A BÍBLIA E O SEMIÁRIDO

“Tudo pela defesa do território.” Essa frase, que ecoa com força no Semiárido de hoje, serve também como um portal para compreender o passado. Ao olhar para os povos que habitaram as terras semiáridas descritas nos textos bíblicos, descobrimos muito mais do que relatos antigos: encontramos um espelho da nossa própria realidade. Aqueles povos criaram formas de captar água, desenvolveram o manejo de animais adaptados e, inspirados pelo clima quente e seco, transformaram a escassez em sabedoria. 

Os povos resistiram ao avanço de impérios e modelos opressores que tentavam apagar sua história e sua cultura. A partir dos fatos históricos dessas civilizações, observamos que a convivência com o clima só era possível graças à coletividade e a uma espiritualidade profunda, que alimentava a luta e servia como fonte de resistência. Um povo que luta, mas que também festeja, celebra a vida e se torna fonte de inspiração. Compreender a realidade de quem viveu naquela época é mergulhar em uma fonte que nos conecta diretamente com o Semiárido que vivemos hoje, provando que a mística da terra semiárida é atemporal. 

É fundamental compreender essa conexão e “beber da fonte” de outros tempos para fortalecer quem luta pelo território hoje. Afinal, a Bíblia nasceu em uma região de escassez hídrica em alguns períodos do ano, muito similar ao nosso Sertão.

Nossa caminhada deve muito às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), pioneiras em ler o texto sagrado com o olhar de quem convive no território. Nelas, a Bíblia nunca foi um livro estático, mas uma ferramenta viva de interpretação da realidade. Essa metodologia permitiu que os povos do campo se vissem nos personagens bíblicos, transformando o estudo bíblico em um ato político e social.

Nas CEBs, os relatos sagrados foram resgatados como vivências reais de comunidades que enfrentavam desafios climáticos semelhantes aos nossos. Ali, a Bíblia deixou de ser um rito de isolamento para se tornar planejamento territorial: ler a Palavra era também planejar a cisterna, organizar o mutirão e defender o Fundo de Pasto. O povo não lia sobre um deserto distante, lia sobre a sua própria casa, encontrando na mística bíblica a força para afirmar que a vida no Semiárido é possível e que a convivência é uma missão espiritual e comunitária.

O assessor do Irpaa, Johann Gnadlinger, que estuda a relação entre as escrituras e o Semiárido há décadas, relata que a identificação com as escrituras é imediata: “A Leitura Popular da Bíblia a partir do Semiárido aproxima a vida dos povos dos relatos bíblicos com o cotidiano dos povos do semiárido. Assim como enfrentam a escassez de água, uma seca e criavam estratégias para armazenar recursos e produzir alimentos, assim encoraja o povo sertanejo a unir a luta por justiça social à preservação da Caatinga, à colheita da água da chuva e à convivência com o semiárido. Por isso, muitas vezes participantes de cursos e encontros sobre leitura bíblica no semiárido disseram: ‘Eu com minha vida estou me achando dentro da Bíblia!’”

Johann explica que essa aproximação se dá pelas semelhanças práticas da lida no campo: “Profetas como Amós, que era criador de cabras e cultivador e beneficiador de figos, dialogam assim diretamente com a realidade de quem cria um rebanho e beneficia umbu no semiárido.”

Durante séculos, fomos vítimas de uma visão que não era nossa. Os invasores europeus trouxeram o conceito equivocado de “Polígono das Secas”, tratando nosso clima como um erro a ser combatido. Essa lógica ignorou a sabedoria dos povos originários e comunidades tradicionais que já praticavam a convivência diária por sobrevivência, adaptando-se aos ciclos da natureza muito antes de o termo existir.

Esses povos já conheciam a dualidade da nossa mata: a Caatinga (Mata Branca), que repousa no cinza para resistir, e a Caatubi (Mata Verde), que pulsa vida ao primeiro sinal de chuva. A Bíblia valida essa visão ancestral ao provar que o Semiárido não é um erro, mas um ecossistema com leis próprias. Foi apenas há cerca de 40 anos que movimentos sociais e organizações eclesiais voltaram a questionar a lógica do “combate” (baseada no assistencialismo) para afirmar a Convivência (baseada na autonomia). Não se combate o clima, aprende-se com ele.

Ao sobrepor os mapas do Semiárido brasileiro e da Terra Santa, a semelhança é impressionante. Ambos compartilham chuvas irregulares, vegetação resiliente e a dependência vital do manejo da água. Essa identidade entre os dois territórios nos oferece saberes que dispensam grandes e devastadores projetos de irrigação:

Assim como as histórias bíblicas trazem pastores de cabras e ovelhas, o sertanejo encontra autonomia na criação de pequenos animais e na agricultura de sequeiro com sementes crioulas. Além disso, milênios antes das cisternas de placas, o povo bíblico já estocava água na rocha. Isso reforça a tese de que o problema não é a falta de chuva, mas nossa capacidade de guardá-la e geri-la como bem comum. Na Bíblia, privatizar fontes era pecado, pois água é para a vida. Esse princípio ecoa na nossa resistência contra aqueles que tentam controlar a água e o alimento.

O Semiárido deve ser compreendido, não combatido. A Bíblia ensina uma ética do cuidado com a criação que se traduz em políticas de convivência. Ler o texto sagrado no Semiárido permite entender parábolas de sementes e poços com uma clareza que um europeu jamais teria, pois o sertanejo lê a partir de sua sede e de sua luta pela terra.

O Salmo 23 nos fala de encontrar pasto na Caatubi e segurança nos recursos partilhados. Já o Provérbio 27:23-27 destaca a importância de conhecer e cuidar dos rebanhos, garantindo o sustento da casa através da abastança do leite das cabras. Estudar a Bíblia sob esta ótica é um ato de libertação: ela prova que a espiritualidade e a técnica de convivência são faces da mesma moeda.

Estudo bíblico: Cuidando da casa comum no Semiárido brasileiro 

Historicamente, o Irpaa sempre identificou nos espaços formativos uma ferramenta essencial para a desconstrução de preconceitos sobre o clima regional. O acervo institucional acumula ricas experiências de intercâmbios, cursos populares e  eventos tradicionais, desde 1993, já organizou 15 encontros bíblicos, que reuniram lideranças comunitárias, animadores/as sociais e agricultores/as familiares para debater o texto sagrado fincado na realidade, a exemplo dos marcantes Encontros do Uso da Bíblia no Semiárido e das turmas da Escola Bíblica Ecumênica.

Dando continuidade a esse legado metodológico, a equipe técnica do Irpaa passa atualmente por um processo de formação interna focado no estudo bíblico contextualizado, com o tema “Cuidando da casa comum no semiárido brasileiro”. Amparada no lema de Gênesis 2,15 “Deus nos colocou como homens e mulheres no semiárido brasileiro, para cuidar e preservá-lo”, a iniciativa voltada 40 pessoas de diferentes profissões que atuam na Instituição.

Assim, o estudo visa alinhar a equipe com a mística da Convivência, aprimorando as abordagens pedagógicas utilizadas em campo junto às comunidades, associações e movimentos sociais, fortalecendo a missão do Irpaa de promover o Bem Viver.

O cronograma atual do projeto estende-se de 2026 a 2027, estruturado em quatro semestres práticos:

1º Semestre (2026): A natureza e os povos da Bíblia (estudo do livro “Clima e Água na Bíblia”, ocorrido em 26 e 27 de março no Centro de Formação Dom José Rodrigues).

2º Semestre (2026): Ocupação e uso do solo (com visita de estudo a Canudos-BA, previsto para 16 a 18 de outubro). 

3º Semestre (2027): Povos e diversidade sociológica (com visita ao Santuário Padre Ibiapina-PB).

4º Semestre (2027): Problemas emergentes (gênero, juventude e economia solidária).

Esta ação formativa integra o plano de atividades do projeto Estudo Bíblico: Cuidando da casa comum no semiárido brasileiro, viabilizada financeiramente pela Missionsstelle (Apoio para a Missão), grupo solidário de leigos e leigas da Diocese de Linz, na Alta Áustria, contando também com o aporte de recursos próprios, apoio pessoal e execução do Irpaa.

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RÁDIO MEC PRESTA HOMENAGEM AO POETA THIAGO DE MELLO

 Vai ao ar neste domingo (7), às 12h30, na Rádio MEC, mais uma edição inédita do Conversa com o Autor. A jornalista Katy Navarro entrevista o poeta, educador e compositor Thiago Thiago de Mello, em programa que celebra o centenário de seu pai, o ícone da literatura Thiago de Mello (1926-2022), e seu primeiro livro de poesias, Uma varanda no meio do rio. 

Thiago de Mello nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado na Amazônia, ao lado do Rio Andirá, que banha Barreirinha, cidade no interior amazonense onde nasceu seu pai.

Durante o programa, ele conta como surgiu a ideia de escrever um livro durante a pandemia que apresenta textos, poemas e letras de músicas, além de cartas, e-mails, bilhetes e fotos de seus antepassados.  

Thiago também festeja o centenário de nascimento do pai, autor de livros célebres que marcaram a literatura brasileira, como Faz escuro mas eu canto, Os Estatutos do Homem e Silêncio e Palavra.

Amadeu Thiago de Mello foi um jornalista e diplomata que foi preso durante a ditadura e se exilou no Chile, onde conheceu Pablo Neruda e Paulo Freire, figuras históricas que influenciaram sua obra. 

Em paralelo ao trabalho na literatura, Thiago Thiago de Mello também está lançando o seu sexto álbum musical, intitulado Nada vai sumir, no qual canta sobre a Amazônia, o poder da memória e a impermanência.  

Sobre o Conversa com o Autor - Apresentado e produzido pela jornalista Katy Navarro, são quase 30 minutos de uma conversa que gira em torno dos lançamentos, títulos, curiosidades, processo criativo, sugestões de obras, leituras e as diversas narrativas literárias dos autores brasileiros. Em 2023, o programa completou uma década. 

Os episódios da nova temporada também ficam disponíveis em formato de videocast no canal da emissora pública no YouTube. 

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FENAJ DENUNCIA CONSTRAGIMENTOS A JORNALISTAS NOS EUA

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) manifestou preocupação com relatos de profissionais de imprensa que atuam na cobertura da Copa do Mundo de 2026. Eles afirmam ter enfrentado episódios de constrangimento, restrições à circulação e dificuldades para exercer a atividade jornalística nos Estados Unidos, uma das sedes do evento ao lado de México e Canadá.

Em nota divulgada na quinta-feira (11), assinada pela Comissão de Mulheres Jornalistas e pela Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Social (Conajira), a Fenaj destacou como um dos casos mais graves o da jornalista Karine Alves, da TV Globo.

Segundo relato compartilhado pela profissional, ela foi retirada da fila regular da imigração durante o ingresso nos EUA, tratada de forma ríspida por agentes e submetida à revista do cabelo. Karine diz que o procedimento teria sido direcionado apenas a pessoas negras que chegavam ao país.

Para a Fenaj, o episódio representa um tratamento racista e xenófobo e se soma a outros relatos envolvendo profissionais de imprensa e torcedores que acompanham a competição.

A entidade também citou o caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que foi impedido de ingressar nos EUA para participar do torneio.

Além dos episódios ocorridos nos postos de imigração, jornalistas relataram obstáculos impostos ao trabalho de cobertura esportiva, o que inclui restrições de circulação em espaços utilizados pelas seleções durante os treinamentos.

Diante desse cenário, a Fenaj informou que defenderá, no âmbito da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), o encaminhamento de um documento à Federação Internacional de Futebol (Fifa), para que a entidade assegure condições adequadas de trabalho aos profissionais credenciados para trabalhar durante as competições.

Entre as propostas estão a garantia de condições de trabalho seguras e livres de discriminação para todas as nacionalidades, a criação de mecanismos independentes para recebimento e apuração de denúncias de assédio, violência e discriminação, a adoção de protocolos específicos de proteção para mulheres jornalistas e o compromisso dos países anfitriões com a liberdade de imprensa, a liberdade de circulação e a independência profissional dos trabalhadores da comunicação.

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COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E A CULTURA DO PERTECIMENTO

 Daqui a pouco mais de 24 horas, a Seleção Brasileira estreia na Copa do Mundo. Jogo duro contra Marrocos. A cada quatro anos, o sentimento de "Pra frente, Brasil" toma conta de boa parte da população, mas confesso que, desta vez, há algo diferente no ar. Veja bem a postagem do ator Selton Mello, um dos nomes mais importantes da nossa dramaturgia nas últimas décadas: "Nenhum interesse na Copa do Mundo. Nem sei quando a gente joga. Parei no Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Romário, Ronaldo, Cafu, Kaká etc. Não há mais amor pela camisa nem paixão em defender o país. Não contagiam, não me pegam. Mais alguém assim?"

Fiquei, durante um bom tempo, com o questionamento de Selton Mello na cabeça. E, sim, há um clima diferente até agora em relação à Copa do Mundo. As ruas não estão pintadas quanto antes. As bandeirolas minguaram nos carros e nas janelas dos apartamentos. A paixão e fanatismo do brasileiro em relação ao futebol desapareceram? Talvez. Mas acredito que os fatores são outros.

O primeiro deles passa pelo convívio social. A pandemia deixou marcas profundas. A polarização política, também. Desde as eleições de 2018, o país mergulhou em um ambiente de permanente confronto entre esquerda e direita. Famílias se afastaram. Amizades acabaram interrompidas. O diálogo ficou mais difícil. E a Copa do Mundo sempre foi, acima de tudo, um grande momento de encontro.

Não é coincidência que até mesmo a tentativa de lançamento de uma terceira camisa vermelha da Seleção tenha se transformado em uma disputa ideológica. O que deveria ser apenas uma discussão esportiva virou mais um capítulo da guerra política. Quando tudo se transforma em embate, sobra menos espaço para a celebração coletiva.

Há ainda outro componente importante: a desconfiança. Embora Carlo Ancelotti tenha conseguido boa aprovação popular, como mostra a pesquisa Quaest de ontem, os brasileiros não parecem acreditar plenamente na capacidade da equipe de conquistar o hexa. Entramos na competição sem o favoritismo de outras épocas. E também existe um fator emocional. Sentimos falta dos grandes heróis. Pelé, Romário, Ronaldos, Garrincha. Craques que transcendiam o futebol. Personagens que mobilizavam até quem não acompanhava esporte. Não é apenas nostalgia. É a ausência de figuras capazes de criar identificação nacional. Neymar teve as suas chances e não vingou. Será que agora consegue?

Ainda assim, não acredito no desinteresse definitivo. Copa do Mundo tem uma capacidade única de despertar emoções adormecidas. Basta uma vitória convincente. Um gol decisivo. Uma classificação dramática. Se a Seleção embalar, a confiança volta. O entusiasmo reaparece. O amor pela camisa ressurge.

Porque, no fim das contas, a Copa continua sendo um dos raros momentos em que milhões de brasileiros olham para a mesma direção. Em tempos de tantas divisões, isso tem um valor enorme. Viva a Copa do Mundo. Ela ocorre apenas a cada quatro anos. Esse clima, essa expectativa e essa sensação de pertencimento são especiais demais para serem ignorados. Daqui a quatro anos, ninguém sabe onde estará. Nem mesmo se estará aqui para viver tudo isso novamente. Vale a pena aproveitar.

Roberto Fonseca/Correio Braziliense


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UNIVASF PROMOVE SEMINÁRIO SOBRE DESERTIFICAÇÃO NA BAHIA

 A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) sediará o Seminário sobre Combate à Desertificação na Bahia. O evento, que busca promover o diálogo sobre a desertificação e seus impactos ambientais, sociais e econômicos, acontecerá em 17 de junho, data que marca o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. O seminário será realizado no Espaço Plural, em Juazeiro (BA), e é promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia (Sema), em parceria com a Univasf. As inscrições estão abertas.

A participação é gratuita e aberta ao público em geral, especialmente a representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, entidades de pesquisa, movimentos sociais e comunidades. Os interessados devem se inscrever por meio de formulário eletrônico.

A programação contará com atividades voltadas ao debate e ao intercâmbio de experiências sobre a desertificação na Bahia. A proposta é promover a troca de conhecimentos e fortalecer as estratégias estaduais de prevenção, mitigação e enfrentamento desse fenômeno.

O seminário terá início às 8h e seguirá até as 17h30, com mesa de abertura, o painel “Panorama da Desertificação na Bahia” e o “Carrossel de Experiências de Combate à Desertificação”. A atividade participativa tem como objetivo compartilhar conhecimentos, práticas e estratégias relacionadas ao enfrentamento da desertificação e à convivência com o Semiárido.

No dia 18 de junho, será realizada a oficina de Atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação (PAE-Bahia), destinada a representantes e especialistas convidados. A atividade apresentará a metodologia de revisão do Plano e promoverá a participação social e institucional na construção das diretrizes, ações e prioridades que orientarão as políticas de combate à desertificação e de convivência com o Semiárido no estado da Bahia.

As atividades contam ainda com a parceria de instituições baianas que integram a Comissão Nacional de Combate à Desertificação, entre elas o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), a Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia (Agendha) e a Escola Família Agrícola do Sertão (Efase).

Dúvidas sobre o evento podem ser encaminhadas para o e-mail dippa@sema.ba.gov.br.

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JOSÉ SOBRINHO VASCONCELOS E A ECOLOGIA

Para marcar o Mês do Meio do Meio Ambiente, as inscrições para o Prêmio Vasconcelos Sobrinho 2026 (PVS), estão abertas desta quarta-feira (10) até o dia 3 de julho. Voltado para o reconhecimento, divulgação e incentivo a boas práticas socioambientais e de manutenção do meio ambiente em Pernambuco, o prêmio é uma iniciativa do Governo de Estado, por meio da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), com apoio da Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas). O PVS integra a programação da Semana do Meio Ambiente, que oficialmente vai de 31 de maio a 5 de junho, mas será estendida em Pernambuco com atividades até o dia 16 de junho.

O formulário para inscrição, assim como o regulamento e outras informações sobre o prêmio estão disponíveis durante o período de inscrições, (10/06 a 3/07) no portal da Agência CPRH ( www.cprh.pe.gov.br) , com a entrega da premiação prevista para dezembro em data ainda a ser defina. Podem concorrer ao PVS trabalhos ou iniciativas bem sucedidas, ações, experiências de pessoas físicas ou jurídicas, empreendedores, instituições privadas, públicas, associações brasileiras sem fins financeiros, com projetos realizados em Pernambuco, concluídos ou em fase final de conclusão.

A premiação considera as seguintes categorias: Bem-estar animal; Inovação tecnológica; Pesquisa ambiental; Projeto - Prática educacional (ensino fundamental e médio); Destaque municipal; Destaque Comunicação Ambiental; e Personalidade do Meio Ambiente (Exclusivamente para indicação de terceiros). Para o diretor-presidente da CPRH, José de Anchieta, o prêmio é uma "oportunidade para a sociedade conhecer e valorizar projetos ou pessoas que atuam na preservação do meio ambiente, além de contar com o reconhecimento do Governo estadual".

Quem foi Vasconcelos Sobrinho-Nascido em Moreno, na Região Metropolitana do Recife, em abril de 1908, João Vasconcelos Sobrinho formou-se em Engenharia Agrônoma pela antiga Escola Superior de Agricultura de São Bento, hoje, integrante da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Contribuiu fortemente com as causas ambientais, e foi fundador e diretor do Jardim Zoobotânico de Dois Irmãos, atual Parque Dois Irmãos. 

Também foi professor titular da disciplina de Ecologia da UFRPE, fundador e supervisor da Estação Ecológica de Tapacurá. Foi ainda diretor de instituições federais e estaduais, além de membro da Delegação Brasileira para a Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação, em 1977. Vasconcelos Sobrinho publicou mais de 30 livros, sempre abordando estudos, observações, questões florestais e naturais ligadas às matas e regiões naturais de Pernambuco. Vasconcelos Sobrinho faleceu em maio de 1989, aos 81 anos.

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PAU DA BANDEIRA ATRAVESSOU UMA DAS PONTES DO PROJETO DE INTEGRAÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

Há um fato curioso sobre as formigas cortadeiras: apesar do pequeno tamanho, elas conseguem transportar folhas, cascas, galhos e fragmentos vegetais que pesam dezenas de vezes mais do que seus próprios corpos. O feito impressiona pela força, mas também pela organização. 

Em Barbalha, no sul do Ceará, esse princípio se repete em escala humana anualmente. 

Sob um sol que ultrapassa os 30º, cerca de 200 homens carregadores conduziram, no domingo, 31 de maio de 2026, um tronco de angico com 23 metros de comprimento e três toneladas de peso por um percurso de sete quilômetros, do Sítio São Joaquim até o Centro Histórico da cidade. 

O tronco, transformado em mastro para a bandeira de Santo Antônio, inaugura uma das celebrações mais emblemáticas do calendário cultural brasileiro: a Festa do Pau da Bandeira, reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural do Brasil.

Como um grupo de homens consegue transportar nos ombros uma estrutura que nenhum deles seria capaz sequer de erguer sozinho? 

Vista de perto, a condução do Pau da Bandeira funciona como uma engrenagem coletiva construída ao longo de quase um século de tradição. Há mecanismos de cooperação e formas de transmissão de conhecimento que passam de geração em geração. O que move o tronco é uma sabedoria distribuída entre centenas de corpos.

“Eu não sou só. Sou um elemento dentro de um mundo, que são os carregadores”, define Rildo Teles. Nascido no bairro do Rosário e criado na Vila Santo Antônio, é capitão do Pau da Bandeira desde os anos 2000, quando foi convocado por João Filgueira Teles, histórico doador de paus da bandeira. 

A responsabilidade do capitão está em acompanhar a escolha da árvore, coordenar as etapas do corte, organizar o carregamento, observar riscos, mediar conflitos e garantir que todos retornem em segurança.

“Capitão é uma espécie de pai. E pai não é só”, resume.

A hierarquia existe, mas não se impõe pela autoridade, se sustenta pela experiência acumulada onde os mais antigos ensinam os mais novos. Os novatos chegam conduzidos por pais, tios, irmãos ou amigos e aprendem observando.

A hora da partida é conhecida. Ao meio-dia, o tronco deixa a zona rural em direção à cidade. A chegada, porém, depende do ritmo dos carregadores.

“O Pau da Bandeira só tem hora para sair”, diz Rildo. “Não tem hora para chegar. Meu compromisso é que ele chegue com os carregadores íntegros.” A frase revela a lógica de que mais importante do que cumprir um suposto horário é preservar o grupo. 

Mas talvez o aspecto mais revelador dessa inteligência não esteja na força, nem na logística: antes do cortejo, os carregadores passam por um ritual conhecido como batismo de terra. Na mata, homens cobrem uns aos outros com barro e poeira, esfregam terra nos rostos e nas roupas numa brincadeira que se tornou uma das imagens mais marcantes da festa.

“Nós, homens e a terra, temos essa ligação. Esse batismo começou lá dentro da mata para a gente se sentir mais perto da terra, jogando terra um no outro, melando o outro, na brincadeira, para nos conectar”, explica.

O ritual funciona como um nivelador simbólico: “Todos são iguais e batizados pela mesma terra.”

A imagem manifesta dois dos princípios fundamentais que sustentam o Pau da Bandeira: a confiança e a entrega. Afinal, carregar três toneladas exige acreditar que o outro fará sua parte, sustentando o peso quando necessário e protegendo quem está ao lado.

Na parte mais pesada do tronco ficam os homens mais experientes. São eles que conhecem o momento exato de levantar, apoiar o ombro, distribuir o peso e perceber quando é hora de baixar a carga.

“Pesou no ombro, vai ao chão”, explica Neto, um dos carregadores durante entrevista coletiva. “O carregador do Pau da Bandeira sabe a hora que ele vai cair.” 

O angico avança aos poucos. Não há instrumentos de medição, nem comandos sistemáticos, o que existe é um conhecimento corporal compartilhado, construído pela repetição. A cada passo, o tronco parece respirar junto com os carregadores. 

Quando o peso muda de direção, centenas de homens respondem quase simultaneamente. Quando um recua, outro avança. Quando alguém demonstra exaustão, o revezamento acontece naturalmente entre companheiros de bairro, amigos ou parentes.

“Tem revisão porque ninguém aguenta levar até lá”, conta Neto. “A gente reveza entre amigos.”

Essa capacidade de coordenação sem centralização absoluta lembra justamente os sistemas cooperativos encontrados na natureza. Nas colônias de formigas, decisões complexas emergem da soma de pequenas ações individuais. Em Barbalha, o movimento do tronco também depende da leitura constante do comportamento do grupo, e quem observa tem a sensação de assistir a um organismo único tentando encontrar equilíbrio.

Os carregadores se organizam historicamente por bairros como Alto da Alegria, Rosário, Vila Santo Antônio, Bela Vista e Cirolândia. No entanto, diante do tronco, essas divisões desaparecem.

“Aqui somos uma só família”, resume Alexandre Luna, carregador há 22 anos. “O mais importante aqui é a união.”

A Associação dos Carregadores do Pau da Bandeira, criada em 2025, surgiu desse esforço de organização e identificação. Hoje, cerca de 120 integrantes são associados formalmente, enquanto entre 150 e 200 homens participam diretamente do transporte a cada edição.

Além disso, nos últimos anos, a tradição passou a seguir protocolos estabelecidos por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público. Entre as medidas estabelecidas estão a identificação dos carregadores por meio de pulseiras e camisas oficiais, que podem manter suas cores e símbolos próprios a partir das turmas. 

“Tem a turma do Alto da Alegria, os Azulzinhos, o Panela de Barro, os Margaridas“, explica Rildo Teles. “Cada um tem sua camisa, mas todos carregam a identificação de carregador oficial.”

O acordo também se estende ao consumo de álcool durante o percurso. “A bebida está controladíssima”, afirma o capitão. Segundo ele, participantes que demonstram sinais de excesso são retirados do transporte.

No percurso, o Pau da Bandeira atravessou uma das pontes do Projeto de Integração do Rio São Francisco. Vista do alto, a cena produz uma imagem rara onde de um lado está o canal de concreto por onde corre a água trazida de longe; do outro, uma corrente humana sustentando um tronco de quase três toneladas.

Por alguns minutos, duas formas distintas de tecnologia social se encontram como se unissem duas histórias do sertão: a luta pela água e a persistência da fé.

Carregador há 56 anos e reconhecido este ano como Mestre Imortal pela Organização Internacional de Folclore e Artes, Antônio Erfo Feitosa Luna acompanha o trajeto. Ele começou na tradição ainda adolescente, carregando a chamada “tesoura” — estrutura menor utilizada no hasteamento — porque era jovem demais para participar do transporte principal.

“Quando eu comecei tinha entre 13 e 14 anos”, recorda. “Depois fui pegando nele até chegar na cabeça do pau.” 

Ao longo de mais de cinco décadas, viu a festa se transformar. “Muita coisa mudou. Mas a força e a emoção são as mesmas.”

À medida que o Pau da Bandeira se aproxima da cidade, as ruas ficam mais estreitas e o público mais denso. Se na mata o tronco era conduzido por um formigueiro humano de pouco mais de duzentos carregadores, na entrada de Barbalha ele encontra outro. 

Das ruas laterais, das janelas, das calçadas e sacadas, milhares de pessoas se espalham pela paisagem. Como acontece quando diferentes trilhas de uma colônia convergem para o mesmo alimento, os fluxos se encontram. 

Sob a camada de barro e suor acumulada ao longo da caminhada, os homens seguem avançando em direção ao mesmo destino. 

Paulo Júnior Veloso, integrante de uma linhagem familiar ligada ao Pau da Bandeira, é neto do lendário mestre Pavão — capitão e animador dos carregadores durante décadas. Ele começou a participar da tradição aos 15 anos.

“Ser carregador para mim é testemunho da fé a Santo Antônio”, afirma. “Meu filho hoje já é carregador.” E assim o conhecimento circula, pela convivência, onde se aprende gestos, cuidados e valores.

Bem como acontece nos formigueiros, há momentos em que milhares de corpos parecem responder ao mesmo chamado. Neste ano, quando o Pau da Bandeira alcançou a Igreja do Rosário, o relógio marcava exatamente 18 horas. 

O sino da igreja tocou e as vozes do cortejo entoaram juntas um dos versos mais conhecidos da música nordestina: “Quando batem as seis horas, de joelhos sobre o chão, o sertanejo reza a sua oração”. A Ave Maria Sertaneja, canção de Luiz Gonzaga, atravessou a multidão como uma prece coletiva.

Durante sete quilômetros, o tronco viaja na horizontal. No hasteamento, porém, ocorre a transformação mais simbólica da jornada. Como um galho que finalmente encontra seu lugar na arquitetura de um formigueiro, o angico deixa de ser carga para se tornar monumento. Toda a energia distribuída ao longo do dia converge para um único gesto coletivo: fazê-lo apontar para o céu.

Quando o angico finalmente chega à Igreja Matriz de Santo Antônio e é erguido diante de milhares de pessoas, já é por volta das 20h55. Ali, o que se vê, é a materialização de uma tecnologia social construída coletivamente durante 98 anos. Alguns carregadores se abraçam, outros permanecem em silêncio. Há quem chore. Há quem agradeça.

A bandeira de Santo Antônio está de pé. Um organismo vivo feito de ombros, memória, fé e cooperação. Como acontece nas colônias, a força individual importa menos do que a capacidade de agir junto.

Por Bibiana Belisário-Arte Brasileiros

Nota: Esta reportagem foi inspirada por uma publicação da fotógrafa Nivia Uchoa nas redes sociais. Seu registro visual de formigas transportando um palito de dente provocou a reflexão sobre o cortejo do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha (CE), e deu origem à pauta sobre cooperação e organização entre os carregadores.

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