HÁ UMA ÁRVORE IMENSA NO CENTRO DO MUNDO. POR EDMERSON DOS SANTOS REIS

Há uma árvore imensa no centro do mundo. À primeira vista, seus galhos parecem representar nações, seus troncos parecem carregar discursos de liberdade, suas folhas balançam como se anunciassem a democracia ao vento. Muitos a contemplam com reverência, acreditando que ela sustenta a vida coletiva. Mas poucos se abaixam para observar o solo que a alimenta.

O problema nunca foi a árvore em si. O problema sempre foi o chão. Esse solo, escuro e aparentemente fértil, é composto por camadas antigas de pactos silenciosos, acordos econômicos excludentes, interesses travestidos de neutralidade, riquezas acumuladas sobre a fome alheia. É um húmus histórico de iniquidades. Nele repousam restos de povos silenciados, culturas subjugadas, territórios saqueados, direitos relativizados. É dessa terra que brota a seiva que percorre o tronco e alimenta cada galho visível.

As raízes da árvore não são inocentes. Elas se aprofundam nesse terreno e dele retiram sua força. Por isso, mesmo quando perde folhas, quando alguns galhos são quebrados pela pressão das lutas sociais, quando certos discursos parecem murchar diante das denúncias, a árvore continua viva. Mais ainda: continua frutificando. Seus frutos, embora muitas vezes embalados como progresso, carregam sementes de repetição, novas formas de dominação, novas estratégias de controle, novas linguagens para velhas desigualdades. Assim, brotam outras árvores semelhantes, em diferentes territórios, sob outras bandeiras, mas nutridas pela mesma lógica e essência do capital, que transforma vidas em recurso e dignidade em mercadoria.

A tragédia está em acreditar que basta podar galhos. Que basta reformar a copa. Que basta trocar algumas folhas. A transformação verdadeira exige coragem para tocar o solo. Exige remexer a terra, questionar seus nutrientes, desnaturalizar seus pactos. Exige interromper o ciclo da seiva que carrega privilégios para cima enquanto deixa a base ressecada. É preciso adubar esse chão com outros valores: justiça, solidariedade, escuta dos povos, reconhecimento das diferenças, cuidado com a vida em todas as suas expressões.

Quando o solo muda, a árvore muda.

Quando a seiva se transforma, os frutos também se transformam.

E quando os frutos mudam, as sementes deixam de reproduzir a lógica da iniquidade e passam a germinar novas possibilidades de mundo.

Talvez o nosso tempo histórico não seja o de derrubar árvores, mas o de cultivar outros solos. Solos onde a dignidade não seja exceção, mas regra. Onde cada criança, jovem, mulher, homem, idoso, cada corpo diverso, cada povo, possa fincar suas próprias raízes sem medo de ser arrancado. Solos onde a humanidade floresça não pela força do mercado, mas pelo potencial da vida partilhada.

Porque no fim, o futuro não depende da árvore que hoje domina a paisagem, depende da terra que estamos dispostos a cuidar. Essa terra ela começa nas minhas relações, na família, na  vizinhança, escola, no bairro, na sociedade e, se materializando no planeta.

Por Edmerson dos Santos Reis[1 Edmerson dos Santos Reis é Pedagogo, Mestre e Doutor em Educação. Professor Pleno da Univerisade do Estado da Bahia, no Departamento de Ciências Humanas – Campus III, em Juazeiro - BA

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