FORRÓ A CAMINHO DO TÍTULO DE PATRIMÔNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE

Neste momento em que todo nordestino já está preparando as sandálias e contando os dias para o São João, o coração bateu mais forte com a notícia da entrega para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) do dossiê de candidatura do Forró Tradicional ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade.

A entrega do documento foi formalizada nesta terça-feira (31), em Brasília, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pelo Ministério da Cultura (MinC) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE).

Pedro Santos, coordenador da Câmara Temática de Cultura do Consórcio Nordeste e secretário de Cultura da Paraíba, relembrou a atuação do bloco para o levantamento de informações e para as ações de visibilidade do gênero no Brasil e no mundo.

“Promovemos eventos em Portugal e na França. Estivemos em duas ocasiões reunidos com a Delegação Permanente do Brasil junto à Unesco, inclusive levamos os forrozeiros para falar um pouco sobre a importância da salvaguarda das Matrizes Tradicionais do Forró. Além de termos dado apoio ao Iphan na mobilização dos estados nordestinos e na produção de materiais audiovisuais que integraram o dossiê submetido à Unesco”, explicou.

“E hoje recebemos essa notícia maravilhosa! É um momento simbólico, um momento para a gente celebrar e desejar sucesso a essa candidatura que eu tenho certeza que vai ser exitosa”, completou.

A secretária de Cultura de Pernambuco, Cacau de Paula,  também comemorou a formalização da candidatura. “É mais um avanço importante para fortalecer e valorizar a força da cultura nordestina e da cultura popular!”

O Forró Tradicional, também conhecido como Forró de Raiz, representa uma imersão na identidade e tradição nordestina e brasileira, que envolve desde a música e dança, como baião, xaxado, xote, arrasta-pé, até instrumentos musicais, como sanfona, zabumba e triângulo, passando pelo cordel, bandas pífano e mestres rabequeiros, e todas técnicas, práticas e saberes que envolvem o fazer e o viver o Forró.

Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, a entrega “é um gesto de reconhecimento, reparação e afirmação da cultura brasileira no cenário internacional. Estamos falando de uma expressão profundamente ligada à formação do nosso povo, à memória das migrações, à força criativa do Nordeste e à capacidade da cultura de manter vivos os vínculos entre território, identidade e pertencimento”, afirmou.

Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, a candidatura reflete a consolidação da retomada da política do patrimônio cultural vivida pelo país. “A cultura brasileira voltou a ser reconhecida e valorizada mundialmente”, destacou.

Com a entrega do dossiê, a Unesco inicia uma série de processos internos para analisar as documentações da candidatura. Não existe um prazo determinado para a apreciação.

O Forró Raiz é conhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, pelo Iphan, desde 2021.


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LUIZINHO CALIXO GUARDIÃO DA SANFONA DE OITO BAIXOS

Dia 26 de maio, marca o Dia do Sanfoneiro. A data foi instituída em alusão ao aniversário de Sivuca, paraibano conhecido mundialmente pela excelência no acordeon. E outro paraibano, Luizinho Calixto, tem seguido o legado e "carregado o peso" de ser guardião do fole ou sanfona de oito baixos.

O instrumento conhecido popularmente como fole ou sanfona de oito baixos é uma das variações da sanfona. 

Natural de Campina Grande, cidade paraibana, Luizinho Calixto conheceu a sanfona de oito baixos ainda na infância, aos oito anos de idade, através do pai e dos irmãos. Um dos irmãos dele, Zé Calixto, um dos maiores sanfoneiros do país, já tinha até discos gravados e vários shows por outros estados do Brasil.

Reportagem de Bruna Couto/G1, destaca que Luizinho de tanto ver os familiares tocarem começou a mexer pedaços de madeira, imitando o movimento que se faz com o fole. O pai, percebendo o interesse dele pelo instrumento, pediu que Zé Calixto trouxesse um fole do Rio de Janeiro para Luizinho.

"Um dia sentado numa cadeira eu comecei a tocar uma música do meu pai, que já estava na minha mente. Mexendo para lá e para cá um pedaço de madeira e eu fazendo de conta que era uma sanfona. Minha mãe, que não tinha envolvimento direto com a música, falou pra o meu irmão Zé Calixto que quando viesse do Rio de Janeiro trouxesse uma sanfona pra mim'", relatou.

Do simples interesse manifestado através do movimento da sanfona com madeiras, já no primeiro contato com um fole de verdade Luizinho começou a tocar de forma natural.

"Quando ele (o irmão) veio, trouxe um fole de oito baixos. E quando peguei já comecei a tocar alguma coisa, com uma certa dificuldade, claro... Uma criança pegar (o instrumento) e tocar rápido é difícil, mas porque eu já ouvia, já toquei alguma coisa", disse.

De lá para cá, são mais 60 anos de carreira. Começou a tocar fole aos oito anos, aos 13 passou a acompanhar o pai nos forrós, mas somente aos 20 anos Luizinho Calixto gravou o primeiro disco, no Rio de Janeiro, e se apresentou ao Brasil como músico.

Referências musicais-Luizinho Calixto considera a própria família como sua grande primeira referência musical. Mas além deles, Luizinho também conviveu pessoalmente com vários dos grandes nomes da música brasileira e nordestina.

Com Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo, que era amigo do pai de Luizinho, ele aprendeu a tocar vários instrumentos de percussão. Com Luiz Gonzaga, ele aprofundou o conhecimento sobre o fole de oito baixos. Com Dominguinhos, viu de perto a excelência de um instrumentista. Convivência que formou a base para os anos de carreira construídos até hoje.

"Minha primeira referência foi Zé Calixto, como instrumentista da sanfona de oito baixo. A segunda foi Jackson do Pandeiro. Quando conheci ele eu era criança e ele já era o Rei do Ritmo. Eu já tocava zabumba e depois que vi ele tocando esses instrumentos todos de percussão muito bem também quis aprender. Não vi outros músicos tocar tão perfeitamente como ele! Depois o próprio Luiz Gonzaga. Em conversas que nós tínhamos, vi que seu Luiz era uma enciclopédia, tem hora que não encontro nem palavras pra ele, pra o que ele representa pra mim até hoje. Depois conheci Dominguinhos e vi o que é tocar sanfona. Não tem ninguém que faz o que ele fez (...) aprendi muito com ele. Foram pessoas que me serviram de referência e que até hoje procuro me conduzir dentro disso tudo que aprendi".

Bebendo dessas referências, Luizinho Calixto se tornou um verdadeiro guardião do fole de oito baixos. O instrumento, popular em vários países europeus e no sul do Brasil, tem origem desconhecida no Nordeste.

"A sanfona de oito baixos, dos instrumentos que eu conheço, é o mais complicado. Se você somar flauta, acordeon, violão… Todos eles, nenhuma é tão complicado quanto o fole na afinação que nós tocamos".

Segundo o próprio Luizinho, pelo grau de complexidade de tocar e pela dificuldade de se encontrar o fole de oito baixos, o que explica a resistência do instrumento é o amor passado de geração em geração.

"Eu tenho alunos que quando eu pergunto porque querem tocar sanfona de oito baixos e não outros instrumentos, dizem: 'porque meu pai tocava, meu avô, porque herdei o instrumento e quero dar sequência no trabalho e onde eles tiverem vão ficar feliz", disse.

Segundo Luizinho, existem poucas afinações para o fole oito baixos, e uma delas é a chamada afinação transportada, que ele e outros músicos usam.

Não há informações sobre quem criou o método, ou como ele chegou ao Nordeste brasileiro. Mas, apesar da dificuldade de se aprender e ensinar, Luizinho acredita que é justamente o aprendizado que consegue garantir o legado do fole de oito baixos.

"Os antigos falavam que para aprender a tocar sanfona a pessoa tem que ter um dom, mas se fosse assim eu não existia como professor, porque tenho vários alunos que vivem da música e não sabiam tocar nada, e hoje tem grupos ganhando a vida tocando sanfona de oito baixos", disse.

Amor pelo instrumento-Pelo contato íntimo desde a infância, é difícil separar Luizinho Calixto e a sanfona de oito baixos. O instrumento que o escolheu naturalmente também o levou a lugares como a Europa, onde já tocou em vários importantes festivais, e o proporcionou amizades com artistas como Fagner e Chico César.

"Esse instrumento, a sanfona de oito baixos, me deu inúmeras coisas. Eu fiz amizades com Zé Adriani, Dominguinhos, Nara Leão... Toquei pela primeira vez em um teatro graças a Vital Farias, no Rio de Janeiro, já toquei com Fagner, Chico César, com tantas pessoas importantes...", disse.

Para Luizinho, a sanfona de oito baixos lhe ofereceu muito mais que a capacidade de tocar um instrumento.

"Já fiz tanta coisa! E tudo isso com meu instrumento no peito. Só tenho que agradecer. Criei e formei dois filhos, graças a Deus e a sanfona de oito baixos. E estou na vida musical até hoje com meu instrumento", disse.

Pensando em deixar um legado, Luizinho Calixto passou a dar aulas de fole de oito baixos. Ele ensina na Associação Cultural Balaio Nordeste, na capital paraibana João Pessoa, onde existem oito foles de oito baixos disponíveis para os alunos.

Além das aulas presenciais gratuitas, Luizinho também oferece cursos pela internet. Com a possibilidade da aprendizagem online, Luizinho coleciona alunos de outros estados brasileiros, como Acre, São Paulo, Bahia... Ele relata que já perdeu as contas de quantos alunos possui.

Mesmo com o esforço, o músico acredita que ainda existe um risco de que se deixe de existir sanfoneiros de oito baixos, que se justifica, segundo Luizinho, tanto pelo grau de complexidade do instrumento, quanto pela dificuldade em encontrá-lo em preços acessíveis.

Luizinho Calixto acredita que a alternativa para evitar que isso aconteça é a valorização por parte das instituições que promovem a cultura não apenas na Paraíba, mas em todo o Brasil.

"Não se vê um sanfoneiro de oito baixos no palco do São João, por exemplo, em Campina Grande. Então com isso o instrumento vai entrando pra um processo de esquecimento, e as pessoas não querem lembrar que a sanfona de oito baixos foi o primeiro instrumento de Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, acompanhou Jackson do Pandeiro... São vários acordeonistas que passaram primeiro por ele. Não é resgatar o instrumento, é dar sequência ao trabalho", reitera.

Luizinho Calixto espera que essa realidade mude, apesar de ter consciência do peso que carrega ao ser o guardião da sanfona de oito baixos não apenas na Paraíba, mas no Brasil.


"Que surjam palcos pra o sanfoneiro de oito baixos mostrar o que sabe, porque se não, não tem estímulo pra o aprendiz. Eu estou segurando esse peso com maior prazer. Enquanto eu tiver força, saúde e vida vou divulgar", finaliza.

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GRANDE SERTÃO VEREDAS: OS 70 ANOS DE UM LIVRO ENCANTADO

Da primeira palavra, “Nonada”, à última, “Travessia”, a obra-prima atravessa o tempo sem perder força, profundidade, beleza, vigor e, principalmente, emoção. E chega à atualidade inteira, em corpo e alma. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa (1908-1967), completa sete décadas de lançamento com fôlego suficiente para alcançar a eternidade e seduzir futuras gerações. Mas há outros motivos para se homenagear, neste ano, o escritor natural de Cordisburgo, na Região Central de Minas. Em 2026 são também comemorados os 70 anos de “Corpo de baile”, 80 de “Sagarana”, e 90 do pioneiro “Magma”, premiado, em 1936, pela Academia Brasileira de Letras (ABL).

Sempre é hora de conhecer os extraordinários escritos de Rosa e saber mais sobre a vida do mineiro que saiu criança da terra natal para morar em Belo Horizonte, onde se formou em medicina. Depois, conheceu o mundo trabalhando como diplomata até ser eleito para a ABL em 1963 – tomou posse em 1967, três dias antes de falecer, no Rio de Janeiro (RJ). Diante do tão vasto currículo e ricas experiências, impossível não querer saber sobre as origens do autor, o nascedouro do “Grande sertão”, a gênese do livro traduzido em vários idiomas e transformado em filme, peça de teatro, minissérie de televisão, documentário, além de matéria-prima para belas canções. Confira texto na integra  Gustavo Werneck - Jornal Estado de Minas

A fim de encontrar respostas, a equipe do Estado de Minas foi a Cordisburgo, diretamente ao imóvel de número 744 da Rua Padre João. Foi lá que o escritor, apelidado Joãozito na infância, morou com a família até os 9 anos. Pelo endereço, passaram outros proprietários e locatários até que o lugar se tornou, em 30 de março de 1974, Museu Casa Guimarães Rosa, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) e vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (SecultMG). Dos tempos de meninice do escritor, restaram o fogão a lenha na cozinha e o tabuado do piso, conforme mostra o coordenador do equipamento cultural, Ronaldo Oliveira. 

Há 24 anos no posto, Ronaldo anuncia atividades que valorizam ainda mais o legado do conterrâneo ilustre. E envolvem crianças e adolescentes. Ainda em 2026, são festejadas três décadas do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, projeto educativo formado por 20 jovens (há mais 20 sendo preparados) de Cordisburgo, que recebem os visitantes na Casa Museu (@museuguimaraesrosa) narrando trechos dos livros, dos quais há exposição das primeiras edições. São eles também que trazem à luz personagens eternizados nas páginas, entre eles Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga, Manuelzão e, claro, Miguilim. 

Na 38ª Semana Rosiana, de 5 a 12 de julho, as reverências à memória estarão completas, com vozes, palavras e atenção direcionadas à vida e obra do autor. 

Importante destacar duas referências literárias. Do jornalista e historiador Leonencio Nossa, acaba de ser lançado “João Guimarães Rosa – Biografia”(Topbooks e Nova Fronteira). Já a biografia escrita pelo professor Gustavo de Castro, da Universidade de Brasília (UnB), será publicada pela Companhia das Letras. 

Então, com respeito, admiração e sede de conhecimento, vamos mergulhar no universo rosiano e emergir com histórias para contar. Travessia sem risco e limite, guiada pelo amor de Guimarães Rosa às palavras. 


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JOSE SARNEY: as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.

Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.

O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e, imediatamente, Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato desses líderes, cairiam o governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.

Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e, por isso, logo demitiu o chefe da Inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.

O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.

Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.

Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O papa, que está com Deus e não com o diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.

Temos que, com o papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.

A paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.

José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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PROFISSÃO DE DOULA É REGULAMENTADA POR PROJETO DE LEI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta quarta-feira (8) o projeto de lei que regulamenta o exercício da profissão de doula, que é a profissional que oferece apoio físico, emocional e informacional à gestante, especialmente durante o parto normal.

O texto foi aprovado no mês passado pela Câmara dos Deputados, depois de ter passado pelo Senado. 

A norma federal lista várias atribuições da doula antes, durante e após o período do parto. Na gravidez, a profissional poderá facilitar o acesso da gestante a informações sobre gestação, parto e pós-parto baseadas em evidências científicas atualizadas, além de incentivá-la a buscar uma unidade de saúde para o acompanhamento pré-natal.

De acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o texto atende uma antiga reivindicação das mulheres no país e vai ajudar no enfrentamento contra a violência obstetrícia e reduzir o que chamou de "indústria de cesarianas" no Brasil. O ministro disse que não houve vetos ao texto.

"Os estudos que mostram que se se a doula acompanhou o pré-natal, se a doula acompanhou o parto, a violência foi menor. O índice de cesárea foi menor. O sofrimento foi menor e a gratidão das mulheres no momento tão importante da geração da vida foi melhor", destacou o ministro durante cerimônia de sanção no Palácio do Planalto.

Ao celebrar a sanção da lei, o presidente Lula lembrou que um outro projeto, ainda em tramitação no Congresso Nacional, deverá regulamentar a profissão de parteira tradicional, compondo assim um corpo de funções para humanizar o atendimento às gestantes do país.

Pelo texto sancionado, a presença da doula, de livre escolha da gestante, não exclui a presença de acompanhante, já garantida pela legislação. Essa garantia de presença abrange a rede pública e a rede privada durante todo o período de trabalho de parto e pós-parto imediato, em todos os tipos de parto, inclusive em casos de intercorrências e situações de abortamento.

Para o exercício da profissão, a nova lei exige diplomas de ensino médio e de curso de qualificação profissional específica em doulagem que, se expedidos por instituições estrangeiras, deverão ser revalidados no Brasil.

A lei também permite a continuidade de atuação aos que, na data de publicação, exerciam, comprovadamente, a atividade há mais de três anos.

Também a partir da vigência, os cursos deverão ter carga horária mínima de 120 horas.

A doula poderá, durante o parto, orientar e apoiar a gestante em relação à escolha das posições mais confortáveis a serem adotadas durante o processo; auxiliar a gestante a utilizar técnicas de respiração e vocalização para obter maior tranquilidade; e utilizar recursos não farmacológicos para conforto e alívio da dor da parturiente, como massagens, banhos mornos e compressas mornas.

No pós-parto, a doula poderá orientar e prestar apoio aos cuidados com o recém-nascido e ao processo de amamentação.

"É o tratamento diferenciado, é o saber conversar, é o saber tratar, é o saber acolher e o acolhimento muda a vida das pessoas, do ponto de vista emocional e afeta diretamente esse tratamento humano, esse tratamento da vida, que é ter realmente um filho com dignidade", disse a senadora Eliziane Gama (PT-MA), relatora do projeto no Senado.

Por outro lado, a nova lei proíbe às doulas utilizar ou manusear equipamentos médico-assistenciais, realizar procedimentos médicos, fisioterápicos ou de enfermagem, administrar medicamentos e interferir nos procedimentos técnicos dos profissionais de saúde.

Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a nova lei beneficia não apenas a gestante, mas toda a família, e assegura uma proteção mais integral às mulheres em um momento tão delicado que é a gravidez.

"Porque a gente entra na sala de parto apavorada, não sabe o que vai acontecer, e quer que seja rápido, e a doula vai acalmando a gente, a doula vai conversando, vai dialogando. É uma lei que, de fato, humaniza, de fato enfrenta a violência obstétrica", afirmou.

*Com informações da Agência Câmara de Notícias.





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ECOVALE: RAIZES E REIVENÇÃO DA COMUNICAÇÃO NO VALE DO SÃO FRANCISCO

Criado em 2010, no campus III da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) em Juazeiro-BA, o Encontro de Comunicação do Vale do São Francisco (ECOVALE) nasceu com o objetivo de pensar a comunicação a partir do interior, deslocando o olhar dos grandes centros para as realidades do Semiárido. Ao longo dos anos, o evento se consolidou como um espaço de formação, troca de experiências e construção coletiva do conhecimento na área da comunicação.

Na primeira edição, realizada em 2010, o tema “Jornalismo e suas múltiplas linguagens” abriu espaço para discutir a atuação do jornalista em diferentes formatos. Oficinas de assessoria, diagramação, educomunicação, crítica cinematográfica e fotografia já mostravam o caráter prático e formativo do encontro.

No ano seguinte, o II ECOVALE trouxe o tema “200 anos de imprensa da Bahia” para refletir sobre a trajetória da imprensa e o cenário da comunicação, com foco nas experiências regionais. Em 2013, a terceira edição avançou para o debate sobre “Novas mídias e movimentos sociais”, conectando o local ao global e discutindo o impacto das tecnologias na comunicação.

Em 2016, a quarta edição destacou um tema que continua atual na nossa realidade. “Assessoria, redes sociais e empreendedorismo: desafios do mercado de trabalho”. O jornalista e egresso da UNEB, Pablo Luan, que participou de várias edições entre 2014 e 2019, relembra a importância desse momento. Segundo ele, as discussões sobre empreendedorismo já apontavam caminhos que hoje são realidade no mercado, como o trabalho autônomo, a atuação em redes sociais e a multiplicidade de funções do jornalista. Para Pablo, o ECOVALE sempre trouxe debates que permanecem relevantes ao longo do tempo e ajudam a preparar os estudantes para um cenário profissional em constante transformação.

A quinta edição, em 2019, abordou o “Jornalismo e outras narrativas comunicacionais”, ampliando o olhar para além das formas tradicionais de fazer jornalismo. Já a sexta edição, realizada após o período mais crítico da pandemia de Covid-19, trouxe o tema “os desafios da comunicação e educação em rede” e marcou também as comemorações dos 20 anos do curso de Jornalismo em Multimeios do campus Juazeiro.

Agora, em 2026, o ECOVALE chega à sua 7º edição, que acontece entre os dias 7 e 10 de abril, em Juazeiro. Com o tema “Processos de reinvenção no jornalismo”, o evento propõe discutir as mudanças estruturais na área da comunicação, como a plataformização da informação  e os desafios impostos pela desinformação.

A estudante de jornalismo, Laise Ribeiro, destaca a importância desse debate, especialmente para quem está prestes a entrar no mercado de trabalho. Para ela, o tema chega em um momento decisivo, já que muitos estudantes se deparam com uma realidade profissional em constante mudança. Ribeiro também ressalta o papel do evento na formação prática, lembrando sua experiência como monitora na edição anterior, que possibilitou vivenciar de perto a organização e a dinâmica do Encontro. Nesta edição, ela participa novamente, agora ainda mais interessada nas discussões que podem ajudar a compreender e lidar com as transformações do jornalismo.

Além dos debates, oficinas e apresentações de trabalhos, a abertura do evento será marcada por uma homenagem a nomes importantes da comunicação no Vale do São Francisco, como Inah Torres e Marcelino Ribeiro (in memoriam), junto com Luiz Manoel Guimarães, serão reconhecidos com o Prêmio Carranca de Jornalismo, que celebra trajetórias marcantes de comunicadores na região.

Mais do que um evento acadêmico, o ECOVALE se tornou um espaço de escuta, reflexão e fortalecimento do jornalismo regional. Para a professora Andréa Cristiana Santos, o Encontro tem um papel fundamental na construção de um olhar sobre o jornalismo no Vale. Segundo ela, o evento contribui para a formação de estudantes e profissionais, fortalece a identidade regional e cria um ambiente de diálogo sobre temas emergentes que impactam o presente e o futuro da profissão.

Ao longo dos anos, o Ecovale tem se consolidado como um espaço de formação crítica e de integração entre a universidade e a comunidade. O evento traz temas que se entrelaçam ao longo de sua trajetória, além de valorizar os saberes regionais.

Por Gabriel Matos e Maria Helena Almeida, estudantes de jornalismo e colaboradores do MultiCiência.


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07 DE ABRIL DIA DO JORNALISTA

Relatório divulgado pela organização não governamental Repórteres sem Fronteira (RSF) destaca o combate à desinformação e o incentivo à educação midiática como medidas para a garantir o jornalismo íntegro e de confiança pelos próximos 10 anos.

O documento recém-lançado contribui para os debates sobre a profissão, lembrada nesta terça-feira no Brasil, como o Dia do Jornalista (7).

A instituição apresenta quatro cenários hipotéticos de onde estará o jornalismo no Brasil daqui a uma década e seis estratégias possíveis para que a sociedade possa contar, ao fim desse período, com “um jornalismo íntegro e de confiança”.

Os quatro cenários, construídos pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI) da Unicamp para o RSF, distinguem-se pelo domínio das plataformas digitais; pelo fortalecimento do jornalismo; pela alta fragmentação da informação produzida e pelo fim do jornalismo.

“O futuro, provavelmente, vai ser muito mais uma mistura dos elementos dos diferentes cenários do que um cenário estanque”, explica Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor-chefe do Projeto Comprova. Lüdtke participou do comitê consultivo do projeto do RSF.

As seis estratégias envolvem:

tornar o método jornalístico amplamente adotado e difundido;

enfrentar a desinformação;

fortalecer redes de cooperação entre organizações de jornalismo e universidades;

diversificar modelos de financiamento do jornalismo;

investir em educação midiática;

defender a regulação do jornalismo.

Desafios-De acordo com a entidade, os riscos para a comunicação virtual decorrentes da falta de clareza entre conceitos como notícia, opinião, desinformação e propaganda, em um ambiente político polarizado, fazem parte da atualidade e influenciam toda essa construção.

A isso se soma o fato de as pessoas alimentam suas convicções a partir do que acreditam ser realidade, de acordo com o conteúdo selecionado pelo algoritmo da rede social.

 “O método jornalístico é um elemento central de apreensão da realidade e do debate público, que está no cerne da qualidade democrática”, resume Artur Romeu, diretor do escritório do RSF para América Latina, na apresentação do relatório.

Plataformas digitais-Para Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o futuro aponta para o cenário de domínio das plataformas digitais.

“Desde os grandes veículos [de comunicação] até a chamada mídia independente alternativa, todos necessitam escorar sua produção jornalística pelas plataformas digitais.”

Segundo ela, que também atuou no comitê consultivo, o jornalismo é refém da política de algoritmo dos meios digitais. “Essas [plataformas] são controladas por empresas multinacionais com total opacidade da sua política algorítmica.”

De acordo com o diretor do escritório do RSF, Artur Romeu, o jornalismo passa a operar dentro das regras que são cada vez mais arquitetadas por essas grandes empresas.

“[O jornalismo] torna-se dependente dos canais de distribuição das plataformas digitais, na medida em que cada vez mais pessoas consomem notícias e informação através dessas plataformas.”

O efeito da “plataformização” é a desvalorização do jornalismo. Essa se deu quando passou a competir “de igual para igual com a desinformação e com a propaganda, e passou a ser vista como mais uma narrativa”, acrescenta Sérgio Lüdtke.

Ele acrescenta que o uso de inteligência artificial pode agravar o esvaziamento da profissão e substituir jornalistas nas atividades de apuração e escrita.



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