MAESTRO SPOCK SOLTA A VOZ E CELEBRA SUAS RAÍZES EM DISCO INÉDITO QUE VAI DE ABOIO AO ROCK

A relação entre o frevo e o Maestro Spok é quase umbilical. Mas, ao se despir do ritmo, há outro Spok. Não o maestro, mas o pequeno Inaldo que ouvia Jackson do Pandeiro com o pai. Não o saxofonista, mas o músico que sonhava com as palavras. E, sobretudo, o herdeiro de uma ancestralidade africana. Esse Spok, até então desconhecido, aparece em “Raízes”, seu álbum recém-lançado que já está disponível nas plataformas digitais.

Antes de chegar ao público, a revelação de suas raízes veio para o próprio Spok. Ao submeter o próprio DNA a um teste, ele descobriu que sua linhagem materna atravessou o Atlântico vinda do Camarões, mais especificamente da etnia Tikar. "Isso mexeu totalmente com a minha vida", destaca ele em entrevista ao Diario.

Finalmente, ele começaria a trilhar um caminho que desejava desde muito antes de saber tocar qualquer instrumento de sopro. “A poesia sempre esteve dentro de mim. Tudo pelo desejo de ser repentista”, explica.

“Raízes” tece um diálogo inédito para o músico, isso é fato. Mas o estranhamento, se existe, não passa da abertura. É tudo tão íntimo e honesto que a estranheza cede lugar à delicadeza. Faixa a faixa, o público conhece esse Spok que compõe e canta, percorrendo um território híbrido onde se encontram galope à beira-mar, aboio, rock, maracatu e rap.

As letras do disco transitam entre espiritualidade e memória, com homenagens a Xangô e a símbolos dos terreiros, os quais Spok transforma em ambiente de reflexão e reverência às suas próprias origens.

Nesse processo, contou com a assistência do Grupo Bongar, que participa da faixa-título. “Às vezes, o ritmo que eu imaginava para um orixá não era aquele. Os meninos me mostravam o caminho certo. Me diverti e aprendi muito”, conta.

Companheiros históricos como Lenine, Maciel Melo, Chico César e Zeca Baleiro também participam e acrescentam o tom pessoal ao disco, assim como a sua filha Ylana. “Todos eles têm uma importância muito grande na minha vida e no que me formou até hoje”, celebra Spok.

Ainda que vários parceiros de Spok estejam presentes, “Raízes” tem personalidade própria. Mérito do artista, que assume o protagonismo da musicalidade e da sua trajetória. “Não é um trabalho igual a nenhum deles. Isso me deixa muito feliz. Eu enxergo o que é possível. Eu trabalho com as minhas verdades. O que me fortalece é ser eu”, exalta o artista.

Coeso do início ao fim, o álbum se destaca em faixas como "Bela África" (feat.Chico César) e "Kaô" (feat.Lenine) e o encerramento em grande estilo com "Aboio de Um Vaqueiro" (feat.Maciel Melo), que entrelaça repente e rock.

Se o exame de DNA abriu uma porta, “Raízes” mostrou que há muitas outras adiante. “Agora não vou mais parar”, promete Spok, que já vislumbra levar o disco ao palco. Uma missão prazerosa, mas também desafiadora, para quem está trocando o saxofone pelo microfone.

"Venho treinando essa parte de cantar e me comunicar com o público", diz. O público também vai precisar se acostumar, mas ele já está preparado para os inevitáveis pedidos de frevo. “Quando acabar o show, eu posso tocar os clássicos para eles”, garante.

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EVENTO DA EBC REÚNE TV E RÁDIOS PÚBLICAS NO MÊS DE MAIO

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) realiza, nos dias 18 e 19 de maio, o Encontro da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP) 2026, na Sala Funarte Sidney Miller, no edifício Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. 

O evento, exclusivo para 330 emissoras integrantes da Rede, reunirá representantes de rádios e TVs públicas de todo o país para promover cooperação institucional, trocar experiências e aprofundar estratégias de fortalecimento da comunicação pública brasileira.

O convite oficial foi assinado pelo diretor-geral da EBC, David Butter, que destaca no documento que o evento reforça os objetivos centrais da Rede, ou seja, “aprimorar o ecossistema público de comunicação e incentivar o intercâmbio de boas práticas entre as emissoras”. Também foi informada a necessidade de inscrição prévia e a responsabilidade de cada instituição pelos custos de deslocamento e participação.

Durante o encontro, emissoras poderão apresentar cases de sucesso, experiências editoriais, modelos de gestão, projetos de inovação e práticas colaborativas que contribuam para o desenvolvimento da RNCP. As propostas devem ser manifestadas no momento da inscrição, conforme orientação do ofício encaminhado às afiliadas.

Logo após o encontro da RNCP, entre 20 e 22 de maio, o edifício Gustavo Capanema também sediará o 7º Simpósio Nacional do Rádio, realizado pela EBC — por meio da Rádio Nacional — em parceria com o Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Intercom. O evento é aberto ao público e celebra os 90 anos da Rádio Nacional, marco histórico da radiodifusão brasileira.

Com o tema Rádio Nacional 90 Anos: Memória, Inovação e Duturos da Mídia Sonora, o simpósio reunirá pesquisadores, estudantes, profissionais e especialistas para debater os desafios contemporâneos do rádio, papel social, evolução estética e tecnológica, e os caminhos possíveis para o futuro da mídia sonora em um ambiente cada vez mais marcado pela plataformização, pela inteligência artificial e por novas formas de escuta.


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CURSO SOBRE AGROECOLOGIA, SAÚDE E SUSTENTABILIDADE NO SEMIÁRIDO ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Contribuir para a qualificação de estudantes, profissionais e integrantes de comunidades tradicionais, a partir de uma abordagem interdisciplinar que integra agroecologia, saúde coletiva e sustentabilidade. Este é o objetivo do I Curso de Formação em Agroecologia, Saúde e Sustentabilidade no Semiárido, promovido pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), por meio do Programa Escola Verde (PEV) e do Núcleo de Estudos em Agroecologia do Vale do São Francisco (Neovasf). 

A formação será realizada nos dias 11, 12, 18 e 19 de abril, com atividades on-line e práticas. O curso é gratuito e aberto ao público, sendo voltado para estudantes, docentes, técnicos, agricultores, lideranças de comunidades quilombolas e indígenas e demais interessados na temática.

Os interessados podem se inscrever no site do curso. As atividades on-line serão realizadas por meio do canal do PEV no YouTube, enquanto a aplicação prática ocorrerá em territórios do Vale do São Francisco. Os participantes que alcançarem frequência mínima de 70% terão direito a certificado de 30 horas, emitido por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

A programação está organizada em diferentes eixos temáticos, incluindo produção agroecológica, manejo sustentável da água, segurança alimentar, saúde da família, plantas medicinais, economia solidária e tecnologias aplicadas ao contexto rural. As atividades contemplam aulas expositivas, estudos de caso, oficinas e planejamento de ações voltadas à realidade das comunidades participantes.

O professor Paulo Ramos, do Colegiado de Ciências Sociais da Univasf e coordenador do PEV, afirma que a formação foi pensada a partir das demandas das comunidades tradicionais do Semiárido, com destaque para comunidades quilombolas, indígenas e de fundo de pasto. “Este curso nasce do reconhecimento de que as comunidades quilombolas, indígenas e de fundo de pasto são detentoras de conhecimentos fundamentais para a convivência com o Semiárido. Nosso objetivo é valorizar esses saberes e promover um diálogo horizontal com o conhecimento científico”, destacou.

Segundo Ramos, a iniciativa busca aproximar a formação acadêmica das demandas concretas das populações atendidas, promovendo uma atuação comprometida com o desenvolvimento social e com a valorização dos saberes locais. “A proposta é que o conhecimento construído ao longo do curso seja efetivamente aplicado nos territórios, contribuindo para a autonomia das comunidades, a segurança alimentar e a sustentabilidade dos sistemas produtivos locais, sempre respeitando as especificidades de cada grupo”, ressaltou o professor.

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EVOCAR RAÍZES CULTURAIS DOS ALUNOS TRANSFORMA A AULA, DIZ PESQUISADOR

A sala de aula não pode ser espaço hermético de mera reprodução de pensamentos e que não encoraje a participação e ousadia dos alunos. Mais do que isso, todo professor tem a obrigação de privilegiar a raiz e o saber cultural dos estudantes. Essa é a visão que o artista e pesquisador pernambucano Lucas dos Prazeres, de 42 anos, tem levado Brasil afora em programas de capacitação que chegam a redes públicas de ensino. 

“A brincadeira vira a base da pedagogia. É necessário promover a cultura de cada região para que os alunos possam reconhecer as raízes do seu próprio território”, afirma.

As premissas do artista vão ao encontro do que exige a Lei nº 11.645/2008, que completou, em março, 18 anos. A legislação tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados de todo o Brasil.

Lucas dos Prazeres afirma que a "tecnologia" que deve ser desenvolvida é a da rede de apoio comunitária típica dos povos tradicionais, em uma lógica de que cuidar da criança está além dos pais biológicos.

O artista, educador e mestre em cultura popular capacita, nesta semana 60 professores do Distrito Federal em um projeto promovido pela Caixa Cultural.

“É uma formação que se chama ‘Reaprender Brincando’. É um olhar que traz a cultura, as brincadeiras das tradições populares para dentro da ementa escolar”.

Ele defende a união de ensino e identidade sob uma proposta inclusiva, antirracista e representativa sem cair na ideia de que a arte deve ser apenas contemplada durante as atividades escolares.

Para o artista, a cultura está na dimensão cotidiana de cada lugar. Por isso, o caminho seria praticar todas as disciplinas com base nas histórias do município, do bairro e no modo de vida de cada comunidade. Lucas dos Prazeres afirma que seu grande aprendizado foi no  Morro da Conceição, onde nasceu e se criou. 

“Lá é uma encruzilhada de saberes, onde a diversidade cultural de Pernambuco se encontra e convive harmoniosamente na mesma praça”,diz.

Ele conta que o início das proposições da mãe, Lúcia, e da tia, Conceição, está relacionado a uma história de 1981. A família tinha uma creche-escola comunitária que recebia material do governo do estado e da prefeitura. “O material didático não correspondia à realidade daquelas crianças”. Havia textos, por exemplo, que indicavam que uma criança havia visitado a fazenda do vovô. “Tinha bastante criança na escola, mas nenhuma delas tinha um familiar com fazenda”.

Território-Lucas dos Prazeres explica que cabe aos professores de todos os níveis da educação formal (e informal) incluir a arte em sala. Até em áreas menos conhecidas para essas ousadias, como as de exatas. Sejam adultos ou crianças. “É preciso, por exemplo, conectar a primeira infância com a sua própria história, com a sua própria cultura em termos de território nacional e construir identidade cultural desde o início”, defendeu. 

Para o pesquisador, os gestores precisam entender que cultura na escola não é apenas levar um artista para fazer uma apresentação e cantar na festa. “É muito mais profundo do que isso. É necessário utilizar a cultura popular como ferramenta de aprendizado”.

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UNIVASF: DINOSSAURO DESCOBERTO EM PESQUISA ESTÁ ENTRE OS TRÊS MAIORES DO BRASIL

A descoberta da terceira maior espécie de dinossauro já encontrada no Brasil foi liderada por um pesquisador da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A pesquisa alcançou um novo marco neste mês de março: a espécie foi descrita no periódico Journal of Systematic Palaeontology e recebeu o nome de Dasosaurus tocantinensis, em homenagem à região do Maranhão onde foi encontrada, criando um novo gênero e uma nova espécie no Brasil. 

O estudo também identificou um parentesco entre a espécie brasileira e uma da Espanha, reforçando evidências de dispersão de espécies por rotas entre a Europa e a América do Sul há mais de 120 milhões de anos.

A pesquisa paleontológica sobre o achado foi liderada pelo professor do Colegiado de Geologia da Univasf, Elver Mayer. Os fósseis do dinossauro foram descobertos em 2021 no município de Davinópolis, no sudoeste do Maranhão, durante as obras de construção de um terminal ferroviário da Brado Logística.

Após três anos de estudos sobre os fósseis, o dinossauro, com idade estimada em cerca de 100 milhões de anos, teve seu grupo ancestral-descendente definido como os saurópodes. Dentro dessa classificação, foi identificado que o animal pertence aos titanossauriformes, que, apesar da semelhança, não são titanossauros. O grupo é caracterizado pelo pescoço alongado, cabeça pequena e alimentação herbívora, conforme descrito no Journal of Systematic Palaeontology. 

“A importância da publicação é que ela é um marco na descrição formal da espécie. Adiciona uma nova espécie de dinossauro para o conhecimento que a gente tem no Brasil”, enfatizou Mayer. O nome Dasosaurus tocantinensis tem significado ligado à sua região de origem. “Tocantinensis” faz referência ao Tocantins, enquanto “Dasos” deriva do termo grego, que significa “floresta”, em alusão ao ambiente florestal do Maranhão e à vegetação amazônica presente na região onde os fósseis foram encontrados.

Segundo o professor, a novidade representa mais do que a identificação de uma nova espécie. A descoberta do esqueleto permitiu não apenas a descrição do animal, mas também a identificação de relações evolutivas com espécies encontradas em outros continentes. A escavação detalhada e a pesquisa paleontológica também ajudam a compreender como o animal morreu, como ocorreu sua incorporação ao registro geológico e de que forma os ossos chegaram ao local onde foram encontrados. “São coisas que a gente vai conseguir responder a partir desse primeiro trabalho”, disse o docente.

A espécie Garumbatitan morellensis, que possui parentesco com a encontrada no Maranhão, foi descrita em 2023 na Espanha e apresenta idade geológica um pouco mais antiga do que a espécie brasileira. Modelagens biogeográficas indicam que o grupo provavelmente se originou na Europa e que os ancestrais do Dasosaurus tocantinensis se dispersaram por rotas que ligavam os continentes, alcançando a América do Sul entre 140 e 120 milhões de anos atrás, por meio do norte da África, quando esses territórios ainda estavam mais próximos.

As semelhanças entre as espécies incluem um conjunto de cristas presentes nas vértebras. O Dasosaurus tocantinensis possui vértebras caudais com três estrias de cada lado, uma característica encontrada exclusivamente no Garumbatitan morellensis. O fêmur de ambas as espécies também apresenta semelhanças, embora haja diferenças em alguns ângulos anatômicos. “Isso é um ponto importante também, porque diz um pouco sobre a questão de angulação que esses ossos adotaram durante o movimento de locomoção entre os continentes”, comentou Mayer.

Atualmente, os fósseis do Dasosaurus tocantinensis estão no Centro de Pesquisa em História Natural e Arqueologia do Maranhão, localizado no Centro Histórico. “Essa descoberta foi importante também por criar a ligação entre 11 instituições públicas brasileiras que trabalharam em parceria, com profissionais de diferentes especialidades. Acho isso muito positivo para a ciência nacional”, afirmou Mayer.

Segundo o professor, a descoberta mostra que o Nordeste do Brasil é uma região-chave para compreender a história evolutiva dos saurópodes e de outros grupos mais restritos. Esses avanços ampliam o conhecimento sobre a diversidade biológica dos dinossauros no Brasil e no mundo. “A importância da descoberta está em trazer não só um novo personagem, mas também o cenário e uma história, uma biografia para ele”, concluiu.

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POETA E CANTADOR ALDY CARVALHO LANÇA NESTA TERÇA-FEIRA (31)

O Povoado de Caboclo, localizado no município de Afrânio, preserva uma das expressões mais fiéis da arquitetura colonial do sertão, com casario tombado e cenário que remete ao início do povoamento da região. A localidade já serviu de cenário para filme e documentários entre outras atrativos artísticos. Agora ganha as páginas da literatura de cordel. Nesta próxima terça-feira (31), o poeta e cantador petrolinense Aldy Carvalho vai lançar no espaço O Casarão, centro de Petrolina, sua nova obra "Caboclo em Cordel" – lançado pela (Editora Nova Alexandria).

Com ilustrações na linguagem das xilogravuras fiéis aos cenários naturais do povoado, assinadas por João Gomes de Sá, o autor primeiro  traduz  diante seu vasto conhecimento literário e poético endossados por suas publicações de vários gênero, e mais uma vez, entrega sua fidelidade  com abordagens fiéis às suas origens sertanejas, e assim,  destaca com maestria o valor inestimável da  literatura de cordel, patrimônio cultural imaterial brasileiro, valorizada pela sua síntese única de poesia popular, narrativa e arte visual através da xilogravura ."Cordel é vivo, pujante. Por tantos fatos narrados, pela beleza que emana entre cantares rimados. É cultura popular, feita para registrar temas diversificados", assinala Aldy.

Nas primeiras estrofes de sua brilhante narrativa, o poeta e cantador convida o leitor a fazer uma viagem ao túnel do tempo, se transportando para Afrânio e especialmente, a comunidade do Caboclo, cujos versos apontam: "Um lugar privilegiado pelo seu legado histórico/ No Nordeste destacado".

Nas páginas adiante, Aldy traduz com entusiasmo de um poeta a garimpar histórias e memórias de um lugar de pertencimento a um povo sertanejo bravio. Nos versos iniciais, ele conecta Caboclo às suas origens como um lugarejo que "conta histórias do passado e do presente/Que projeta tanto sonhos/Os sonhos de sua gente/ Terra de bons cidadãos/De bons costumes cristãos/ E de futuro pungente.

Natural de Petrolina e  radicado em São Paulo há décadas,  ele nunca perdeu o foco de suas origens de caatingueiro.  Aldy Carvalho mantém sua obra fidedigna às coisas e causos dos Sertões. A ideia do Caboclo em Cordel era um sonho que vinha sendo alimentado por com o auxílio intelectual do arquiteto Cosme Cavalcanti (falecido em 2023) que presidia a comissão de revitalização do Caboclo.

Desde a infância Aldy já vinha arquivando em suas memórias, histórias orais de moradores do lugar. Há poucos anos fez diversas visitas ao povoado, dando início à chamada "narrativa do olhar" alinhando seu povo, costumes, saberes e seus cenários naturais para a textualidade poética".

Através dos versos finais, o poeta arremata seu encantamento para que o leitor também se atine a mergulhar na comunidade em meio à passagem do tempo. "O futuro de caboclo /Depende da juventude /Que herdará dos seus avós/ Coragem, força, atitude/De lutar com valentia/E preservar a alegria/De viver em plenitude/Do povoado de Caboclo/ Você pode ter certeza/Simplicidade e magia/ Completam sua beleza/ Seja velho ou seja novo/ O abraço de seu povo/ É de sua natureza. E assim Caboclo se firma/ Como joia do Sertão/ Pernambuco lhe consagra /O respeite e afeição/ Neste cordel como herança/Se reafirma a esperança/ Guardá-lo no coração.

No prefácio de abertura, a pesquisadora Geida Maria Cavalcanti de Souza direciona o autor para suas origens e arremata que "Poetizar Caboclo fez Aldy sentir-se da terra, enriquecer a tradição oral nordestina. Impossível conhecer Caboclo e não se apaixonar por tudo que esse povoado, localizado no Sertão de São Francisco, tem "tem para oferecer a cada um". 

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SEIS ANOS SEM MEU PAI VALDIR TELES, POR MARIA TELES

Eu não devia ter mais de cinco anos quando sonhei, pela primeira vez, com a perda do meu pai. Era madrugada. O telefone tocava. Do outro lado, a notícia: um acidente de carro havia levado Painho. Acordei assustada — e o medo era tão real que fiz minha mãe ligar para ele naquela mesma hora, só para ouvir sua bênção atravessando a linha e me devolver o chão.

Cresci com esse fantasma. Um pressentimento infantil, insistente, que eu combatia com orações simples, daquelas que só as crianças sabem fazer — diretas, puras, urgentes. Eu pedia a Deus que aquele pesadelo nunca virasse verdade.

E havia razão no medo. Painho viveu décadas na estrada — entre palcos, cantorias, poeiras e noites sem fim. Entre um pé de parede no Ceará e outro na Paraíba, atravessou o tempo e o risco com a viola no peito.

Em 1997, o susto quase se concretizou. Painho estava em um acidente que levou Severino Ferreira, poeta do Rio Grande do Norte, que um ano antes havia cantado no meu batizado. Eu não guardo sua imagem — apenas o eco infinito dos versos que ficaram.

O medo ficou. Virou parte de mim. Um gatilho, uma oração automática, um pedido silencioso: que Deus não me tirasse meu pai. E, de algum modo, Ele não tirou.

Eu temia não crescer ao lado de Painho. Mas cresci. Por 25 anos, vivi um pai inteiro: presente, amoroso, intenso, vivo. Um pai de riso largo, de abraço certo, de palavra firme. Um pai que me deixou lembranças suficientes para sustentar uma vida inteira.

Mas há um dia: 22 de março de 2020. Um domingo que existe — mas não deveria. Naquele fim de tarde, falamos por vídeo por quase quarenta minutos. Lembro de tudo: de sugerir um filme, de contar meus planos, de ouvir os dele, de perceber — ainda que disfarçado — o medo do mundo que começava a se fechar.

Desligamos quase às 18h. Fui tomar banho. Quando saí, a vida já não era a mesma. Em menos de cinco minutos, sem estrada, sem madrugada, sem velocidade — Painho partiu. Descansou. Na sua terra, nos braços de Mainha, na semana de São José. Depois de ver a Serrinha chovida. Depois de pedir um copo de suco.

Há dias que o corpo vive, mas a memória recusa. Dos dias que se seguiram, quase não lembro. E talvez seja misericórdia. Porque não havia espaço para dor dentro de uma história tão cheia de amor. Aprendi, então, que pais não se vão. Pais permanecem. Viram raiz — mesmo quando já são semente.

Hoje, seis anos depois, encontro Painho de outras formas. Na saudade que às vezes me paralisa — e às vezes me levanta mais forte. Na coragem que me sustenta. Na voz que ainda escuto quando o mundo pesa dentro de mim.

Painho segue sendo o começo de tudo que eu sou. E eu sigo tentando fazer da minha história um final digno desse início. Ele me viu crescer, estudar, sonhar. Segurou minhas mãos nos primeiros versos, acreditou nos meus escritos, me ensinou — com firmeza e afeto — a ser quem sou. Foi pai, foi amigo: e hoje é saudade.

Me ensinou que falar bonito importa. Mas viver o que se diz importa mais.

Quando penso na maternidade, dói saber que ele não estará aqui para ver. Mas escrevo. Escrevo tudo que um dia quero contar aos meus filhos sobre o avô que eles não vão conhecer — e que, ainda assim, vai viver neles.

Às vezes, recebendo pessoas em casa, me pergunto o que Painho diria. E tento acolher com o mesmo coração com que o vi abraçar o mundo inteiro. Do lado de cá, ficou uma saudade serena, profunda, agridoce e cristalina. Ficou a presença de um pai que ainda me sustenta. Mas também ficou aquela menina de cinco anos — que sempre soube que perder o pai seria a maior dor da sua vida.

Obrigada por ter sido tanto, Painho. E por continuar sendo esse combustível inesgotável na locomotiva dos meus sonhos. Tua “menina mole” segue tentando ser corajosa, firme, decente e humana. E, se conseguir, será sempre pelo trabalho bonito que o senhor fez na alma dela.

Hoje, ouvi um baião seu que ainda não conhecia, com Hipólito Moura.

E pensei: Eita nêgo cantador gigante Painho foi! Que matuto poeta, meu Deus! Obrigada por essa passagem breve e luminosa — como um cometa.

Que atravessa rápido… mas ilumina para sempre. O senhor é a eternidade que nunca será pequena, é a saudade que não será pretérita. É o verso que sustenta o meu, o mote que eu ainda não soube pagar…

Te amo desde que me entendi por gente.

Continua sendo essa presença que me sustenta e esse amor que me faz melhor. O senhor nunca será sobre os finais de domingos sombrios, mas sobre a festa das suas chegadas em cada segunda feira!

Tua “menina de Valdir”.

Mariana Teles *Advogada e poetisa

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SEMINÁRIIO DEBATE BIOMA CAATINGA

A Prefeitura do Crato, em uma ação conjunta com o Governo do Ceará e diversas instituições parceiras, realiza entre os dias 23 e 28 de março a Semana da Água e da Árvore 2026. Amparado pela Lei Municipal nº 3.440/2018, o evento busca sensibilizar a população sobre a importância da preservação dos recursos naturais, sob o lema instigante: "Quanto vale o verde do verde vale?". A programação deste ano foca na resiliência do bioma Caatinga como peça fundamental no enfrentamento das mudanças climáticas globais, trazendo atividades que unem ciência, educação infantil e mobilização comunitária.

A abertura com reflexão científica marca a segunda-feira, 23, que começa com o pé no chão no Parque Estadual Sítio Fundão, onde alunos da rede pública participarão de uma trilha educativa e rodas de conversa. No período da tarde, o debate ganha um tom técnico no CEJA com o seminário "Estratégias da Caatinga para a Resiliência Climática", reunindo especialistas da URCA, ICMBio, SEMMA e outras entidades.

Ação Prática e Educação (24/03 a 26/03)

A terça-feira, 24, será marcada pelo mutirão de limpeza no Riacho da Matinha, com o apoio do Exército Brasileiro (Tiro de Guerra), focando na saúde dos nossos corpos hídricos. Na quinta-feira, 26, as atenções se voltam para a educação infantil com o plantio de espécies nativas no CEI Eliza Jacinto e a apresentação do Projeto Horta no CEI Ailza Gonçalves Felício, em parceria com a SAAEC. O objetivo é integrar segurança alimentar e sustentabilidade desde os primeiros anos escolares.

Inovação e Reflorestamento (27/03)

A sexta-feira, 27, reserva um dos momentos mais simbólicos da semana: a inauguração da sede da Brigada Municipal de Incêndios no Sítio Caiana, acompanhada de um mutirão de plantio. Simultaneamente, no Sítio Fundão, será realizada a ação de lançamento de "bombas de sementes" para recuperação de áreas degradadas.

A tecnologia também será protagonista no Geopark Araripe, com uma oficina sobre o uso de drones para monitoramento ambiental, demonstrando como a inovação pode ser aliada da conservação.

O encerramento acontece no sábado, no Sítio Urbano do Gesso, com uma oficina prática sobre inseticidas naturais, voltada para a comunidade local, promovendo alternativas ecológicas para o cultivo urbano.

O evento tem como instituições parceiras a SEMA, SAAEC, ICMBio, URCA, Geopark Araripe, SESC, SENAC, Exército Brasileiro, ACCOA, ACAFA, CEPAN, Biruta da Terra, GEAS, entre outros coletivos e secretarias municipais.

Serviço-Semana da Água e da Árvore 2026

De 23 a 28 de março

Locais: Sítio Fundão, Sítio Caiana, Escolas Municipais, Geopark Araripe e Sítio Urbano do Gesso

Público: Estudantes, pesquisadores e comunidade em geral

A programação completa será disponibilizada nas rede sociais oficiais da Prefeitura do Crato

Por Elizangela Santos

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FILÓSOFOS ANALISAM CLIMA DE COPA COM PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NO OSCAR

A final da Copa do Mundo 2026 será em 19 de julho, mas, no Brasil, o clima já está instaurado – só que em razão do cinema. Com o país disputando a 98ª edição do Oscar em cinco categorias – quatro com “O agente secreto” e uma com Adolpho Veloso, diretor de fotografia de “Sonhos de trem” –, bares, restaurantes e boates estão organizando eventos para acompanhar a transmissão da cerimônia, na noite deste domingo (15).

A convocação à “torcida organizada” se repete em diversas outras cidades do país. No ano passado, com “Ainda estou aqui” em campo, não foi diferente – a vitória do longa de Walter Salles como Melhor Filme Internacional, conquistando a primeira estatueta do país, foi comemorada como um gol decisivo.

Kleber Mendonça Filho diz que campanha de 'O agente secreto' ao Oscar 'nunca pareceu eleição'

Há um consenso, em espaços de reflexão sobre fenômenos sociais contemporâneos, como a academia, de que as razões que justificam o frisson em torno da presença brasileira no Oscar extrapolam os filmes em si.

Rosto do ator Wagner Moura, no filme O agente secreto, está no centro da Bandeira do Brasil levada por foliões do bloco Pitombeira, no carnaval do Recife

Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Verlaine Freitas destaca o aspecto da identidade nacional, ou seja, o desejo socialmente compartilhado de que um representante cultural brasileiro seja mundialmente reconhecido.

“Por esse lado, parece-me que virtualmente qualquer filme, seja com conteúdo político, como estes dois brasileiros recentes, ou algum outro, despertaria o mesmo entusiasmo na corrida para o Oscar”, diz. Ele pondera, contudo, que tanto no caso de “O agente secreto” quanto no de “Ainda estou aqui”, o ingrediente político é determinante, já que ambos denunciam o autoritarismo da época da ditadura militar brasileira.

Verlaine Freitas observa que, junto com a premiação do filme como produto cultural, como obra de arte, há também o reconhecimento do valor da mensagem política de luta contra as injustiças, a destruição da democracia ou o atentado aos direitos humanos.

“Se isso procede, é de se supor que essa torcida por 'O agente secreto' no Oscar se dê muito mais entre pessoas identificadas com a esquerda do que com a direita política”, pontua.

Também professor do Departamento de Filosofia da Fafich, Helton Adverse endossa a avaliação de Freitas. Segundo ele, além da apreciação estética, há fatores políticos, sociológicos, antropológicos e até psicológicos determinantes da modo como a presença de “O agente secreto” no Oscar é percebida.

“Esse clima de Copa do Mundo, de torcida, tem a ver com o fato de a sociedade estar fortemente politizada e, portanto, forçosamente marcada pela divisão, isso a que se tem chamado de polarização, e que se reflete sobre todo o corpo social”, diz.


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COLETIVO QUILOMBOLAS LANÇA DOCUMENTÁRIO E PEDE PROTEÇÃO

 Ter quer deixar a própria casa, não dormir em paz, temer pela própria segurança e da comunidade. No documentário “Cafuné”, lançado nessa quinta-feira (12) pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), relatos evidenciam a urgência de uma política de proteção eficaz a defensoras dos direitos humanos que vivem em comunidades tradicionais em todo o país. 

Realizado por iniciativa da entidade, o filme foi dirigido por Gabriela Barreto, Maryellen Crisóstomo e Nathália Purificação e faz parte de um projeto mais amplo (de mesmo nome) das representantes quilombolas a ser entregue ao governo federal. A iniciativa integra estratégia de sensibilização do poder público, incluindo também o Congresso Nacional. 

O nome "Cafuné" para o projeto (e para o filme) refere-se à tentativa de proporcional algum tipo de aconchego às mulheres que vivem permanentemente em risco, ameaçadas por conflitos agrários e pelas vulnerabilidades com a deficiência de políticas públicas.

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ALCEU VALENÇA COMEMORA 80 ANOS

As oito décadas de vida do cantor e compositor Alceu Valença vão ser comemoradas com a turnê 80 Girassóis, que estreia no próximo sábado (14), no Rio de Janeiro. Em seguida, o emblemático representante da música pernambucana seguirá para São Paulo, Salvador, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Recife, Fortaleza, Belém e Belo Horizonte, com patrocínio master do Banco do Brasil. 

Os shows estão programados para ocorrer até junho, e Alceu completará os 80 anos em 1º de julho.

“Esta turnê vai ser uma maravilha. Está sendo muito bem projetada pela minha esposa, Yanê [Montenegro], e Júlio Moura. A gente tem sócios em vários estados para fazer esta turnê”, disse Alceu em entrevista à Agência Brasil. 

O show deste fim de semana será na Farmasi Arena, na Zona Sudoeste da capital fluminense. Com Alceu, estarão no palco os músicos Tovinho (teclados e direção musical), Cássio Cunha (bateria), Zi Ferreira (guitarra), Nando Barreto (baixo), André Julião (sanfona), Costinha (flautas) e participação ainda de Lui Coimbra (violas e violoncelo) e Natalia Mitre (percussão). 

Alceu contou que a temporada é resultado de seis meses de ensaios, tudo gravado em áudio e vídeo, e destacou as projeções que vão ser exibidas durante as apresentações. 

“Esse show tem umas projeções incríveis feitas por Rafael Todeschini. A Yanê participa também. Projeções simplesmente maravilhosas, e, dentro desse acervo meu, até minha mãe e meu pai vão aparecer”.

A todos que o perguntam sobre a ação do tempo em sua vida desde quando era menino, em São Bento do Una, Alceu conta que vive no presente, passado e futuro, em uma Embolada do Tempo, que é o título de uma das suas músicas. Durante a entrevista, ele declama parte da letra. 

“O tempo em si/ Não tem fim/ Não tem começo/ Mesmo pensado ao avesso/ Não se pode mensurar”.

E continua: "Buraco negro/ A existência do nada/ Noves fora, nada, nada/ Por isso nos causa medo". "Tempo é segredo/ Senhor de rugas e marcas/ E das horas abstratas/Quando paro pra pensar". "Você quer parar o tempo/ E o tempo não tem parada".

A turnê não se restringe aos shows. Algumas das cidades por onde ela passar também receberão exposições de artes plásticas e sessões de filmes. Alceu destacou que é cineasta e já fez participações como ator em diversas produções. 

“Fiz o papel principal no filme de Sérgio Ricardo [também cantor e compositor] A Noite do Espantalho. Depois, fiz um filme chamado A Luneta do Tempo”, contou.

O cantor acrescentou que tem um acervo grande de filmes realizados em diversos países como França, Alemanha, Suíça, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Brasil. 

“Eu sempre gostei da arte de cinema e levava câmeras comigo. Tenho muita coisa. São outras partes do meu trabalho. Não é só a música. É a trajetória”. 

Seleção das músicas - A escolha das músicas, segundo Alceu, seguiu um método que ele próprio definiu: encadeá-las conforme os temas de cada uma.

“É uma narrativa poética. Por exemplo, Martelo Agalopado, que é uma música que advém do cantador, faz parte da cultura do sertão profundo, onde nasci, em São Bento do Una. Logo depois, vem o repertório de Luiz Gonzaga, porque ele faz parte disso e se completa. Outra, é de quando eu era criança e gostava de correr de Cavalo de Pau [nome de uma das músicas ]”, descreveu. 

O lado folião não podia faltar e está representado, tanto na presença que costuma ter em Olinda como em shows de trios elétricos no período da folia. Em São Paulo, há mais de dez anos, e no Recife, em um período mais recente, ele comanda o bloco Bicho Maluco Beleza, arrastando 1 milhão de pessoas. 

Também estará na turnê o "Alceu caminhador", o cara que vive aqui e lá. “Coração Bobo eu compus em Paris, quando morei lá, com saudade muito grande de Jackson do Pandeiro e Geraldo Azevedo. Tem uma outra que compus falando sobre ruas, Pelas ruas que andei, e falo das ruas do Recife. Tem uma com lembranças de Nova York, que compus aqui, no Rio de Janeiro”, relatou.

Anunciação-O processo para compor as suas obras é diverso e, na música Anunciação, ele o classifica como um surto criativo. Alceu revelou que, andando em Olinda, criou uma música na flauta com que estava aprendendo a tocar. Quando entrava em casa, uma moça elogiou o que tinha ouvido.

"'Alceu que música bonita que você estava tocando? Que coisa mais linda’. 'Você achou?' Perguntei. A música ia se perder se ela não tivesse falado”, afirmou.

Ao chegar na cozinha, Alceu pegou um papel de pão e começou a fazer a letra, escrita a lápis, de Anunciação. 

O artista contou que existem diversas postagens nas redes sociais de pessoas que relatam a ligação dessa música com o nascimento de crianças.

“Olha o que eu encontro! Se você sair comigo por aí, todo dia é a mesma coisa. Mulheres dizendo que tinham dificuldades, e o filho nasceu [ao som da música], outras que não tinham. Tem quem diz que fez o parto ouvindo a música e crianças pequenas que dizem que ouviam desde que estavam no bucho [barriga da mãe]. Tô brincando”, disse sorrindo. 

Alceu comemora os números de acessos das suas músicas na plataforma de streaming de áudio Spotify, na qual Anunciação alcançou 200 milhões. Já no YouTube, Belle de Jour conta com mais de 300 milhões. 

A inspiração é uma marca de projetos que Alceu participou ao longo da vida. Mesclando o clássico com o popular, sua jornada tem concertos com orquestras do Brasil e do exterior. 

“Eu advenho da cultura do sertão pernambucano profundo. Lá, eu ouvia aboios, toadas de vaqueiros”, recordou. 

Essa trajetória quase seguiu outro caminho: Alceu quis ser advogado e fazer concurso para promotor. Chegou a se formar, mas não seguiu na carreira, confirmando uma frase que lembra ter ouvido da mãe, que dizia que ele veio ao mundo para levar alegria às pessoas.

“Coisa boa que se confirmou, porque se não tivesse se confirmado, seria chato para ela e para mim”. 

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TOADA ASA BRANCA COMPLETA 79 ANOS DA PRIMEIRA GRAVAÇÃO

A letra da música Asa Branca completa nesta terça-feira (3) 79 anos da gravação na voz de Luiz Gonzaga. No dia 3 de março de 1947 Luiz Gonzaga gravava pela primeira vez nos estúdios da RCA, no Rio de Janeiro, a canção que ficaria imortalizada como hino dos nordestinos. Uma composição dele com então advogado, nascido em Iguatu, Ceará,  Humberto Teixeira continua no imaginário do povo brasileiro.

A gravação foi acompanhada pelo grupo de Regional do Canhoto. Ao fim do trabalho, Canhoto, líder do grupo, olha para Luiz Gonzaga e diz que a "letra era música para cego pedir esmolas". A história conta que o músico saiu dos estúdios e zomba com um chapéu pedindo esmolas ao som da canção. Mal sabia Canhoto que Asa Branca iria ser um nos maiores sucessos da música brasileira.

A letra Asa Branca, de Humberto Teixeira, recebeu até elogios e uma reflexão do escritor José Lins do Rego: é um dos mais belos versos da literatura brasileira.

O professor e historiador Armando Andrade diz que a identidade do cantor se confunde com a letra de Asa Branca. É nela que se misturam o homem, a música e seu povo. "A partir de Asa Branca o Brasil viu o drama através da voz do próprio nordestino. É dessas coisas que a poesia e a literatura conseguem fazer, transportar através da linguagem as pessoas a vivenciar a dor do outro" diz.

Outra característica marcante de Asa Branca é a saudade do amor perdido com o exílio forçado devido a seca. Se os clássicos traziam as guerras como o motivo da partida do homem e a promessa de volta para o grande amor, em Asa Branca, é a seca que expulsa o homem e a ave, numa metáfora que se estende à condição humana.

"Talvez aí resida a universalidade e aceitação pelo grande público, além de retratar a real condição das famílias nordestinas. A promessa da volta do homem para seu grande amor está presente desde a literatura grega, como a Odisséia. É um tema universal com que todos se identificam", diz Armando Andrade.

A força de Asa Branca pôde ser vista em 2009, quando a Revista Rolling Stone Brasil, publicou uma lista com as 100 maiores músicas da história do país. Um honroso 4º lugar, ficando atrás de clássicos como Carinhoso, Águas de Março e Construção. 

O tempo passou e Asa Branca segue inspirando artistas de outras gerações. Anderson do Pife, que mora em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, diz que enquanto estudante de música, acredita que a letra é parte de um método brasileiro de ensino de música popular. "Essa melodia composta por conjuntos e de fácil execução, traduz o início de uma trajetória musical para quase todos os que iniciam seus estudos com ou sem ajuda de profissionais da área", diz.

Ele disse ainda que a música retrata poesia, cotidiano, paisagem e todo o referencial histórico do Nordeste. "Eis o hino do Nordeste e a primeira música que aprendi a tocar. Essa é a força que representa a Asa Branca em minha vida", finaliza.

O professor doutor em Ciência da Literatura, Aderaldo Luciano, ressalta que o  "Nordeste continua existindo caso Luiz Gonzaga. Tem a mesma paisagem, os mesmos problemas, comporta os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões".

De acordo com o pesquisador mais que ninguém, Luiz Gonzaga brindo com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. 

"Luiz Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores. O seu peito abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali, buscando eternidade", finalizou Aderaldo.

Redação redeGN Fotos Arquivo Ney Vital

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ANA DAS CARRANCAS, A DAMA DO BARRO VOLTA A GANHAR DESTAQUE COM LANÇAMENTO DE LIVRO

A obra e a trajetória da Dama do Barro, Ana das Carrancas, voltam a ganhar destaque no livro “Curadoria, memória e contemporaneidade: reflexões sobre a exposição Os Olhos Cegos do Rio”, de autoria de André Vitor Brandão. A publicação será lançada também nas versões em audiobook e e-book no dia 3 de março, às 19h, no Museu Ana das Carrancas. Na oportunidade, também será lançado o documentário “Ser mulher, ser Negra, Ser Nordestina”, de Raquel Marques, neta da artista.

“O livro propõe uma investigação sensível e crítica sobre a produção artística de Ana das Carrancas, articulando sua trajetória criativa às dimensões simbólicas do território, da memória e da cultura ribeirinha”, explica o autor.

A obra, fruto da graduação do autor em Licenciatura em Artes Visuais, apresenta uma análise dos processos que envolveram a construção da exposição, desde a concepção curatorial até as estratégias educativas e as escolhas expográficas, evidenciando os diálogos entre tradição e contemporaneidade.

Ao longo do livro, Brandão estimula o debate sobre as práticas curatoriais no contexto nordestino e reafirma a potência da arte como campo de resistência, identidade e reinvenção cultural.

A publicação conta com o incentivo do Funcultura. O lançamento da obra em suas três versões conta acontece com o incentivo da Lei Paulo Gustavo do município de Petrolina. O projeto tem a realização da Qualquer um dos 2 Produções Artísticas, apoio do Sesc Petrolina e do Museu Ana Das Carrancas. O evento terá tradução simultânea em Libras, a Língua Brasileira de Sinais

O Autor -  André Vitor Brandão é doutorando em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares (UPE), mestre em Educação, Cultura e Territórios Semiáridos (UNEB), especialista em Dança Educacional e Artes Cênicas (CENSUPEG) e licenciado em Artes Visuais (Univasf). Investiga como a arte produzida no Vale do São Francisco desenvolve metodologias decoloniais que tensionam e rompem com imposições e opressões históricas sobre o território. Suas pesquisas atravessam ecologias, cosmologias, resistências, estéticas e memórias da região. Atua nas áreas de dança, artes visuais, gestão cultural e curadorias contemporâneas.

Serviço: Data: 3 de março

Horário 19h

Local: Museu Ana das Carrancas (R. Martiniano Cândido Silva – Cohab Massangano)


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SEGUNDO GRITO SALVE A CHAPADA ACONTECE NO CRATO, SÁBADO (28)

 É ali no caminho de Luiz Gonzaga, no rumo da descida de Exu, Pernambuco para o Crato, Ceará que o Movimento Salve a Chapada do Araripe dará o segundo grito do ano, no sábado (28). O fole vai roncar em nome da causa mais urgente. É grito agora ou deserto logo mais. O evento acontece às 8h na Praça Siqueira Campos, Crato – CE

O jornalista Xico Sá alerta que Uma das áreas de proteção ambiental mais devastadas do país, a região da Chapada do Araripe vive mais uma nova ameaça — nem tão nova assim — de grupos pesados do agronegócio. Com latifúndios prontinhos para o cultivo da soja, a “caixa d´água do sertão”, como é definida a chapada, corre perigo.

"Oásis de umidade que junta as terras do Ceará, Pernambuco e Piauí, o fim da mata seria um desastre para o Nordeste. Quase uma atualíssima Guerra dos Bárbaros (1683–1713), aquela que dizimou os Kariris e outros povos indígenas das nossas bandas. Um dos lugares mais importantes do Nordeste, a Chapada do Araripe, que abrange os territórios de Ceará, Pernambuco e Piauí, está sob ameaça. O agronegócio predador está devastando um local tido como “oásis” no meio do sertão", diz Xico Sá.

Segundo o Relatório Anual de Desmatamento (RAD 2024) do MapBiomas, a  Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe registrou 5.965 hectares desmatados, se tornando a terceira unidade de conservação mais desmatada do país, em 2024. 

Os dados do ano passado (2025) ainda não foram contabilizados, mas matérias na imprensa já indicam aquisição de aproximadamente 30 mil hectares para o agronegócio, podendo chegar a 100 mil. E tudo isso com apoio do Governo do Estado e dos seus órgãos de fiscalização. 

"A quem interessa esse “desenvolvimento”? Interessa ao povo do Cariri? De onde virá a água? Quais serão os impactos causados pelo despejo indiscriminado de agrotóxicos? A gente se une nesse chamado pela defesa deste patrimônio do Brasil. Vamos salvar a Chapada do Araripe", conclama os movimentos sociais!

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BIOMA CAATINGA: AÇÃO CIVIL PÚBLICA SOLICITA QUE TODAS AS LICENÇAS AMBIENTAIS SEJAM CONDICIONADAS AO ICMBio

 O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP) com pedido de urgência para que todas as licenças ambientais concedidas na Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe sejam condicionadas à análise prévia e à manifestação técnica obrigatória do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Na ação, o MPF sustenta que a medida é necessária diante do avanço considerado crítico do desmatamento na região. Segundo o órgão, o atual modelo de licenciamento tem ocorrido de forma fragmentada, com municípios e o Estado analisando empreendimentos apenas dentro de seus limites territoriais, sem considerar os impactos cumulativos sobre o ecossistema da Chapada, que é ambientalmente indivisível.

De acordo com o documento apresentado à Justiça Federal, a ausência de uma avaliação integrada compromete os objetivos de preservação da unidade de conservação. O MPF aponta ainda que muitos municípios enfrentam limitações estruturais e técnicas, recorrendo a mecanismos autodeclaratórios sem fiscalização efetiva.

“Esse cenário é potencializado pela falta de estrutura e pela incapacidade técnica da maioria dos municípios, que utilizam de forma indiscriminada mecanismos auto declaratórios sem qualquer fiscalização efetiva”, destaca o MPF na ação.

Licença só com anuência do ICMBio-Entre os principais pedidos formulados pelo Ministério Público está a obrigatoriedade de que o ente local — seja município ou Estado — só emita licença ambiental mediante anuência expressa e favorável do ICMBio. Caso o parecer técnico do órgão federal seja contrário, o licenciamento deverá ser obrigatoriamente indeferido.

Pela proposta, caberá ao ICMBio emitir parecer técnico avaliando a compatibilidade do empreendimento com:

 A integridade ecológica da unidade de conservação;

 Os objetivos que fundamentaram sua criação;

 As diretrizes estabelecidas no Plano de Manejo da APA.

A ação está sob análise da Justiça Federal.

Patrimônio estratégico do Nordeste

A Chapada do Araripe é considerada estratégica para o Nordeste brasileiro. Além de seu reconhecido patrimônio geológico e paleontológico, a área desempenha papel fundamental no equilíbrio climático e no ciclo hidrológico da região.

A APA abrange territórios dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, reunindo uma das maiores riquezas fossilíferas do país e importante biodiversidade da Caatinga.


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O JORNALISMO QUE IGNORA OU DISTORCE FATOS É TUDO, MENOS JORNALISMO, DIZ RICARDO NOBLAT

Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.

Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição. A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.

Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.

Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.

A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.

Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.

Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.

Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.

A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.

Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?

Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.

O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.

Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.

Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.

Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.

Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.

Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.

É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.


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EVENTOS DA CULTURA ESTÃO SENDO ENGOLIDOS PELA CULTURA DE EVENTO, DIZ PESQUISADOR

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas nasceu, literalmente, em um terreiro. Neto de uma ialorixá alagoana que se mudou para o Rio de Janeiro, onde abriu um terreiro, o autor de Samba de enredo — História e arte, escrito em parceria com Alberto Mussa, e O corpo encantado das ruas e Maracanã — Quando a cidade era terreiro, Simas gosta de falar em religiões de matriz europeia para se referir ao cristianismo e diz que a fé é um problema do Ocidente, que a inventou.

 "Fui a clássica criança de terreiro. O que você experiencia como criança se naturaliza na sua vida. E um elemento básico da minha vida, da minha formação, da minha realidade foi esse: cresci sendo civilizado pelas culturas de terreiro, a ponto de costumar dizer uma pequena provocação: a fé foi um problema existencial e filosófico que o Ocidente colocou e vocês que se virem com ela."

Pensador e historiador da música, em especial o samba, e das manifestações culturais brasileiras, com olhar afetuoso para o carnaval, Simas acredita que a folia é um momento de vivência da experiência humana coletiva, mas passou por mudanças nos últimos anos que reconfiguraram alguns de seus aspectos. No Sambódromo, por exemplo, há excesso de empreendedorismo e falta de povo. Nas ruas, o movimento cresceu com bloquinhos e cordões, mas o folião já não quer mais se esconder atrás da fantasia, como antigamente, e necessita ser visto e identificado.

 "O carnaval é um evento da cultura, tem uma organicidade que é muito importante. Uma escola, um bloco, não existem porque desfilam, eles desfilam porque existem. Isso faz uma diferença enorme. Só que estamos vivendo uma fase em que os eventos da cultura estão sendo engolidos pela cultura do evento", diz o pesquisador, que é um dos autores do samba-enredo Lonã Ifá Lukumi (ou enredo sobre o oráculo Ifá), que embalou o desfile do carnaval de 2026 da escola Paraíso do Tuiuti.

Para Simas, os sambas-enredo devem ser analisados como documentos históricos e estão profundamente ligados às conjunturas brasileiras da época em que foram criados. Ele diz, por exemplo, que o início do século 21 foi de abundância de dinheiro para as escolas de samba. O país passava por momento de prosperidade econômica e grandes corporações investiram em patrocínios que renderam até sambas-enredo, caso da Varig e da Tam Linhas Aéreas, ambas temas dos sambas da Beija-Flor e do Salgueiro no carnaval de 2002.

 "Uma disputa pelo mercado de propagandas da aviação civil. Isso cria uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que o dinheiro estava jorrando, a qualidade dos enredos caía, e isso repercute na qualidade do samba- enredo, que é feito sob encomenda", diz Simas. 

A crise que veio entre 2015 e 2017 teve o efeito oposto: a situação financeira das escolas piorou, mas a qualidade dos sambas melhorou.

 "O Brasil mergulhou numa crise política e econômica, a crise das commodities, o processo de impeachment da Dilma, depois Temer e Bolsonaro, o Rio teve um prefeito, Marcelo Crivella, de designação religiosa que demoniza explicitamente o carnaval, ele se vangloriava de ter sido exorcista na África. Imagina! Paradoxalmente, isso melhorou a qualidade dos enredos, porque as escolas passaram a apostar em enredos com densidade cultural maior, e isso repercute na melhoria dos  sambas", explica.

Em entrevista, Luiz Antonio Simas reflete sobre o carnaval de hoje, as contradições entre a festa e as denominações religiosas que a condenam e a importância das manifestações populares para a cultura brasileira. 

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BEATRO JOSÉ LOURENÇO COMPLETARIA NESTA QUINTA-FEIRA 80 ANOS DE NASCIMENTO

 Em celebração aos 80 anos de morte do Beato José Lourenço, o Centro Cultural Daniel Walker recebe, no dia 12 de fevereiro, às 14h, a palestra "Os últimos dias do Beato José Lourenço", que propõe uma reflexão histórica sobre a trajetória de uma das figuras mais emblemáticas da religiosidade e da resistência social no Cariri. O evento é realizado pela Prefeitura de Juazeiro do Norte, Ceará, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio do Instituto Cultural do Vale Caririense e do Cariri das Antigas.

O encontro contará com a participação dos palestrantes Bibi Saraiva, historiador de Exu (Pernambuco); Mazé Sales, pesquisador e descendente de remanescentes do Caldeirão; e Antônio Santos, pesquisador. Após a palestra, os participantes serão convidados a participar de uma missa em sufrágio da alma do Beato José Lourenço, na Capela do Socorro, seguida de visita ao túmulo.

Nascido em Pilões, Paraíba, José Lourenço foi líder da comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, experiência comunitária desmantelada pelo Governo do Estado do Ceará em 1936. Em maio de 1937, o acampamento de remanescentes foi atacado pela polícia, em uma ação que resultou em um número estimado de 200 a 1.000 mortos, episódio marcado como um dos mais violentos da história social do Nordeste. A atuação do Beato José Lourenço foi pautada e incentivada pelo Padre Cícero. Ao falecer, em 1946, manifestou o desejo de ser sepultado em Juazeiro do Norte, desejo que foi atendido.

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Fotógrafo brasileiro vence prêmio internacional com ensaio sobre água e identidade

 O fotojornalismo brasileiro obteve reconhecimento internacional no concurso de histórias fotográficas “Walk of Water”, realizado pela organização OneWater junto à UNESCO. João Alberes, de 23 anos, faturou o Prêmio Regional América Latina e Caribe na categoria Juventude. A iniciativa internacional busca promover reflexões quanto aos significados da água através de imagens.

A conquista reconhece a série fotográfica “Onde a Água Mora”. O trabalho foi desenvolvido no município de Feira Nova, cidade natal de João. Situada no agreste Pernambuco, a cerca de 77 quilômetros de Recife, as imagens trazem um olhar sensível e profundo sobre a relação entre água, território e identidade no interior do nordeste brasileiro. Os trabalhos premiados passam a integrar exposições internacionais em espaços como a Conferência da ONU, em Nova Iorque, e o Quartel-General da UNESCO, em Paris.

Imagens como a do pescador José Firmino, que navega em seu pequeno barco em reservatório artificial de água, destaca histórias de um cotidiano marcado pelos desafios de acesso à água, o que termina por revelar narrativas de resiliência e pertencimento.

O ensaio traz à tona como a água é capaz de moldar modos de vida, práticas culturais e mesmo a permanência de comunidades em seus territórios. O fotógrafo conta que o título do trabalho nasceu da relação íntima entre território, vida e sobrevivência, e explica que a série integra uma pesquisa autoral mais ampla. “Ao ver a convocatória do concurso, decidi submeter a imagem de Seu Zemir, que mora literalmente à beira da barragem e tira da pesca o seu sustento. Fiquei muito surpreso e emocionado com esse prêmio. Feliz demais”, conta Alberes.

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DIA DO FREVO

 Dia do Frevo, 09 de fevereiro. Confira texto do músico Antonio Nobrega:

Comemora-se o dia do frevo. O frevo foi elevado à condição de patrimônio imaterial da humanidade. Como se vê, o frevo está em alta. Mas frevo para quê? Por que frevo?

Foi o escritor Ariano Suassuna quem, indiretamente, apresentou-me a ele. Com seu convite para integrar o Quinteto Armorial, dei início a uma viagem de aprendizado dos cantos, danças e modos de representar presentes em manifestações populares como o reisado, o maracatu, o caboclinho e sobretudo o frevo.

Com o passar dos anos, esses aprendizados foram se conectando a estudos e reflexões sobre a cultura brasileira em geral e a popular em particular. Esse casamento entre conhecimento empírico e teórico foi conduzindo-me à constatação de que vivemos num país que reluta em aceitar-se integralmente.

Que outra razão para tal desperdício de insumos culturais tão vastos e de tão imensa riqueza simbólica como o nosso reservatório de ritmos presente em batuques, cortejos e folguedos; de formas e gêneros poéticos –quadrões, décimas, galope à beira-mar; de passos e sincopados armazenados no nosso imaginário corporal popular?

E o que temos feito com tudo isso? Empurrado para o gueto da chamada cultura folclórica, regional ou popular, falsamente antagonizante daquela que se convencionou denominar de cultura erudita. Há mais de cem anos que a "entidade" frevo vem despejando no país, especialmente em Recife, volumoso material simbólico.

Esse "material" foi se formando dentro daquilo que venho denominando de uma linha de tempo cultural popular brasileira. Essa "entidade" frevo materializou-se por meio de um gênero de música instrumental, o frevo-de-rua, orgânica forma musical onde palhetas e metais dialogam continuamente, ancorados pela regular marcação do surdo e a sacudida movimentação da caixa; uma dança, o passo do frevo, imenso oceano de impulsos gestuais e procedimentos coreográficos; e dois gêneros de música cantada: o frevo-canção e o frevo-de-bloco, cada um com características particulares tanto de natureza poético-literária quanto musical. Um valioso armazém de representações simbólicas.

Mais do que preservar o frevo, nossa tarefa está em amplificar, dinamizar, trazer para a órbita de nossa cultura contemporânea os valores, procedimentos e conteúdos presentes nessa "instituição" cultural.

Essa ação amplificadora poderia abranger escolarização musical – por que não se estuda frevos em nossas escolas de música?–; a prática da dança – a riqueza lúdica e criadora proporcionada pelo seu multifacetário estoque de movimentos–; a valorização de modelos de construção e integração social advindos do mundo-frevo. Tudo isso ajudaria ao Brasil entender-se melhor consigo mesmo e com o mundo em que vivemos.

O frevo é uma das representações simbólicas mais bem-acabadas e representativas que o povo brasileiro construiu. Assim como o samba, o choro, o baião, uma entidade transregional cuja imaterialidade poderemos transmudar em matéria viva operante se tivermos a suficiente compreensão do seu significado e alcance sociocultural.

Antonio Nobrega-músico, brincante da música brasileira, da dança, do teatro e do 'universo do circo, da criança e da cultura popular

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UFRGS ADOTA MANUAL COM ORIENTAÇÕES PARA COMUNICAÇÃO ANTIRRACISTA

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciou a ampliação da política interna de equidade racial. A instituição seguirá as diretrizes de comunicação presentes no Manual de Boas Práticas Antirracistas na Comunicação Digital, elaborado pela Rede Jornalistas Pretos em conjunto com o Instituto Peregum.

O documento reúne orientações para combater estereótipos, desinformação e discursos discriminatórios no ambiente digital. Segundo a UFRGS, a iniciativa busca ampliar a presença, o protagonismo e a voz da população negra nos meios de comunicação da universidade.

O processo envolveu jornalistas e estudantes de Jornalismo negros do Rio Grande do Sul e contou com apoio do Sindicato de Jornalistas Profissionais do estado (SindJoRS), da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI) e do curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico/UFRGS).

Entre os princípios adotados pela universidade estão:

a seleção de bancos de imagens que não reforcem visões eurocentradas;

a consulta a coletivos e especialistas para qualificar abordagens;

a garantia de protagonismo às pessoas negras;

o respeito à autoidentificação racial, de gênero e etnia.

As diretrizes também orientam a evitar estereótipos, sobretudo em coberturas policiais, o uso responsável e contextualizado de imagens sensíveis, a análise crítica do que é visibilizado ou invisibilizado nas fotografias, e a promoção de diversidade real nas representações.

Outro ponto central é a ampliação do banco de fontes sugeridas para entrevistas, com a inclusão de especialistas negros, indígenas e de outros grupos minorizados. O objetivo é evitar a repetição sistemática de referências exclusivamente brancas.


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JOAO SERENO HOMENAGEIA LENDAS DA TERRA DA ALEGRIA-JUAZEIRO BAHIA

Juazeiro, no norte da Bahia, acaba de presentear o Brasil com mais uma novidade musical. O SomGon, ritmo criado pelo músico João Sereno, fez sua estreia no Carnaval antecipado da cidade e já desponta como forte candidato a embalar os próximos festejos pelo país.

Com uma batida de matriz ternária — dançante, envolvente e impossível de ignorar —, o SomGon chega para somar à rica tradição musical de uma terra que já deu ao mundo nomes como João Gilberto, pai da Bossa Nova, e Ivete Sangalo, rainha do axé.

E foi justamente para celebrar essa herança que João Sereno construiu o lançamento do novo ritmo em forma de tributo. Durante a apresentação, o artista prestou homenagens a figuras que moldaram a identidade cultural juazeirense: a dupla Neto e Mundinho, o composito Galvão, o cantor e comporitor Mauriçola, o sanfoneiro Raimundinho do Acordeon, o compositor irreverente Manuka Almeida e Targino Gondim — músico consagrado que atualmente ocupa a Secretaria de Cultura do município.

Uma cidade que exporta alegria

Não é por acaso que Juazeiro carrega o título de "Terra da Alegria". Às margens do Rio São Francisco, o município sempre foi celeiro de artistas que levaram o nome da Bahia para além das fronteiras. Agora, com o SomGon, João Sereno reafirma essa vocação e propõe um som que dialoga com o passado, mas olha para o futuro.

"O ritmo já nasce com identidade própria, mas carrega no DNA tudo o que a gente aprendeu ouvindo os mestres daqui", resume o cenário quem acompanhou de perto a recepção calorosa do público durante o Carnaval.

O que esperar

Com potencial para trilhas de festa, mas também para composições mais elaboradas, o SomGon se apresenta como gênero versátil. A expectativa é que novos artistas abracem a proposta e ajudem a expandir o repertório do ritmo nos próximos meses.

Juazeiro, mais uma vez, mostra que sua música não conhece fronteiras.


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MUITO ALÉM DA FOLIA: DESCUBRA JUAZEIRO, O DESTINO QUE ENCANTA NO CARNAVAL

Juazeiro é muito mais do que palco de um dos carnavais mais vibrantes do interior da Bahia. Localizada às margens do Rio São Francisco, a cidade recebe quem chega com sol o ano inteiro, paisagens encantadoras e um povo acolhedor, que transforma cada visita em uma experiência inesquecível. Durante o Carnaval, essa energia se multiplica, misturando festa, cultura, sabores e natureza em um só destino.

Entre um trio elétrico e outro, Juazeiro convida o visitante a desacelerar e explorar sua rica história, marcada por personagens importantes da música e da cultura brasileira, além de espaços que preservam a memória e a identidade do Vale do São Francisco. Museus, centros culturais, mercados tradicionais e monumentos à beira-rio ajudam a contar a trajetória da cidade e fortalecem o sentimento de pertencimento de quem passa por aqui.

Para completar, o lazer se espalha por ilhas, orlas, praças e parques, com opções que vão do descanso à aventura. Gastronomia diversa, passeios fluviais, esportes aquáticos, enoturismo e experiências no campo fazem de Juazeiro um destino completo, perfeito para quem vem pelo Carnaval e acaba ficando pelo encanto do Velho Chico.

HISTÓRIA E CULTURA

Paço Municipal de Juazeiro – Seculte (Centro)

Memorial Casa da Bossa Nova (Centro)

Estátua de João Gilberto (Orla II)

Estátua do Nego D'água (Angari)

Vapor Saldanha Marinho – "Vaporzinho" (Orla II)

Mercado Joca de Souza Oliveira (Centro)

Acervo Maria Franca Pires (UNEB – São Geraldo)

Aqueduto do Horto Florestal (UNEB – São Geraldo)

Museu Regional do São Francisco, terça a sexta-feira das 14h as 18h (Centro)  

SOL E RIO

Ilha do Fogo


Ilha do Rodeadouro


Ilha de Nossa Senhora


Prainha da Orla II (Marinha)


Ilha do Massangano (Petrolina)


Ilha do Maroto


Cachoeira do Salitre (Distrito do Salitre)


Dunas do Velho Chico (Casa Nova)



GASTRONOMIA – ORLA I


22 bares e restaurantes



GASTRONOMIA – ORLA II


Vila Bossa Nova (Centro Gastronômico)


7 bares e restaurantes



AR LIVRE


Orla e Orla II


Parque Fluvial


Mirante da Orla II (vista do pôr do sol)


Praça da Catedral Nossa Senhora das Grotas


Praça Aprígio Duarte Filho (Jacaré)


Praça Dr. José Inácio da Silva (Misericórdia)


Praça Cordeiro de Miranda (São Tiago Maior)


Praça do Índio (Largo 2 de Julho)


Parque Municipal Lagoa de Calu (Alto da Maravilha)



LAZER, PASSEIOS E AVENTURA


Travessia de barca entre Juazeiro e Petrolina


Catamarã River Beer


Caiaque


Stand Up Paddle


Bike Boat


Piquenique na Orla


Canoa Havaiana


Rapel na Ponte


Tirolesa


Kitesurf


Passeios de lancha e jet ski



PARQUE FLUVIAL


Pista de cooper e ciclovia


Quadras poliesportivas


Pista de skate


Academia de Saúde



ENOTURISMO


Vapor do Vinho


Navegação pelo Lago de Sobradinho com música ao vivo, almoço a bordo, parada para banho e visita à Vinícola Terra Nova (Miolo), com degustação de vinhos, brandy e espumantes.


(87) 98130-5630 | Instagram: @vapordovinho



AGRONEGÓCIO E AGROTURISMO


Agropecuária Santa Isabel


Referência em agroturismo e turismo pedagógico em Juazeiro, com imersão na fruticultura irrigada, parreirais em latada, produção de uvas e mangas e aprendizado sobre as tecnologias do Vale do São Francisco.


(74) 99137-0032 | Instagram: @agropecuaria.santaisabel


 Lucas Oliveira - Ascom/PMJ


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PROFETAS DA CHUVA AVALIAM INVERNO REGULAR DURANTE ENCONTRO NO CRATO

A esperança de um bom inverno marcou o tom da quarta edição do Encontro dos Profetas da Chuva do Cariri, reunindo os saberes tradicionais. O evento foi realizado nesta sexta-feira, 23, em Crato. Um momento de compartilhar o conhecimento ancestral sobre as previsões do inverno no sertão. Participaram 11 profetas do Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha e Quixadá. Mais chuvas nos meses de fevereiro e março deste ano foram previstas por alguns profetas, mas com perspectiva de fortes precipitações em algumas localidades.

A abertura foi realizada com apresentações culturais, incluindo os Irmãos Aniceto e a Banda da Outra Banda, com o tradicional forró. Técnicos, estudantes, agricultores e professores estiveram presentes. O encontro foi realizado através da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Recursos Hídricos do Crato e do Instituto Federal do Ceará, contando com a coordenação do professor Kael Rocha, e do secretário executivo do Desenvolvimento Rural do Crato, Tiago Ribeiro.

Leitura da natureza-Os trovões no final de julho e começo de agosto do ano passado apontavam para um inverno muito bom em 2026. É o que disse o profeta Zilcélio Alves. A partir dessa experiência, ele afirmou que a perspectiva de um grande inverno está praticamente descartada para este ano. "Mas em março e abril teremos boas chuvas", afirma. Ele destacou experiências com pedra de sal, ninho de pássaro, casa de João de Barro, além das florações de pé de juá, produção frutífera do oiti, entre outras.

O profeta José Flávio ressaltou que os últimos meses foram de pouca chuva, mas em fevereiro e março a expectativa é haver uma melhora e o agricultor ter uma colheita boa. "Não podemos desistir dessa coragem que o Nordestino tem de termos um bom inverno", salienta.

Já Manoel Costa atestou que somente a partir do dia 15 de fevereiro haverá um inverno mais regular. Ele alerta para a redução das chuvas principalmente por conta do desmatamento.

O professor do IFCE, Danusio Sousa, fez uma breve apresentação dos índices relacionados às chuvas no ano passado, e as perspectivas para esse ano, conforme a meteorologia. Segundo ele, o fenômeno El Nino pode vir mais forte nos próximos meses provocando a redução das chuvas. "A gente espera que esse ano o agricultor consiga uma produção maior", diz.

O  profeta Cícero Leite, num tom de alerta, ressaltou o risco das chuvas de maior intensidade em cidades da região. A líder indígena Wanda Cariri expôs um pouco dos saberes do Povo Cariri e a importância das populações tradicionais. "A ciência surge com os povos originários e somos uma família que se auto afirma nesse território Cariri, no Poço Dantas", completa. Ela destacou a importância de ter profetas mulheres na análise das previsões e citou como exemplo a experiência de Rosa Cariri. (Texto/Fotos: Elizangela Santos)

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