ANA DAS CARRANCAS E ZÉ VICENTE: A ARTE DO BARRO E A SÍNTESE DE UM AMOR PELA CULTURA

"Ana Leopoldina Santos Lima era o nome dela. Isso muito antes de o barro moldar seu destino lhe dando por amor um homem que não tinha olhos para enxergá-la. Os monstros gerados pelas mãos de Ana eram cegos como o companheiro de sua vida. Com um golpe rápido, certeiro, ela vazava os olhos de suas criaturas com a ponta de um pedaço de pau. Com Ana era assim, a desgraça virava épico". 

Ana "partiu para o sertão da eternidade" numa quarta-feira dia primeiro de outubro de 2008, aos 85 anos, a maior carranqueira do São Francisco voltou ao barro que a fez. E deixou Zé dos Barros, pela primeira vez, na escuridão.

Ela era uma mulher de solenidades. Não falava, entoava. “Minha vida é extensa...”, era a frase com que iniciava a narrativa. Analfabeta, fazia literatura pela boca. E mesmo limitada por uma seqüência de derrames, parte dos dedos com que tocava a lama do mundo paralisados, Ana era grande. Carregava nos gestos uma largura de alma. E o rio era seu espelho em mais de um sentido. A mulher que moldava o barro do chão só pisava o reflexo do céu. 

Ana das Carrancas costumava dizer que sua arte era a síntese de seu amor por um cego que via o mundo mas não era visto por ele. Entre ela e Zé dos Barros nunca se soube quem era criador, quem era criatura. 

Ela já veio ao mundo retirante, na cidade pernambucana de Santa Filomena. Mas diferente de quase todos, nunca lamentou a terra estéril sob seus pés. A estirpe de mulheres da qual era continuidade moldava pratos, panelas, vasos. Ana aprendeu com a mãe, e antes dela a avó, que do barro se arranca tudo, até a vida.

Uns poucos anos depois dela, José Vicente de Barros nasceu em Jenipapo, outro canto sertanejo. Desembarcou na vida sem olhos, por culpa do amor incestuoso entre primo-irmãos. Desde cedo a ele ensinaram que “quando Deus faz uma criança sem vista é porque quer que ela sobreviva como pedinte”. Para se localizar na escuridão, desde menino ele balançava a cabeça. E nesse de lá pra cá, de cá pra lá, encontrava equilíbrio mesmo nas trevas.

Ana e Zé só cruzaram seus pés descalços quase trinta anos mais tarde. Ana tornara-se viúva desde que seu marido despencara de um pau-de-arara. Conheceu Zé pedindo esmolas na feira de Picos, Piauí. Ele balançava guizos, cantava cantigas. Mas era um cego desaforado por anos ouvindo os meninos mangando dele, pegando nele. Ana, não. Era resignada, como costumam ser as mulheres com fome e filhos para dar de comer. Ana dava comida a Zé sem que ele precisasse implorar.
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Um dia a vizinha abordou Ana na rua. “Desenteirei açúcar do meu filho para dar esmola a Zé”, queixou-se. O rosto de Ana queimou de vergonha. Tirou uma nota do bolso e retrucou: “Enteire de novo o açúcar do seu filho. Por Zé ele não vai passar fome”. Naquela noite não dormiu. Sua tristeza não coube na rede que dividia com Zé. Quando acordou, chamou o marido e anunciou: “Meu velho, nunca lhe fiz um pedido. Mas hoje lhe peço. De agora em diante, você não vai mais pedir esmola". Assustado, Zé rebateu: “Deus me fez sem vista para que eu pedisse esmola”. Ana fincou pé: “De hoje em diante sua vista é a minha. Você pisa o barro, eu faço a peça. Nós vamos levar para a feira, nós vamos ser felizes”.

Ana pegou a enxada e caminhou até as margens do São Francisco, em Petrolina. Diante da fartura de líquidos, invocou o espírito do rio: “Meu grande Nosso Senhor São Francisco. Pelo poder que ostenta, pelas águas que estão correndo, do próprio barro melhore a nossa vida”. 

Ao terminar, juntou um bolo de lama e fez, sem que até hoje saiba como, a primeira carranca. Começou levando na feira, suportando calada riso e maldades. “É tão feia quanto a dona”, cutucavam. No dia seguinte, em vez de uma, Ana levava duas. Até que caiu nas graças dos turistas e dos ricos da cidade e, de lá, suas obras ganharam o mundo. Ela então deixou de ser Ana do Cego e virou Ana das Carrancas. E ele virou Zé dos Barros.

As carrancas de Ana são diferentes de todas as outras que, desde o final do século XIX, apontaram a face horrenda na proa das barcas do São Francisco. A maioria dos carranqueiros célebres esculpe em madeira, Ana, em barro. Mas a maior singularidade são mesmo os olhos vazados. São eles que dão a expressão melancólica, contendo mais sofrimento do que ameaça, à obra de Ana. É do feminino que Ana tira sua carranca dilacerada diante da dor do mundo.

Os traços deformados das carrancas de Ana expressam, pelo avesso, a perfeição de seu amor. É este sentimento avassalador que tomava conta de Ana, anos atrás, quando ela começou a pressentir que o fio de sua vida atingia seu cumprimento. “O barro é como gente. Tem o barro ruim e o barro bom. E até o barro regular. Conhecendo o barro se conhece o mundo”, sussurrava ela. “O barro é o começo e o fim de tudo. Sem ele não sou ninguém. Foi ele que me deu o direito. Não me separo dele pra coisa nenhuma, porque eu amo aquilo que ama a mim. O barro é um caco de mim. Nas minhas veias corre sangue de barro.”

As lágrimas abriam então sulcos em sua face. Por um momento, ela assemelhava-se à sua criação. Movia o rosto em direção a Zé, que não a via com os olhos, mas era o único a abarcá-la por completo. Ana então dizia: “Não estou pedindo a morte. Mas quando eu me for, qualquer pedacinho de orelha, nariz ou olho é lembrança dele. E de mim”. 

Zé Vicente infartou em 2014...ganhou definitivamente Luz...

Fonte: Eliane Brum-Jornalista
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CONSELHO MUNICIPAL DE CULTURA E PATRIMÔNIO DE PETROLINA SERÁ REATIVADO

A secretária de Cultura, Turismo e Esportes de Petrolina, Maria Elena convida os interessados para a reunião de Reativação do Conselho Municipal de Cultura e Patrimônio de Petrolina.

O evento acontecerá na sexta-feira (24), no Centro de Convenções, às 16hs.
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PLANTAS MEDICINAIS E O CULTIVO DA AGRICULTURA FAMILIAR

Semear, regar e colher. Aos 67 anos estes são os principais verbos da vida de Francisca Zuza dos Santos. Nascida no Crato, Ceará, devota de Padre Cícero do Juazeiro do Norte, a agricultora diz que há 25 anos trabalho na Horta de Plantas Mediciais em Petrolina, no bairro Areia Branca. 

Além de valorizar a alimentação saudável e beneficiar o meio ambiente, a atividade, de acordo, com dona Francisca torna a vida mais prazerosa. Ela revela que muitos dizem que "o trabalho valoriza o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais, assim como as detentoras desses saberes, por meio da construção coletiva de conhecimentos sobre o manejo agroecológico."

O detalhe do trabalho de dona Francisca está no "cuidado que ela tem pelas plantas medicinais". "Temos e cultivamos erva cidreira, capim santo, melão de são caetano hortelã, abacaxi, entre outros. "É uma alegria poder ajudar. Os compradores vão chegando todo dia e nós vamos contribuindo com uma vida mais saudável".

É o caso de Gernira Monte que logo nas primeiras horas dessa quarta-feira (22), veio até a horTa comprar capim santo. "Sou adepta do chá caseiro. Sempre um alivio. Costumo fugir dos remédios industrializados. Prefiro sempre que posso os da natureza".

Em todas as épocas e em todas as culturas, o conhecimento dos remédios caseiros, que cura gripe e dores no corpo se desenvolveu e foi sendo ajustado de acordo com os efeitos produzidos sobre o organismo. Saber que plantas usar e a dosagem certa, todavia, requer experiência e sabedoria.

"Esse saber popular, porém, vem sendo cada vez mais ameaçado. O discurso dominante busca desqualificar as técnicas dessa medicina alternativa, fazendo com que o povo abandone suas receitas caseiras para comprar remédios industrializados. Por outro lado, a indústria de fármacos e cosméticos tem se apropriado e privatizado os conhecimentos construídos coletivamente e ao longo de gerações", escreveu o médico Celerino Carriconde, na época coordenador do Centro Nordestino de Medicina Popular.
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CLARISSA LOUREIRO: RESENHA DO LIVRO NINGUÉM DETÉM A NOITE DE NIVALDO TENÓRIO

“ Ninguém detém a noite” espanta. E é por conta desse aspecto que está a contemporaneidade de sua linguagem. Traz na sua estruturação arredia à leitura desatenta o traço marcante de dizer o indizível, ou seja, o que sufoca na garganta do indivíduo do século XXI. Neste sentido, dialoga com a primeira obra “ Dias de Febre “. Em todas as narrativas, há uma ressignificação metafórica da noite que perde seu sentido original para alcançar o significado da explosão do aparente equilíbrio do estabelecido dentro ou fora dos personagens. 

E ela é inevitável porque a própria realidade dos personagens está tão doente quanto a do sujeito que a reinterpreta enquanto a lê. E isso não pode ser dito se não através do constante uso de lacunas a serem preenchidas pelo leitor que vagarosamente vai revisitando temas tão difíceis de serem afirmados e, quiçá, vivenciados nos dias de hoje. HIV, Câncer, Incesto, Suicídio, Demência, Envelhecimento reprimido, homossexualidade reprimida, família destruída pelo silêncio, pela solidão, pela incompreensão da formas particulares de existir.

A noite é, portanto, o doloroso encontro consigo mesmo e o espanto de não estar no padrão que todos de alguma forma tentam viver. Dai, a ironia do “ciclo militar” que compõe as três narrativas que fecham a obra. Ambas recriam a psique de militares adoecidos pelo paradigma ditado por uma identidade controlada por uma metodologia de existir que os molda, os castra e os desestrutura emocional e fisicamente: 
“ A coruja branca” justapõe câncer de próstata e o homicídio da coruja como uma morte da própria sensibilidade de viver num mundo além dos paradigmas militares, num jogo narrativo entre passado e presente em que os conceitos de memória coletiva ( grupo de militares) e memória individual ( um ex-militar) se identificam para expressarem a solidão do homem desvirilzado no espaço onde vive. Perder a potência é perder também um pouco da força para se construir no mundo. 

“Giulia” exprime o lirismo nostálgico do combatente de guerra, perdendo a memória de si mesmo por conta de demência do envelhecer e poeticamente buscando na “ memória viva” de Giulia ( uma enfermeira de guerra) um “ lugar de memória” de uma existência espontaneamente vivida na juventude e, paradoxalmente, na guerra. E, então, o enlouquecer é uma forma de achar-se além do planejado. E a beleza do gesto da esposa é a compreensão dessa busca além dos grilhões da família, talvez numa das mais belas declarações de amor da obra.

“ Além da noite” é por si só, a maior explosão do livro em que desvenda a hipocrisia de militar entediado com os afazeres de gabinete, reinventando o tesão pela ação bélica em prostíbulos em que possui meninas que jamais sua esposa foi capaz de parir, numa pedofilia contaminada por todos os receios do homens e mulheres do séculos XXI.

Acredito que com esses três contos, NIvaldo, de fato, consegue discutir uma dos temas mais atuais na literatura: a identidade como um processo relacional com o outro, o tempo e o espaço. E faz isso com a coragem de trazer o que dói no homem de hoje como um ingrediente necessário para essa construção em eterna construção em desconstrução.

E isso só pode ser feito através de uma linguagem que se abre a ressignificações plurais sem deixar de abrir mão de usar intertextos canônicos como a presença do “Ateneu” de Raul Pompéia para discutir a homossexualidade reprimida em “ O Internato” ou a beleza do revigor sexual do idoso a partir de uma relação com uma bela jovem cujo adormecer ao seu lado é mais forte do que o próprio ato, como se nota em “ Memória de Minhas putas tristes” de Gabriel Garcia Marquês. O diferencial no romance de Nivaldo Tenório é dor incontida que faz seu desfechos serem abertos como um rio que nos corta, afoga e dilacera.
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CANUDOS: 120 ANOS DO FIM DO MASSACRE

Na próxima quinta-feira (23), no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia, às 14h, a Sessão Especial que recorda os 120 anos do fim da Guerra de Canudos. A cerimônia foi proposta pelos deputados estaduais Rosemberg Pinto e Fátima Nunes, ambos do PT.

A Guerra de Canudos é tido como um dos mais importantes vultos da história do Brasil e ocorreu no interior da Bahia entre os anos de 1896 e 1897.

“É uma iniciativa legítima. Canudos representa a luta do povo baiano por dias melhores, ao contrário do que se possa definir como guerra, entendemos que ali aconteceu um massacre”, afirmou Rosemberg.

Canudos, no sertão baiano, localizado a cerca de 400 km de Salvador, originou de uma pequena aldeia durante o século 18, às margens do rio Vaza-Barris, mas só cresceu após a chegada do beato Antônio Conselheiro, no ano de 1893. Em pouco tempo, a localidade, que passou a receber desabrigados do sertão e vítimas da seca contava com uma população de cerca de 25 mil habitantes.

Antônio Vicente Mendes Maciel ou Antônio Conselheiro foi um líder religioso e social, nasceu em 13 de março de 1830 na cidade de Quixeramobim, no Ceará, e morreu em 22 de setembro de 1897, em Canudos, considerado como um revolucionário, agitador pelas autoridades locais.

Sob a liderança de Conselheiro, Canudos passou a incomodar as autoridades religiosas e políticas da região. Em novembro de 1896, uma tropa de soldados da polícia baiana atacou os seguidores do beato, mas acabaram derrotados. A guerra chega ao fim quando 12 mil soldados de 17 regiões do Brasil realizam o que é considerado por muitos como o maior massacre em território nacional, provocando a morte de pelo menos 25 mil pessoas e destruindo mais de 5 mil casebres a fogo. 

O corpo de Antônio Conselheiro foi exumado e teve sua cabeça decapitada para estudos, mas acabou queimada em um incêndio na antiga Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, em Salvador, onde estava preservada.

Ainda em homenagem ao acontecimento, os parlamentares indicaram ao governador Rui Costa (PT) que a Estação do Metrô de Lauro de Freitas, prevista para ser inaugurada em março do próximo ano, seja batizada como Estação Antônio Conselheiro.
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JOQUINHA GONZAGA E TARGINO GONDIM PARTICIPAM DO FÓRUM NACIONAL DOS FORROZEIROS EM JOAO PESSOA, PARAÍBA

A possibilidade da cultura do forró ser reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro é tema de debate na audiência pública da Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) nesta segunda-feira (20), em João Pessoa, na Paraíba. 

A audiência acontece na Sala de Concerto Maestro José Siqueira do Espaço Cultural José Lins do Rego. A abertura solene da programação do Encontro Nacional de Forrozeiros será às 20hs e vai até o dia 22. O secretário de Estado da Cultura da Paraíba, Lau Siqueira, ressaltA que “preservar as matrizes do forró é importante para que a gente não se distancie da identidade cultural nordestina”.

O Fórum Nacional de Forró de Raiz é o resultado de uma articulação entre profissionais envolvidos com a cadeira produtiva do forró, pesquisadores e agentes culturais, que desde 2011 discutem formas de preservação das matrizes do forró, bem como o registro do ritmo musical enquanto patrimônio cultural imaterial do Brasil.

O evento faz parte da programação do Encontro Nacional de Forrozeiros, que acontecerá entre os dias 20 e 22 de novembro na capital paraibana. O forum reúne artistas, gestores culturais, pesquisadores e autoridades políticas de vários estados do Nordeste, bem como Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.

A ideia é elaborar uma Carta de Diretrizes voltada para o planejamento da instrução técnica de registro que será enviada ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Segundo a coordenadora do Fórum, Joana Alves da Silva, artistas como Targino Gondim, Joquinha Gonzaga, Alcymar Monteiro, Santanna, Nando Cordel, Genival Lacerda, Cezzinha, Chambinho do Acordeon, entre outros, já confirmaram a participação no evento.
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DONA FLOR 2017: O RISO COMO UMA ARMA CRUEL. E O CINEMA QUE DELEITA, MASSIFICA E ALIENA

*Texto: Professora doutora-Clarissa Loureiro

A problemática da tradução semiótica é um dos temas mais instigantes quando se pensa a relação entre literatura e cinema. Até onde um roteiro cinematográfico silencia romances ou reiventa-os? Isso depende de como os fatores produção, direção e encenação são usados nos filmes. O certo é que é sempre um recorte que, por si só, é uma transcrição de linguagens. 

No filme " Dona flor" de 2017, a problemática do luto feminino e a crise de ser mulher constantes no romance são substituídos pelo humor da circunstância de uma mulher conciliar duas realidades inconciliáveis para as esposas criadas numa comovisão patriarcal: o prazer sexual fornecido pelo marido morto e os cuidados cotidianos recebidos pelo marido vivo. O foco é se brincar com circunstâncias de convivência numa mesma casa de dois homens que não podiam conviver segundo os padrões católicos, já que o corpo de uma mulher honrada só podia ser de um único marido. 

Mas se o defunto veio antes, quem trai ou traiu quem? O certo é que o filme desmistifica o próprio conceito de traição feminina. Dona Flor se trai quando aceita ser agredida pelas traições do primeiro marido, suas ausências em casa, suas agressões. Dona Flor se trai quando aceita a relação sexual mecânica do segundo marido, onde o gozo dele é estipulado em dias e horários certos. Por que aceita se trair? Porque é criada para isso: ser mulher de alguém. E quando concilia os dois na mesma cama não foge à esse parâmetro. 

Todavia é a esposa que serve a si mesma. A imagem clássica de Vadinho apertando as suas nádegas nu, enquanto Teodoro a segura pelos braços expressa bem isso: tenho a estabilidade e tenho o prazer. O único erro é que no filme essa balança não é igualitária. A repetição constante do trecho musical: " estou com saudade de tu meu desejo. Estou com saudade do beijo e do mel" exalta a saudade do corpo nu de Vadinho em oposição ao corpo de pijama e educado de Teodoro, o qual pouco se sabe, pouco se envolve. E quando é apresentado é com o humor próprio de Leandro Hassan, desvendando o ridículo que há em se ser politicamente correto demais. 

Celebra-se então a picardia do malandro que pouco cuida, que pouco nos olha, além do atrativo de nossas ancas e seios: " eu vou comer a sua bucetinha e você vai me dar", Vadinho repete diante de uma Flor que parece não resistir ao desejo de ceder ao desejo do outro, tornando-lhe objeto de toda as posições sexuais possíveis. Mas a pergunta que fica: será que " dá" sem ser vista ou existida no outro, por si só, não é um estupro de si mesma? 

A conciliação resolvida por Flor é uma falácia cruel pois fragmenta o sentimento feminino, masculinizando-a. No final, ela se espelha no Vadinho para ser feliz. " minha filha, tenha os dois". Sabemos que não não podemos nem nos ter a nós mesmos. E Flor segue em 2017 ensinando subterfúgios equivocados para as mulheres descobrirem seus corpos, usando o riso como uma arma cruel. E o cinema deleita, massifica, aliena.
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