TRÊS MOVIMENTOS NECESSÁRIOS PARA UMA LEITURA DE PEDRO AMÉRICO E A MONALISA, POR JANAÍNA AZEVEDO

Penso em três movimentos necessários para uma leitura de Pedro Américo e a Monalisa, bem como para a biografia Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas (2022), do advogado e escritor campinense Thélio Queiroz Farias. O primeiro movimento passa, necessariamente pelo biografado. Aqui, o areiense Pedro Américo, o maior pintor brasileiro do império, político, romancista, cientista, ensaísta, professor. Pedro Américo enquanto personagem histórico foi biografado em dezenas de obras desde o século XIX. Thélio Farias enumera por ordem de edição todas as biografias e livros inspirados em Pedro Américo, em sua recente obra Pedro Américo e a Monalisa (2025). 

O segundo movimento abraça a cidade como organismo vivo, “lugar de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.”, como bem disse Ítalo Calvino. Penso que para se conhecer um personagem histórico faz-se necessário conhecer bem o lugar e a época em que ele viveu e atuou. Pedro Américo, em seu romance “O Holocausto” (1882) acusa a localização geográfica da cidade, o clima, os abismos como responsáveis pela inclinação às artes e à melancolia, inclusive.

 O terceiro movimento é o do biógrafo, o escritor de vidas. Para o pesquisador, Sérgio Vilas Boas, uma das instâncias que pode interferir no resultado da biografia é o próprio biógrafo (autor e interpretante). Pierre Bourdier chama de ilusão biográfica, a tentativa de o biógrafo ordenar os acontecimentos de uma vida de forma linear, na ilusão de que se obtenha dessa organização uma narrativa coerente, autônoma e estável. Segundo o sociólogo francês, o máximo que a biografia pode oferecer seria uma reconstrução, um efeito de real. Nesse caminho, o biógrafo contará com a sua própria capacidade de reconstrução, de sua “vigilância sobre valores e juízos”. A responsabilidade do biógrafo, pois, é grande, ele não pode correr o risco de construir simplesmente um mito. Mito não é história e nem se confunde com esta, embora a construção mítica possa falar sobre ela, mesmo que de maneira enviesada, reorganizando significados e concepções criados ao longo do processo de elaboração. O biógrafo Thélio Farias, a despeito de seu rigor de pesquisador, se não constrói um mito, cuidadoso que é, ouso dizer que sofre de uma obsessão, no sentido de obstinação e fixação, pela figura de Pedro Américo. O advogado ilustrado tem se dedicado, compulsivamente, à vida e à obra do pintor paraibano: refez todos os lugares por onde este passou, leu e releu todos os documentos e demais impressos de e sobre o multifacetado personagem. Tem dedicado grandes pedaços da vida a refazer os caminhos, interpretar obras, refazer genealogias, buscar detalhes que sirvam à sua fome de biógrafo. Mas se detém pouco a uma crítica da obra propriamente dita, do pintor e escritor, até porque seu foco são as multifacetas do personagem inspirador, o renomado pintor e os fatos em torno de sua vida. Prova é sua mais recente produção, lançada em Areia, no Teatro Minerva, no último dia 02 de Julho. Thélio, se foge de uma narração mítica, não exclui, portanto, a paixão ao falar do ilustre areiense (e por que deveria?). 

Nesta obra em particular, o biógrafo encontra a ligação de Pedro Américo com o pintor Leonardo da Vinci, ao descobrir que o palácio onde Pedro Américo se instalara para residir e trabalhar, fora erigido onde antes era a casa em que Mona Lisa nascera e crescera. Fato pitoresco, com notas de uma feliz coincidência. Ou sincronicidade, diriam os mais espiritualistas, que acreditam não haver coincidência no universo. Ou mais profundamente, podemos citar o paradoxo do tempo bergsoniano, para quem o passado puro é o lugar onde todas as experiências podem se realizar, uma linha horizontal, estado permanente de coexistência, invisível e real, tempo que, a meu ver, serve bem à proposta de Thélio Queiroz, biógrafo de Pedro Américo. 

Por último, o biógrafo, para além de um rigor e de uma rigidez histórica e científica, também é factível a paixões, o maior perigo humano real. Na fala do advogado da antiga Vila Nova da Rainha, a paixão aparece na entonação, na postura, nos gestos. No texto, ela se insinua na adjetivação, nas construções entusiásticas, na criação do perfil temático nas redes sociais, como o perfil no Instagram, @pedroaméricovive, assinado por Thélio, em que este assume a persona do pintor. Thélio Farias, enquanto biógrafo de Pedro Américo, segue nos apresentando, não um Pedro Américo absoluto, mas um Pedro Américo cuja imagem ainda nos apresenta sujeitos possíveis dentro da construção histórica e humana. Prova é que a obra Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas teve uma nova edição, revista, ampliada, aumentada e comentada. A fonte inesgotável. 

JANAINA DE CASTRO AZEVEDO SILVA, professora mestre em letras,  Autora de três livros: Marias (1999 - Prêmio Novos Autores Paraibanos, livro indicado para o Vestibular 2012 da Universidade Estadual da Páraíba); Orquídea de Cicuta (Contos, 2002) e Canção para dois amores (Poemas, 2005). Professora, produtora e ativista cultural na cidade de Areia, PB.


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FESTIVAL JUÁ LITERÁRIA CELEBRA LEGADO DE PAULO FREIRE COM PALESTRA

Juazeiro amanheceu, nesta terça-feira (21), lembrando a década de 1980, quando recebeu a ilustre visita do educador Paulo Freire. Foi totalmente demais a mesa da segunda edição do festival Juá Literária, com o tema 'Quem Educa Marca o Corpo do Outro', que trouxe à terrinha a pedagoga, Fátima Freire Dowbor, a filha do educador pernambucano que colaborou para o processo de educação popular no município e é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Na Tenda das Palavras, falando sobre seu livro, que leva o mesmo nome da palestra, a pedagoga Fátima Freire, conduziu o público suavemente através da prática da reflexão sobre nosso agir ao pensar, sobre o que buscamos na área da educação e sobre que caminhos podemos construir atuando com crianças. "Uma experiência fascinante e enriquecedora que nos trouxe a ideia de que educação é emoção, sentimento, paixão, generosidade, apego e desapego", segundo a também professora Grotas Benvindo, uma das primeiras a chegar ao encontro na arena do Centro de Cultura João Gilberto.

No segundo dia do Juá Literária, o público também pôde conferir, na Feira dos Livros, o acervo de mais de 600 editoras; as mesas literárias do Espaço Flijuá e as apresentações das escolas, lançamentos de livros e contação de histórias na Carreta Literária e no Busarte (ônibus palco com sala de teatro para ver espetáculos), além de um mergulho pelos movimentos literários de Juazeiro e um show musical com o grupo O Trio.

Até o sábado (25), estão confirmadas atrações, a exemplo de rodas de conversa; mesas, oficinas, teatro; contação de histórias e shows musicais, reunindo cerca de 200 artistas e escritores de várias partes do país em mais de 180 atrações. Nomes representativos no segmento literário, a exemplo de Bob Fernandes e Daniel Munduruku, além de Osvaldo Montenegro e Adriana Calcanhoto, no cenário musical nacional, irão se revezar em ações como a Tenda das Palavras e Canções do Rio, numa super estrutura montada na Orla Nova do município, à beira do Rio São Francisco, no Centro de Cultura João Gilberto e na Casa do Artesão.

O Festival Juá Literária é uma realização da Prefeitura Municipal de Juazeiro, por meio da Secretaria de Educação, dentro do Programa Juá Literária, com apoio da Editora IMEPH, Andelivros, Governo do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon, e produção da Carranca Produções e Melodia Produções.


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MARIA DO INGÁ, MARINGA, A CANÇÃO DE POMBAL, POR TARCISIO PEREIRA

Tenho acompanhado, nos últimos dias, uma polêmica em torno do romance que eu sempre quis escrever. Depois de tantas décadas, discutimos agora sobre a existência, ou não, de uma jovem cabocla provavelmente linda, pobre e retirante, chamada Maria do Ingá.

De princípio, esteja claro, quero dizer que tudo o que sei sobre ela me foi contado por um grande músico brasileiro chamado Joubert de Carvalho. Não conheci Joubert de Carvalho, claro, mas de tanto ouvir a sua canção, lançada em 1932, estou limitado às informações que ele me transmite na letra da música.

O nome Maria do Ingá, pela imposição rítmica da letra, foi abreviado pelo compositor e ficou como “Maringá”, hoje uma espécie de grife da cidade de Pombal, sertão da Paraíba, berço da minha vida. Esse é um detalhe menor, mas que deve ser levado em conta por quem defende a existência dessa retirante. Não é o meu caso, ainda fico com a obra de arte. E uma obra de arte que, por si só, sem nenhum propósito de cunho midiático, já serviu de propaganda ao nome da minha terra. Para sempre!

A canção é famosa e, portanto, todos devem lembrar do trecho que diz assim:

“Antigamente, uma alegria sem igual

Dominava aquela gente

Da cidade de Pombal,

Mas veio a seca, levou tudo e foi embora

Só restando então as águas

Dos meus olhos quando choram.”

A moça que partiu, deixando um moço apaixonado a chorar de saudade, teria sido um famoso político do século passado, senador da Republica que também governou a Paraíba como interventor, chamado Ruy Carneiro.

Se isso fosse mesmo verdade (ou se for), então poderíamos dizer que temos em Pombal, ou teríamos, um grande drama de amor digno de qualquer filme brasileiro. Mas as mentes férteis devem ter criado esse fato em função de outra história curiosa, amplamente dissecada por alguns cronistas e pesquisadores pombalenses.

Quando José Américo de Almeida foi ministro da Viação e Obras Públicas, o cantor e compositor Joubert de Carvalho, já famoso pela marchinha carnavalesca chamada “Taí”, gravada por Carmem Miranda, ambicionava um cargo de médico marinho e queria uma audiência com o ministro. Ruy Carneiro, que conhecia Joubert das noites boêmias no Rio de Janeiro, era assessor de José Américo e levou o compositor ao seu gabinete.

Alguns cronistas afirmam que Joubert conseguiu o emprego, mas o único meio de retribuição era com o talento de sua arte. Comporia uma canção em homenagem à Paraíba, terra do ministro, e para tanto procurou saber qual era a cidade dele. Quando soube que Zé Américo era de Areia, ponderou que o nome dessa cidade não era bom de rima. Assim, matando dois coelhos numa só cajadada, meteu na letra o nome de Pombal, que era bom de rima, sendo uma forma de também agradar ao pombalense Ruy Carneiro.

Não sei até que ponto esta história procede. Estou apenas reproduzindo, de forma sucinta, o que li dos meus conterrâneos. A única coisa que quero acrescentar, como um dado que ainda não foi levantado, é a similaridade da letra da música com a trama do romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida…

Ao longo das décadas, sapecaram histórias para todos os lados. Até penso que a canção “Maringá”, ao invés de um romance, já merece um ensaio em torno das controvérsias que têm surgido ao seu redor. Se, por um lado, temos a lenda de um caboclo atormentado numa saudade de amor, chorando pela cabocla que foi embora por causa da seca, por outro temos a história de um amor proibido, vivido em surdina por um alto figurão da política paraibana que não podia se expor, haja vista que a namorada secreta era uma mulher da pobreza.

Para a segunda hipótese, há sempre um narrador mexendo no vespeiro. O escritor e promotor de Justiça Severino Coelho, também de Pombal, transcreveu um texto do jornalista Armando Lira, publicado em 1991, com o seguinte título: “O Amor Proibido de Ruy Carneiro – a Verdadeira História de Maringá”.

A história narrada por Armando Lira, verdadeira ou não, é de fato linda, tão linda que a gente quer mesmo acreditar nela. Diz que Ruy Carneiro amou essa moça pobre, foi afastado dela, depois governou a Paraíba e em pleno exercício do cargo voltou a encontrá-la, ele já casado e ela pobrezinha, pedindo esmolas para ele.

Notem bem. Eu também tenho direito de dizer, agora, que a minha versão sobre “Maringá” é também “verdadeira”. Me arvoro nesse direito porque vejo todas as semelhanças dessa cabocla retirante com uma outra, chamada Soledade, personagem de Zé Américo no romance “A Bagaceira”. Soledade veio do sertão da Paraíba com sua família, chegou na Fazenda Marzagão, em Areia, e bagunçou a vida do dono da casa, Dagoberto Marçal. Depois foi embora e deixou chorando o jovem rapaz chamado Lúcio, filho do fazendeiro, recentemente formado. O curioso é que, anos depois, Soledade reaparece na fazenda, maltrapilha, e pede esmolas ao novo fazendeiro, justamente aquele rapaz que ela deixara chorando.

A música foi lançada em 1932. Quatro anos antes, 1928, Zé Américo tinha lançado “A Bagaceira”, e o livro estava na crista dos mais importantes acontecimentos literários da época. “A Bagaceira” já era considerado, como ainda o é até hoje, o precursor do romance regionalista nordestino, pois trazia os requintes de uma estética inovadora na linguagem, ao contrário de outros clichês da ocasião. A história desse livro também é marcada pelo poder de influência que conseguiu causar junto a outros autores. No seu rastro vieram outros romances com a mesma temática – a exemplo de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; e “Seara Vermelha”, de Jorge Amado.

Aliás, se me esticar mais ainda, vou entrar noutro romance de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela”, outra cabocla retirante que bagunçou o coração do árabe Nacib, na cidade de Ilhéus, estado da Bahia. Esse tema, convenhamos, é bastante recorrente, e nada mais apropriado para um compositor de coração grato, retribuindo a um ministro que lhe dera o emprego tão almejado, o qual já contara essa mesma história num romance famoso

Na peça teatral “O Santo Inquérito”, cujo cenário é também a Paraíba, também existem controvérsias sobre a existência ou não de Branca Dias, a heroína, torrada no fogo da Inquisição porque salvara um padre de morrer afogado, quando lhe fazia respiração boca a boca. A história é tão linda que todos a querem como verdadeira – mas o próprio autor, o dramaturgo Dias Gomes, afirma que se baseou apenas numa lenda. Até hoje permanece o mistério.

No caso de “Maringá”, creio que a arte, mais uma vez, está muito acima das invenções ou comprovações históricas. Seja lá o que for, o fato é que essa cabocla, como bem diz a letra, foi a retirante “que mais dá o que falar”… E que se orgulhem os filhos de Pombal, como eu, por possuírem essa canção de amor como o seu hino quase oficial.

Tarcísio Pereira-Escritor, Teatrólogo, Jornalista e Publicitário

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ROMARIA DOS 92 ANOS DE MORTE DO PADRE CÍCERO REÚNE MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE

Uma multidão de fiéis tomou conta do Largo da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte, na manhã desta segunda-feira (20). O público acompanhou a primeira missa de encerramento da Romaria pelos 92 anos de morte de Padre Cícero Romão Batista.

A celebração foi presidida pelo bispo da Diocese de Crato, dom Magnus Henrique Lopes. O evento reuniu romeiros vestidos de preto, em referência à batina usada pelo sacerdote, e de chapéu de palha, um dos símbolos do sertanejo nordestino.

A missa das 6h tem um significado especial para os devotos. Segundo historiadores, esse foi o horário em que Padre Cícero morreu, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. O marco deu origem à tradicional missa do dia 20, realizada mensalmente em memória do religioso.

Ao longo desta segunda-feira, outras quatro missas encerram a programação religiosa da romaria. As celebrações ocorrem às 10h, 12h, 16h e 18h.

A tradição relata que, pouco antes de morrer, Padre Cícero pediu a amigos e familiares que rezassem por sua alma. O pedido deu origem a um costume que atravessa gerações e reúne milhares de devotos na Capela do Socorro todos os meses.

No túmulo do "Padim", os romeiros fazem orações, agradecem graças alcançadas e renovam promessas. Segundo a Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, cerca de 100 mil pessoas devem passar pela cidade durante a programação, iniciada em 17 de julho.

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COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM DEBATE, Antonia Pellegrino - Presidente da EBC

 Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

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FESTIVAL QUARITERÊ DESTACA MEMÓRIAS E SABERES DE MULHERES NEGRAS

O Sesc Petrolina realiza, entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, a terceira edição do Festival Quariterê, iniciativa da Rede Sesc PE de Bibliotecas que promove a valorização das mulheres negras como produtoras de conhecimento, memória, cultura e redes de cuidado nos territórios.

Inspirado na trajetória de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê no século XVIII, o festival reconhece e amplia os saberes, fazeres e tecnologias sociais produzidos pelas comunidades negras e suas contribuições para a construção da identidade coletiva.

Nesta edição, o festival traz como tema “Memórias negras territoriais: pensar a contribuição dos saberes e fazeres das mulheres negras, trazendo uma cartografia da identidade”, propondo reflexões sobre as experiências, trajetórias e contribuições das mulheres negras para a cultura e a memória dos territórios.

A programação gratuita inclui debates, apresentações musicais, contação de histórias, oficinas e atividades recreativas. Entre os destaques está o encontro “Cartografias Negras do Vale: mulheres quilombolas e suas trajetórias”, com representantes das comunidades Mata de São José e Rodeadouro, além da apresentação musical do grupo Curimba de Yá, no dia 30, às 19h, no Teatro Dona Amélia.

O festival também recebe a arte-educadora e contadora de histórias Nini Kemba Nayo, do coletivo LiteafroInfantil, de Salvador (BA), com apresentações de oralidade e uma oficina de contação de histórias no dia 1º de agosto, voltada para crianças. As inscrições para a oficina podem ser realizadas mediante a doação de 1kg de alimento não perecível para pessoas em situação de vulnerabilidade atendidas pelo programa Sesc Mesa Brasil.

O festival conta ainda com brincadeiras de origem africana, oficina de autodefesa para mulheres, o encontro “Poesia no Jardim de Ana” e a ação gastronômica “Sabores Ancestrais – comidas afro-brasileiras”, realizada no restaurante da unidade. A programação completa está disponível no site do Sesc Pernambuco:  www.sescpe.org.br.


 


 


 



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VEREDAS DA RESISTÊNCIA REALIZA 4 EDIÇÃO ENTRE CANUDOS E UAUÁ COM CAMINHADA E PROGRAMAÇÃO CULTURAL

A IV edição das Veredas da Resistência será realizada entre os dias 23 e 26 de julho. A caminhada de aproximadamente 65 quil&o circ;metros ocorre entre o Parque Estadual de Canudos e o município de Uauá, no sertão baiano. A iniciativa reúne cerca de 60 caminhantes de diferentes regiões da Bahia e de outros estados brasileiros para uma imersão na história, na cultura e nos aspectos socioambientais da Caatinga.

A programação tem início na quinta-feira (23), no Parque Estadual de Canudos, com atividades culturais e rodas de conversa. Na manhã de sexta-feira (24), o grupo inicia a travessia, passando por comunidades rurais e locais emblemáticos da Guerra de Canudos. A chegada a Uauá está prevista para o domingo (26), às 12h, quando será realizada a I Feira da Resistê ncia, espaço voltado ao encontro, à troca de experiências e ao fortalecimento das redes de trabalhadores e trabalhadoras da cultura, da Caatinga, do campo e da cidade.

Mais do que uma atividade de ecoturismo ou aventura, a Veredas da Resistência propõe uma experiência de educação patrimonial, memória e valorização dos territórios do Semiárido. Ao longo dos três dias de caminhada, os participantes percorrem trechos historicamente conhecidos como "Madeira da Discórdia", visitando lugares que marcaram os combates da Guerra de Canudos, como Alto da Favela, Vale da Morte e Lagoa de Sangue, além das comunidades de Mandaipó, Barra da Fortuna, Algodões e Maria Preta.

Durante o percurso, os caminhantes são acolhidos pelas comunidades locais, onde acontecem os acampamentos. A alimentação é preparada por mulheres da região com produtos da agricultura familiar, valorizando a culinária sertaneja e fortalecendo a economia local.

A programação inclui apresentações musicais, intervenções artísticas, exibição de documentários, rodas de conversa e atividades formativas conduzidas por pesquisadores, lideranças comunitárias, agricultores, artistas e moradores que compartilham conhecimentos sobre a Guerra de Canudos, os povos tradicionais, os sistemas de Fundo de Pasto, as agroflorestas, a ancestralidade afro-indígena e a preservação da Caatinga.

Segundo a organização, a caminhada também busca ampliar o debate sobre a importância da conservação do bioma e das formas de vida construídas historicamente pelas populações sertanejas.

Para a organizadora Mayara Andrade, moradora de Uauá, a iniciativa representa "uma oportunidade de adentrar os aspectos socioambientais, territoriais e culturais que permeiam a Caatinga do Semiárido baiano".

Realizada desde 2019, a Veredas da Resistência passou a receber inscrições abertas ao público a partir de 2023. A expedição adota diferentes modalidades de participação para ampliar o acesso de pessoas interessadas, incluindo alternativas de financiamento para quem não possui condições financeiras de custear integralmente a experiência.

A iniciativa conta com apoio das Prefeituras de Canudos e Uauá, da Coopercuc e de parceiros locais.

Além da caminhada, a programação reafirma Canudos como referência histórica de resistência popular. Mais de um século após a Guerra de Canudos, o percurso convida os participantes a refletirem sobre a memória do conflito, os desafios contemporâneos do Semiárido e a permanência das comunidades que seguem construindo formas de resistência cultural, social e ambiental.

PROGRAMAÇÃO

23 de julho (quinta-feira) – Canudos

17h30 – Intervenção Artística

Grupo de Capoeira Esquiva (Canudos)

Museu Casa de Vó Izabel

19h – Programação Musical

Banda de Pífanos de Canudos Velho

Terreiro de Dona Maria Botão

20h30 – Veredas dos Saberes

Roda de conversa com Dona Maria Botão, Dona Zefinha e Dona Tereza

Tema: Histórias de vida e as histórias de Canudos passadas de geração em geração

Mediação: João Batista

24 de julho (sexta-feira) – Algodões

7h – Intervenção Artística

Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

12h – Veredas dos Saberes

Seu Alcides e Fabrício Bianchini

Tema: Fundo de Pasto e os desafios da Mata Branca para sobreviver, resistir e permanecer

16h30 às 18h – Intervenções da Banda de Pífanos de Canudos Velho

18h – Apresentação dos alunos da Escola Municipal Miguel Avelino Gomes

19h – Veredas dos Saberes

Dona Edite, Rita dos Santos e Nathalia Alves

Tema: Mulheres, lutas, vitórias e histórias das comunidades

Mediação: Gorete Cardoso

20h – Jam Sertaneja

Mel do Cumbe

Jarbas Nogueira

Lucas Sanfoneiro

21h30 – Fogueira e Leito Aberto

Intervenções artísticas livres

25 de julho (sábado) – Maria Preta

13h – Veredas dos Saberes

Diana Dias e Marcela Santana

Tema: Presença e ancestralidade afro-indígena na Caatinga contadas pelas mulheres que atuam nas comunidades tradicionais

Mediação: Lorrayne Trindade

13h40 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

19h – Homenagem a Dona Maria Trindade

Exibição de documentário e bate-papo com Taiane Costa

Tema: Agroflorestas e Recaatingamento

Mediação: Egídio Trindade

20h30 – Show

Junior do Acordeon e Banda

26 de julho (domingo) – Uauá

10h – Abertura da I Feira da Resistência

12h – Chegada dos caminhantes

12h30 – Canudos: Memórias de Maria Domingas – Mel do Cumbe

13h – Mística de encerramento e agradecimentos

14h30, 16h, 17h30 e 19h – DJ EmersonBEAT

15h – Jarbas Nogueira e Grupo Circuladô

16h30 às 17h30 – Apresentações de quadrilhas

18h – Lucas Sanfoneiro e Forró Tabuleiro

19h30 – Encerramento


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