EDGAR MORIN 100 ANOS PRODUZINDO OBRAS

Edgar Morin soube conquistar pelos seus textos. Introdução ao Pensamento Complexo é um livro escrito, suponho, para aquelas pessoas que, pela primeira vez, entram em contato com as ideias desse pensador. Em seis capítulos, por 120 páginas, somos gradualmente introduzidos às ideias da Complexidade, ou do Pensamento Complexo, segundo uma visão convincente, que reúne múltiplos conceitos que, ao seu melhor estilo, se complementam, concorrem, antagonizam.

Para pessoas formadas nas ciências tradicionais, onde o espaço cartesiano é a possível descrição do mundo, onde equações regem não só a física e a química, mas as relações e comportamentos humanos, as ideias de Morin surgem, ao mesmo tempo, como um choque e uma luz.

O choque advém de sabermos que nossa forma de ver e analisar a realidade é incompleta e limitada. Todo nosso conhecimento disciplinar irá nos levar, inefavelmente, a limites insuperáveis.

A luz, por outro lado, mostra que podemos viver, cientificamente, com os contrassensos que não serão superados. Eles existem e vão persistir, não por falta de uma explicação mais ampla, uma teoria unificadora, mas porque sua presença demonstra nossa incapacidade de lidar com a natural existência de conflitos e oposições.

Quando Morin se propõe a explicar essas situações, usa formas simples e claras. Afirma que o ser humano é, ao mesmo tempo, formador e formado pela sociedade. Que nós somos feitos de células. Mas cada célula individual contém nossa totalidade.

Explica também que, embora as ideias e os conceitos surjam dos humanos, eles de repente adquirem vida autônoma e fazem com que nós próprios, seres humanos, os sigamos, lutemos e morramos por eles. Ou não é isso que acontece com as religiões, os sistemas políticos e econômicos, as ciências?

É difícil uma pessoa não ter sua forma de ver o mundo profundamente alterada depois de ser tocada pelo Pensamento Complexo. A frase tão comum: “na verdade, isso é complexo”, adquire um significado diferente, maior, onde a compreensão de que o todo influencia as partes que, por sua vez, influenciam e formam o todo, passa a moldar essa nova perspectiva.

Mas, é claro, esta não foi sua primeira obra.

A carreira de escritor cientista, ou podemos dizer, de arguto observador da realidade, começa ainda em 1946, quando ele tinha 25 anos e parte para a Alemanha derrotada, como soldado do exército francês de ocupação com o objetivo autoimposto de tentar entender como a bestialidade havia tomado conta de um país como aquele. Das impressões desta experiência resulta seu primeiro livro, Alemanha Ano Zero.

Sua perplexidade com a morte, inicialmente provocada pelo falecimento da mãe em 1931, não o havia deixado e, então escreve o segundo livro, O homem e a morte. Nele, Morin tenta uma abordagem multidisciplinar para um tema que, segundo ele mesmo, nunca havia sido tratado de forma científica.

A Europa se recupera economicamente e a sociedade de massas fascina Morin que busca apreender os fenômenos de seu tempo. E assim, volta sua atenção ao cinema para compreender o surgimento das estrelas, um fenômeno tão característico do pós-guerra. Escreve, em 1956, Cinema ou o homem imaginário e, em 1957, As estrelas, mostrando como o surgimento dos ídolos cinematográficos, na verdade, atende à necessidade humana por heróis.

É marcante como Morin migra de temas e interesses como alguém sensível aos fenômenos que motivam e moldam a sociedade humana europeia e contemporânea.

E assim, na década de 1960, parte para uma aventura científico-antropológica. Vai viver com um time que conta com alguns pesquisadores e pesquisadoras, em uma pequena comunidade na Bretanha, sul da França. Lá se integra com a sociedade local e registra seu comportamento.

Posteriormente publica, em 1967, o livro Commune en France. La métamorphose de Plodémet. Embora Morin e sua equipe acreditem que era um relato de pesquisa, são duramente criticados pela própria comunidade que se sentiu usada e teve sua confiança traída.

O colega e cientista Jaques Monod, que havia ido dirigir o Instituto Salk nos EUA, convida Morin para uma temporada na qual ele permanece entre 1968 e 1969. Estuda as teorias cibernéticas de Norbert Wiener e colegas, as teorias sistêmicas de Bertalanffy e demais e ainda a teoria da informação, de Shannon, Weaver e Brillouin. O fruto desta estadia foi o início da escrita d’O Método.
O primeiro volume, cujo subtítulo é A Natureza da Natureza, foi publicado em 1977. O texto é uma verdadeira saga científica na qual Morin funde e combina conceitos da física, teoria da informação, auto-organização entre muitos outros.

A proposta de abordar os múltiplos conhecimentos humanos a partir de visões de diferentes ciências disciplinares, integrando-as em um conjunto, prosseguiu por muitos anos e culminou com a publicação do sexto volume, Ética, em 2004.

Nesse um quarto de século, Morin construiu não só as bases do Pensamento Complexo como produziu várias outras obras que influenciaram cientistas e leigos pelo mundo, com especial destaque para a América Latina.

Seria prepotente tentar condensar o conteúdo de O Método, obra tão abrangente, em poucos parágrafos. Ainda assim, para tentar fazer jus ao autor sem, no entanto, obrigar leitoras e leitores a ir à fonte, segue um breve relato de cada volume. De qualquer modo, a leitura da obra completa de Morin é profundamente gratificante.

Volume 1
Na Natureza da Natureza (vol. 1), Morin menciona e define alguns conceitos. Argumenta que, a partir da ideia de sistema, temos uma interação entre todos e partes, que as organizações são sistemas auto-organizados, que esta organização ocorre através de um fluxo de informações.

Explica que ordem e desordem são faces da mesma realidade. Precisamos que os elementos estejam desorganizados para organizá-los. Mas se tudo estiver organizado, haveria um cenário de equilíbrio estável no qual nada mais mudaria. Então é função da desorganização entrar em ação e mudar o status quo. Ele diferencia os sistemas das organizações quando afirma que os primeiros enfatizam as relações enquanto os segundos formam um todo coeso.

Outro aspecto destacado é a relação entre observador e sistema observado. Von Foerster já havia destacado esse aspecto na cibernética de segunda ordem. Na concepção de Morin, não existe um “fora do sistema”. Estamos imbricados nele, que nos influencia e, o que evidenciamos são nossas verdades parciais, não uma “realidade absoluta”.

Morin amplia o conceito de máquina. Enquanto, em geral, se pense em máquinas como dispositivos artificiais criados por humanos, ele as considera simplesmente como fenômenos de produção, como o Sol ou os Seres Humanos.

A Emergência é outro conceito complexo que merece atenção neste volume. Nesse sentido, a discussão se dá em torno da realimentação (conhecida como feedback) que, ao reintroduzir partes das saídas nas entradas, suscita a criação do novo.

Ressalta a importância do erro, que não seria o equívoco mas a fonte da novidade. Sem o erro, as coisas permaneceriam como estão, pela eternidade.

No final do volume, destaca que o conhecimento complexo não é operacional com a ciência clássica mas esta é operadora de manipulação. A verificação implica na manipulação (em seu mais amplo sentido). E isso nos leva à barbárie de nosso tempo.

Assim, a ciência complexa busca a ação mas que seja liberação, autoconhecimento, solidariedade. Ela reconhece o mistério presente em todas as coisas.

Volume 2
Em A vida da vida, Morin discute as questões da biologia que, de forma geral, não foram discutidas anteriormente. O tema é tão amplo que o índice se estende por seis páginas.

Talvez a essência deste volume possa ser “resumida” no conceito da auto-geno-feno-ego-eco-re-organização. Assim, a vida é, antes de tudo, uma forma de organização (dos elementos químicos, proteínas, de formas de manutenção e reprodução). Cada um destes prefixos salienta um aspecto da organização viva. Re- pois ela se reorganiza permanentemente; Eco- pois está intrinsecamente ligada ao meio; Ego- pois é voltada a si mesma, necessário à sua sobrevivência; Feno- é a manifestação do externo em cada um; Geno- pois carregamos em nós nossa história e genética; e por fim Auto- pois tudo isso ocorre de forma autônoma, para que a vida possa se perpetuar.

Volume 3
O conhecimento do conhecimento trata da discussão do que é nossa compreensão e como ela se forma em nós e nós a formamos.

Em sua análise, a discussão da relação entre mito e logos é, antes de tudo, uma questão de discurso. E mostra como antigos mitos (hoje vistos como superstição) foram substituídos por novos “mitos” como democracia, capitalismo ou burguesia e proletariado.

É fascinante ver descortinar no nosso entendimento como as oposições convivem. Nas suas conclusões, Morin afirma que o conhecimento objetivo produz-se na esfera subjetiva que, por sua vez, está situada no mundo objetivo.

Afirma que conhecimento seria impossível em um mundo determinista ou totalmente aleatório. “Só podemos conhecer um mundo fenomenal situado no espaço e no tempo, comportando unidade, pluralidade, homogeneidade, diversidade, invariância e mudança. Trata-se de nosso mundo uno/diverso dos fenômenos físicos/biológicos/antropológicos submetidos à dialógica da ordem/desordem/organização.”

Volume 4
Diferente dos outros, este tem um subtítulo maior: As ideias: habitat, vida, costumes, organizações.

Ao descrever o conceito de noosfera, criado por Teilhard de Chardin nos anos 1920, Morin descreve um cenário no qual as ideias (conceitos, mitos, ideologias) se formam entre humanos mas, como se adquirissem vida própria, passam a habitar um plano superior. E de lá, comandam a nós, humanos, a lutar pela sua hegemonia e permanência. Ao nos distanciarmos de conceitos como capitalismo e socialismo, ou qualquer religião, vemos o quanto tal noção é verdadeira.

É ainda neste volume que Morin discute a ideia de mindscapes de Magoroh Maruyama, segundo a qual observamos e interpretamos o mundo segundo nossos filtros e conhecimentos.

Volume 5
A humanidade da humanidade descreve o percurso do enraizamento cósmico à emergência humana. É, de certa forma, uma síntese dos volumes anteriores mas discute aspectos que não haviam sido tratados antes.

Ao invés de explicar, Morin descreve sua fascinação com a improvável e inexplicável emergência da vida e da humanidade. Do surgimento do cérebro, do espírito, da linguagem e da cultura.

Trata de três “trindades”: indivíduo/sociedade/espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Esses conjuntos que, normalmente, são tratados separadamente na ciência, passam a ser analisados em sua unidade, como que fazendo parte de um todo mas, como partes individualizáveis, se influenciando e complementando.

Volume 6
Ética. Neste seu último volume, Morin propõe um caminho para a humanidade. Enquanto nos outros, a análise foi exploratória e analítica, neste caso a proposta defende um comportamento que traga esperança aos seres humanos, esperança esta que ele nunca perdeu.

O livro desenvolve a Ética em três planos: a autoética, a socioética e a antropoética.

Em um mundo carente de certezas absolutas e na falta de crenças transcendentes, a autoética é fundamental. Ela comporta uma permanente autoanálise, autocrítica, tolerância e tomada de responsabilidade. Requer compreensão e abertura à magnanimidade. Uma Ética da cordialidade, cortesia e amizade. É notável como ele anteviu as nossas mais prementes necessidades nesse caminhar do século 21, onde os antagonismos e divisões ficaram exacerbados.

A socioética é uma proposta de comunidade com solidariedade e liberdade. Ainda no contexto das noções antagônicas e complementares, afirma que os governos dependem dos cidadãos que por sua vez, dependem do governo. Assim, democracias produzem cidadãos e estes produzem a democracia. O enfraquecimento de um, faz desvanecer o outro.

No plano mais abrangente e ambicioso, temos a antropoética. Com ela Morin defende a ideia de um destino comum da humanidade. Que precisamos de uma tomada de consciência em vários âmbitos: na identidade humana comum e na sua diversidade, na necessidade da compreensão mútua, na nossa relação com a biosfera, na solidariedade com as crianças da terra, no destino comum do planeta.

Este último volume é concluído com uma discussão do Mal e do Bem. Do primeiro destaca que suas causas são irredutíveis, originadas da hubris e dos excessos, da parte demens do humano. E que temos que resistir à crueldade do mundo. Sobre o segundo, elabora mais sobre a Ética complexa. Nela, convivem as antinomias humanas sapiens/demens, faber/mitologicus, economicus/ludens.

E assim, tal Ética precisa enfrentar estas ambiguidades e contradições. Mas deve deixar-nos prontos a regenerar. Que há uma possibilidade no invisível que é real.

Morin conclui o trabalho com esperança e crença que um futuro melhor é possível.

Durante o período em que escreveu O Método, Morin publicou muitas outras obras, algumas influenciadas por esta escrita, outras que, acredito, a influenciaram.

Publica Ciência com Consciência, que é antes um chamado à responsabilidade de cientistas para o uso de suas pesquisas e descobertas.

Em uma linha mais pessoal, escreve um livro biográfico sobre seu pai, Vidal e os seus. Trata, em Sociologia, da sua visão desta ciência disciplinar, e em Terra-Pátria faz seu apelo ecologista, mostrando os efeitos globais da poluição, contaminação e destruição dos recursos naturais, afirmando que estamos todos, seres humanos, nessa nave planeta.

Em Meus Demônios faz um balanço da sua militância no partido comunista, sua expulsão por discordar das linhas do partido e que precede a divulgação dos crimes de Stalin. Já em Cabeça bem- feita discute as necessárias mudanças na educação. A este volume se juntam Religar os conhecimentos e Os Sete saberes necessários para a educação do futuro, que formam uma trilogia sobre os rumos da educação. O último título foi uma encomenda da Unesco que o publicou em muitas línguas e projetou o nome de Morin globalmente.

Continua publicando intensamente, uma média de dois livros por ano, desde os anos 1980 até 2025. São aproximadamente 100 livros, alguns em coautoria. Escreve também prefácios e artigos em numerosos periódicos.

A referência em francês na Wikipedia lista grande parte de suas publicações nesta língua.

Curiosamente, a oferta de títulos em inglês é diminuta, o que daria lugar a boas discussões sobre hegemonia cultural mas que não será tratado neste artigo.

Por outro lado, a presença de obras de Morin em português e espanhol é considerável. Só na lista dos 130 títulos diferentes disponíveis nas bibliotecas da USP, em levantamento deste autor, foram localizados 100, a maioria em português sendo alguns em espanhol.

Além dos temas citados, Morin também tratou da sua visão da questão judaica, tanto na sua relação nas obras biográficas como depois, discutindo mais amplamente temas do conflito israelense-palestino.

Diversas obras tratam de cidades onde viveu, especialmente Paris e outros textos são balanços de sua própria vida e obra. Destas vale destacar Meus filósofos, na qual passeia pelos nomes que vão de Aristóteles à Escola de Frankfurt, passando por muitos outros nomes, não só da filosofia.

Ao contemplar tão vasta obra que reflete o inconformismo de Morin com o status quo, seja da sociedade acomodada, da cultura fossilizada ou dos indivíduos acríticos, a lição que se pode aprender é a do exemplo de alguém que, não só viveu muitos anos mas que soube, nesse longo tempo, manter anseios contemporâneos e a motivação de enfrentar desafios do presente.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP e reproduzidas na REDEGN são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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A FORÇA DA AMIZADE, POR JOSÉ SARNEY

 Sempre digo que a amizade é a melhor coisa da vida. O primeiro amigo que Deus me deu foi o livro. Ele me acompanha por toda a minha vida, cada ano com maior presença e estreito aconchego. O livro nos conforta e nos suporta nos momentos difíceis e nas horas tristes. Acredito que tenha passado um quarto de minha vida lendo. Muitas vezes, troquei a companhia do meu sono pela de um livro.

Na verdade, o primeiro amigo que tive, à frente do livro, foi o meu pai. Quando eu tinha poucos anos, durante minha infância, mas já com a consciência presente, meu pai chamou-me e disse: "José, ninguém nasce sem um pai. Eu já sou o teu, agora quero ser também teu amigo". Assim, passei a viver ao seu lado até a sua morte — novo ainda, aos 58 anos —, desfrutando do seu carinho e do seu amor de pai, mas também da convivência com um amigo, na sorte de estarmos sempre juntos: eu ouvindo seus conselhos, as histórias que ele contava, no prazer e na força dessa amizade, numa constante troca de ideias, aprendendo seus ensinamentos sobre educação, disciplina, paciência, prudência, solidariedade e amor.

Deus concedeu-me a felicidade de ter amigos da vida inteira, e não canso de agradecer todos os dias por compartilharem comigo as tristezas e alegrias desta existência. Alguns amigos da infância me acompanharam na adolescência e maturidade. Hoje velhos estamos, velha a nossa amizade permanece. Maranhão, minha terra e meus amigos. (Buzar, diga a todos que estão sempre em meu coração.) E que saudade de Bandeira Tribuzzi, Ferreira Gullar…

Nessas amizades antigas estão as pessoas que nos mostram um "espelho do tempo", não nos deixando esquecer de quem somos verdadeiramente, pois nos conhecem há tanto tempo que, às vezes, nos enxergam com mais clareza do que nós mesmos. Se consideram que agimos de forma que não nos reconhecem em algum momento, nos tropeços da vida, logo dizem: "Que é isso, meu amigo? Nem o conheço mais." E assim nos ajudam a "acertar o passo." 

Não resisto e vou citar alguns nomes para homenagear todos os amigos do início de minha vida parlamentar, pois também não saem do meu coração. Primeiramente, Odylo Costa, filho e Josué Montello. Em seguida, Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Gilberto Amado, Jorge Amado, nossa querida Zélia, Rachel de Queiroz, Alceu Amoroso Lima, Aurélio Buarque de Holanda, Austregésilo de Athayde, Carlos Chagas Filho, João Cabral de Mello Neto, Otto Lara Resende, Carlos Castelo Branco, José Américo de Almeida.

Nos meus 60 anos de vida política, em que tive a sorte e a ventura de ser deputado federal, governador, senador por dois estados, Maranhão e Amapá, e presidente da República, pude colecionar uma miríade de amigos. Mais do que os cargos que ocupei, muito me orgulho das amizades: políticos, diplomatas, jornalistas, chefes de Estado, com muitos ainda desfruto do gosto da convivência e da troca de ideias que me enchem a alma.

Sempre tive muito gosto de ter amigos. Os que trabalham comigo, ou com quem tenho qualquer relação profissional, transformam-se em amigos, tornando-se quase familiares. Assim tenho sido a vida inteira. E não me arrependo.

Nesta altura de minha vida, descobri que tenho gosto também de fazer novos amigos. Comecei a pensar na poderosa força do outro, como ensinou Cristo, quando recentemente, nesta minha idade, tive alegria de estreitar convivência com pessoas da Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na USP — que, no ano de 2026, completa 200 anos —, que me convidaram para fazer parte da comissão de assuntos que deverão marcar essa data, sob a presidência da celebrada diretora eleita da Faculdade, Profª Drª Ana Elisa Bechara, grande talento, muito querida pelos alunos da Casa.

Assim conheci Rui Caminha, excelente pessoa, dedicado a servir a história da entidade, zelando por ela com total doação. Conheci também homens vitoriosos, novos de idade, mas já grandes advogados de São Paulo, ex-alunos com as raízes na velha faculdade de sua formação. Com eles, gente nova de fora do mundo da política, em agradáveis almoços, percebi um outro lado da realidade brasileira: o quanto essa gente nova está preocupada não só com o país, mas também com a literatura, com a cultura.

Ao nos despedirmos após um encontro, instintivamente, chamei-os de "amigos" e descobri uma força também nas novas amizades abrindo os horizontes de nossas vidas.

AMIGOS Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade. Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade.

Os teólogos buscam compreender as raízes da amizade desde o Livro do Gênesis. Eu acho que só não se pode dizer que ela é a motivação, mas, sem dúvida, uma das alegrias de sustentação do viver é essa forma de comunhão humana que une as pessoas e faz com que essa união seja sinônimo de felicidade e caminho para muitas alegrias e satisfações.

A primeira vez que eu senti a força do que era a amizade foi numa conversa com meu pai, quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Ele me chamou e, no meio da nossa conversa, já então um relacionamento de estreita ternura e grande amor, me disse: "José, eu sou teu pai. Ninguém nasce sem ter um pai. Sou parte da missão de Deus para que tu tivesses vida. Assim, eu já sou teu pai, quero ser também teu amigo."

Talvez eu não soubesse àquele tempo a profundidade do que ele tinha me dito, mas hoje ele está no caminho da eternidade, e eu, aqui, nos caminhos da existência que Deus me deu, através dele e de minha mãe, posso afirmar que o pedido dele para que fôssemos amigos me indicava o melhor caminho. E posso dizer que sua amizade foi a primeira, a maior e a mais profunda de minha vida, dividida com minha mãe, que também marcou esta minha jornada.

Sempre fui muito amigo de meu pai, e nessa amizade estava a confidência e, sobretudo, a confiança — sinônimo de amizade, porque esta não existe se antes não existir aquela. É a confiança que dá a segurança de unidade, de revelação e de certeza de que a amizade é, como diz Dom Bento de Aviz, "uma das experiências universais mais estruturantes do humano, como o amor, a dor, o vínculo, a festa, a amizade", considerando, inclusive, que ela faz parte do próprio dom de Deus com os homens.

Que ela faz parte da sublimação da alegria do relacionamento humano não tenho dúvida e deixo essa busca religiosa de sua origem para afirmar da vivência e da existência de cada um. Atrevo-me a dizer que quem não tem amigos não viveu, pois deixou de experimentar o que há de mais humano em nós; quem não fez amigos ou os abandonou corre o risco de ficar condenado à frustração e à infelicidade.

São os amigos aqueles que nos sustentam nos momentos difíceis, e nós os sustentamos nas horas iguais. São os amigos que nos dão segurança na necessidade dos conselhos e das opiniões. Muitas vezes, são os que nos salvam. Reconheço que não são muitos e, ao longo da nossa trajetória na face da Terra, o próprio viver nos faz ir decantando e vendo sobrar aqueles que foram testados e juntos nos asseguram a felicidade de poder chamá-los de amigos.

Meu pai, para mim, colocou a amizade senão acima da paternidade, pelo menos no mesmo andar em que elas realmente se encontram. Cristo, igualmente, fez a mesma coisa quando, na Última Ceia, fala aos seus apóstolos: "Já não vos chamo 'servos', porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado 'amigos', porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer." (Evangelho de São João, 15:15.)

Assim, nós descobrimos que, quando o Redentor se refere aos amigos não é o mesmo de quando Ele se refere aos irmãos. A Irmandade está vinculada à nossa origem divina, na certeza de que todos somos filhos de Deus. Já para ser amigo precisamos da vida; e acredito que a base da amizade é a intimidade — intimidade esta que Cristo tinha com os que, com Ele, assumiram a missão de evangelizar. 

São Gregório, contudo, em sua divergência com São Basílio, nos adverte em sua autobiografia sobre a profunda decepção que sofreu em sua relação de confiança com esse seu grande amigo, companheiro de juventude, São Basílio Magno, relatando ter sido pressionado por ele a assumir a cátedra episcopal na isolada e árida Sássima, expressando sua dor pelo abalo na relação de confiança: "Pela força me fez assumir o trono episcopal, assim, com seu amor paternal, enganou-me duas vezes: por nossa parte, tiramos um lucro de sua amizade: não confiar em amigos e não considerar nada mais valioso do que Deus".

É verdade que, depois, impedido pelas circunstâncias de assistir São Basílio em seus momentos finais, São Gregório uniu-se novamente ao amigo em espírito, reconciliando-se na eternidade e na memória: São Gregório dedicou-se a defender o legado de São Basílio e a eternizar aquela amizade na memória da Igreja.

Não vou mais senão afirmar que a verdadeira amizade não acaba, se reconstrói sempre, porque é tão forte, tão grande e tanto espaço ocupa na vida de todos nós que não podemos viver sem os amigos que conquistamos. Até hoje sou amigo de meu pai, de minha mãe — através da sua memória e do seu eterno amor.


 


 






 





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TRÊS MOVIMENTOS NECESSÁRIOS PARA UMA LEITURA DE PEDRO AMÉRICO E A MONALISA, POR JANAÍNA AZEVEDO

Penso em três movimentos necessários para uma leitura de Pedro Américo e a Monalisa, bem como para a biografia Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas (2022), do advogado e escritor campinense Thélio Queiroz Farias. O primeiro movimento passa, necessariamente pelo biografado. Aqui, o areiense Pedro Américo, o maior pintor brasileiro do império, político, romancista, cientista, ensaísta, professor. Pedro Américo enquanto personagem histórico foi biografado em dezenas de obras desde o século XIX. Thélio Farias enumera por ordem de edição todas as biografias e livros inspirados em Pedro Américo, em sua recente obra Pedro Américo e a Monalisa (2025). 

O segundo movimento abraça a cidade como organismo vivo, “lugar de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas.”, como bem disse Ítalo Calvino. Penso que para se conhecer um personagem histórico faz-se necessário conhecer bem o lugar e a época em que ele viveu e atuou. Pedro Américo, em seu romance “O Holocausto” (1882) acusa a localização geográfica da cidade, o clima, os abismos como responsáveis pela inclinação às artes e à melancolia, inclusive.

 O terceiro movimento é o do biógrafo, o escritor de vidas. Para o pesquisador, Sérgio Vilas Boas, uma das instâncias que pode interferir no resultado da biografia é o próprio biógrafo (autor e interpretante). Pierre Bourdier chama de ilusão biográfica, a tentativa de o biógrafo ordenar os acontecimentos de uma vida de forma linear, na ilusão de que se obtenha dessa organização uma narrativa coerente, autônoma e estável. Segundo o sociólogo francês, o máximo que a biografia pode oferecer seria uma reconstrução, um efeito de real. Nesse caminho, o biógrafo contará com a sua própria capacidade de reconstrução, de sua “vigilância sobre valores e juízos”. A responsabilidade do biógrafo, pois, é grande, ele não pode correr o risco de construir simplesmente um mito. Mito não é história e nem se confunde com esta, embora a construção mítica possa falar sobre ela, mesmo que de maneira enviesada, reorganizando significados e concepções criados ao longo do processo de elaboração. O biógrafo Thélio Farias, a despeito de seu rigor de pesquisador, se não constrói um mito, cuidadoso que é, ouso dizer que sofre de uma obsessão, no sentido de obstinação e fixação, pela figura de Pedro Américo. O advogado ilustrado tem se dedicado, compulsivamente, à vida e à obra do pintor paraibano: refez todos os lugares por onde este passou, leu e releu todos os documentos e demais impressos de e sobre o multifacetado personagem. Tem dedicado grandes pedaços da vida a refazer os caminhos, interpretar obras, refazer genealogias, buscar detalhes que sirvam à sua fome de biógrafo. Mas se detém pouco a uma crítica da obra propriamente dita, do pintor e escritor, até porque seu foco são as multifacetas do personagem inspirador, o renomado pintor e os fatos em torno de sua vida. Prova é sua mais recente produção, lançada em Areia, no Teatro Minerva, no último dia 02 de Julho. Thélio, se foge de uma narração mítica, não exclui, portanto, a paixão ao falar do ilustre areiense (e por que deveria?). 

Nesta obra em particular, o biógrafo encontra a ligação de Pedro Américo com o pintor Leonardo da Vinci, ao descobrir que o palácio onde Pedro Américo se instalara para residir e trabalhar, fora erigido onde antes era a casa em que Mona Lisa nascera e crescera. Fato pitoresco, com notas de uma feliz coincidência. Ou sincronicidade, diriam os mais espiritualistas, que acreditam não haver coincidência no universo. Ou mais profundamente, podemos citar o paradoxo do tempo bergsoniano, para quem o passado puro é o lugar onde todas as experiências podem se realizar, uma linha horizontal, estado permanente de coexistência, invisível e real, tempo que, a meu ver, serve bem à proposta de Thélio Queiroz, biógrafo de Pedro Américo. 

Por último, o biógrafo, para além de um rigor e de uma rigidez histórica e científica, também é factível a paixões, o maior perigo humano real. Na fala do advogado da antiga Vila Nova da Rainha, a paixão aparece na entonação, na postura, nos gestos. No texto, ela se insinua na adjetivação, nas construções entusiásticas, na criação do perfil temático nas redes sociais, como o perfil no Instagram, @pedroaméricovive, assinado por Thélio, em que este assume a persona do pintor. Thélio Farias, enquanto biógrafo de Pedro Américo, segue nos apresentando, não um Pedro Américo absoluto, mas um Pedro Américo cuja imagem ainda nos apresenta sujeitos possíveis dentro da construção histórica e humana. Prova é que a obra Além do Ipiranga – a extraordinária vida de Pedro Américo e suas incríveis facetas teve uma nova edição, revista, ampliada, aumentada e comentada. A fonte inesgotável. 

JANAINA DE CASTRO AZEVEDO SILVA, professora mestre em letras,  Autora de três livros: Marias (1999 - Prêmio Novos Autores Paraibanos, livro indicado para o Vestibular 2012 da Universidade Estadual da Páraíba); Orquídea de Cicuta (Contos, 2002) e Canção para dois amores (Poemas, 2005). Professora, produtora e ativista cultural na cidade de Areia, PB.


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FESTIVAL JUÁ LITERÁRIA CELEBRA LEGADO DE PAULO FREIRE COM PALESTRA

Juazeiro amanheceu, nesta terça-feira (21), lembrando a década de 1980, quando recebeu a ilustre visita do educador Paulo Freire. Foi totalmente demais a mesa da segunda edição do festival Juá Literária, com o tema 'Quem Educa Marca o Corpo do Outro', que trouxe à terrinha a pedagoga, Fátima Freire Dowbor, a filha do educador pernambucano que colaborou para o processo de educação popular no município e é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Na Tenda das Palavras, falando sobre seu livro, que leva o mesmo nome da palestra, a pedagoga Fátima Freire, conduziu o público suavemente através da prática da reflexão sobre nosso agir ao pensar, sobre o que buscamos na área da educação e sobre que caminhos podemos construir atuando com crianças. "Uma experiência fascinante e enriquecedora que nos trouxe a ideia de que educação é emoção, sentimento, paixão, generosidade, apego e desapego", segundo a também professora Grotas Benvindo, uma das primeiras a chegar ao encontro na arena do Centro de Cultura João Gilberto.

No segundo dia do Juá Literária, o público também pôde conferir, na Feira dos Livros, o acervo de mais de 600 editoras; as mesas literárias do Espaço Flijuá e as apresentações das escolas, lançamentos de livros e contação de histórias na Carreta Literária e no Busarte (ônibus palco com sala de teatro para ver espetáculos), além de um mergulho pelos movimentos literários de Juazeiro e um show musical com o grupo O Trio.

Até o sábado (25), estão confirmadas atrações, a exemplo de rodas de conversa; mesas, oficinas, teatro; contação de histórias e shows musicais, reunindo cerca de 200 artistas e escritores de várias partes do país em mais de 180 atrações. Nomes representativos no segmento literário, a exemplo de Bob Fernandes e Daniel Munduruku, além de Osvaldo Montenegro e Adriana Calcanhoto, no cenário musical nacional, irão se revezar em ações como a Tenda das Palavras e Canções do Rio, numa super estrutura montada na Orla Nova do município, à beira do Rio São Francisco, no Centro de Cultura João Gilberto e na Casa do Artesão.

O Festival Juá Literária é uma realização da Prefeitura Municipal de Juazeiro, por meio da Secretaria de Educação, dentro do Programa Juá Literária, com apoio da Editora IMEPH, Andelivros, Governo do Estado da Bahia e Fundação Pedro Calmon, e produção da Carranca Produções e Melodia Produções.


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MARIA DO INGÁ, MARINGA, A CANÇÃO DE POMBAL, POR TARCISIO PEREIRA

Tenho acompanhado, nos últimos dias, uma polêmica em torno do romance que eu sempre quis escrever. Depois de tantas décadas, discutimos agora sobre a existência, ou não, de uma jovem cabocla provavelmente linda, pobre e retirante, chamada Maria do Ingá.

De princípio, esteja claro, quero dizer que tudo o que sei sobre ela me foi contado por um grande músico brasileiro chamado Joubert de Carvalho. Não conheci Joubert de Carvalho, claro, mas de tanto ouvir a sua canção, lançada em 1932, estou limitado às informações que ele me transmite na letra da música.

O nome Maria do Ingá, pela imposição rítmica da letra, foi abreviado pelo compositor e ficou como “Maringá”, hoje uma espécie de grife da cidade de Pombal, sertão da Paraíba, berço da minha vida. Esse é um detalhe menor, mas que deve ser levado em conta por quem defende a existência dessa retirante. Não é o meu caso, ainda fico com a obra de arte. E uma obra de arte que, por si só, sem nenhum propósito de cunho midiático, já serviu de propaganda ao nome da minha terra. Para sempre!

A canção é famosa e, portanto, todos devem lembrar do trecho que diz assim:

“Antigamente, uma alegria sem igual

Dominava aquela gente

Da cidade de Pombal,

Mas veio a seca, levou tudo e foi embora

Só restando então as águas

Dos meus olhos quando choram.”

A moça que partiu, deixando um moço apaixonado a chorar de saudade, teria sido um famoso político do século passado, senador da Republica que também governou a Paraíba como interventor, chamado Ruy Carneiro.

Se isso fosse mesmo verdade (ou se for), então poderíamos dizer que temos em Pombal, ou teríamos, um grande drama de amor digno de qualquer filme brasileiro. Mas as mentes férteis devem ter criado esse fato em função de outra história curiosa, amplamente dissecada por alguns cronistas e pesquisadores pombalenses.

Quando José Américo de Almeida foi ministro da Viação e Obras Públicas, o cantor e compositor Joubert de Carvalho, já famoso pela marchinha carnavalesca chamada “Taí”, gravada por Carmem Miranda, ambicionava um cargo de médico marinho e queria uma audiência com o ministro. Ruy Carneiro, que conhecia Joubert das noites boêmias no Rio de Janeiro, era assessor de José Américo e levou o compositor ao seu gabinete.

Alguns cronistas afirmam que Joubert conseguiu o emprego, mas o único meio de retribuição era com o talento de sua arte. Comporia uma canção em homenagem à Paraíba, terra do ministro, e para tanto procurou saber qual era a cidade dele. Quando soube que Zé Américo era de Areia, ponderou que o nome dessa cidade não era bom de rima. Assim, matando dois coelhos numa só cajadada, meteu na letra o nome de Pombal, que era bom de rima, sendo uma forma de também agradar ao pombalense Ruy Carneiro.

Não sei até que ponto esta história procede. Estou apenas reproduzindo, de forma sucinta, o que li dos meus conterrâneos. A única coisa que quero acrescentar, como um dado que ainda não foi levantado, é a similaridade da letra da música com a trama do romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida…

Ao longo das décadas, sapecaram histórias para todos os lados. Até penso que a canção “Maringá”, ao invés de um romance, já merece um ensaio em torno das controvérsias que têm surgido ao seu redor. Se, por um lado, temos a lenda de um caboclo atormentado numa saudade de amor, chorando pela cabocla que foi embora por causa da seca, por outro temos a história de um amor proibido, vivido em surdina por um alto figurão da política paraibana que não podia se expor, haja vista que a namorada secreta era uma mulher da pobreza.

Para a segunda hipótese, há sempre um narrador mexendo no vespeiro. O escritor e promotor de Justiça Severino Coelho, também de Pombal, transcreveu um texto do jornalista Armando Lira, publicado em 1991, com o seguinte título: “O Amor Proibido de Ruy Carneiro – a Verdadeira História de Maringá”.

A história narrada por Armando Lira, verdadeira ou não, é de fato linda, tão linda que a gente quer mesmo acreditar nela. Diz que Ruy Carneiro amou essa moça pobre, foi afastado dela, depois governou a Paraíba e em pleno exercício do cargo voltou a encontrá-la, ele já casado e ela pobrezinha, pedindo esmolas para ele.

Notem bem. Eu também tenho direito de dizer, agora, que a minha versão sobre “Maringá” é também “verdadeira”. Me arvoro nesse direito porque vejo todas as semelhanças dessa cabocla retirante com uma outra, chamada Soledade, personagem de Zé Américo no romance “A Bagaceira”. Soledade veio do sertão da Paraíba com sua família, chegou na Fazenda Marzagão, em Areia, e bagunçou a vida do dono da casa, Dagoberto Marçal. Depois foi embora e deixou chorando o jovem rapaz chamado Lúcio, filho do fazendeiro, recentemente formado. O curioso é que, anos depois, Soledade reaparece na fazenda, maltrapilha, e pede esmolas ao novo fazendeiro, justamente aquele rapaz que ela deixara chorando.

A música foi lançada em 1932. Quatro anos antes, 1928, Zé Américo tinha lançado “A Bagaceira”, e o livro estava na crista dos mais importantes acontecimentos literários da época. “A Bagaceira” já era considerado, como ainda o é até hoje, o precursor do romance regionalista nordestino, pois trazia os requintes de uma estética inovadora na linguagem, ao contrário de outros clichês da ocasião. A história desse livro também é marcada pelo poder de influência que conseguiu causar junto a outros autores. No seu rastro vieram outros romances com a mesma temática – a exemplo de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; e “Seara Vermelha”, de Jorge Amado.

Aliás, se me esticar mais ainda, vou entrar noutro romance de Jorge Amado, “Gabriela Cravo e Canela”, outra cabocla retirante que bagunçou o coração do árabe Nacib, na cidade de Ilhéus, estado da Bahia. Esse tema, convenhamos, é bastante recorrente, e nada mais apropriado para um compositor de coração grato, retribuindo a um ministro que lhe dera o emprego tão almejado, o qual já contara essa mesma história num romance famoso

Na peça teatral “O Santo Inquérito”, cujo cenário é também a Paraíba, também existem controvérsias sobre a existência ou não de Branca Dias, a heroína, torrada no fogo da Inquisição porque salvara um padre de morrer afogado, quando lhe fazia respiração boca a boca. A história é tão linda que todos a querem como verdadeira – mas o próprio autor, o dramaturgo Dias Gomes, afirma que se baseou apenas numa lenda. Até hoje permanece o mistério.

No caso de “Maringá”, creio que a arte, mais uma vez, está muito acima das invenções ou comprovações históricas. Seja lá o que for, o fato é que essa cabocla, como bem diz a letra, foi a retirante “que mais dá o que falar”… E que se orgulhem os filhos de Pombal, como eu, por possuírem essa canção de amor como o seu hino quase oficial.

Tarcísio Pereira-Escritor, Teatrólogo, Jornalista e Publicitário

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ROMARIA DOS 92 ANOS DE MORTE DO PADRE CÍCERO REÚNE MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE

Uma multidão de fiéis tomou conta do Largo da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte, na manhã desta segunda-feira (20). O público acompanhou a primeira missa de encerramento da Romaria pelos 92 anos de morte de Padre Cícero Romão Batista.

A celebração foi presidida pelo bispo da Diocese de Crato, dom Magnus Henrique Lopes. O evento reuniu romeiros vestidos de preto, em referência à batina usada pelo sacerdote, e de chapéu de palha, um dos símbolos do sertanejo nordestino.

A missa das 6h tem um significado especial para os devotos. Segundo historiadores, esse foi o horário em que Padre Cícero morreu, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos. O marco deu origem à tradicional missa do dia 20, realizada mensalmente em memória do religioso.

Ao longo desta segunda-feira, outras quatro missas encerram a programação religiosa da romaria. As celebrações ocorrem às 10h, 12h, 16h e 18h.

A tradição relata que, pouco antes de morrer, Padre Cícero pediu a amigos e familiares que rezassem por sua alma. O pedido deu origem a um costume que atravessa gerações e reúne milhares de devotos na Capela do Socorro todos os meses.

No túmulo do "Padim", os romeiros fazem orações, agradecem graças alcançadas e renovam promessas. Segundo a Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, cerca de 100 mil pessoas devem passar pela cidade durante a programação, iniciada em 17 de julho.

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COMUNICAÇÃO PÚBLICA EM DEBATE, Antonia Pellegrino - Presidente da EBC

 Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

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