Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.
Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição. A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.
Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.
Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.
A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.
Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.
Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.
Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.
A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.
Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?
Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.
O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.
Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.
Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.
Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.
Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.
Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.
É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.
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