PAU DA BANDEIRA ATRAVESSOU UMA DAS PONTES DO PROJETO DE INTEGRAÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

Há um fato curioso sobre as formigas cortadeiras: apesar do pequeno tamanho, elas conseguem transportar folhas, cascas, galhos e fragmentos vegetais que pesam dezenas de vezes mais do que seus próprios corpos. O feito impressiona pela força, mas também pela organização. 

Em Barbalha, no sul do Ceará, esse princípio se repete em escala humana anualmente. 

Sob um sol que ultrapassa os 30º, cerca de 200 homens carregadores conduziram, no domingo, 31 de maio de 2026, um tronco de angico com 23 metros de comprimento e três toneladas de peso por um percurso de sete quilômetros, do Sítio São Joaquim até o Centro Histórico da cidade. 

O tronco, transformado em mastro para a bandeira de Santo Antônio, inaugura uma das celebrações mais emblemáticas do calendário cultural brasileiro: a Festa do Pau da Bandeira, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural do Brasil.

Como um grupo de homens consegue transportar nos ombros uma estrutura que nenhum deles seria capaz sequer de erguer sozinho? 

Vista de perto, a condução do Pau da Bandeira funciona como uma engrenagem coletiva construída ao longo de quase um século de tradição. Há mecanismos de cooperação e formas de transmissão de conhecimento que passam de geração em geração. O que move o tronco é uma sabedoria distribuída entre centenas de corpos.

“Eu não sou só. Sou um elemento dentro de um mundo, que são os carregadores”, define Rildo Teles. Nascido no bairro do Rosário e criado na Vila Santo Antônio, é capitão do Pau da Bandeira desde os anos 2000, quando foi convocado por João Filgueira Teles, histórico doador de paus da bandeira. 

A responsabilidade do capitão está em acompanhar a escolha da árvore, coordenar as etapas do corte, organizar o carregamento, observar riscos, mediar conflitos e garantir que todos retornem em segurança.

“Capitão é uma espécie de pai. E pai não é só”, resume.

A hierarquia existe, mas não se impõe pela autoridade, se sustenta pela experiência acumulada onde os mais antigos ensinam os mais novos. Os novatos chegam conduzidos por pais, tios, irmãos ou amigos e aprendem observando.

A hora da partida é conhecida. Ao meio-dia, o tronco deixa a zona rural em direção à cidade. A chegada, porém, depende do ritmo dos carregadores.

“O Pau da Bandeira só tem hora para sair”, diz Rildo. “Não tem hora para chegar. Meu compromisso é que ele chegue com os carregadores íntegros.” A frase revela a lógica de que mais importante do que cumprir um suposto horário é preservar o grupo. 

Mas talvez o aspecto mais revelador dessa inteligência não esteja na força, nem na logística: antes do cortejo, os carregadores passam por um ritual conhecido como batismo de terra. Na mata, homens cobrem uns aos outros com barro e poeira, esfregam terra nos rostos e nas roupas numa brincadeira que se tornou uma das imagens mais marcantes da festa.

“Nós, homens e a terra, temos essa ligação. Esse batismo começou lá dentro da mata para a gente se sentir mais perto da terra, jogando terra um no outro, melando o outro, na brincadeira, para nos conectar”, explica.

O ritual funciona como um nivelador simbólico: “Todos são iguais e batizados pela mesma terra.”

A imagem manifesta dois dos princípios fundamentais que sustentam o Pau da Bandeira: a confiança e a entrega. Afinal, carregar três toneladas exige acreditar que o outro fará sua parte, sustentando o peso quando necessário e protegendo quem está ao lado.

Na parte mais pesada do tronco ficam os homens mais experientes. São eles que conhecem o momento exato de levantar, apoiar o ombro, distribuir o peso e perceber quando é hora de baixar a carga.

“Pesou no ombro, vai ao chão”, explica Neto, um dos carregadores durante entrevista coletiva. “O carregador do Pau da Bandeira sabe a hora que ele vai cair.” 

O angico avança aos poucos. Não há instrumentos de medição, nem comandos sistemáticos, o que existe é um conhecimento corporal compartilhado, construído pela repetição. A cada passo, o tronco parece respirar junto com os carregadores. 

Quando o peso muda de direção, centenas de homens respondem quase simultaneamente. Quando um recua, outro avança. Quando alguém demonstra exaustão, o revezamento acontece naturalmente entre companheiros de bairro, amigos ou parentes.

“Tem revisão porque ninguém aguenta levar até lá”, conta Neto. “A gente reveza entre amigos.”

Essa capacidade de coordenação sem centralização absoluta lembra justamente os sistemas cooperativos encontrados na natureza. Nas colônias de formigas, decisões complexas emergem da soma de pequenas ações individuais. Em Barbalha, o movimento do tronco também depende da leitura constante do comportamento do grupo, e quem observa tem a sensação de assistir a um organismo único tentando encontrar equilíbrio.

Os carregadores se organizam historicamente por bairros como Alto da Alegria, Rosário, Vila Santo Antônio, Bela Vista e Cirolândia. No entanto, diante do tronco, essas divisões desaparecem.

“Aqui somos uma só família”, resume Alexandre Luna, carregador há 22 anos. “O mais importante aqui é a união.”

A Associação dos Carregadores do Pau da Bandeira, criada em 2025, surgiu desse esforço de organização e identificação. Hoje, cerca de 120 integrantes são associados formalmente, enquanto entre 150 e 200 homens participam diretamente do transporte a cada edição.

Além disso, nos últimos anos, a tradição passou a seguir protocolos estabelecidos por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público. Entre as medidas estabelecidas estão a identificação dos carregadores por meio de pulseiras e camisas oficiais, que podem manter suas cores e símbolos próprios a partir das turmas. 

“Tem a turma do Alto da Alegria, os Azulzinhos, o Panela de Barro, os Margaridas“, explica Rildo Teles. “Cada um tem sua camisa, mas todos carregam a identificação de carregador oficial.”

O acordo também se estende ao consumo de álcool durante o percurso. “A bebida está controladíssima”, afirma o capitão. Segundo ele, participantes que demonstram sinais de excesso são retirados do transporte.

No percurso, o Pau da Bandeira atravessou uma das pontes do Projeto de Integração do Rio São Francisco. Vista do alto, a cena produz uma imagem rara onde de um lado está o canal de concreto por onde corre a água trazida de longe; do outro, uma corrente humana sustentando um tronco de quase três toneladas.

Por alguns minutos, duas formas distintas de tecnologia social se encontram como se unissem duas histórias do sertão: a luta pela água e a persistência da fé.

Carregador há 56 anos e reconhecido este ano como Mestre Imortal pela Organização Internacional de Folclore e Artes, Antônio Erfo Feitosa Luna acompanha o trajeto. Ele começou na tradição ainda adolescente, carregando a chamada “tesoura” — estrutura menor utilizada no hasteamento — porque era jovem demais para participar do transporte principal.

“Quando eu comecei tinha entre 13 e 14 anos”, recorda. “Depois fui pegando nele até chegar na cabeça do pau.” 

Ao longo de mais de cinco décadas, viu a festa se transformar. “Muita coisa mudou. Mas a força e a emoção são as mesmas.”

À medida que o Pau da Bandeira se aproxima da cidade, as ruas ficam mais estreitas e o público mais denso. Se na mata o tronco era conduzido por um formigueiro humano de pouco mais de duzentos carregadores, na entrada de Barbalha ele encontra outro. 

Das ruas laterais, das janelas, das calçadas e sacadas, milhares de pessoas se espalham pela paisagem. Como acontece quando diferentes trilhas de uma colônia convergem para o mesmo alimento, os fluxos se encontram. 

Sob a camada de barro e suor acumulada ao longo da caminhada, os homens seguem avançando em direção ao mesmo destino. 

Paulo Júnior Veloso, integrante de uma linhagem familiar ligada ao Pau da Bandeira, é neto do lendário mestre Pavão — capitão e animador dos carregadores durante décadas. Ele começou a participar da tradição aos 15 anos.

“Ser carregador para mim é testemunho da fé a Santo Antônio”, afirma. “Meu filho hoje já é carregador.” E assim o conhecimento circula, pela convivência, onde se aprende gestos, cuidados e valores.

Bem como acontece nos formigueiros, há momentos em que milhares de corpos parecem responder ao mesmo chamado. Neste ano, quando o Pau da Bandeira alcançou a Igreja do Rosário, o relógio marcava exatamente 18 horas. 

O sino da igreja tocou e as vozes do cortejo entoaram juntas um dos versos mais conhecidos da música nordestina: “Quando batem as seis horas, de joelhos sobre o chão, o sertanejo reza a sua oração”. A Ave Maria Sertaneja, canção de Luiz Gonzaga, atravessou a multidão como uma prece coletiva.

Durante sete quilômetros, o tronco viaja na horizontal. No hasteamento, porém, ocorre a transformação mais simbólica da jornada. Como um galho que finalmente encontra seu lugar na arquitetura de um formigueiro, o angico deixa de ser carga para se tornar monumento. Toda a energia distribuída ao longo do dia converge para um único gesto coletivo: fazê-lo apontar para o céu.

Quando o angico finalmente chega à Igreja Matriz de Santo Antônio e é erguido diante de milhares de pessoas, já é por volta das 20h55. Ali, o que se vê, é a materialização de uma tecnologia social construída coletivamente durante 98 anos. Alguns carregadores se abraçam, outros permanecem em silêncio. Há quem chore. Há quem agradeça.

A bandeira de Santo Antônio está de pé. Um organismo vivo feito de ombros, memória, fé e cooperação. Como acontece nas colônias, a força individual importa menos do que a capacidade de agir junto.

Por Bibiana Belisário-Arte Brasileiros

Nota: Esta reportagem foi inspirada por uma publicação da fotógrafa Nivia Uchoa nas redes sociais. Seu registro visual de formigas transportando um palito de dente provocou a reflexão sobre o cortejo do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha (CE), e deu origem à pauta sobre cooperação e organização entre os carregadores.

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O PARAIBANO QUE JOGA NESTA COPA DE FUTEBOL 2026 COM A CAMISA 9

 A Seleção Brasileira aposta, mais uma vez, em um camisa 9 diferente. O número terá um novo titular no Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá. A peça que já foi vestida por Coutinho, Tostão e Zinho, e ficou ainda mais famosa com Ronaldo Fenômeno — até hoje considerado como um dos melhores donos da amarelinha — agora está nas costas de um paraibano. 

Matheus Cunha foi eleito pelo técnico Carlo Ancelotti a herdar o peso gigante que essa camisa carrega para o Brasil, vencendo a concorrência diante de outros nomes importantes que estavam no ciclo pré-Copa, como Richarlison (Tottenham), Igor Jesus (Nottingham Forest), Gabriel Jesus (Arsenal), Vitor Roque (Palmeiras), Pedro (Flamengo) e João Pedro (Chelsea).

Mesmo vestindo a 9, Matheus Cunha faz um papel um tanto quanto peculiar. No esquema do treinador italiano, o atleta do Manchester United tem uma funcionalidade muito mais versátil e de mobilidade ao redor da grande área. A disputa para quem realmente irá exercer a função de centroavante está entre Endrick e Igor Thiago. Destaque nos amistosos pré-Copa, os brasilienses, em teoria, começarão na reserva, mas são peças importantes para momentos de necessidade.

Matheus Cunha foi confirmado no Mundial após viver tempestades antes de vislumbrar o nascer do Sol. O meia atacante era um dos cotados para disputar a Copa de 2022, mas não foi chamado por Tite na ocasião. Triste pela não convocação, viu o desempenho e a confiança caírem. Ficou fora do ciclo de Dorival Júnior, mas trabalhou calado em busca de realizar o sonho. Recuperou o bom futebol e virou peça chave do Wolverhampton, da Inglaterra. Em 2025, recebeu convite do português Rúben Amorim para integrar o plantel do Manchester United. Por 74 milhões de euros, mudou de cidade na Inglaterra e chegou com posto de craque nos Red Devils, herdando a camisa 10. Desde que chegou, são 10 gols e quatro assistências em 33 jogos.

A viagem foi longa antes de pisar em Manchester. Natural de João Pessoa, na Paraíba, Matheus Cunha começou a dar os primeiros passos por meio do futsal. Destacou-se no salão pelo Esporte Clube Cabo Branco e recebeu olhares de times maiores. Com ajuda do treinador Barão Xavier, arrumou as malas e foi jogar a Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Coritiba, em 2016.

 Acabou levado para disputar um torneio na Suíça pelo clube paranaense, onde continuou sendo destaque e não demorou muito para a Europa abrir as portas para ele. Recebeu uma proposta do Sion, e mesmo com a desconfiança dos pais, Matheus se aventurou em solo suíço. Desde então, nunca mais saiu do Velho Continente. Rodou por Leipzig, Hertha Berlim, Atlético de Madrid e Wolverhampton até chegar ao Manchester United.

Pela Seleção Brasileira, Matheus Cunha sofreu oscilações. Teve a primeira convocação em setembro de 2020, mas demonstrou pouco no ciclo inicial. Ficou longe da Copa no Catar, manteve-se em pé diante das críticas e voltou a vestir a amarelinha com a chegada de Ancelotti. Em meio às tempestades, recebeu a chance de disputar as Olímpiadas-2020 (em 2021) com André Jardine. Brilhou. Gol na final diante da Espanha e ouro olímpico conquistado, justamente com a mesma camisa 9 que usará no Mundial.

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AGROFLORESTAS TRANSFORMAM SEMIÁRIO

 Sob o sol das três da tarde, Francisco das Chagas Filho caminha pela propriedade como quem conhece cada sombra pelo nome. Aos 70 anos, no Maciço de Baturité, em Acarape (CE), ele fala do Semiárido sem pressa e sem lamento. Não como quem descreve uma paisagem distante, mas como quem apresenta a própria casa. “Falar de Semiárido é muito fácil pra mim. Aqui nasci, me criei, estudei um pouquinho… e trabalhei minha vida”, recorda.

A Geografia de Milton Santos – um dos maiores intelectuais do século 20 – ajuda a entender o que Seu Chagas aprendeu na prática: o território não é apenas chão, mapa ou cenário. É espaço usado, vivido e atravessado por trabalho, técnica, memória, conflito e futuro. No Semiárido, essa ideia ganha corpo quando a produção deixa de disputar lugar com a natureza e passa a se organizar com ela.

A escala desse território ajuda a dimensionar o desafio. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Semiárido brasileiro reúne 1.477 municípios em 11 estados, incluindo o Ceará. Não se trata, portanto, de uma paisagem marginal à vida econômica do País, mas de uma região onde permanência, produção e adaptação precisam caminhar juntas.

A primeira ferramenta de Chagas veio cedo. Aos cinco anos, em Forquilha, ganhou do pai uma enxadinha de madeira. Depois, saiu de casa, trabalhou em banco, percorreu o País, conheceu outros biomas, passou pelo Cerrado, pela Amazônia e pela Mata Atlântica. Mas a terra de origem nunca deixou de chamá-lo de volta.

Ao fundar a Acarape Agroindústria de Alimentos (Acaragri), uma microempresa de base familiar, decidiu transformar seu pedaço de chão em prova concreta de que o Semiárido não é sinônimo de falta. Dos 33 hectares da propriedade, mais da metade permanece coberta por floresta nativa preservada.

Na área agricultável, a produção segue sem defensivos químicos, em uma lógica que aproxima trabalho, cuidado ambiental e permanência no território. Em 2026, essa trajetória começou a ganhar desenho formal de agrofloresta: um hectare da propriedade foi preparado para receber um sistema agroflorestal.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam árvores nativas ou exóticas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustos e outras espécies, em arranjos planejados no espaço e no tempo. A proposta é otimizar o uso da terra, conservar o solo, reduzir a pressão por novas áreas agrícolas e recuperar áreas degradadas.

Mas nenhuma definição técnica se sustenta sozinha no Semiárido. Para entender o que está em jogo nesse hectare, é preciso ouvir outro Francisco, ou Xico, como é mais conhecido. Enquanto em Acarape o sistema ainda está sendo implantado, em Viçosa, na Serra da Ibiapaba, Xico já mantém uma área agroflorestal em pleno funcionamento.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador. Em cerca de um hectare e meio, cultiva café, pimenta-do-reino, frutíferas e espécies nativas. Técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia, ele divide o dia a dia entre educação ambiental, produção agroecológica e o manejo da própria agricultura em sistema agroflorestal. Para ele, agrofloresta não é uma receita pronta. “Não é um modelo só”, defende.

A explicação começa antes do plantio. “Quando eu penso em implantar uma agrofloresta, eu tenho que olhar o solo, a água, o relevo, o clima, os recursos disponíveis e a realidade de quem está produzindo”, explica Xico. “O que dá certo numa área pode não dar certo em outra. A agrofloresta tem que responder ao lugar”.

Um homem de óculos e barba rala surge em meio a uma vegetação densa, cercado por grandes folhas verdes em primeiro plano e troncos ao fundo.

Francisco Antonio de Sousa, o Xico, é agricultor agroflorestador, técnico em Agropecuária, tecnólogo em Gestão Ambiental e especialista em Agroecologia | Foto: Acervo pessoal / Gracilene Pereira

Isso significa pensar em alimento, renda e restauração em tempos diferentes. A própria Embrapa observa que as primeiras receitas podem vir ainda no primeiro ano, com culturas anuais, hortaliças e espécies semiperenes, enquanto frutíferas e espécies de ciclo mais longo se consolidam depois. “Quando se pensa uma agricultura nesse formato, nós estamos pensando para agora e para o futuro”, resume Xico.

Na terra dele, esse planejamento já saiu do papel. O sistema começou com um objetivo direto: produzir alimentos para a família, recuperar espécies da região e gerar trabalho. Com o tempo, passou também a oferecer frutas, geleias, doces e licores. O percurso mostra que a agrofloresta não nasce necessariamente como negócio pronto. Primeiro, recompõe o chão, alimenta a casa e organiza a produção. Depois, quando há excedente e beneficiamento, pode chegar à renda.

É esse caminho que ajuda a olhar de volta para Acarape. No hectare preparado por Francisco das Chagas, o sistema ainda começa a ser implantado. Mas a lógica que sustenta a agrofloresta já aparece antes: na mata preservada, na produção sem agroquímicos, na introdução de árvores nativas e na tentativa de produzir sem romper com o ambiente.

Transformar para permanecer-A solução que Seu Chagas enxerga, portanto, não se sustenta apenas no plantio. Ela depende também de quem colhe, transforma, vende e encontra saída quando a produção ameaça se perder. Na Acaragri, esse papel passa por Rosemeire Eloi, esposa dele e gestora comercial da microempresa.

Durante a pandemia, com as roças mais vazias e a mão de obra escassa, parte dos frutos começou a apodrecer no pé. O problema obrigou o casal a olhar para a propriedade de outro jeito. Se não era possível vender tudo in natura, era preciso aprender a transformar a safra antes que ela se perdesse. Vieram os testes, as receitas, os erros e os primeiros produtos beneficiados: doces, farinha de banana verde e licores artesanais.

Um homem de cabelos grisalhos e camisa listrada sorri ao lado de uma mulher de óculos, enquanto ambos brindam com taças de espumante.

A mudança não ficou restrita à porteira da família. Para Rosemeire, produzir no território também significa comprar de quem está perto. “A gente sempre busca no nosso território”, conta. Quando falta caju para os doces, por exemplo, ela compra do vizinho. Quando precisa de castanha, paga produtores locais para beneficiar o próprio produto e depois revende. O que não encontra em Acarape, busca em Redenção, cidade vizinha. A capital, Fortaleza, só entra no caminho quando as alternativas próximas se esgotam.

Na prática, a agroindústria familiar passou a funcionar como um pequeno ponto de ligação entre a floresta, a produção e a vizinhança. A fruta que poderia se perder vira doce. A castanha que poderia sair sem valor agregado permanece mais tempo no território. O dinheiro circula primeiro entre agricultores, beneficiadores e pequenos fornecedores do Maciço de Baturité.

Mas esse arranjo ainda depende de uma condição que nenhuma máquina resolve sozinha: gente. É aí que a voz de Rosemeire muda de tom. Ela teme que o trabalho no campo seja cada vez mais visto como falta de opção, e não como possibilidade de vida e renda. “Ah, trabalhar na roça não dá… isso está se perdendo”, desabafa. Para ela, a tecnologia ajuda, mas não substitui a presença humana. “Se não tiver quem plante… a gente tem máquina, mas, de toda forma, precisa do ser humano, do capital humano”.

A volta como futuro-A pergunta que perpassa a fala de Rosemeire – quem vai continuar? – encontra uma resposta possível em outra experiência do Maciço de Baturité. Em Mulungu, Rodrigo Vieira da Silva fez o caminho que muitos jovens do campo são ensinados a desejar: saiu do município nativo para estudar. A diferença é que voltou.

Aos 28 anos, agrônomo, microempreendedor e fundador da Ecoffea, pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal, Rodrigo voltou para uma lavoura que já existia antes dele, do pai e do avô.

Close-up de mãos segurando uma embalagem de café branca com rótulo vermelho e despejando os grãos dentro da abertura de um moedor cilíndrico prateado.

A Ecoffea é um pequeno negócio de cafés artesanais cultivados em sistema agroflorestal | Foto: Acervo pessoal / Rodrigo Vieira

Na propriedade da família, o café nunca cresceu sozinho. Dividia espaço com ingazeiras, bananeiras e outras plantas que faziam sombra, seguravam umidade e ajudavam a lavoura a atravessar os meses mais quentes. “O café só sobreviveu por causa desse clima de agrofloresta”, conta, resumindo a prática antiga que hoje ganha nome técnico.

No manejo de Rodrigo, a palhada da bananeira cobre o solo, conserva umidade e protege a terra dos raios solares. As árvores criam sombra e ajudam a formar um microclima. O esterco animal e alguns complementos reduzem a dependência de insumos externos. “Uma coisa casa com a outra”, explica.

O café também carrega uma história que Rodrigo tenta compreender com o olhar de agricultor e de pesquisador. Segundo ele, a variedade cultivada pela família é a típica, associada às primeiras linhagens de café que chegaram ao Brasil.

Um homem barbudo veste camiseta verde clara e segura um grande cesto de vime trançado enquanto colhe pequenos frutos em um cafeeiro.

Não houve, afirma, introdução de variedades modernas na propriedade. Hoje, ele participa de estudos para investigar melhor a origem genética desse material. A hipótese é valiosa, mas pede cuidado: mais do que transformar a lavoura em relíquia, Rodrigo quer mostrar que um café do passado também pode ter futuro.

Quando saiu de Mulungu para estudar Agronomia em Fortaleza, em 2018, ele ainda não tinha essa clareza. “O café que eu entendia era o que tinha aqui no quintal, que não era tão valorizado na época”, lembra. Entre as aulas e as idas ao sítio, começou a testar o que aprendia no curso e a olhar para aquela produção familiar com outros olhos. “Essa história ia ficar apagada se eu não fizesse alguma coisa”.

O que poderia ser apenas memória virou marca, produto e modelo de negócio. A Ecoffea vende em pequenas lojas de Fortaleza, mas encontrou nas assinaturas uma forma mais direta de se relacionar com quem consome. O café deixa de ser apenas grão: chega como história, origem e experiência. A cada entrega, Rodrigo não vende só um produto do Maciço. Mostra que um território pode permanecer vivo quando aquilo que nasce dele encontra valor sem precisar abandonar suas raízes.

Quando Rodrigo fala de origem, toca em uma palavra que também aparece em outras experiências agroflorestais: ancestralidade. No caso dele, ela aparece na memória familiar, na variedade antiga de café e no cultivo sombreado que resistiu ao tempo. Mas, nos territórios indígenas, essa palavra ganha outra profundidade. (Agencia Econordeste)

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CRISE CLIMÁTICA É O PIOR DESAFIO DA HISTÓRIA HUMANA, DIZ CIENTISTA

A humanidade nunca enfrentou um desafio tão grande como a crise climática. Ainda assim, muitos parecem não ter entendido ainda a gravidade do problema, alertou o escritor e neurobiólogo italiano Stefano Mancuso nessa terça-feira (9), durante a inauguração do Centro de Ciências e Culturas Sesc RJ (CCCS) e da Galeria VÃO, no Rio de Janeiro.

"A crise climática é o problema mais grave que a humanidade já enfrentou em toda a sua história. Não se trata de uma crise passageira ou de um ciclo natural superável. Estamos diante de um risco real de extinção da nossa própria espécie se não mudarmos radicalmente a nossa relação com o planeta", lembrou o cientista.

Para Mancuso, a obsessão da humanidade em enxergar apenas a si mesma e ignorar a dependência em relação ao reino vegetal é uma das maiores ameaças à sobrevivência do planeta.

"Viver sob uma lógica de monocultura humana, como se pudéssemos existir isolados das outras espécies e sem depender diretamente delas, é uma ilusão perigosa que está nos conduzindo ao colapso", afirmou o cientista.

Professor da Universidade de Florença, Mancuso é uma das maiores referências mundiais em neurobiologia vegetal. Suas obras são publicadas no país pela Ubu Editora, que conta com os títulos A revolução das plantas — vencedor do Prêmio Galileo de divulgação científica em 2018 —, A incrível viagem das plantas, A planta do mundo, Nação das plantas e Fitópolis.

Mancuso defendeu o papel do conhecimento acadêmico diante das transformações climáticas globais e criticou negacionistas que relativizam dados científicos sobre o aquecimento global.

"É uma tremenda estupidez tratar a ciência como se fosse apenas uma opinião, especialmente quando estamos discutindo a crise climática. A ciência trabalha com fatos, evidências e dados consolidados, não com pontos de vista subjetivos que podem ser aceitos ou descartados ao gosto de cada um", afirmou.

Como alternativa prática para conter o aquecimento urbano, o pesquisador defendeu medidas urgentes de renaturalização, como a substituição do asfalto por alternativas verdes. Segundo ele, é preciso agir rapidamente para remover coberturas impermeáveis e arborizar as cidades em massa.

"Temos que retirar 20% das ruas e do asfalto das cidades para dar espaço às plantas. As administrações municipais que fizerem isso primeiro serão as que vão evitar milhões de mortes e poupar gastos econômicos colossais. As outras serão obrigadas a fazê-lo daqui a dez anos, sob regime de emergência, gastando dez vezes mais e carregando na consciência as mortes que poderiam ter sido evitadas", concluiu.

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SITUAÇÃO DOS OCEANOS É GRAVE, DIZ RELATÓRIO

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nessa segunda-feira (8), concluiu que a situação dos oceanos é grave e demanda respostas urgentes e coordenadas entre governos, pesquisadores, setor privado, organismos multilaterais e comunidades costeiras.

O terceiro ciclo da Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA-3, na sigla em inglês), principal análise multidisciplinar sobre o estado dos oceanos, reuniu mais de 550 cientistas e outros especialistas de 86 países. Os dados do WOA-3 referem-se principalmente ao período entre 2018 e 2023.

O documento alerta que diversos indicadores críticos da saúde do oceano pioraram significativamente desde a última edição do estudo, publicada em 2022, incluindo aquecimento, elevação do nível do mar, perda de gelo polar, biodiversidade, pesca e poluição marinha. Essa é a versão mais extensa desde que a série de relatórios foi lançada em 2017.

O relatório destaca deslocamento de espécies marinhas para águas mais frias; impactos crescentes das ondas de calor marinhas sobre a pesca; e vulnerabilidade crescente de comunidades costeiras dependentes do oceano.

“O oceano é o principal amortecedor da crise climática, mas os sinais de estresse estão se tornando cada vez mais evidentes prejudicando sua atuação na regulação climática”, afirmou o professor Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos coautores brasileiros do relatório.

Os impactos para o Brasil incluem maior vulnerabilidade costeira, riscos para cidades litorâneas, pressão sobre pesca e aumento de eventos extremos associados ao Atlântico tropical.

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O SÃO JOÃO DE TODOS NÓS: IDENTIDADE CULTURAL E PERTECIMENTO EM TEMPOS DE CONSUMO, POR ALDY CARVALHO

 A Banda de Pífanos de Pernambuco apresentou-se recentemente em Salgueiro. Uma manifestação artística reconhecida nacionalmente, herdeira de séculos de tradição popular, expressão legítima da alma sertaneja e nordestina. No entanto, diante do palco, um cenário desolador: praticamente não havia plateia  para prestigiar uma das mais autênticas representações de nossa identidade cultural.

     O fato torna-se ainda mais significativo quando lembramos que estamos justamente no período junino, entre os meses de junho e julho, época em que o Nordeste celebra o ponto mais alto de suas tradições populares. É o tempo das fogueiras, dos pífanos, das sanfonas, do forró, das quadrilhas, dos cordéis, dos aboios e das inúmeras manifestações que compõem o rico mosaico cultural nordestino. Trata-se de um período em que não apenas festejamos, mas também transmitimos às novas gerações os valores, saberes e símbolos que herdamos de nossos antepassados. Ver uma expressão tão genuína de nossa cultura encontrar tão pouco acolhimento justamente nesse contexto revela o tamanho do desafio que enfrentamos para preservar e fortalecer nosso patrimônio cultural.

     O episódio transcende a simples questão da presença de público. Ele nos obriga a refletir sobre algo mais profundo: o progressivo distanciamento de nossa sociedade das referências simbólicas que sustentam sua memória coletiva. Quando uma comunidade deixa de reconhecer valor naquilo que a constituiu historicamente, corre o risco de perder o sentido de pertencimento. Afinal, “quem não valoriza suas origens deixa de ser de algum lugar para tornar-se, culturalmente, de lugar nenhum”, bem já disse o amigo arquiteto e ativista cultural, Cosme Cavalcanti.

     Como poeta cantador do sertão e estudioso das ciências sociais, observo com preocupação a substituição crescente da cultura identitária pela cultura do consumo imediato. O mercado cultural contemporâneo, movido pela lógica da rentabilidade rápida, transforma a arte em produto descartável. Canções, ritmos, comportamentos e modismos são consumidos e abandonados na velocidade das redes sociais. Pouco importa a profundidade da mensagem, a riqueza estética ou o vínculo com a história de um povo. O que importa é o alcance, o engajamento instantâneo e o lucro.

     Essa realidade já havia sido analisada por Theodor Adorno ao discutir a chamada indústria cultural. Para ele, a cultura transformada em mercadoria tende a uniformizar gostos e reduzir a capacidade crítica dos indivíduos. O entretenimento deixa de provocar reflexão e passa a funcionar como mecanismo de consumo e conformismo.

     Walter Benjamin, por sua vez, alertava para a perda da aura das manifestações culturais quando estas se tornam reproduções massificadas e desvinculadas de seus contextos originais. Algo semelhante ocorre quando tradições populares, como os pífanos, o cordel, os aboios, os folguedos o nosso forró de pé de serra, a gastronomia e tantas outras expressões nordestinas, são relegadas à condição de curiosidades folclóricas, enquanto produtos culturais globalizados ocupam todos os espaços de visibilidade.

     Não se trata, evidentemente, de condenar as novas gerações. Consome-se, hoje, em grande medida, aquilo que é oferecido e valorizado pelos meios de comunicação, pelas plataformas digitais e pelas estruturas de mercado. A ausência de interesse por determinadas manifestações culturais não decorre de uma falha individual, mas de um processo educativo e cultural que, há décadas, vem enfraquecendo a formação humanística, a consciência histórica e o pensamento crítico.

     Nesse ponto, as reflexões de Darcy Ribeiro permanecem atuais. Ele defendia que um povo só se realiza plenamente quando reconhece e valoriza sua própria formação cultural. A escola deveria ser um espaço privilegiado para esse encontro com a identidade nacional e regional. Contudo, muitas vezes ela própria reproduz a lógica que privilegia referências externas em detrimento das culturas locais.

     Edgar Morin também nos oferece importante contribuição ao afirmar que a educação precisa ensinar a contextualizar, relacionar e compreender a complexidade do mundo. Sem essa capacidade crítica, os indivíduos tornam-se mais vulneráveis aos discursos prontos, às modas passageiras e às imposições simbólicas do mercado.

     Talvez por isso tenhamos passado tantas décadas consumindo, sem maiores questionamentos, não apenas produtos estrangeiros, mas também valores, hábitos e modelos culturais importados. A música, os costumes e até os sonhos passam a ser moldados por referências externas, enquanto nossas próprias expressões culturais são tratadas como ultrapassadas ou irrelevantes.

     O esvaziamento de uma apresentação da Banda de Pífanos não é, portanto, um fato isolado. É um sintoma. Revela o enfraquecimento dos laços entre memória, identidade e pertencimento. E revela, igualmente, a responsabilidade dos gestores públicos, dos sistemas educacionais, dos meios de comunicação e de todos nós na preservação desse patrimônio imaterial.

     Uma sociedade que abandona suas referências culturais não se torna mais moderna, torna-se mais vulnerável. Porque o futuro só pode ser construído com solidez quando se conhece, se respeita e se valoriza o chão histórico e cultural sobre o qual se caminha.

     Um povo não perde sua identidade de uma vez; perde-a aos poucos, quando deixa de reconhecer a si mesmo em sua música, em sua fala, em suas festas, em sua memória e em seus símbolos.

     Eu, poeta cantador, filho do sertão, dessa cultura que aprendi primeiro ouvindo do que lendo, sigo acreditando que preservar nossas tradições não é um gesto de saudosismo, não, não é, é um ato de resistência, de afirmação, de consciência histórica e de compromisso com as gerações que virão, porque um povo que conhece suas raízes pode dialogar com o mundo inteiro sem deixar de ser quem é.

                                                                                  Aldy Carvalho, o Cantador láaaa do sertão, junho 2026

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TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA PLANTAM 5 MIL MUDAS NA SEMANA DO MEIO AMBIENTE

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mobilizou, nos últimos dias, cerca de 10 mil pessoas, em 15 estados brasileiros, onde realizou uma série de atividades de defesa do meio ambiente, com críticas ao agronegócio.

Segundo a organização, os sem-terra plantaram mais de 5 mil mudas e semearam cerca de 30 toneladas de sementes em Alagoas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e Sergipe.

A iniciativa faz parte da Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos, que começou na última segunda-feira (1°) e termina neste domingo (7), marcando a Semana Mundial do Meio Ambiente.

Este ano, a jornada teve como lema o mote “combater o agronegócio é cuidar da natureza!” e serve como plataforma para o MST defender a reforma agrária “como solução para o avanço dos cuidados com o meio ambiente”.

Ao mesmo tempo, a organização denuncia o que classifica como “crimes ambientais do agro-hidro-minero-negócio” e os “que exploram os bens comuns da natureza em larga escala”, em um momento em que, na avaliação do movimento, “o agronegócio aprova leis que aumentam a destruição ambiental”.


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