MARIA BETHANIA COMPLETA 80 ANOS

A presença de Maria Bethânia na música e na cultura brasileiras é marcante. Foi em 60 dos seus 80 de vida que a carreira da cantora se desenvolveu com grandes momentos, como quando saiu de Salvador, Bahia, para o Rio de Janeiro, enfrentar o desafio de substituir Nara Leão no Show do Opinião, em 1965.

O país estava sob a ditadura e o grupo do Teatro Arena de São Paulo se dispersou com a repressão da época. Foi quando a artista baiana subiu ao palco.

O dramaturgo Augusto Boal foi para o Rio e se integrou ao Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC da UNE) na intenção de criar um espetáculo em resposta à ditadura. Encontrou a resposta que desejava frequentando o restaurante Zicartola, um espaço político-cultural criado pelo compositor e cantor Cartola e pela esposa dele, Dona Zica.

No Zicartola, costumavam se reunir Zé Keti, Nara Leão e João do Vale, artistas do elenco original do Opinião, que estreou em dezembro de 1964. Entre as músicas estava Carcará, que marca a história de Maria Bethânia desde a estreia profissional da cantora..

Da jovem nascida Maria Bethânia Viana Telles Veloso, em 18 de junho de 1946, na cidade de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, até os dias de hoje, foram muitas fases, sempre na busca do sentimento, de trazer as poesias, poemas e textos de grandes autores como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, da preservação da cultura popular, do novo e de muita autonomia.

Três anos depois do Opinião, Bethânia já indicava que cabia a ela decidir o que queria cantar, se apresentando ao vivo na Boite Barroco, pequeno espaço musical em Copacabana. Fez a escolha do repertório com clássicos da MPB trazendo compositores como Noel Rosa, Tom Jobim, Torquato Neto, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Assis Valente e Dorival Caymmi. Dali surgiu o disco Recital da Boite Barroco, até hoje aclamado.


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FESTAS JUNINAS: A ECONOMIA POR TRÁS DA FESTA, POR CARLOS FALCÃO

O São João não é apenas uma das maiores manifestações culturais da Bahia, mas também uma força econômica. A cada ano, a festa movimenta bilhões de reais, atrai milhões de visitantes e impulsiona setores estratégicos como turismo, comércio, agricultura, transporte e serviços. Mais do que tradição e entretenimento, os festejos juninos representam um poderoso motor de geração de renda, empregos e desenvolvimento para centenas de municípios baianos.

Em 2026, o governo do estado pretende destinar mais de R$ 146 milhões para apoiar a realização das festas em 282 municípios baianos. Os números impressionam. De acordo com estimativas do setor de turismo, o São João deve movimentar entre R$ 2,1 bilhões e R$ 2,5 bilhões na economia baiana este ano, consolidando-se como o segundo maior evento econômico do calendário festivo brasileiro, atrás apenas do Carnaval. Em 2025, cerca de 1,8 milhão de visitantes circularam pelo território baiano durante o período junino, injetando aproximadamente R$ 2,3 bilhões na economia estadual. A expectativa para 2026 é superar esses resultados.

O impacto é percebido principalmente no interior do estado. Cidades como Cruz das Almas, Amargosa, Santo Antônio de Jesus, Senhor do Bonfim, Ibicuí, Irecê, Jequié e Serrinha recebem milhares de visitantes, registrando altas taxas de ocupação hoteleira e forte crescimento no consumo local. Restaurantes, bares, pousadas, supermercados, postos de combustíveis e pequenos comerciantes experimentam um aumento significativo no faturamento durante o período.

Outro aspecto relevante é a geração de empregos. Os festejos criam milhares de vagas temporárias para músicos, técnicos de som e iluminação, montadores de estruturas, seguranças, ambulantes, motoristas, garçons, profissionais da limpeza e trabalhadores do setor de turismo. Para muitas famílias, a renda obtida em junho representa um importante complemento financeiro para os meses seguintes. A União dos Municípios da Bahia destaca que os festejos aquecem setores como comércio, agricultura, turismo e serviços, ampliando a arrecadação municipal e fortalecendo a economia local.

A agricultura familiar também é beneficiada. O aumento da demanda por milho, amendoim, mandioca, licores, frutas e outros produtos típicos impulsiona a produção rural, fortalecendo pequenos produtores e cooperativas espalhados pelo interior baiano. Trata-se de uma cadeia econômica que conecta o campo às cidades, distribuindo renda de forma descentralizada.

O São João é muito mais do que uma celebração tradicional, mas também um importante motor da economia baiana, que transforma cultura em desenvolvimento, criando oportunidades, ampliando a arrecadação dos municípios e contribuindo diretamente para o crescimento econômico da Bahia.


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MESTRE VITALINO RECEBE TÍTULO DE DOUTOR HONORIS CAUSA EM MEMÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) realiza, nesta sexta-feira (26), a cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa in memoriam ao Mestre Vitalino, um dos maiores nomes da arte popular brasileira. A solenidade ocorre no Auditório do Núcleo de Ciências da Vida (NCV), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA), em Caruaru, às 15h, e será presidida pelo reitor Alfredo Gomes e pelo vice-reitor Moacyr Araújo.

A homenagem reconhece a relevância de Vitalino Pereira dos Santos (1909–1963) para a cultura popular nordestina. Natural de Caruaru, o artista destacou-se pela produção de esculturas em barro que retratam o cotidiano, o folclore e os costumes do Agreste de Pernambuco, alcançando projeção internacional. Seu trabalho tornou-se símbolo da arte popular e referência para gerações de artesãos.

A proposta de concessão do título partiu do Núcleo de Formação Docente do CAA e foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) em dezembro de 2025. O legado de Mestre Vitalino permanece vivo em acervos como o do Alto do Moura, em Caruaru, além de museus no Recife e no Rio de Janeiro, onde suas obras seguem sendo apreciadas como expressão autêntica da cultura brasileira.


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RÁDIO NACIONAL 90 ANOS

 Em um Brasil onde a maioria da população era analfabeta e o rádio era tanto uma promessa de falar com as massas como uma tecnologia para poucos, uma emissora nasceu com a pretensão de “representar” o país. A Rádio Nacional, que faz 90 anos em 2026, despontou desde os primeiros anos com uma programação considerada inovadora e ambiciosa.

Criada pela Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e instalada no primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro - o Edifício A Noite -, a Nacional deu seus primeiros passos apostando em formatos que eram novidade no Brasil.

Antes mesmo de ser estatizada pelo governo Getúlio Vargas e viver seu ápice, a rádio já tinha conquistado um lugar na história da comunicação.

Na série especial 90 anos em 90 histórias, a Nacional conta sua própria história com edições diárias até o dia 12 de setembro, aniversário da rádio. Todos os episódios são publicados na Radioagência Nacional. O resumo de cada semana vai ao ar na Agência Brasil.

Na época em que a emissora foi criada, outras rádios já existiam no país. O potencial de público era enorme, diante da limitação dos jornais impressos, como explica o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), João Batista de Abreu.

"O censo de 1940 indicava que o Brasil tinha em torno de 45 milhões de habitantes. Desses, 56% dos adultos eram analfabetos. Imagina o que isso significa em termos de abertura de informação. O primeiro veículo de comunicação popular, de massa, a falar para o analfabeto foi o rádio".

Por outro lado, segundo o professor da UFF, o aparelho era pouco acessível. Nessa época, um receptor de rádio tinha o tamanho de uma geladeira e custava o equivalente a R$ 8 mil em valores de hoje.

O primeiro episódio se aprofunda no contexto em que a Rádio Nacional nasceu, e a quarta edição fala da Segunda Guerra Mundial e do governo Getúlio Vargas:

Sede icônica- Nacional foi instalada em um símbolo modernista: o Edifício A Noite, casa da emissora por mais de 70 anos.

“É um marco na arquitetura brasileira, uma mudança nos parâmetros dessa arquitetura. Começa a transformar a cidade colonial portuguesa e 'afrancesada' por Pereira Passos em uma cidade americana, dos grandes arranha-céus", explica Alberto Taveira, arquiteto do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

Hoje o edifício é tombado e reconhecido como patrimônio histórico e cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O segundo episódio conta melhor essa história:

Foi com as primeiras notas de Luar do Sertão, às 21h, que a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, fez a primeira transmissão. E a voz inaugural foi a de Celso Guimarães, primeiro diretor de broadcasting da emissora: “Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”. 

Fora do ar, o evento de lançamento contou com ministros de Estado, embaixadores, parlamentares e membros da elite financeira da então capital federal.

"Foi fantástico, havia um avião divulgando uma grande festa pela cidade. A Rádio Nacional surgiu com pompa e circunstância", lembra Cristiano Menezes, ex-diretor da emissora.

Voltando às ondas do rádio, também teve discurso do presidente do Senado e até mesmo uma bênção direto do Palácio São Joaquim – a primeira transmissão externa da Nacional. Os detalhes estão no terceiro episódio:

Alcance nacional Quando foi criada, a Rádio Nacional contava com a concorrência de emissoras já populares, como a Mayrink Veiga. Mas o objetivo do grupo A Noite era ainda mais ambicioso: ultrapassar os limites do estado, como fala Lia Calabre, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense e da Fundação Casa de Rui Barbosa, no quinto episódio da série.

"A Rádio Nacional vai ampliando a sua potência. Ela já começa, para as rádios do momento, com uma potência significativa, com uma pretensão de alcançar para além dos limites do estado, para que em alguns horários ela possa ser ouvida em boa parte do país, mas não todo. Mas o alcance realmente do conjunto do país, para além das fronteiras, para a Amazônia, para o Mato Grosso, ele vai se dar, efetivamente, com as ondas curtas e aí, sim, a rádio já estatizada. Mas havia, desde o nascimento, com o grupo privado que a criou, uma ideia e um desejo de ter uma rádio de alcance nacional."

Inovações no rádio-No início, a emissora tinha uma estrutura mínima: duas seções, uma artística e uma administrativa, e menos de 30 pessoas dividindo funções que hoje seriam de equipes inteiras. A programação era fragmentada, com espaços de 15 minutos para cada profissional.

Quem conta bem sobre este período é um dos nomes mais importantes da história da Rádio Nacional: Henrique Foréis Domingues, conhecido como Almirante.

"O primeiro contrato sério que eu tive foi na Rádio Nacional, em 1938. Não se fazia, não se usava muitos artistas. O artista era eu só. Eu só é que falava, eu que cantava, eu que fazia vozes. Eu fazia as vozes de homem, de mulher, de velho, de velha, de bêbado, de alemão, tudo isso."

Com a chegada de Almirante, a Nacional começa a mudar completamente a forma com que se fazia rádio. Ele foi um dos responsáveis por criar o conceito de “programa montado”, planejado e com novos formatos e participações novas a cada edição.

O repertório musical também fez história. O maestro Radamés Gnattali experimentou novas formações num tempo em que somente metade dos cantores interpretava música brasileira, como conta o professor e compositor Henrique Cazes.

"A equipe toda era muito bem preparada, era muito bem aparelhada. Isso é que fez com que tivesse um alto padrão profissional, isso que fez com que possibilitasse a experiência. O Radamés sempre andando um pouco à frente, né? E o Radamés, ele adere um pouco ao modelo de harmonização e de menos enfeite no arranjo que depois se consagraria na Bossa Nova e, principalmente, na MPB."


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INFELIZMENTE FESTA DE SÃO JOAO VIROU FESTIVAL DE MÚSICA QUALQUER, DIZ MACIEL MELO

 Maciel Melo vê ‘escanteio’ do forró no São João de Campina e Caruaru e defende “cada um no seu quadradoMaciel Melo confessou certo desânimo e desabafou: “Estou cansando de falar (...) Mas temos que brigar por nosso espaço, acho que isso passa, pode demorar. O São João é festa nossa, é tradição nossa. O turista que vem pra cá em junho ele vem para ouvir nossas tradições, nossa existência, culinária, dança, e folclore”, contextualizou.

Autor de grandes sucessos do forró, o cantor e compositor Maciel Melo criticou, na noite desta segunda-feira (8), o que chamou de “escanteamento” do gênero na programação das principais festas juninas do Nordeste, principalmente em Campina Grande e Caruaru, cujos eventos - para ele - viraram um “festival de música qualquer”. “Não sou contra gênero nenhum, mas cada qual no seu quadrado”, exclamou o artista, durante entrevista ao programa ‘Hora H’, da TV Norte Paraíba.

Conhecido pela canção “Caboclo Sonhador”, entre outras mais de 500 músicas, Maciel atribuiu a distorção aos gestores públicos. “Vocês estão acabando com nossas tradições”, bradou, em conversa com o jornalista Heron Cid.

Ele lembrou que o período junino é um espaço para a sonoridade do forró. “O cara vem aqui no meu terreiro, entra na minha casa, me bota pra fora e toma conta”, protestou o músico pernambucano, natural de Igaracy, no Vale do Pajeú.

Maciel Melo confessou certo desânimo e desabafou: “Estou cansando de falar (...) Mas temos que brigar por nosso espaço, acho que isso passa, pode demorar. O São João é festa nossa, é tradição nossa. O turista que vem pra cá em junho ele vem para ouvir nossas tradições, nossa existência, culinária, dança, e folclore”, contextualizou.

Na opinião de Maciel, cabe as gestões públicas o papel de selecionar as atrações e priorizar as bandas e artistas com identidade com a festa. “Tudo bem, vamos trazer outras pessoas, mas vamos dar prioridade os artistas que tem compromisso com nossa cultura e a festa em si, quem mantém essa cultura viva são os que moram aqui. Se eu for embora, Petrúcio amorim, Flávio José, quem vai manter essa tradição? Como diz Patativa do Assaré: cante lá que eu canto cá”, reforçou.

“Virou um festival de música qualquer (Campina Grande e Caruaru). O forró fica por último e estão dando prioridade a outros gêneros que não tem nada a ver com nosso São João e com a essência”, criticou Maciel Melo, referindo-se as duas principais festas da época no Nordeste.

“A consequência disso será que uma criança dessa daqui a 20 anos não saber quem foi Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês, não saber o que é o forró, não saber o que é nossa identidade. Dorgival falou sobre isso. Isso deve ser ensinado mesmo nas escolas”, enfatizou. 

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CONFIRA LISTA DE ESPÉCIES DA FAUNA AMEÇADAS DE EXTINÇÃO

A Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção passou por atualização após avaliações do estado de conservação conduzidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Foram incluídas 180 espécies ou subespécies, como a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), reclassificada como Vulnerável (VU), o bugio-preto (Alouatta caraya) e o tamanduaí (Cyclopes rufus). Outras 150 espécies foram retiradas da lista.

O novo documento reúne a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, com 790 espécies ou subespécies; além da Lista Nacional Oficial de Espécies de Fauna Extintas, com nove espécies.

O levantamento inclui mamíferos, aves, répteis, anfíbios e invertebrados terrestres, que foram classificados como Vulneráveis (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR), Possivelmente Extintas (CR-PE) e Extinta na Natureza (EW).

Os peixes e invertebrados aquáticos são classificados em outra lista também atualizada neste ano e divulgada no mês de abril.

A maior parte das espécies listadas são invertebrados terrestres, com 264 espécies ou subespécies ameaçadas de extinção. Há ainda 242 aves, 123 réoteis, 102 mamíferos e 59 anfíbios.

Das nove espécies presentes na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Extintas, seis são aves, duas são anfíbios e há um mamífero: o roedor de Vespucci (Noronhomys vespuccii), que ocorria em Fernando de Noronha.

Proteção da biodiversidade-De acordo com o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, a lista é um dos instrumentos mais importantes para a proteção da biodiversidade brasileira.

“A lista reconhece, perante a nossa sociedade e o mundo, a situação das espécies brasileiras e também abre caminho para a construção de planos de recuperação e de conservação", afirma Capobianco.

O documento substituiu a última versão publicada em 2022 e resulta de um esforço conjunto com comunidade científica e organizações da sociedade civil.

“Poucos países no mundo têm a capacidade de avaliar sua biodiversidade na escala que o Brasil faz hoje”, reforça o presidente do ICMBio, Mauro Pires.

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EXU TERRA DE LUIZ GONZAGA E O PERÍODO JUNINO

No mês de junho de 2026, a jornalista Gabriela Castello Buarque/Folha de Pernambuco visitou Exu Pernambuco. A jornalista revela que a cidade de Exu, no Sertão de Pernambuco, terra do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, mantém uma tradição secular de celebrar São João Batista de forma familiar e com muita devoção. 

Principal símbolo de resistência dessa tradição, a igreja de São João Batista, na Fazenda Araripe, Zona Rural de Exu, onde o Rei do Baião cresceu, é o epicentro de tudo. “A fé em São João Batista é o que traz as pessoas para celebrarem. E essa fé se juntou à música, que vem da raiz de seu Januário, pai de Luiz Gonzaga, que é muito forte para nós”, explica a administradora e pesquisadora da história de Exu, Maria Carlina Alencar, que reside no vilarejo desde a infância. 

As celebrações têm início no novenário dedicado ao santo, que começa no dia 14 de junho, com missa e o hasteamento da bandeira de São João Batista. Depois do novenário, além da quermesse, o forró é tradição. 

“Antigamente era o tradicional samba de latada (ritmo que passeia entre o forró e o samba), que acontecia todas as noites após a novena, depois veio o forró. Também era muito forte antigamente amanhecer o dia com os pífanos tocando na alvorada, era a coisa mais linda. Era bem mais simples, mas já era uma coisa muito significativa. Essa tradição sempre foi muito forte”, lembra Carlina. 

De acordo com a pesquisadora, foi depois de Januário José dos Santos, mais conhecido como Mestre Januário, sanfoneiro de oito baixos e pai de Luiz Gonzaga, que tocava nos sambas de latada, que o São João começou a ter outra característica.

"Foi assim que juntou a fé com a questão da música, que vem dessa raiz de Januário e que é muito forte para nós. Depois, Luiz Gonzaga foi crescendo, como adolescente também tocava, e assim o Araripe começou a ter toda essa festividade, não só religiosa como profana", relata Carlina.

Carlina afirma também que, conforme suas pesquisas, é possível que a estética do São João, como conhecemos hoje com fogueiras, fogos, zabumbas,  triângulo, sanfona, tenha nascido no Araripe. "É preciso  mais pesquisas, mas tudo indica que o São João, com a festividade dançante e todos esse elementos, nasceu aqui, no Araripe e foi transmitida por Luiz Gonzaga para o mundo todo", declara a administradora.

Gonzagão fazia questão de honrar suas vivências no Araripe e o amor que ele tinha por São João Batista em suas músicas:

"Falando de São João, se pensa em Luiz Gonzaga. Quando se tornou o Rei do Baião ele deu uma entrevista para o Globo Repórter, na igreja de São João Batista, e disse: 'todas as músicas juninas que eu componho, é lembrando daqui. São João Batista é o santo que me intuiu a ser o artista que sou'", completa a pesquisadora. 

Januário, também conhecido como o maior sanfoneiro da região do Sertão do Araripe, era devoto de São João e tinha como obrigação pessoal fazer uma fogueira com quase dois metros de altura quando morava no Povoado do Araripe. 

“Ele não admitia, mesmo velhinho e com os passos já curtos, que ninguém acendesse a sua fogueira. Colocava uma cadeira perto e ficava apreciando. Ali ele fazia também suas preces. Segundo a tradição, a fogueira de São João tem um poder tão forte que nos dá o direito até de escolhermos alguém como padrinho e madrinha”, conta João Batista Januário, vaqueiro e poeta, conhecido como João Gonzaga, filho adotivo de Januário. 

Adotado com três dias de nascido por Januário e a sua segunda esposa, Maria Raimunda de Jesus, João ressalta que a convivência com o pai foi de extrema importância para que ele mantivesse a tradição de São João da família, de não ser só uma festa dançante, mas uma celebração onde a espiritualidade está sempre presente.

“Sempre foi um legado de ‘matuto’ e até hoje essa tradição continua aqui no Exu. O primeiro café do dia após a fogueira tinha que ser passado nas brasas, para consagrar a festa e ter as bençãos de São João", completa João.

Um misticismo que, segundo o irmão e padrinho de batismo de Luiz Gonzaga, utilizava bastante em suas composições ao falar do Sertão. “Gostaria muito que o universo entendesse que São João é Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga é o próprio São João, porque até fazer prece nas suas músicas ele fazia, como em São João do Carneirinho”, afirma. 

“Ai São João, São João do Carneirinho

Você é tão bonzinho

Fale com São José, fale lá com São José

Peça pra ele me ajudar

Peça pra meu milho dá

20 espiga em cada pé”.

Durante o período junino, os moradores da área urbana costumam ir para os sítios e chácaras de famíliares na Zona Rural, que fazem as fogueiras e esperam os parentes que vem de fora. Na mesa, não podem faltar os tradicionais bolo de milho, pamonha e canjica. 

“A gente faz aquela festa na beira da fogueira, com bastante forró. Geralmente, o sanfoneiro já é alguém da família ou algum amigo da região. A maioria aqui já tem uma base”, comenta a diretora do Bordados em Cantos de Exu, Socorro Duarte.

O cantor e sanfoneiro Joquinha Gonzaga, sobrinho e sanfoneiro do Rei do Baião até a sua morte, assumiu a missão de levar adiante a tradição da família Gonzaga, inclusive da sanfona de oito baixos que sempre foi o símbolo da família.

“Começou com o meu avô Januário, que consertava sanfonas e era o maior sanfoneiro do Sertão. Ele passou esse conhecimento para a família, mas é uma sanfona que, infelizmente, está em extinção. Você não encontra mais tocador de oito baixos em qualquer lugar e, quando encontra, não tem espaço. Vejo muitos tocando oito baixos como eu, por admirar, pelo prazer, mas não vivendo da oito baixos”, lamenta o músico. 

Ainda segundo Joquinha, nas cidades onde o São João conta com grandes polos festivos, o forró tradicional tem perdido espaço. 

“O nosso São João está mudando, diria que piorando. O forró nunca cai, mas ele é injustiçado. Tem aparecido muitos artistas bons, mas infelizmente não estamos tendo espaço. Vão entrando outras pessoas no mercado da música, que julgam ter mais valor do que nós, e vão nos substituindo e assim transformando a nossa festa”, relatou o músico.

Cantor, compositor e instrumentista, Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha e neto do Rei do Baião, corrobora o pensamento do primo Joquinha: "A invasão do espaço do São João e forró por artistas e público diferentes não é por acaso e não acontece organicamente. De certa forma, sim, porque é moldado pelo que o público quer ver nos festivais. Mas há muita coisa aí por trás. É preocupante sim, temo pelo nome da festa, de um dia não ser mais São João". 

Em relação ao fato de a tradição junina estar diretamente ligada à sua família, Daniel afirma que não acredita em uma "criação de um São João, porque isso vem de antes". Porém, concorda que a disseminação do arquétipo e imaginário da festa podem ser atribuídos aos seus parentes.

"O que eu entendo que aconteceu é que Luiz Gonzaga virou o próprio arquétipo do São João com seus discos juninos, que a gravadora colocava para sair sempre em época junina. Isso alimentou o imaginário desse São João que a gente vê. Então, esse arquétipo todo foi, sim, criado por imagens provenientes das músicas de Gonzaga", avalia o cantor.

Apaixonado pela terra do avô, Daniel conta que já ouviu muitas queixas em relação à celebração do ciclo junino na cidade.

"Já ouvi de pessoas coisas como: 'vim para o Exu achando que ia encontrar o maior São João do mundo. A cidade estava toda apagada e não tinha uma menção a São João, me frustrou muito'.  Na terra do Luiz Gonzaga não tem uma grande festa de São João, mas tem o início do arquétipo. Não é o poder público que leva para frente um arquétipo típico de festa junina como a gente conhece. É familiar, no sentido de haver festas em sítios e povoados", compartilha Daniel.

O instrumentista acredita que, mais cedo ou mais tarde, as novas gerações transformarão essa tradição. Uma vez que, passada para frente, "alguma coisa se transforma".

"É sempre uma dinâmica e é para ser assim, porque se a festa ficar parada no passado ela morre. O Exu sempre foi mais ou menos do jeitinho que ele é, um lugar muito duro, em que as tradições são feitas na rua e de uma forma popular. Eu nunca fui a uma festa junina no Exu, mas vejo a cultura popular acontecer na rua, com bandas de pífano, com o forró, e isso é bom porque percebemos a cultura quando ela acontece na rua, principalmente a cultura popular", completa o compositor.

De acordo com a secretária de cultura e turismo de Exu, Isa Apolinário, o objetivo da gestão do município é perpetuar as raízes e investir para que as tradições do povo não se percam em meio às modernidades.

“Procuramos sempre fortalecer o São João raiz, esse que quase não existe mais em lugar nenhum do mundo. Então aqui, a tradição é essa: cada casa faz sua fogueira, comemora com sua família, tanto na cidade quanto na zona rural, mas isso ocorre mais na Zona Rural. O nosso turismo e a nossa cultura é mais rural, então buscamos fortalecer isso”, explica a secretária.

A secretária de cultura e turismo de Exu, Isa Apolinário. Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco.

Com o objetivo de fortificar e divulgar as tradições e os costumes locais, a secretária desenvolveu um projeto de turismo de base comunitária com imersão cultural em diversas áreas e temas, como música, bordado, trabalho social, manejo do couro, culinária local e, é claro, o São João.  

“Nós oferecemos aos turistas que vem para Exu uma imersão cultural nas nossas comunidades, como o povoado do Araripe, para que possamos dar essa continuidade. Porque era isso que Luiz Gonzaga queria, era isso que ele gostava e é isso que os nossos visitantes também querem ver. E é fantástico, porque é divertido e gostoso, estar sentado com a sua família, com seus amigos, ao redor de uma fogueira, comendo, conversando”, detalha Isa.

Apesar de ter uma festa dimensionalmente pequena, mais íntima e tranquila, durante o São João, Exu não economiza quando o assunto é celebrar o Rei do Baião. 

No dia 2 de agosto, data que marca o aniversário de morte de Luiz Gonzaga, é feriado municipal instituído pela Câmara Municipal do Exu. A tradicional "Festa da Saudade" acontece no icônico Parque Aza Branca, última residência do Gonzagão e local que abriga o museu e o mausoléu do Rei do Baião. A celebração costuma iniciar pela manhã, com uma missa solene, seguida por apresentações gratuitas de forró pé-de-serra e artistas regionais ao longo do dia.

Em meados de dezembro, Exu realiza anualmente o Festival Viva Gonzagão, para celebrar o nascimento de Luiz Gonzaga. A data coincide com o feriado municipal do Dia de Santa Luzia, celebrado no dia 13, e a festa geralmente dura entre três e quatro dias.

“Em dezembro reunimos tudo isso no Festival Viva Gonzagão, que foi uma festa criada pelo próprio Luiz Gonzaga. Era a festa de aniversário dele e se tornou um festival porque todo mundo, do município, da zona rural, dos distritos, cidades vizinhas, de toda a região do Araripe, vem para Exu e comemora junto”, relata a secretária. 

Segundo Isa Apolinário, o Festival Viva Gonzagão busca sempre reunir na grade de programação amigos famosos de Luiz Gonzaga, como Fagner, Gilberto Gil, Elba Ramalho e vários outros artistas, além dos familiares que seguem na luta para dar continuidade ao legado do Rei do Baião.

 “O sobrinho dele, Joquinha Gonzaga, abre o festival todos os anos. Agora, Daniel Gonzaga, que é filho de Gonzaguinha e neto de Luiz Gonzaga, também participa dessa luta. O festival é tudo para nós. É o nosso São João, Carnaval, festa da Páscoa, vaquejada, é tudo isso junto”, conclui.

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