FESTIVAL JUÁ LITERÁRIA CELEBRA LEGADO DE PAULO FREIRE COM PALESTRA

Juazeiro amanheceu, nesta terça-feira (21), lembrando a década de 1980, quando recebeu a ilustre visita do educador Paulo Freire. Foi totalmente demais a mesa da segunda edição do festival Juá Literária, com o tema 'Quem Educa Marca o Corpo do Outro', que trouxe à terrinha a pedagoga, Fátima Freire Dowbor, a filha do educador pernambucano que colaborou para o processo de educação popular no município e é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Na Tenda das Palavras, falando sobre seu livro, que leva o mesmo nome da palestra, a pedagoga Fátima Freire, conduziu o público suavemente através da prática da reflexão sobre nosso agir ao pensar, sobre o que buscamos na área da educação e sobre que caminhos podemos construir atuando com crianças. "Uma experiência fascinante e enriquecedora que nos trouxe a ideia de que educação é emoção, sentimento, paixão, generosidade, apego e desapego", segundo a também professora Grotas Benvindo, uma das primeiras a chegar ao encontro na arena do Centro de Cultura João Gilberto.

No segundo dia do Juá Literária, o público também pôde conferir, na Feira dos Livros, o acervo de mais de 600 editoras; as mesas literárias do Espaço Flijuá e as apresentações das escolas, lançamentos de livros e contação de histórias na Carreta Literária e no Busarte (ônibus palco com sala de teatro para ver espetáculos), além de um mergulho pelos movimentos literários de Juazeiro e um show musical com o grupo O Trio.

Até o sábado (25), estão confirmadas atrações, a exemplo de rodas de conversa; mesas, oficinas, teatro; contação de histórias e shows musicais, reunindo cerca de 200 artistas e escritores de várias partes do país em mais de 180 atrações. Nomes representativos no segmento literário, a exemplo de Bob Fernandes e Daniel Munduruku, além de Osvaldo Montenegro e Adriana Calcanhoto, no cenário musical nacional, irão se revezar em ações como a Tenda das Palavras e Canções do Rio, numa super estrutura montada na Orla Nova do município, à beira do Rio São Francisco, no Centro de Cultura João Gilberto e na Casa do Artesão.

O Festival Juá Literária é uma realização da Prefeitura Municipal de Juazeiro, por meio da Secretaria de Educação, dentro do Programa Juá Literária, com apoio da Editora IMEPH, Andelivros, Governo do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon, e produção da Carranca Produções e Melodia Produções.


Nenhum comentário

MARIA DO INGÁ, MARINGA, A CANÇÃO DE POMBAL, POR TARCISIO PEREIRA

Tenho acompanhado, nos últimos dias, uma polêmica em torno do romance que eu sempre quis escrever. Depois de tantas décadas, discutimos agora sobre a existência, ou não, de uma jovem cabocla provavelmente linda, pobre e retirante, chamada Maria do Ingá.

De princípio, esteja claro, quero dizer que tudo o que sei sobre ela me foi contado por um grande músico brasileiro chamado Joubert de Carvalho. Não conheci Joubert de Carvalho, claro, mas de tanto ouvir a sua canção, lançada em 1932, estou limitado às informações que ele me transmite na letra da música.

O nome Maria do Ingá, pela imposição rítmica da letra, foi abreviado pelo compositor e ficou como “Maringá”, hoje uma espécie de grife da cidade de Pombal, sertão da Paraíba, berço da minha vida. Esse é um detalhe menor, mas que deve ser levado em conta por quem defende a existência dessa retirante. Não é o meu caso, ainda fico com a obra de arte. E uma obra de arte que, por si só, sem nenhum propósito de cunho midiático, já serviu de propaganda ao nome da minha terra. Para sempre!

A canção é famosa e, portanto, todos devem lembrar do trecho que diz assim:

“Antigamente, uma alegria sem igual

Dominava aquela gente

Da cidade de Pombal,

Mas veio a seca, levou tudo e foi embora

Só restando então as águas

Dos meus olhos quando choram.”

A moça que partiu, deixando um moço apaixonado a chorar de saudade, teria sido um famoso político do século passado, senador da Republica que também governou a Paraíba como interventor, chamado Ruy Carneiro.

Se isso fosse mesmo verdade (ou se for), então poderíamos dizer que temos em Pombal, ou teríamos, um grande drama de amor digno de qualquer filme brasileiro. Mas as mentes férteis devem ter criado esse fato em função de outra história curiosa, amplamente dissecada por alguns cronistas e pesquisadores pombalenses.

Quando José Américo de Almeida foi ministro da Viação e Obras Públicas, o cantor e compositor Joubert de Carvalho, já famoso pela marchinha carnavalesca chamada “Taí”, gravada por Carmem Miranda, ambicionava um cargo de médico marinho e queria uma audiência com o ministro. Ruy Carneiro, que conhecia Joubert das noites boêmias no Rio de Janeiro, era assessor de José Américo e levou o compositor ao seu gabinete.

Alguns cronistas afirmam que Joubert conseguiu o emprego, mas o único meio de retribuição era com o talento de sua arte. Comporia uma canção em homenagem à Paraíba, terra do ministro, e para tanto procurou saber qual era a cidade dele. Quando soube que Zé Américo era de Areia, ponderou que o nome dessa cidade não era bom de rima. Assim, matando dois coelhos numa só cajadada, meteu na letra o nome de Pombal, que era bom de rima, sendo uma forma de também agradar ao pombalense Ruy Carneiro.

Não sei até que ponto esta história procede. Estou apenas reproduzindo, de forma sucinta, o que li dos meus conterrâneos. A única coisa que quero acrescentar, como um dado que ainda não foi levantado, é a similaridade da letra da música com a trama do romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida…

Ao longo das décadas, sapecaram histórias para todos os lados. Até penso que a canção “Maringá”, ao invés de um romance, já merece um ensaio em torno das controvérsias que têm surgido ao seu redor. Se, por um lado, temos a lenda de um caboclo atormentado numa saudade de amor, chorando pela cabocla que foi embora por causa da seca, por outro temos a história de um amor proibido, vivido em surdina por um alto figurão da política paraibana que não podia se expor, haja vista que a namorada secreta era uma mulher da pobreza.

Para a segunda hipótese, há sempre um narrador mexendo no vespeiro. O escritor e promotor de Justiça Severino Coelho, também de Pombal, transcreveu um texto do jornalista Armando Lira, publicado em 1991, com o seguinte título: “O Amor Proibido de Ruy Carneiro – a Verdadeira História de Maringá”.

A história narrada por Armando Lira, verdadeira ou não, é de fato linda, tão linda que a gente quer mesmo acreditar nela. Diz que Ruy Carneiro amou essa moça pobre, foi afastado dela, depois governou a Paraíba e em pleno exercício do cargo voltou a encontrá-la, ele já casado e ela pobrezinha, pedindo esmolas para ele.

Notem bem. Eu também tenho direito de dizer, agora, que a minha versão sobre “Maringá” é também “verdadeira”. Me arvoro nesse direito porque vejo todas as semelhanças dessa cabocla retirante com uma outra, chamada Soledade, personagem de Zé Américo no romance “A Bagaceira”. Soledade veio do sertão da Paraíba com sua família, chegou na Fazenda Marzagão, em Areia, e bagunçou a vida do dono da casa, Dagoberto Marçal. Depois foi embora e deixou chorando o jovem rapaz chamado Lúcio, filho do fazendeiro, recentemente formado. O curioso é que, anos depois, Soledade reaparece na fazenda, maltrapilha, e pede esmolas ao novo fazendeiro, justamente aquele rapaz que ela deixara chorando.

A música foi lançada em 1932. Quatro anos antes, 1928, Zé Américo tinha lançado “A Bagaceira”, e o livro estava na crista dos mais importantes acontecimentos literários da época. “A Bagaceira” já era considerado, como ainda o é até hoje, o precursor do romance regionalista nordestino, pois trazia os requintes de uma estética inovadora na linguagem, ao contrário de outros clichês da ocasião. A história desse livro também é marcada pelo poder de influência que conseguiu causar junto a outros autores. No seu rastro vieram outros romances com a mesma temática – a exemplo de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; e “Seara Vermelha”, de Jorge Amado.

Aliás, se me esticar mais ainda, vou entrar noutro romance de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela”, outra cabocla retirante que bagunçou o coração do árabe Nacib, na cidade de Ilhéus, estado da Bahia. Esse tema, convenhamos, é bastante recorrente, e nada mais apropriado para um compositor de coração grato, retribuindo a um ministro que lhe dera o emprego tão almejado, o qual já contara essa mesma história num romance famoso

Na peça teatral “O Santo Inquérito”, cujo cenário é também a Paraíba, também existem controvérsias sobre a existência ou não de Branca Dias, a heroína, torrada no fogo da Inquisição porque salvara um padre de morrer afogado, quando lhe fazia respiração boca a boca. A história é tão linda que todos a querem como verdadeira – mas o próprio autor, o dramaturgo Dias Gomes, afirma que se baseou apenas numa lenda. Até hoje permanece o mistério.

No caso de “Maringá”, creio que a arte, mais uma vez, está muito acima das invenções ou comprovações históricas. Seja lá o que for, o fato é que essa cabocla, como bem diz a letra, foi a retirante “que mais dá o que falar”… E que se orgulhem os filhos de Pombal, como eu, por possuírem essa canção de amor como o seu hino quase oficial.

Tarcísio Pereira-Escritor, Teatrólogo, Jornalista e Publicitário

Nenhum comentário

ROMARIA DOS 92 ANOS DE MORTE DO PADRE CÍCERO REÚNE MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE

Uma multidão de fiéis tomou conta do Largo da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte, na manhã desta segunda-feira (20). O público acompanhou a primeira missa de encerramento da Romaria pelos 92 anos de morte de Padre Cícero Romão Batista.

A celebração foi presidida pelo bispo da Diocese de Crato, dom Magnus Henrique Lopes. O evento reuniu romeiros vestidos de preto, em referência à batina usada pelo sacerdote, e de chapéu de palha, um dos símbolos do sertanejo nordestino.

A missa das 6h tem um significado especial para os devotos. Segundo historiadores, esse foi o horário em que Padre Cícero morreu, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. O marco deu origem à tradicional missa do dia 20, realizada mensalmente em memória do religioso.

Ao longo desta segunda-feira, outras quatro missas encerram a programação religiosa da romaria. As celebrações ocorrem às 10h, 12h, 16h e 18h.

A tradição relata que, pouco antes de morrer, Padre Cícero pediu a amigos e familiares que rezassem por sua alma. O pedido deu origem a um costume que atravessa gerações e reúne milhares de devotos na Capela do Socorro todos os meses.

No túmulo do "Padim", os romeiros fazem orações, agradecem graças alcançadas e renovam promessas. Segundo a Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, cerca de 100 mil pessoas devem passar pela cidade durante a programação, iniciada em 17 de julho.

Nenhum comentário

COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM DEBATE, Antonia Pellegrino - Presidente da EBC

 Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

Nenhum comentário

FESTIVAL QUARITERÊ DESTACA MEMÓRIAS E SABERES DE MULHERES NEGRAS

O Sesc Petrolina realiza, entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, a terceira edição do Festival Quariterê, iniciativa da Rede Sesc PE de Bibliotecas que promove a valorização das mulheres negras como produtoras de conhecimento, memória, cultura e redes de cuidado nos territórios.

Inspirado na trajetória de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê no século XVIII, o festival reconhece e amplia os saberes, fazeres e tecnologias sociais produzidos pelas comunidades negras e suas contribuições para a construção da identidade coletiva.

Nesta edição, o festival traz como tema “Memórias negras territoriais: pensar a contribuição dos saberes e fazeres das mulheres negras, trazendo uma cartografia da identidade”, propondo reflexões sobre as experiências, trajetórias e contribuições das mulheres negras para a cultura e a memória dos territórios.

A programação gratuita inclui debates, apresentações musicais, contação de histórias, oficinas e atividades recreativas. Entre os destaques está o encontro “Cartografias Negras do Vale: mulheres quilombolas e suas trajetórias”, com representantes das comunidades Mata de São José e Rodeadouro, além da apresentação musical do grupo Curimba de Yá, no dia 30, às 19h, no Teatro Dona Amélia.

O festival também recebe a arte-educadora e contadora de histórias Nini Kemba Nayo, do coletivo LiteafroInfantil, de Salvador (BA), com apresentações de oralidade e uma oficina de contação de histórias no dia 1º de agosto, voltada para crianças. As inscrições para a oficina podem ser realizadas mediante a doação de 1kg de alimento não perecível para pessoas em situação de vulnerabilidade atendidas pelo programa Sesc Mesa Brasil.

O festival conta ainda com brincadeiras de origem africana, oficina de autodefesa para mulheres, o encontro “Poesia no Jardim de Ana” e a ação gastronômica “Sabores Ancestrais – comidas afro-brasileiras”, realizada no restaurante da unidade. A programação completa está disponível no site do Sesc Pernambuco:  www.sescpe.org.br.


 


 


 



Nenhum comentário

VEREDAS DA RESISTÊNCIA REALIZA 4 EDIÇÃO ENTRE CANUDOS E UAUÁ COM CAMINHADA E PROGRAMAÇÃO CULTURAL

A IV edição das Veredas da Resistência será realizada entre os dias 23 e 26 de julho. A caminhada de aproximadamente 65 quil&o circ;metros ocorre entre o Parque Estadual de Canudos e o município de Uauá, no sertão baiano. A iniciativa reúne cerca de 60 caminhantes de diferentes regiões da Bahia e de outros estados brasileiros para uma imersão na história, na cultura e nos aspectos socioambientais da Caatinga.

A programação tem início na quinta-feira (23), no Parque Estadual de Canudos, com atividades culturais e rodas de conversa. Na manhã de sexta-feira (24), o grupo inicia a travessia, passando por comunidades rurais e locais emblemáticos da Guerra de Canudos. A chegada a Uauá está prevista para o domingo (26), às 12h, quando será realizada a I Feira da Resistê ncia, espaço voltado ao encontro, à troca de experiências e ao fortalecimento das redes de trabalhadores e trabalhadoras da cultura, da Caatinga, do campo e da cidade.

Mais do que uma atividade de ecoturismo ou aventura, a Veredas da Resistência propõe uma experiência de educação patrimonial, memória e valorização dos territórios do Semiárido. Ao longo dos três dias de caminhada, os participantes percorrem trechos historicamente conhecidos como "Madeira da Discórdia", visitando lugares que marcaram os combates da Guerra de Canudos, como Alto da Favela, Vale da Morte e Lagoa de Sangue, além das comunidades de Mandaipó, Barra da Fortuna, Algodões e Maria Preta.

Durante o percurso, os caminhantes são acolhidos pelas comunidades locais, onde acontecem os acampamentos. A alimentação é preparada por mulheres da região com produtos da agricultura familiar, valorizando a culinária sertaneja e fortalecendo a economia local.

A programação inclui apresentações musicais, intervenções artísticas, exibição de documentários, rodas de conversa e atividades formativas conduzidas por pesquisadores, lideranças comunitárias, agricultores, artistas e moradores que compartilham conhecimentos sobre a Guerra de Canudos, os povos tradicionais, os sistemas de Fundo de Pasto, as agroflorestas, a ancestralidade afro-indígena e a preservação da Caatinga.

Segundo a organização, a caminhada também busca ampliar o debate sobre a importância da conservação do bioma e das formas de vida construídas historicamente pelas populações sertanejas.

Para a organizadora Mayara Andrade, moradora de Uauá, a iniciativa representa "uma oportunidade de adentrar os aspectos socioambientais, territoriais e culturais que permeiam a Caatinga do Semiárido baiano".

Realizada desde 2019, a Veredas da Resistência passou a receber inscrições abertas ao público a partir de 2023. A expedição adota diferentes modalidades de participação para ampliar o acesso de pessoas interessadas, incluindo alternativas de financiamento para quem não possui condições financeiras de custear integralmente a experiência.

A iniciativa conta com apoio das Prefeituras de Canudos e Uauá, da Coopercuc e de parceiros locais.

Além da caminhada, a programação reafirma Canudos como referência histórica de resistência popular. Mais de um século após a Guerra de Canudos, o percurso convida os participantes a refletirem sobre a memória do conflito, os desafios contemporâneos do Semiárido e a permanência das comunidades que seguem construindo formas de resistência cultural, social e ambiental.

PROGRAMAÇÃO

23 de julho (quinta-feira) – Canudos

17h30 – Intervenção Artística

Grupo de Capoeira Esquiva (Canudos)

Museu Casa de Vó Izabel

19h – Programação Musical

Banda de Pífanos de Canudos Velho

Terreiro de Dona Maria Botão

20h30 – Veredas dos Saberes

Roda de conversa com Dona Maria Botão, Dona Zefinha e Dona Tereza

Tema: Histórias de vida e as histórias de Canudos passadas de geração em geração

Mediação: João Batista

24 de julho (sexta-feira) – Algodões

7h – Intervenção Artística

Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

12h – Veredas dos Saberes

Seu Alcides e Fabrício Bianchini

Tema: Fundo de Pasto e os desafios da Mata Branca para sobreviver, resistir e permanecer

16h30 às 18h – Intervenções da Banda de Pífanos de Canudos Velho

18h – Apresentação dos alunos da Escola Municipal Miguel Avelino Gomes

19h – Veredas dos Saberes

Dona Edite, Rita dos Santos e Nathalia Alves

Tema: Mulheres, lutas, vitórias e histórias das comunidades

Mediação: Gorete Cardoso

20h – Jam Sertaneja

Mel do Cumbe

Jarbas Nogueira

Lucas Sanfoneiro

21h30 – Fogueira e Leito Aberto

Intervenções artísticas livres

25 de julho (sábado) – Maria Preta

13h – Veredas dos Saberes

Diana Dias e Marcela Santana

Tema: Presença e ancestralidade afro-indígena na Caatinga contadas pelas mulheres que atuam nas comunidades tradicionais

Mediação: Lorrayne Trindade

13h40 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

19h – Homenagem a Dona Maria Trindade

Exibição de documentário e bate-papo com Taiane Costa

Tema: Agroflorestas e Recaatingamento

Mediação: Egídio Trindade

20h30 – Show

Junior do Acordeon e Banda

26 de julho (domingo) – Uauá

10h – Abertura da I Feira da Resistência

12h – Chegada dos caminhantes

12h30 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

13h – Mística de encerramento e agradecimentos

14h30, 16h, 17h30 e 19h – DJ EmersonBEAT

15h – Jarbas Nogueira e Grupo Circuladô

16h30 às 17h30 – Apresentações de quadrilhas

18h – Lucas Sanfoneiro e Forró Tabuleiro

19h30 – Encerramento


Nenhum comentário

GRANDE SERTÃO VEREDAS 70 ANOS. LIVRO CONTINUA A DESPERTAR LEITURAS E DEBATES

Depois de 70 anos de seu lançamento, o livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa continua encantando leitores e é comemorado por especialistas. Para o professor, economista e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Eduardo Giannetti, é um dos livros mais ousados e inovadores da literatura brasileira.

Na observação dele, Grande Sertão: Veredas tem “um cuidado e um apuro formal, inexcedível” e, ao mesmo tempo, é resultado de uma entrega criativa de Guimarães Rosa, a ponto de dizer que praticamente transcrevia alguma coisa que vinha de fora dele. “Ele chega a dizer que é um experimento quase mediúnico”, seguiu em entrevista à Agência Brasil.

“Grande Sertão combina dois elementos. Tem um lado de pesquisa de apuro formal, de um cuidado lapidar com a linguagem hiperconsciente, mas, ao mesmo tempo, é resultado de uma possessão. Ele diz que se sentia tomado por alguma coisa que ele não sabe de onde”, completou.

Sobre esse assunto, Giannetti lembrou de uma expressão que acha muito boa, usada por Rosa em uma entrevista. “‘De repente, o diabo me cavalga’. O milagre do processo criativo de Guimarães Rosa é justamente essa combinação”.

O escritor João Guimarães Rosa deu a personagens de Grande Sertão: Veredas, nomes de pessoas do seu conhecimento - Divulgação/ Centro Cultural São Paulo

A criatividade do autor mineiro era tanta que entre 1946 e 1956 produziu paralelamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, uma coletânea de novelas. Os dois foram concluídos e lançados em 1956, depois de começarem a ser escritos em Paris, na França; continuarem em Bogotá, na Colômbia; e em 1951, na volta de Rosa para o Rio de Janeiro.

“O Grande Sertão era uma história do Corpo de Baile, que ele desmembrou e tornou um romance independente”, disse, em entrevista à Agência Brasil, o jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia sobre o escritor mineiro.

A viagem com um amigo ao interior mineiro foi a inspiração para escrever Grande Sertão: Veredas, obra marcante da literatura brasileira. 

“Esse livro começou quando ele fez uma viagem pelo interior de Minas com o amigo Pedro Barbosa Moreira e percorreu toda a região de Veredas. Ele passou a usar esse ambiente das veredas e buritizais na obra dele Grande Sertão, porque o primeiro [Sagarana] nem tinha”, informou o biógrafo.

Assim como Guimarães Rosa, que levou dez anos para concluir Grande Sertão, o jornalista passou esse mesmo tempo estudando e pesquisando a vida do mineiro, que contou em João Guimarães Rosa, biografia, a primeira publicação deste tipo dedicada a ele. 

“Ele é considerado o mais inventivo dos nossos escritores e ninguém nunca escreveu uma biografia dele. Havia uma demanda de biografar o maior escritor brasileiro de todos os tempos”, pontuou.

Leonêncio Nossa começou a levantar dados e a colher informações para trabalhar na biografia em 2006 e gostou do que conheceu. “A vida dele é muito agitada, apesar de ter sido escritor. Viveu tempos de guerra com riscos de morte e [essa história] não estava descrita. Foi uma surpresa a cada dia”, contou.

“O que me chamou muita atenção é que desde criança ele tinha um projeto de literatura e a vida toda se dedicou a esse projeto. Era um homem que vivia para contar histórias”, disse, acrescentando que Rosa nasceu em Cordisburgo e depois foi levado pelo avô para estudar em Belo Horizonte.

Características-O biógrafo revelou que Rosa deu a personagens de Grande Sertão: Veredas, nomes de pessoas do seu conhecimento, tanto da família e da cultura quanto da política. Entre os jagunços do romance, está, por exemplo, o Dos Anjos, que é referência a Augusto dos Anjos e também parentes: o avô dele, o major Luiz Guimarães. 

“Ele trouxe pessoas com quem convivia, de certa forma, para dentro do romance, que tem um caráter muito autobiográfico, algo que não estava colocado antes da biografia”, comentou.

Rosa tinha ainda outro comportamento interessante: enquanto escrevia o livro, ele ouvia programas da Rádio Nacional com artistas como as cantoras Marlene, Emilinha Borba, Ademilde Fonseca e Virgínia Lane. O cinema também o inspirava e um dos filmes que assistiu durante a produção de Grande Sertão foi Os Sete Samurais, do diretor Akira Kurosawa.

Além disso, trabalhava muito na divulgação dos seus livros. No lançamento de Sagarana, foram publicados mil exemplares. O autor ficou com 500 cópias e fez uma lista das pessoas mais importantes que escreviam em jornais do país e mandou o livro para elas. 

“Mandou para Getúlio Vargas, para Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade. O Rosa trabalhava muito na divulgação”, relatou Nossa, informando ainda que o lançamento de Grande Sertão: Veredas foi na Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, centro do Rio, no dia 16 de julho de 1956.

Linguagem-Quando o livro foi lançado, recebeu muitas críticas, especialmente pela linguagem popular dos personagens usada por Rosa e identificada como "de outro planeta".

“Os personagens que os críticos diziam que falavam como em Marte na verdade falavam como o povo do interior do Brasil. Mostrou que parte da intelectualidade desconhecia este ‘outro planeta’, que é o Brasil”, contou Nossa.

“Rosa disse uma vez que as pessoas achavam que ele tinha inventado uma língua. ‘Eu não inventei uma língua. Os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás falam assim’. Parte da intelectualidade não entendeu o Grande Sertão”, observou o biógrafo.

Leonêncio reforçou a avaliação lembrando que o começo do livro é com a palavra “nonada”, que muita gente pensa ser um neologismo. 

“Na verdade, era muito recorrente nos jornais brasileiros que escreviam, por exemplo, ‘o governo acha que “nonada” o que ocorre com a população’. O Rosa usa palavras que não são mais usadas no seu livro e aí acham que é um neologismo”, afirmou, completando que há neologismos na obra do escritor, mas não é só isso.

Ao mesmo tempo em que era considerado um livro difícil, destacou o jornalista, estava sempre entre os mais vendidos. “Isso já em 56. O que ocorre é que a musicalidade no linguajar dos personagens causa muita empatia, tanto que é um livro que deve ser lido em voz alta porque com a musicalidade é fácil de entender”, apontou.

Registros-A cantora e compositora Adriana Calcanhoto que tem nas obras de Guimarães Rosa uma fonte de inspiração, destacou que se não o escritor não tivesse usado a linguagem no livro correria o risco de não ter mais registros daquela forma de falar popular. 

“É um trabalho extraordinário que ele faz, antes da escrita dele do Grande Sertão, é da compilação que ele faz daquela fala e aí, claro tem o gênio dele na escrita e na história”, disse em entrevista à Agência Brasil.

“É uma leitura obrigatória. Grande Sertão é um livro que todo mundo tem que ler pelo menos uma vez. Quando você lê ele mais de uma vez, e é um clássico, por isso, é outro livro e a gente é outra pessoa depois disso”, apontou, destacando ainda a aceitação mundial da obra.

“É uma coisa louca que seja mundialmente, porque é difícil tradução. É um livro que interessa ao mundo todo, exatamente por ser tão regional e universal. Cada ano que passa, ele só cresce”, observou.

Cadeira 2-Ocupar a cadeira 2 que já foi de Guimarães Rosa na ABL não é a única proximidade que Eduardo Giannetti tem com o escritor que aprendeu a admirar ainda na infância. Lendo a biografia de Leonêncio Nossa, descobriu que tem um parentesco com o escritor.

“Uma coisa que me deixou bastante surpreso e até emocionado lendo a biografia do Leonêncio é que o Guimarães Rosa é meu parente. O pai do Guimarães Rosa se chamava Florduardo e o apelido era Fulô, que era primo do meu bisavô João Pinheiro. Ele chegou a morar na casa do pai do Guimarães Rosa”.

Esse fato não era de conhecimento da família do acadêmico e isso ele ainda não chegou a conversar com o biógrafo que esclareceu essa linhagem. “O Guimarães Rosa a certa altura, jovem ainda, esboçou o desejo em cartas ao pai, de escrever uma biografia do João Pinheiro que é meu bisavô lá de Caeté. Ele admirava muito João Pinheiro ouvindo as histórias que o pai contava do primo”, apontou Giannetti.

“Ainda por cima teve isso”, disse satisfeito, confirmando que fechando o círculo, a cadeira 2 tinha que ser ocupada por ele. “Como diria o Guimarães ‘nada nesse mundo é por acaso’. A grande pena é que os meus pais não sobreviveram para saber que o Guimarães vem de uma família mineira muito próxima que é a de João Pinheiro, avô do meu pai”, comentou o acadêmico.

Ao saber que ocuparia a cadeira 2 se sentiu “um pouco oprimido, um pouco opressivo”, mas reconheceu que foi bom porque suscitou um emprenho renovado de aprofundamento na obra de Rosa, resultando em um ensaio que escreveu para a Revista Piauí, publicado na edição de junho. Fez ainda uma versão compacta do ensaio destinada à publicação da edição comemorativa dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas que foi lançada pela editora Companhia das Letras.

“Fico feliz sempre que me chamam para falar de Guimarães Rosa”, revelou Giannetti.

Nenhum comentário

← Postagens mais recentes Postagens mais antigas → Página inicial