POETA PATATIVA DO ASSARÉ 24 ANOS DE SAUDADES

 

A cidade de Assaré, no Sul do Ceará, está recebendo o Festival Patativa do Assaré – Minha Terra, Minha Gente, Minha Vida – 24 Anos de Memória, evento que iniciou nesta terça-feira (7) e marca o lançamento dos Circuitos Criativos do Cariri. A programação, realizada no Memorial Patativa do Assaré, segue até esta quarta-feira 8. 

O encontro reúne pesquisadores, artistas, poetas, violeiros, grupos culturais e representantes de instituições em homenagem aos 24 anos da memória do maior poeta cearense, além de promover a valorização da cultura popular. Patativa morreu em 8 de julho de 2002.

“Patativa do Assaré transformou a cultura popular em um patrimônio reconhecido dentro e fora do Ceará. Iniciar os Circuitos Criativos a partir de sua memória fortalece esse legado e cria novas oportunidades para que sua obra continue sendo preservada, estudada e compartilhada por meio da cultura e das iniciativas desenvolvidas no território”, afirma a  presidente da Fundação Memorial Patativa do Assaré e neta do poeta, Avaí Gonçalves,.

Mais cedo, o público pôde acompanhar conferências e mesas de debate sobre literatura de cordel e autoria feminina. Também houve o lançamento do cordel “Os tesouros das mãos do povo assareense”, de Milena Matias, que homenageia personalidades da cultura local, além de apresentações culturais e exposição. 

Já nesta quarta-feira (8), a programação contará com encontro temático sobre o legado poético de Patativa, recital de poesia, cantoria de viola, apresentações da cultura tradicional, feira criativa, exposição de artesanato, gastronomia regional e encerramento musical em celebração à cultura popular do Cariri. 

O evento inaugura os Circuitos Criativos do Cariri, projeto desenvolvido pelo Sebrae Ceará que conecta os municípios de Assaré, Salitre e Potengi através da valorização da cultura, do turismo, da economia criativa e dos saberes tradicionais. O festival foi a primeira grande ação pública do projeto. 

“Os Circuitos Criativos do Cariri são um reconhecimento de que a cultura é uma das maiores riquezas do nosso território. Iniciar essa trajetória a partir da memória de Patativa do Assaré é uma forma de homenagear um legado que continua inspirando gerações e de mostrar que a arte, a tradição e os saberes populares são capazes de fortalecer a identidade regional e impulsionar novas oportunidades para o Cariri”, destaca Elizangela Melo, gerente do Sebrae Cariri.

A ação acontece em parceria com a Secretaria de Cultura de Assaré, o Instituto Federal do Ceará (IFCE) – Campus Juazeiro do Norte, a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Estadual do Ceará (UECE), a Universidade Federal do Cariri (UFCA) e Sesc Crato. Também integram a iniciativa instituições, coletivos culturais e lideranças comunitárias.


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MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA: ASSIM OUVI E AQUI REPRODUZO

Compreender que a história vem se tecendo com a força da própria vida. E por isto, disse o cantador Virgilio Siqueira, daí não ser possível guardar na própria alma a transbordante força de uma causa. Daí não ser possível retornar, afinal, a gente nem sabe ao certo se de fato partiu algum dia...

“Tengo/legotengo/lengotengo/lengotengo … O vaqueiro nordestino/morre sem deixar tostão/o seu nome é esquecido/ nas quebradas do Sertão ...” Os versos ecoam pelo lugar, realçados pelo trote dos animais e o balançar natural dos chocalhos trazidos pelos donos, todos em silêncio. É música. É arte.

Cada arte emociona o ser humano e maneira diferente! Literatura, pintura e escultura nos prendem por um viés racional, já a música nos fisga pelo lado emocional. Ao ouvir música penetramos no mundo das emoções, viajamos sem fronteiras.

A viagem dessa vez é o destino Serrita, Pernambuco, município próximo a Exu, terra onde nasceu Luiz Gonzaga, ali no sítio Lages, um primo do Rei do Baião, no ano de 1951, Raimundo Jacó, homem simples, sertanejo autêntico, tendo por roupa gibão, chapéu de couro tombou assassinado.

Realizada anualmente sempre no quarto domingo do mês de julho, a Missa do Vaqueiro tem em suas origens uma história que foi consagrada na voz de Luiz Gonzaga e criada com os amigos Padre João Câncio e Pedro Bandeira, violeiro e o único que vive e participa da Missa. Pedro Bandeira atualmente mora em Juazeiro do Norte, Ceará.

Este ano a Missa do Vaqueiro de Serrita completa 56 anos.

A música composta por Nelson Barbalho, ainda ecoa nos sertões brasileiros: Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso na arte de aboiar. Reza a lenda que seu canto atraía o gado, mas atraía também a inveja de seus colegas de profissão, fato que culminou em sua morte numa emboscada. O fiel companheiro do vaqueiro na aboiada, um cachorro, velou o corpo do dono dia e noite, até morrer de fome e sede.

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi imortalizada pelo canto de Luiz Gonzaga. O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Luiz Gonzaga queria mais. Dessa forma, ele se juntou a João Câncio dos Santos, na época padre que ao ver a pobreza e as injustiças sociais cometidas contra os sertanejos passou a pregar a palavra de Deus vestido de gibão, para fazer do caso do vaqueiro Raimundo Jacó o mote para o ofício do trabalho e para a celebração da coragem.

Assim, em 1970, o Sítio Lajes, em Serrita, onde o corpo de Raimundo Jacó foi encontrado, recebe a primeira Missa do Vaqueiro. De acordo com a tradição, o início da celebração é dado com uma procissão de mil vaqueiros a cavalo, que levam, em honras a Raimundo Jacó, oferendas, como chapéu de couro, chicotes e berrantes, ao altar de pedra rústica em formato de ferradura. 

A missa, uma verdadeira romaria de renovação da fé, acontece sempre ao ar livre. A Missa do Vaqueiro enche os olhos e coração de alegria e reflexões. O poeta cantador de Viola, Pedro Bandeira se faz presente ao evento e o peso dos seus mais de 80 anos ilumina com uma mágica leveza rimas e versos nos improvisos da inteligência. Vaqueiros e suas mãos calejadas, rostos enrugados pelo sol iluminam almas.

Em Serrita ouvimos sanfonas tocando alto o forró e o baião. Corpo e espírito ali em comunhão. A música do Quinteto Violado, composto por Janduhy Filizola é fonte de emoção. A presença de Jesus Cristo está no pão, cuscuz, rapadura e queijo repartidos/divididos na liturgia da palavras.

Emoção! Forte Emoção é que sinto na Missa do Vaqueiro ao ouvir sanfona e violeiros:

“Quarta, quinta e sexta-feira/sábado terceiro de julho/Carro de boi e poeira/cerca, aveloz, pedregulho/Só quando o domingo passa/É que volta os viajantes aos seu locais primitivos/Deixa no caminho torto/ o chão de um vaqueiro morto úmido com lágrimas dos vivos.

E aqui um assunto místico: quando o gado passa diante do mourão onde se matou uma rês, ou está esticado um couro, é comum o gado bater as patas dianteiras no chão e chorar o sentimento pelo “irmao” morto. O boi derrama lágrimas e dá mugidos em tons graves e agudos, como só acontece nos sertões do Nordeste!

Assim eu escutei e aqui reproduzo...

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MISSA DO VAQUEIRO DE SERRITA E OS 90 ANOS DO PADRE JOÃO CÂNCIO

A Missa do Vaqueiro, na cidade de Serrita, a 535 quilômetros do Recife para o ano completará meio século. Em sua 49° edição, a festa traz o sagrado e o profano, preservando assim as tradições, a cultura e a fé do povo sertanejo. Este ano completa 37 anos de morte do Padre João Câncio e 90 anos do nascimento. Ele juntamente com Luiz Gonzaga e o poeta Pedro Bandeira idealizaram e criaram a Missa do Vaqueiro de Serrita, Pernambuco. 

Em Petrolina a reportagem do Blog Geraldo José, com exclusividade, encontrou parte da história que deve ser contada, e está no sangue (DNA) dos fatos que se tornaram páginas que as novas gerações precisam conhecer. Trata-se da irmã de João Cancio, dona Maria Helena Santos Costa e de Fabricio Alex Santos Costa, sobrinho. Eles moram em Petrolina e são testemunhas do tempo vivido por um João, que se tornou, Padre, casou e se tornou quase lenda nos sertões. Padre João Câncio foi o fundador da Pastoral dos Vaqueiros.

Detalhe: na capa do disco LP 1988, Missa do Vaqueiro,  consta Fabricio presente no altar em Serrita durante a última participação de Luiz Gonzaga na missa. Entre os celebrantes estava o bispo emérito de Petrolina, Dom Paulo Cardoso. Uma autêntica e histórica reunião de vaqueiros contada através de canções que homenageiam e retratam a coragem, a força e a fé do homem sertanejo. É assim que pode ser definida a Missa do Vaqueiro. 

Todavia, nascida em 30 de abril de 1946, Maria Helena vai logo afirmando: "História que tem muitas páginas mal contadas", ri Helena, no vigor da alegria e da memória que guarda os fatos. Na família ela é a única mulher. Além de Maria Helena vivem Daniel, Antonio e Avelino. Luiz já faleceu. "João me chamava de "Neguinha".

"Lembro quando meu irmão resolveu ser Padre e entrar no seminário. Foi uma surpresa. Tenho lembranças da primeira Missa do Vaqueiro de Serrita e das conversas entre Luiz Gonzaga e meu irmão. Eles queriam justiça pela morte do vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado. Com o passar do tempo tudo foi se modificando, esquecendo o lado cultural, o protesto e de fé da missa", revela, Maria Helena.

Enquanto foi Padre, João foi da ala progressista ligada a igreja. Atuante na região João Cancio contribui para fortalecer o nome do sertão. "Infelizmente vim tomar conhecimento que escreveram a biografia dele pelas redes sociais, não consultaram a família".

Fabricio faz referência que ao contrário do que ocorre agora durante as homenagens do 30 anos de morte do Padre João, a biografia escrita pelo jornalista Machado Freire, com o título, João Cancio-a saga do Padre Vaqueiro, esta sim, o autor manteve contato com a família. "Uma das ideias do meu tio era que durante a semana da Missa do Vaqueiro fosse realizado seminário, palestras para fortalecer e valorizar cada vez mais o lado cultural e da história", conta Fabricio.

Maria Helena revela que o seu irmão João Cancio exerceu também  a função de diretor do Colégio Dom Bosco de Petrolina e do Colégio Barbara de Alencar, em Exu, Pernambuco.

Os restos mortais do Padre João Cancio encontra-se no Cemitério Campos das Flores, em Petrolina.

A Missa do Vaqueiro, um dos maiores eventos culturais dos Sertões, tem sua origem na história de Raimundo Jacó, um vaqueiro habilidoso que, segundo a história, foi assassinado numa emboscada por um desafeto da profissão. 

A história de coragem se transformou num mito do Sertão e três anos após o trágico fim, sua vida foi definitivamente consagrada pelo canto e voz  de Luiz Gonzaga. 

O Rei do Baião, que era primo de Jacó, transformou a música “A Morte do Vaqueiro” numa das mais conhecidas e emocionantes canções brasileiras. Os versos da música foram feitos em 1957 por Nelson Barbalho durante uma conversa com Luiz Gonzaga, que lhe contou sua vontade de prestar uma homenagem ao primo e a dificuldade por sempre se emocionar quando pensava na história. 

Por volta de 1974, Luiz Gonzaga solicitou ao amigo Janduhy Finizola, em frente a centenas de vaqueiros, que criasse uma música especialmente para a missa. Nem um pouco intimidado, Janduhy declarou que não faria uma, mas sim todas as músicas, todas seguindo a estruturas dos ritos da igreja, tendo sempre como protagonistas o vaqueiro e a religião.

Das nove canções, apenas três foram gravadas por Luiz Gonzaga. Mas, em 1976 todas as composições foram gravadas, com a liberação do Rei do Baião e Janduhy, e então Quinteto Violado, que estava em início de carreira, grava. "Tenho história para contar o ano inteiro", finalizou dona Maria Helena.

Redação jornalista Ney Vital Fotos: Ney Vital

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JOÃO GILBERTO LIGA PARA A FRANÇA E DIZ: LUIZ GONZAGA MORREU

 Na madrugada fria de Paris, França,  o telefone toca. Do outro lado a reclamação: Ninguém lembra do fuso horário, só pode ser do Brasil. A ligação era do músico João Gilberto cuja voz sussurrou triste e informa: Luiz Gonzaga morreu!!. Foi neste tom que a pesquisadora, jornalista e cineasta Dominique Dreyfus, soube do falecimento de Luiz Gonzaga, numa quarta-feira 02 de agosto de 1989. Francesa, Dominique é autora do livro “A Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga”,  livro que considero a mais completa biografia do sanfoneiro Luiz Gonzaga.

Dominique foi professora em Letras e Literatura pela Universidade Paris I (Sorbonne), trabalhou como repórter, editora e diretora de revistas e programas especializados em música, colabora para conceituadas publicações de arte sul-americanas e é doutora em música popular brasileira. Além desse gabarito acadêmico e profissional, ela passou a infância e parte da adolescência entre Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Olinda e Recife. Mudou-se com a família da França para o Brasil para ficar longe da 2° Guerra que assolava a Europa. 

Poucos sabem, mas, João Gilberto homenageou Luiz Gonzaga e a voz do Rei do Baião gravou um LP O Canto Jovem, repleto de modernidade, incluindo composições de Edu Lobo, Jocafi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outros que transitaram entre a Bossa Nova e o Tropicalismo. Os dois, João e Luiz, considerados gênios e citados pelos mais talentosos músicos da música brasileira e internacional sempre mantiveram a distância física, mas o respeito de almas revolucionárias.

Mostro aqui a homenagem que João Gilberto fez acontecer durante o Festival de Rock de Águas Claras, interior de São Paulo. Este festival tinha como objetivo promover a paz, a união, a liberdade. Na oportunidade João Gilberto cantou a música Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, acompanhado apenas pelo ritmo sincopado do seu violão.

Tom Jobim sobre esta homenagem declarou: "É algo que jamais ouvi igual e acho que não ouvirei...e João Gilberto como nordestino nascido às margens do Rio São Francisco, não fugiu à regra: era fã de Luiz Gonzaga. A prova disso é o telefonema entristecido que deu para Dominique Dreyfus, biógrafa de Luiz Gonzaga, residente em Paris, a 02/08/1989, comunicando-lhe o falecimento do criador do baião".

Com a chegada da Bossa Nova, Luiz Gonzaga e os sanfoneiros tiveram um período difícil. As rádios, publicidade e produtores de shows e TV da época "esqueceram", o reinado do baião. A Bossa Nova "fez Luiz Gonzaga tombar" e momentaneamente o Rei do Baião chegou até a ensaiar a sua retirada do campo da nossa música. "Ninguém me quer mais", ele resmungou aos ouvidos de Dominguinhos, seu mais autêntico sucessor. Mas recompôs-se ao surgir o boato de que os beatles iam gravar Asa Branca.

Dominique Dreyfus garante que o sanfoneiro Luiz Gonzaga, de certo modo,  sabia da sua importância no cenário musical brasileiro, mesmo quando ele foi “atropelado” pela bossa nova. “Ele encarava com tranquilidade e até certo humor. Dizia que 'aquela' bossa nova acabou com todo mundo, que ninguém mais queria saber dele, mas que continuaria a fazer música para o povo dele.”

Outro detalhe: A importância do gênero musical inventado por Luiz Gonzaga foi reverenciado também por João Gilberto no baião Bim, Bom, no qual ele diz: “É só isso o meu baião/ E nao tem mais nada não"...

Mas isto é assunto para outra prosa" Além de Luiz Gonzaga, Dominique Dreyfus também escreveu sobre a vida de um dos maiores violonistas brasileiros em “Violão Vadio de Baden Powell”, de 1999.

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O CANTO JOVEM DE LUIZ GONZAGA

Porque hoje é dia 8 de julho 2026, vou recontar esse momento sutil. Enquanto descia de Santa Teresa, Tio de Janeiro, num tempo bem passado, com o ator Beto Quirino, com o saudosíssimo poeta Chico Salles e com o também poeta Ivamberto Albuquerque, eu procurava na imaginação o disco gonzagueano no qual o Rei do Baião encantara para a eternidade suas versões para canções completamente estranhas ao seu repertório tradicional.

O Canto Jovem de Luiz Gonzaga veio e vem, de certa forma, contrapor-se ao discurso segregador. Procurando um melisma que também avoasse pelo dissonante, a sanfona e a voz do bardo encaixaram-se com certa delicadeza, mastigando mansamente as notas quase deslocadas da bossa nova e do tropicalismo.

Naquele disco não havia arranjos sertanejos, rascantes, severos. Havia, e está lá, um diálogo com o que se chamava, na época, de novo, de jovem. Gonzaga teve coragem, enfrentou. A célebre Caminho de Pedra, de Tom e Vinícius, é um ponto a se prestar bem atenção. Em Asa Branca, com alguma novidade no arranjo, a participação de Gonzaguinha marcará o reencontro de pai e filho.

Seguem-se Nelson Mota, Dori Caymmi, Antonio Carlos e Jocafi, Capinan e Edu Lobo, presentes. Note-se a fotografia de capa tendo como cenário o Edifício Avenida Central, no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Note-se, ainda, a pose e o figurino atualizado à cidade e à moda bossanovidadosa.

As faixas:

Chuculatera (Jocafi – Antônio Carlos)

Procissão (Gilberto Gil)

Morena (Gonzaguinha)

Cirandeiro (Capinan – Edu Lobo)

Caminho de Pedra (Tom Jobim – Vinicius de Moraes)

Asa Branca (Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira)

Vida ruim (Catulo de Paula)

O milagre (Nonato Buzar)

No dia que eu vim me embora (Caetano Veloso – Gilberto Gil)

Fica mal com Deus (Geraldo Vandré)

O cantador (Nelson Motta – Dori Caymmi)

Bicho, eu vou voltar (Humberto Teixeira)

O Nordeste continuaria existindo caso Luiz Gonzaga não tivesse aterrissado por lá há cem anos. Teria a mesma paisagem, os mesmos problemas. Seria o mesmo complexo de gentes e regiões. Comportaria os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões. Mas faltaria muito para adornar-lhe a alma. Sem Gonzaga quase seríamos sonâmbulos.

Ele, mais que ninguém, brindou-nos com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. A isso resolveu chamar de BAIÃO.

Luiz Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores.

O olhar de Gonzaga furou o ventre de todas as coisas e seres, escaneou suas vísceras, revirou seus mistérios, escrutinou suas entranhas. A mão do homem deslizou pelas teclas sensíveis da concertina, seus dedos pressionaram os pinos, procurando os sons baixos e harmônicos. Os pés do homem organizavam o primeiro passo, sentindo o caminho, testando o equilíbrio. A cabeça erguida, o queixo pra frente, a barriga desforrada e o pulmão vertendo cem mil libras de oxigênio, vibrando as cordas vocais: era Lua nascendo.

O peito de Gonzaga abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali buscando eternidade. Viva Luiz Gonzaga do Nascimento, sempre na mira de nossos corações.

Aderaldo Luciano é professor, pesquisador, doutor em Ciência da Literatura

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LUIZ GONZAGA VIVE NA ALMA BRASILEIRA

Gilberto Amado disse a propósito da morte de sua mãe: "Apagou-se aquela luz no meio de todos nós". Para o Nordeste, e tenho certeza para todo o país, a morte de Luiz Gonzaga foi o apagar de um grande clarão. Mas com seu desaparecimento não cessou de florescer a mensagem que deixou, por meio da poesia, da música e da divulgação da cultura mais brasileira.

Nascido em Exu, no alto sertão de Pernambuco, na chapada do Araripe, na divisa com o Ceará, "arribou" e ganhou o Brasil e o mundo, mas nunca se esqueceu de sua origem. Sua música, a música de Luiz Gonzaga e parceiros compositores é politicamente comprometida com a busca de solução para a questão regional nordestina, com o desafio de um desenvolvimento nacional mais homogêneo, mais orgânico e menos injusto.

Telúrico sem ser provinciano, Luiz Gonzaga sabia manter-se preso às circunstâncias regionais sem perder de vista o universal. Sua sensibilidade para com os problemas sociais, sobretudo nas músicas em parceria com Zé Dantas, era evidente: prenhe de inconformismo, denúncia do abandono a que ainda hoje está sujeito pelo menos um terço da população brasileira, mormente a que vive no chamado semiárido.

Luiz Gonzaga é o responsável pelo que atualmente existe de melhor na música brasileira. A força da voz e a puxada da sanfona presente nas toadas e cantorias tonificou a nossa música, retirando-a do empobrecimento cultural em que se encontrava nos ano 40 e cá prá nós, continua atual nos tempos de hoje de tanta pobreza cultural.

A música de Luiz Gonzaga é o sentido de nossa identidade cultural pois consegue ser genuinamente nacional, posto que de defesa de nossas tradições e evocação de nossos valores. Luiz Gonzaga interpretou o sofrimento e também as poucas alegrias de nossa gente em ritmos até então desconhecidos, como o baião, o forró, o xaxado, as marchinhas juninas e tantos outros.

Pesquisadores e estudiosos da obra gonzagueana apontam que até hoje por meio da letra da toada "Asa Branca", Luiz Gonzaga continua elevando à condição de epopéia a questão nordestina. Parafraseando Gilberto Freyre, podemos afirmar que "Asa Branca" é o hino do Nordeste: o Nordeste na sua visão mais significativamente dramática, o Nordeste na aguda crise da seca.

 Luiz Gonzaga não morreu! Em sua obra Luiz Gonzaga está vivo e vive no sertão, no pampa, na cidade grande, na boca do povo, no gemer da sanfona, no coração e na alma da gente brasileira, pois, como disse Fernando Pessoa, "quem, morrendo, deixa escrito um belo verso, deixou mais ricos os céus e a terra, e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente".


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EL NINO DEVE AGRAVAR SECA NO NORDESTE E ELEVAR TEMPERATURAS

A Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) emitiu um alerta para a alta probabilidade de desenvolvimento do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, cenário que pode intensificar a seca em Pernambuco, especialmente nas regiões do interior. A previsão é de chuvas abaixo da média no Leste do Estado entre julho e setembro, além de temperaturas acima da média em todo o território pernambucano.

O alerta da Apac acompanha as projeções dos principais centros meteorológicos internacionais e da Organização Meteorológica Mundial, que indicam rápida intensificação do El Niño nos próximos meses. Segundo o organismo internacional, o fenômeno já está em desenvolvimento no Oceano Pacífico e tem potencial para atingir intensidade forte entre o fim de 2026 e o início de 2027, aumentando o risco de ondas de calor, estiagens e eventos climáticos extremos em diversas partes do mundo.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Historicamente, esse fenômeno altera o regime de chuvas no Brasil, favorecendo precipitações acima da média nas regiões Sul e Sudeste e reduzindo as chuvas em parte do Norte e do Nordeste.

Em Pernambuco, a preocupação está voltada principalmente para a possibilidade de agravamento da seca após um primeiro semestre considerado mais favorável. Entre fevereiro e maio deste ano, as chuvas dentro da normalidade contribuíram para reduzir gradualmente as áreas sob seca, melhorando parcialmente as condições dos reservatórios e da produção agrícola.

Segundo a meteorologista da Apac, Edvânia Pereira, a intensidade dos impactos dependerá do comportamento do fenômeno e da interação com outros sistemas climáticos.


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