentido de pertencimento. Afinal, “quem não valoriza suas origens deixa de ser de algum lugar para tornar-se, culturalmente, de lugar nenhum”, bem já disse o amigo arquiteto e ativista cultural, Cosme Cavalcanti.

     Como poeta cantador do sertão e estudioso das ciências sociais, observo com preocupação a substituição crescente da cultura identitária pela cultura do consumo imediato. O mercado cultural contemporâneo, movido pela lógica da rentabilidade rápida, transforma a arte em produto descartável. Canções, ritmos, comportamentos e modismos são consumidos e abandonados na velocidade das redes sociais. Pouco importa a profundidade da mensagem, a riqueza estética ou o vínculo com a história de um povo. O que importa é o alcance, o engajamento instantâneo e o lucro.

     Essa realidade já havia sido analisada por Theodor Adorno ao discutir a chamada indústria cultural. Para ele, a cultura transformada em mercadoria tende a uniformizar gostos e reduzir a capacidade crítica dos indivíduos. O entretenimento deixa de provocar reflexão e passa a funcionar como mecanismo de consumo e conformismo.

     Walter Benjamin, por sua vez, alertava para a perda da aura das manifestações culturais quando estas se tornam reproduções massificadas e desvinculadas de seus contextos originais. Algo semelhante ocorre quando tradições populares, como os pífanos, o cordel, os aboios, os folguedos o nosso forró de pé de serra, a gastronomia e tantas outras expressões nordestinas, são relegadas à condição de curiosidades folclóricas, enquanto produtos culturais globalizados ocupam todos os espaços de visibilidade.

     Não se trata, evidentemente, de condenar as novas gerações. Consome-se, hoje, em grande medida, aquilo que é oferecido e valorizado pelos meios de comunicação, pelas plataformas digitais e pelas estruturas de mercado. A ausência de interesse por determinadas manifestações culturais não decorre de uma falha individual, mas de um processo educativo e cultural que, há décadas, vem enfraquecendo a formação humanística, a consciência histórica e o pensamento crítico.

     Nesse ponto, as reflexões de Darcy Ribeiro permanecem atuais. Ele defendia que um povo só se realiza plenamente quando reconhece e valoriza sua própria formação cultural. A escola deveria ser um espaço privilegiado para esse encontro com a identidade nacional e regional. Contudo, muitas vezes ela própria reproduz a lógica que privilegia referências externas em detrimento das culturas locais.

     Edgar Morin também nos oferece importante contribuição ao afirmar que a educação precisa ensinar a contextualizar, relacionar e compreender a complexidade do mundo. Sem essa capacidade crítica, os indivíduos tornam-se mais vulneráveis aos discursos prontos, às modas passageiras e às imposições simbólicas do mercado.

     Talvez por isso tenhamos passado tantas décadas consumindo, sem maiores questionamentos, não apenas produtos estrangeiros, mas também valores, hábitos e modelos culturais importados. A música, os costumes e até os sonhos passam a ser moldados por referências externas, enquanto nossas próprias expressões culturais são tratadas como ultrapassadas ou irrelevantes.

     O esvaziamento de uma apresentação da Banda de Pífanos não é, portanto, um fato isolado. É um sintoma. Revela o enfraquecimento dos laços entre memória, identidade e pertencimento. E revela, igualmente, a responsabilidade dos gestores públicos, dos sistemas educacionais, dos meios de comunicação e de todos nós na preservação desse patrimônio imaterial.

     Uma sociedade que abandona suas referências culturais não se torna mais moderna, torna-se mais vulnerável. Porque o futuro só pode ser construído com solidez quando se conhece, se respeita e se valoriza o chão histórico e cultural sobre o qual se caminha.

     Um povo não perde sua identidade de uma vez; perde-a aos poucos, quando deixa de reconhecer a si mesmo em sua música, em sua fala, em suas festas, em sua memória e em seus símbolos.

     Eu, poeta cantador, filho do sertão, dessa cultura que aprendi primeiro ouvindo do que lendo, sigo acreditando que preservar nossas tradições não é um gesto de saudosismo, não, não é, é um ato de resistência, de afirmação, de consciência histórica e de compromisso com as gerações que virão, porque um povo que conhece suas raízes pode dialogar com o mundo inteiro sem deixar de ser quem é.

                                                                                  Aldy Carvalho, o Cantador láaaa do sertão, junho 2026

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TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA PLANTAM 5 MIL MUDAS NA SEMANA DO MEIO AMBIENTE

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mobilizou, nos últimos dias, cerca de 10 mil pessoas, em 15 estados brasileiros, onde realizou uma série de atividades de defesa do meio ambiente, com críticas ao agronegócio.

Segundo a organização, os sem-terra plantaram mais de 5 mil mudas e semearam cerca de 30 toneladas de sementes em Alagoas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e Sergipe.

A iniciativa faz parte da Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos, que começou na última segunda-feira (1°) e termina neste domingo (7), marcando a Semana Mundial do Meio Ambiente.

Este ano, a jornada teve como lema o mote “combater o agronegócio é cuidar da natureza!” e serve como plataforma para o MST defender a reforma agrária “como solução para o avanço dos cuidados com o meio ambiente”.

Ao mesmo tempo, a organização denuncia o que classifica como “crimes ambientais do agro-hidro-minero-negócio” e os “que exploram os bens comuns da natureza em larga escala”, em um momento em que, na avaliação do movimento, “o agronegócio aprova leis que aumentam a destruição ambiental”.


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MARÇO DE 2018: PAI DE FLÁVIO LEANDRO VIAJA PARA O SERTÃO DA ETERNIDADE

FLávio Leandro, que perdeu seu pai na última quarta-feira (28) escreveu uma emocionante carta, falando sobre a convivência com o pai e a saudade que Seu Teté irá deixar, veja abaixo:

"Terminou Tudo...

Meu pai foi um destemido!

Nunca o vi com medo de nada; nem da morte! Nesta, deu dribles nos últimos anos que até a ciência duvidou.

Brincou de viver...

Brincou de ser pai, filho, esposo, irmão, trabalhador, empresário, viajante...

Brincou de brincar!

Levou muito a sério a bebida, sua fiel companheira de quarenta anos. Com esta, nos tirou um montão de carinhos e abraços, mas, ao menos, nos mostrou que caminhos não deveríamos seguir.

Na lucidez nos mostrou o ser humano fantástico que a bebida escondera por muito tempo.

Na lucidez, nos reencontramos, em paz e em definitivo. Desta fase harmoniosa, nasceu a música: MEU PAI, poesia na qual fiz questão de dissecá-lo e mostrar ao mundo quão grandioso é o meu orgulho de tê-lo como genitor.

Em uma de suas brincadeiras de ser isso e aquilo, quis ser fabricante de queijos de manteiga. Apoiamos. Ficamos com a mão-de-obra e ele, ficou responsável por gerir a fábrica e efetuar as vendas, bem como, ferrar cada queijo produzido, com sua marca, um T maiúsculo, de Teté. Cada queijo, um T. Foram muitos tês, e poucos resultados. A coisa desandou. Tivemos que fechar a fábrica. O último queijo que saiu da forma, recebeu dois tês. Minha mãe estranhou a diferença e perguntou o motivo da dupla de tê naquele queijo derradeiro, ao que meu pai respondeu sorridente: Terminou Tudo.

No dia 17 de março 2018 com o ferro do existir, meu pai carimbou o último suspiro de sua vida com a marca terminal de sua ousadia. Sorriu, e partiu para o silêncio que há de nos juntar no porvir.

Foram 66 rodadas ao redor do sol. Poderiam ter sido 99, não fosse a intensidade com que quis brincar de viver...

Te amo, meu pai! Deus o tenha!"

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FORRÓ É TEMA DE DEBATE: TRADIÇÃO E MODERNIDADE

 É o forró, e não apenas a corrida para as eleições presidenciais, que tem pautado alguns dos debates mais acalorados da internet. Com os ânimos ainda mais acirrados no São João, artistas e público se dividem em trincheiras: de um lado, a ala que condena a tradição como ultrapassada; do outro, a que acusa a inovação de descaracterização. Na contramão desse falso dilema, o cantor e compositor pernambucano Carlos Filho mostra que a coexistência é possível em “Baile Brasileiro 2”, já disponível nas plataformas de streaming.

O disco aprofunda a pesquisa de mais de sete anos do artista sobre o forró, dando novas cores ao repertório do volume anterior, lançado em 2024. Embora o título permaneça para assegurar a unidade conceitual, os dois trabalhos se distanciam pela bagagem recente de Carlos. Seu amadurecimento musical permitiu injetar novos elementos ao gênero, que ressurge envelopado em camadas eletrônicas

“Em todas as décadas, o forró sempre dialogou com a forma como a música é feita de tempos em tempos”, justifica o cantor em entrevista ao Diario. Ele despontou no cenário nacional em 2021, no The Voice Brasil, e consolidou seu nome na cena autoral através de sua passagem pela Bandavoou e de sua atuação no grupo Estesia, com o qual ainda segue em atividade.

Para Carlos Filho, o forró é uma manifestação genuinamente nacional, viva e consumida nos quatro cantos do país — daí o batismo do projeto. Por isso, em vez de ditar regras sobre como o ritmo deve ser feito, ele defende que a verdadeira discussão seja sobre como assegurar o devido protagonismo e relevância ao gênero. “É muito menos sobre o que a gente deve fazer diferente e muito mais sobre discutir essa concentração de poder e disputar as narrativas que definem o que é nacional, regional ou folclórico”, diz. Confira na integra Diário de Pernambuco/Allan Lopes

Desafiando o purismo dos mais tradicionais, o projeto deixa claro que o forró raiz é perfeitamente capaz de conviver com os sintetizadores. Carlos Filho percorre as nuances do baião, xaxado, xote, toada, aboio, arrasta-pé e coco, equilibrando a autoralidade de suas criações com releituras extraídas do imenso cancioneiro forrozeiro. “É uma tentativa de tirar o forró desse lugar folclórico, engessado, e discutir a tradição no lugar em que o forró sempre esteve. Não é nada inovador, nem tem pretensão de ser disruptivo”, afirma.

O diálogo geracional é o fio condutor que amarra o time de convidados do projeto. Carlos Filho compartilha a criação com Luiz Diniz no xote “Tempo Mãe” e com o virtuoso sanfoneiro Felipe Costta em “Fúria das Dunas”. A celebração se completa com “Partilha”, interpretada por Juliano Holanda em parceria com Santanna, O Cantador, voz fundamental da poesia popular do Nordeste.

Gravado ao vivo assim como a edição anterior, o projeto faz questão de manter intacta a essência orgânica das parcerias. “Foi uma escolha muito feliz, para deixar o processo quente, humano e honesto do ponto de vista da nossa vivência com o forró”, celebra o artista.

Nascido e criado em Serra Talhada, no Sertão pernambucano, Carlos experimentou o forró como vivência antes de transformá-lo em objeto de estudo. Embora a legitimidade de sua obra não dependa disso, são essas experiências que dão um caráter espontâneo ao seu repertório e sustentam sua visão do forró como um organismo vivo.

“Eu me vejo, antes de tudo, com essa responsabilidade de fazer o forró permanecer ativo, produzindo, emprestando um ponto de vista dessa contemporaneidade”, comenta. A propósito, a busca por modernizar as raízes não é novidade na carreira do músico, que também integra a Orquestra Malassombro, projeto voltado para a revitalização do frevo de bloco.


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ESCALAÇÕES ERRADAS: FUTEBOL PERDE COMPETITIVIDADE E JORNALISMO PERDE AUTORIDADE

Existe um fenômeno evidente no entretenimento, no esporte e na comunicação: a insistência em nomes que já não correspondem às exigências da função, mas continuam sendo escolhidos porque carregam uma marca comercial poderosa demais para ser ignorada. O problema surge quando a força do nome se sobrepõe à necessidade técnica do cargo, o marketing vence a meritocracia e a marca se torna mais importante que a entrega.

O exemplo mais emblemático no Brasil, talvez, seja Neymar. Ninguém discute sua importância para a história recente, mas o futebol é um esporte de momento, desempenho e condição física. A proximidade da Copa do Mundo reacende o debate sobre sua presença na Seleção Brasileira. A pergunta que deveria nortear a discussão é: Neymar oferece hoje o que a Seleção precisa para conquistar o hexa?

A resposta precisa ser técnica, e justamente aí mora o conflito. O peso comercial do seu nome muitas vezes parece tornar impossível uma avaliação fria sobre sua utilidade esportiva real. Enquanto isso, jogadores em melhor fase disputam espaço com alguém cuja presença é tratada como inevitável antes mesmo de qualquer análise de rendimento.

A lógica é semelhante à observada na dramaturgia. Em Quem ama cuida, a escalação de Tatá Werneck para interpretar uma stalker obsessiva expõe uma questão que a televisão evita enfrentar. Ela construiu uma carreira admirável no humor, mas carisma e popularidade não substituem adequação. O papel exige densidade dramática e camadas psicológicas complexas. No entanto, a atriz carrega uma identidade humorística tão consolidada que o espectador tem dificuldade para enxergar a personagem além da figura pública, resultando em uma interpretação atravessada por maneirismos da comédia. Isso não significa que atores de humor sejam incapazes de fazer drama, mas o problema é quando a escolha parte menos da personagem e mais da necessidade de manter uma marca valiosa em evidência.

Essas decisões não afetam apenas o resultado final de obras ou equipes; elas fecham portas. Cada vaga ocupada por um nome escolhido por seu valor comercial é uma vaga negada a alguém mais preparado para aquela função específica.

O fenômeno se repete na crescente presença de influenciadores na dramaturgia. Em vez de critérios artísticos, muitos chegam às novelas impulsionados pelo alcance nas redes sociais. A situação alcança níveis ainda mais curiosos quando vemos influenciadores deslocados para áreas diferentes de suas especialidades. A escolha de Virgínia para a cobertura da Copa do Mundo ilustra isso. Não importa a experiência jornalística ou o conhecimento tático; o que importa é o potencial de engajamento e a repercussão digital.

O mercado não entendeu que atenção e competência não são sinônimos. A consequência é um sistema que gradualmente substitui especialistas por celebridades, e qualificação por relevância comercial. A audiência pode até vir no primeiro momento, mas, a longo prazo, a qualidade sofre: o futebol perde competitividade, a dramaturgia perde credibilidade e o jornalismo perde autoridade. Marcas são importantes, mas quando sua preservação se torna mais importante do que a execução da função, o resultado costuma ser medíocre. Escolher quem melhor desempenha a tarefa no momento deveria ser o foco. Nem sempre o nome mais famoso é o mais adequado.

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