URNAS E SEGURANÇA ELEIÇÕES 2026

A cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais impedem qualquer alteração nos programas que operam as urnas eletrônicas após sua conclusão. Segundo o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Júlio Valente, nem o próprio tribunal pode modificar os sistemas após essa etapa. Qualquer alteração só seria possível mediante a realização de uma nova cerimônia pública, com a participação das entidades responsáveis pela fiscalização de todo o processo eleitoral.

O secretário explicou que a cerimônia, realizada entre agosto e setembro, marca o encerramento do desenvolvimento dos sistemas utilizados nas eleições, com a participação de instituições fiscalizadoras e do presidente da Corte, que assinam digitalmente os programas. A partir desse momento, eles tornam-se definitivos. 

“Nesse momento, os sistemas estão encerrados, são finalizados, nada mais pode mudar. Depois dessa assinatura, mesmo que a Justiça Eleitoral deseje, mesmo que o TSE queira, não é mais possível mexer nos sistemas.”, afirmou. 

Nenhum comentário

OBRA DO CINEASTA VLADIMIR DE CARVALHO É TEMA DE LIVRO

Foi durante o PirenópolisDOc, conhecido como PiriDoc, que a pesquisadora Aline Fernandes Carrijo se deu conta de um aspecto fundamental da obra do cineasta Vladimir Carvalho. Até então, ela conhecia apenas o longa Conterrâneos velhos de guerra, mas com a programação do festival de documentários de Pirenópolis, ela se deparou com Vila Boa de Goiás, Quilombo  e Mutirão.

 “Eu sou goiana e nunca tinha visto documentário do cinema moderno sobre Goiás”, conta a pesquisadora, que levou a temática para a tese de doutorado realizada na Universidade de São Paulo (USP) e transformou o resultado no livro Diante da catástrofe: a modernização brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, que lança nesta terça-feira (4/8), às 19h, no Cine Brasília, com direito a debate com Sérgio Moriconi. O debate ocorre após a exibição de Conterrâneos velhos de guerra, Perseghini e Quilombo, que terá início às 15hs.

Quando assistiu aos três filmes em curto período de tempo, Aline logo começou a trabalhar em uma análise do conjunto. “Vendo os filmes em conjunto, vi a potência que tinha de uma compreensão do processo modernizador brasileiro. Comecei a analisar e, ao longo do processo, trabalhando com metodologia de análise fílmica, fui analisando quadro a quadro”, conta a pesquisadora. “Esses documentários formulam maneiras específicas de pensar o real.”  

Uma das inquietações que despertaram a curiosidade de Aline foi o fato de Vladimir ser sempre descrito como um cineasta nordestino, apesar das décadas radicado em Brasília e da vasta filmografia dedicada ao Centro-Oeste (CO). “Quando você olha a historiografia do cinema brasileiro, ele é colocado como cineasta nordestino. Claro que que ele tem filmes muito importantes sobre o Nordeste, e é paraibano, mas também tem essa potência como documentarista de Brasília. Mas, na historiografia, ele não aparecia dessa forma, com essa perspectiva nacional. Isso foi me inquietando”, conta. 

Nenhum comentário

IMPACTOS DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS NA SAÚDE MENTAL

 O debate sobre os impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes já faz parte da agenda de oito em cada dez escolas brasileiras. A proporção de instituições de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, que discutiram o tema em 2025, cresceu 18 pontos percentuais na comparação com 2024, passando de 62% para 80%.

Os resultados constam na pesquisa TIC Educação 2025, lançada nesta terça-feira (4) e realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)

A coleta de dados foi feita por telefone em escolas públicas e particulares, de áreas urbanas e rurais, totalizando 2.404 entrevistas com gestores.

Segundo o Cetic.br, a pesquisa mostra que os debates sobre questões relacionadas aos efeitos das tecnologias digitais no desenvolvimento dos alunos e à adoção crítica desses recursos estão mais presentes nas escolas do país.

Nenhum comentário

RAFAEL DO ACORDEON: UM SANFONEIRO DOS 32 BAIXOS AOS 120

O Brasil celebra neste domingo, 02 de agosto, 37 anos da morte do cantor e compositor Luiz Gonzaga, o rei do baião. Lua, como também era conhecido, foi essencialmente um telúrico. Ele soube como ninguém cantar o Nordeste e seus problemas. Pernambucano, nordestino ou simplesmente brasileiro, Luiz Gonzaga encantou o Brasil com sua música, tornando-se um daqueles que melhor souberam interpretar a alma de sua gente.

O escrito Gilberto Amado disse a propósito da morte: "Apagou-se aquela luz no meio de todos nós". O ex ministro e senador Marco Maciel escreveu que Para o Nordeste, e tenho certeza para todo o país, a morte de Luiz Gonzaga foi o apagar de um grande clarão. Mas com seu desaparecimento não cessou de florescer a mensagem que deixou, por meio da poesia, da música e da divulgação da cultura do Nordeste.

Em sua obra ele está vivo e vive no sertão, no pampa, na cidade grande, na boca do povo, no gemer da sanfona, no coração e na alma da gente brasileira, pois, como disse Fernando Pessoa, "quem, morrendo, deixa escrito um belo verso, deixou mais ricos os céus e a terra, e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente".

A expressão que Luiz Gonzaga não morreu e vive em Exu, Pernambuco e se propaga pelo mundo é real. Cicero Gomes filho, ganhou uma sanfona de 32 baixos do hoje saudoso Chico Gomes. A sanfona de cor vermelha passou para a mão de Pedro Rafael Amorim Gomes, 11 anos, conhecido por Rafael do Acordeon.

Cicero Gomes conta que "não tinha talento para tocar sanfona e então aos 6 anos o filho, Rafael herdou a sanfona e hoje faz os acordes soarem na região de Exu e sul do Ceará".

Nenhum comentário

RODA DE DIÁLOGO VIRTUAL DEBATE A COMUNICAÇÃO DE ESTRATÉGIA DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

Em preparação à 17ª edição da Conferência das Partes (COP) da Desertificação, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) promove uma roda de diálogo virtual para instigar a cobertura de coletivos de comunicação e veículos jornalísticos do Brasil. Intitulado “A comunicação na estratégia de combate à desertificação no Semiárido brasileiro”, o evento ocorre na próxima terça-feira, 4 de agosto, das 14h às 16h30, via Zoom, e será aberta ao público em geral.

A roda de diálogo é uma parceria com o Eco Nordeste e a Rede Cajueira e tem apoio técnico do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O público alvo são comunicadores e jornalistas que cobrem a pauta socioambiental.

Na programação, Ivi Dantas, da coordenação executiva da ASA, e Alexandre Pires, diretor de Combate à Desertificação do Ministério do MMA, farão a abertura do momento virtual. Maristela Crispim, diretora-executiva da Eco Nordeste, e Mariana Ceci, da Rede Cajueira, trarão um panorama dos desafios do jornalismo independente do Nordeste na cobertura de pautas socioambientais. 

Já Fernanda Cruz, coordenadora de Comunicação da ASA, vai evidenciar como a comunicação está pensada na estratégia política da Articulação para a construção da convivência com o Semiárido, além de apresentar o que está sendo levado para a esta edição da Conferência. 

Nenhum comentário

MARIO QUINTANA: ELES PASSARÃO...EU PASSARINHO

 "Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!"

Versos simples, pontiagudos e bem-sacados sobre coisas cotidianas com a habilidade de um cronista. Textos curtos, mas intensos. O estilo marcante da poesia do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), nascido há 120 anos, combina tão bem com a lógica das redes sociais que sua poesia acabou ganhando uma nova vida em posts contemporâneos, compartilhada mesmo por quem nem sequer sabe a autoria de tais versos.

"Ele faz parte das referências poéticas das pessoas comuns", diz o professor e escritor Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Para ele, os textos atribuídos a Quintana, "verdadeiramente ou falsamente", demonstram que seu estilo "se impôs nos frequentadores das redes sociais".

"Dadas as referências ao banal, à experiência humana de renúncia e de amor à vida, sua poesia é um pão e vinho sagrados, que se multiplicam entre os que têm fome de poesia", analisa.

O escritor contemporâneo Saulo Florentino, que tem se debruçado sobre a presença da literatura nas redes sociais, associa essa fama atual de Quintana ao seu jeito de poetizar "sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade". "Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas", diz.

Florentino concorda que o estilo curto, sintético, do poeta gaúcho parece feito para a era das redes. "A sociedade atual vive da circulação de frases. As pessoas se acostumaram a pequenos comprimidos de poesia", define.

Tal protagonismo digital tem como efeito colateral os versos erroneamente atribuídos a Quintana. "Isso também diz algo interessante", avalia Florentino. "Mostra que existe uma espécie de imaginário coletivo sobre quem foi Mario Quintana e que, quando alguém encontra uma frase melancólica ou delicada, acredita que a mesma foi escrita por ele."

Para o escritor contemporâneo, existe um "reconhecimento involuntário da identidade estética e textual" de Mario Quintana.

Criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor de literatura Emerson Rossetti vê na poética de Quintana uma tríade de elementos que funcionam muito bem na era das redes. "São aspectos convergentes", afirma.

O primeiro é a simplicidade de sua linguagem. "Com grande apelo poético que atrai bastante a atenção", diz. Outro ponto é a escolha dos temas — privilegiando o cotidiano e a busca do sentido para as coisas banais da vida. "A terceira questão, muito importante, é a sua expressão sintética", acrescenta o professor. "Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet."

Para o cantor e compositor Márcio de Camillo, que desde 2018 tem um espetáculo infantil chamado Crianceiras Mario Quintana, a poética do gaúcho ficou pop "porque o verso é uma maneira rápida de leitura".

Para ele, as redes estão "democratizando mais a poesia" e, neste fenômeno, autores "com versos fantásticos" como Quintana acabam funcionando.

E a poética de Quintana se encaixa no universo infantil da adaptação de Camillo. "Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida", argumenta Camillo.

"Mario Quintana conquistou um lugar especial na literatura brasileira porque soube fazer algo aparentemente simples, mas muito difícil: encontrar poesia nas coisas comuns", contextualiza o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

"Ele não precisava recorrer a grandes acontecimentos ou a uma linguagem complicada para falar de questões profundas. Uma rua silenciosa, uma lembrança de infância, um objeto antigo ou a passagem do tempo podiam se transformar, em seus versos, em reflexões sobre a vida."

"Além disso, Quintana tinha uma maneira muito própria de brincar com as palavras, criando versos que pareciam conversas, mas que carregavam muita reflexão. Sua poesia consegue unir profundidade e simplicidade, fazendo o leitor sorrir e, ao mesmo tempo, pensar", afirma Martins.

E viraliza nas redes porque "consegue dizer muito usando poucas palavras", destaca Martins. Nada mal para alguém que morreu longe da fama em 1994 — depois de viver o auge aos 60 anos, seis décadas atrás.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo a sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.

Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.

Segundo sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.

O  IMS ainda atesta que o jovem Quintana não era dos melhores nem em álgebra nem em geografia, mas "as notas altas em francês eram prenúncio do tradutor que ele seria no futuro".

O caminho das letras começou a ser pavimentado em 1924, quando, aos 18 anos, conseguiu emprego na Livraria do Globo, que depois se tornaria importante editora de livros. Inicialmente, Quintana trabalhava como desempacotador.

Gradualmente passou a integrar o quarteto que faria da livraria a lendária editora — a partir de 1928, Edições da Livraria do Globo; depois de 1956, Editora Globo. Eram eles os amigos Henrique Bertaso (1906-1977), o filho do dono do empreendimento; o escritor Erico Verissimo (1905-1975); e o editor Mauricio Rosenblatt (1906-1988).

Era uma trupe que trabalhava junto durante o dia e se divertia durante a noite. No livro Um Certo Henrique Bertaso, Verissimo conta algumas dessas histórias. Por exemplo, a do jantar organizado na casa de um amigo imigrante italiano que tinha, entre os bibelôs decorativos, um gigantesco ovo de avestruz sobre a mesinha de centro.

"Não sei que demônio me soprou ao ouvido a ideia de começar um jogo, já que aquele 'objeto' oval se parecia um pouco com a bola usada no futebol norte-americano", escreveu. E então ele detalhou que foi um amigo arremessando o gigante ovo para o outro até que alguém "teve a trágica ideia de jogar a improvisada bola para Mario Quintana".

"Ora, o nosso querido poeta, que não é bem deste mundo, ergueu-se de repente, recuando e recusando agarrar aquela coisa branca que arremessavam sobre ele…", relatou Verissimo.

"O ovo caiu sobre a mesa e partiu-se, espalhando sobre a toalha um líquido gosmento, dum amarelo sujo, e dum fedor sulfuroso de podridão milenar — um fedor pré-histórico, que nos entrava pelas narinas, medonho, ácido, apocalíptico, como um resumo de todas as decomposições do mundo através dos séculos… um horror!"

Nenhum comentário

O RÁDIO E A MODERNIDADE DIGITAL

Quando grupos de mídia querem falar sobre a relevância da radiodifusão no Brasil, usualmente destacam a confiança da população no rádio, TV, jornais e revistas no combate à desinformação. Nesses tempos de IA, em que tudo é manipulável, não é segredo que a mídia tradicional tem se tornado um dos principais pilares da democracia. Ainda assim, existe um nítido descompasso que abala a sustentabilidade do setor. 

Diversas pesquisas apontam a liderança da mídia tradicional em confiança. TV, rádio, jornais e revistas também são massivamente consumidos pelos brasileiros em todas as plataformas. Mesmo assim, o dinheiro da publicidade segue rumo às plataformas digitais controladas por um punhado de gigantes de tecnologia. Pior, o destino deste dinheiro é cada vez a mídia programática, o que, na prática, significa menos receita até mesmo para os grupos de mídia que se digitalizam. 

O investimento publicitário realizado por meio de agências no Brasil somou R$ 28,9 bilhões em 2025, crescimento de 10% em relação ao ano anterior, segundo dados do Painel Cenp-Meios. A verba cresce, mas a receita da mídia tradicional encolhe.

Se nosso conteúdo é confiável e seguro, e principalmente, altamente eficiente para vender produtos e comunicar mensagens para uma imensa parte da população, por que estamos perdendo terreno para as gigantes de tecnologia?]

Passamos uma década explicando ao mercado que os anúncios em nossos meios aparecem ao lado de conteúdo verificado, num ambiente sem fraude, sem bots, sem o adjacente tóxico que assombra a open web. Vale notar que nem mesmo as gigantes de tecnologia questionam a qualidade do conteúdo em mídia tradicional. Prova disso é que usam conteúdo de mídia tradicional para treinar suas IAs e até o YouTube diz que quer virar TV.

Talvez o nosso problema seja usar argumentos racionais sobre segurança de conteúdo, quando para CEOs, CFOs e executivos que decidem onde alocar os orçamentos de mídia, isso seja irrelevante. 

Quem assina o cheque não perde o sono ao investir no Google e Meta, mesmo diante das sucessivas polêmicas dessas empresas. Qualquer executivo medianamente informado sabe que Google e Meta foram condenadas por viciarem até menores de idade em seus apps. Alguém ainda pode dizer que desconhece o fato de as gigantes de tecnologia lucrarem com polarização e fraudes em suas plataformas? 

Porém, o que realmente tira o sono dos executivos é o medo de vender menos que seus concorrentes. Ou seja, a mídia tradicional precisa mostrar que, além de confiável e brand-safety, é melhor para vender do que as outras plataformas. 

E esta é uma das maiores ironias do mercado de comunicação, porque o rádio, a TV, os jornais e as revistas ainda são altamente efetivos para mover negócios. Não somente por serem mais seguras e confiáveis, mas simplesmente pelo fato de que são amplamente consumidas pelos brasileiros. E mais, hoje nos tornamos até mais baratos em comparação às plataformas das gigantes de tecnologia.

O problema não é a TV, rádio ou mídias tradicionais em geral medirem menos ou possuírem menos dados. Em muitos aspectos, medimos demais, mas medimos a coisa errada. Alcance, frequência e viewability são ideias abstratas para CFOs, CEOs e donos de negócio. Confiabilidade e brand safety, também. Veja o exemplo da TV, bilhões de dólares deixam de ser investidos no mundo todo pelo fato de ainda não termos uma métrica cross-media universal.

Obviamente, as gigantes de tecnologia dificultam o lançamento de soluções de medição que indiquem números negativos para elas mesmas. Afinal, o mercado usa números criados pelas próprias plataformas. Ainda assim, as empresas de tecnologia criaram uma narrativa poderosa de infalibilidade de seus próprios números e soluções. É uma grande falácia.

Nesta semana, clientes da Meta, que até pouco estavam encantados com a perspectiva de comprar anúncios criados por IA nas plataformas do Instagram e Facebook, descobriram que as peças não raro continham problemas como imagens distorcidas e informações incorretas. Quando os clientes cobraram uma solução, a Meta respondeu que a culpa era de quem produziu os anúncios, ou seja, do cliente e não da plataforma.

No sucesso, o mérito é da Meta. No erro, a culpa é do cliente que “não entende a tecnologia”. Não faz sentido nem é racional, mas o encanto da ciência é poderoso. Mesmo com a IA ainda sendo falha e insuficiente para resolver demandas de mídia, é uma narrativa que atrai clientes. 

Estamos fora desse jogo porque, em boa medida, não estamos falando a língua dos CFOs, CEOs e executivos, que querem ver números que indiquem vendas. Simples assim.

A Tenk TV, associação das três principais emissoras da Noruega, fez a publicidade em TV crescer mais rápido que o mercado. Alcançaram uma alta recorde de 7,9%, com o streaming (BVOD) já superando o YouTube e mais anunciantes aumentando o investimento em TV (de 10% em 2024 para 17% em 2025).

As emissoras norueguesas se uniram em torno do objetivo comum de reconquistar a verba das redes sociais. Para isso, alinharam discurso, dados, eventos e pesquisas. Focaram nos pontos fortes da TV, evitaram a mídia programática em favor de negociações diretas, ofereceram soluções coletivas de MMM, levaram anunciantes em viagens de estudo e passaram a modernizar a medição para representar melhor a TV nos dados locais. Agora miram o mercado de PMEs. 

A lição dos noruegueses é agir como bloco, e não como concorrentes. Essa é uma das formas mais eficazes de atrair investimentos em disputas com big techs.

A mídia tradicional tem uma oportunidade enorme em um mundo pautado pela IA. Mas precisamos ser mais ambiciosos e organizados. Se não temos os bilhões de dólares das multinacionais de tecnologia, devemos ampliar as alianças entre os grupos tradicionais para produzir pesquisas e mostrar resultados da mesma forma que fazem as gigantes de tecnologia. Também precisamos de soluções de publicidade unificadas, mais acessíveis e exclusivas de veículos tradicionais.

Gigantes de tecnologia publicam constantemente resultados (pesquisados por eles mesmos) que mostram sua efetividade e como entregam valor ao cliente. Nossos esforços ainda são limitados neste sentido. Além de estudos mais amplos mostrando a eficiência da mídia tradicional, precisamos lutar por maior regulação do setor digital, como fizeram a Austrália, o Canadá e a União Europeia.

Entidades de setor nunca foram tão importantes, como mostra a Tenk TV. Elas são uma forma eficiente de alinhar e organizar demandas institucionais e criar oportunidades. Enquanto persistir a ideia de que concorremos uns com os outros, seguiremos sendo consumidos por adversários maiores e mais poderosos. Apenas ter conteúdo seguro e confiável, infelizmente, hoje não é o bastante.

Guilherme Ravache – consultor digital, colunista e palestrante, com publicações de artigos sobre inovação, marketing e mídia no Valor Econômico. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época

Nenhum comentário

← Postagens mais recentes Postagens mais antigas → Página inicial