AGRONEGÓCIO É NEGACIONISTA DA MUDANÇA CLIMÁTICA E ESSE RISCO AMEAÇA OS BIOMAS BRASILEIROS, ALERTA CIENTISTA

“O agronegócio é negacionista da mudança climática”, afirma Carlos Nobre. Em entrevista exclusiva à Repórter Brasil, o cientista descreve um país que se aproxima rapidamente dos chamados “pontos de não retorno”, limites a partir dos quais ecossistemas podem perder a capacidade de se recuperar, mesmo que a destruição seja interrompida. Segundo ele, esse risco já ameaça os principais biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga.

Ao mesmo tempo, afirma Nobre, grupos econômicos com forte influência política seguem apostando na ampliação do desmatamento, na abertura de novas frentes de exploração de petróleo, e na ideia de que a crise climática pode ser contida sem mudanças profundas no modelo de desenvolvimento do país.

Aos 74 anos, Carlos Nobre tem longa trajetória na ciência. É formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor em meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Coordenou o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), o maior projeto científico já realizado em uma floresta tropical, e integrou o primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 1990.


Na entrevista, Nobre relaciona o aumento dos riscos ambientais à resistência de setores, como o agronegócio, em admitir evidências científicas sobre a gravidade da crise. Para ele, limitar as políticas públicas ao combate do desmatamento ilegal, manter permissões para desmatamento legal em larga escala e autorizar novas explorações de combustíveis fósseis são decisões incompatíveis com a estabilidade dos biomas e com a capacidade do país de enfrentar a crise climática.

Nobre foi um dos primeiros cientistas a alertar que a Amazônia poderia ultrapassar um ponto de não retorno, entrando em um processo irreversível de degradação. Segundo ele, esses alertas tiveram um custo político. 

 última vez que foi convidado pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) para falar ao setor foi há mais de 20 anos, em palestra justamente sobre os impactos das mudanças climáticas. Desde então, ele relata que cientistas da área climática deixaram de ser chamados, enquanto vozes negacionistas passaram a ocupar espaço em eventos do agronegócio.

Nobre também avalia os resultados da COP30, realizada em Belém, da qual participou diretamente. Ele critica a ausência de compromissos claros para o fim do uso de combustíveis fósseis, questiona a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, e defende o desmatamento zero como condição para evitar o colapso ambiental no Brasil. 


Nenhum comentário

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário