O JORNALISMO QUE IGNORA OU DISTORCE FATOS É TUDO, MENOS JORNALISMO, DIZ RICARDO NOBLAT

Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.

Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição. A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.

Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.

Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.

A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.

Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.

Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.

Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.

A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.

Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?

Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.

O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.

Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.

Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.

Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.

Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.

Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.

É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.


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EVENTOS DA CULTURA ESTÃO SENDO ENGOLIDOS PELA CULTURA DE EVENTO, DIZ PESQUISADOR

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas nasceu, literalmente, em um terreiro. Neto de uma ialorixá alagoana que se mudou para o Rio de Janeiro, onde abriu um terreiro, o autor de Samba de enredo — História e arte, escrito em parceria com Alberto Mussa, e O corpo encantado das ruas e Maracanã — Quando a cidade era terreiro, Simas gosta de falar em religiões de matriz europeia para se referir ao cristianismo e diz que a fé é um problema do Ocidente, que a inventou.

 "Fui a clássica criança de terreiro. O que você experiencia como criança se naturaliza na sua vida. E um elemento básico da minha vida, da minha formação, da minha realidade foi esse: cresci sendo civilizado pelas culturas de terreiro, a ponto de costumar dizer uma pequena provocação: a fé foi um problema existencial e filosófico que o Ocidente colocou e vocês que se virem com ela."

Pensador e historiador da música, em especial o samba, e das manifestações culturais brasileiras, com olhar afetuoso para o carnaval, Simas acredita que a folia é um momento de vivência da experiência humana coletiva, mas passou por mudanças nos últimos anos que reconfiguraram alguns de seus aspectos. No Sambódromo, por exemplo, há excesso de empreendedorismo e falta de povo. Nas ruas, o movimento cresceu com bloquinhos e cordões, mas o folião já não quer mais se esconder atrás da fantasia, como antigamente, e necessita ser visto e identificado.

 "O carnaval é um evento da cultura, tem uma organicidade que é muito importante. Uma escola, um bloco, não existem porque desfilam, eles desfilam porque existem. Isso faz uma diferença enorme. Só que estamos vivendo uma fase em que os eventos da cultura estão sendo engolidos pela cultura do evento", diz o pesquisador, que é um dos autores do samba-enredo Lonã Ifá Lukumi (ou enredo sobre o oráculo Ifá), que embalou o desfile do carnaval de 2026 da escola Paraíso do Tuiuti.

Para Simas, os sambas-enredo devem ser analisados como documentos históricos e estão profundamente ligados às conjunturas brasileiras da época em que foram criados. Ele diz, por exemplo, que o início do século 21 foi de abundância de dinheiro para as escolas de samba. O país passava por momento de prosperidade econômica e grandes corporações investiram em patrocínios que renderam até sambas-enredo, caso da Varig e da Tam Linhas Aéreas, ambas temas dos sambas da Beija-Flor e do Salgueiro no carnaval de 2002.

 "Uma disputa pelo mercado de propagandas da aviação civil. Isso cria uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que o dinheiro estava jorrando, a qualidade dos enredos caía, e isso repercute na qualidade do samba- enredo, que é feito sob encomenda", diz Simas. 

A crise que veio entre 2015 e 2017 teve o efeito oposto: a situação financeira das escolas piorou, mas a qualidade dos sambas melhorou.

 "O Brasil mergulhou numa crise política e econômica, a crise das commodities, o processo de impeachment da Dilma, depois Temer e Bolsonaro, o Rio teve um prefeito, Marcelo Crivella, de designação religiosa que demoniza explicitamente o carnaval, ele se vangloriava de ter sido exorcista na África. Imagina! Paradoxalmente, isso melhorou a qualidade dos enredos, porque as escolas passaram a apostar em enredos com densidade cultural maior, e isso repercute na melhoria dos  sambas", explica.

Em entrevista, Luiz Antonio Simas reflete sobre o carnaval de hoje, as contradições entre a festa e as denominações religiosas que a condenam e a importância das manifestações populares para a cultura brasileira. 

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BEATRO JOSÉ LOURENÇO COMPLETARIA NESTA QUINTA-FEIRA 80 ANOS DE NASCIMENTO

 Em celebração aos 80 anos de morte do Beato José Lourenço, o Centro Cultural Daniel Walker recebe, no dia 12 de fevereiro, às 14h, a palestra "Os últimos dias do Beato José Lourenço", que propõe uma reflexão histórica sobre a trajetória de uma das figuras mais emblemáticas da religiosidade e da resistência social no Cariri. O evento é realizado pela Prefeitura de Juazeiro do Norte, Ceará, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio do Instituto Cultural do Vale Caririense e do Cariri das Antigas.

O encontro contará com a participação dos palestrantes Bibi Saraiva, historiador de Exu (Pernambuco); Mazé Sales, pesquisador e descendente de remanescentes do Caldeirão; e Antônio Santos, pesquisador. Após a palestra, os participantes serão convidados a participar de uma missa em sufrágio da alma do Beato José Lourenço, na Capela do Socorro, seguida de visita ao túmulo.

Nascido em Pilões, Paraíba, José Lourenço foi líder da comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, experiência comunitária desmantelada pelo Governo do Estado do Ceará em 1936. Em maio de 1937, o acampamento de remanescentes foi atacado pela polícia, em uma ação que resultou em um número estimado de 200 a 1.000 mortos, episódio marcado como um dos mais violentos da história social do Nordeste. A atuação do Beato José Lourenço foi pautada e incentivada pelo Padre Cícero. Ao falecer, em 1946, manifestou o desejo de ser sepultado em Juazeiro do Norte, desejo que foi atendido.

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Fotógrafo brasileiro vence prêmio internacional com ensaio sobre água e identidade

 O fotojornalismo brasileiro obteve reconhecimento internacional no concurso de histórias fotográficas “Walk of Water”, realizado pela organização OneWater junto à UNESCO. João Alberes, de 23 anos, faturou o Prêmio Regional América Latina e Caribe na categoria Juventude. A iniciativa internacional busca promover reflexões quanto aos significados da água através de imagens.

A conquista reconhece a série fotográfica “Onde a Água Mora”. O trabalho foi desenvolvido no município de Feira Nova, cidade natal de João. Situada no agreste Pernambuco, a cerca de 77 quilômetros de Recife, as imagens trazem um olhar sensível e profundo sobre a relação entre água, território e identidade no interior do nordeste brasileiro. Os trabalhos premiados passam a integrar exposições internacionais em espaços como a Conferência da ONU, em Nova Iorque, e o Quartel-General da UNESCO, em Paris.

Imagens como a do pescador José Firmino, que navega em seu pequeno barco em reservatório artificial de água, destaca histórias de um cotidiano marcado pelos desafios de acesso à água, o que termina por revelar narrativas de resiliência e pertencimento.

O ensaio traz à tona como a água é capaz de moldar modos de vida, práticas culturais e mesmo a permanência de comunidades em seus territórios. O fotógrafo conta que o título do trabalho nasceu da relação íntima entre território, vida e sobrevivência, e explica que a série integra uma pesquisa autoral mais ampla. “Ao ver a convocatória do concurso, decidi submeter a imagem de Seu Zemir, que mora literalmente à beira da barragem e tira da pesca o seu sustento. Fiquei muito surpreso e emocionado com esse prêmio. Feliz demais”, conta Alberes.

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DIA DO FREVO

 Dia do Frevo, 09 de fevereiro. Confira texto do músico Antonio Nobrega:

Comemora-se o dia do frevo. O frevo foi elevado à condição de patrimônio imaterial da humanidade. Como se vê, o frevo está em alta. Mas frevo para quê? Por que frevo?

Foi o escritor Ariano Suassuna quem, indiretamente, apresentou-me a ele. Com seu convite para integrar o Quinteto Armorial, dei início a uma viagem de aprendizado dos cantos, danças e modos de representar presentes em manifestações populares como o reisado, o maracatu, o caboclinho e sobretudo o frevo.

Com o passar dos anos, esses aprendizados foram se conectando a estudos e reflexões sobre a cultura brasileira em geral e a popular em particular. Esse casamento entre conhecimento empírico e teórico foi conduzindo-me à constatação de que vivemos num país que reluta em aceitar-se integralmente.

Que outra razão para tal desperdício de insumos culturais tão vastos e de tão imensa riqueza simbólica como o nosso reservatório de ritmos presente em batuques, cortejos e folguedos; de formas e gêneros poéticos –quadrões, décimas, galope à beira-mar; de passos e sincopados armazenados no nosso imaginário corporal popular?

E o que temos feito com tudo isso? Empurrado para o gueto da chamada cultura folclórica, regional ou popular, falsamente antagonizante daquela que se convencionou denominar de cultura erudita. Há mais de cem anos que a "entidade" frevo vem despejando no país, especialmente em Recife, volumoso material simbólico.

Esse "material" foi se formando dentro daquilo que venho denominando de uma linha de tempo cultural popular brasileira. Essa "entidade" frevo materializou-se por meio de um gênero de música instrumental, o frevo-de-rua, orgânica forma musical onde palhetas e metais dialogam continuamente, ancorados pela regular marcação do surdo e a sacudida movimentação da caixa; uma dança, o passo do frevo, imenso oceano de impulsos gestuais e procedimentos coreográficos; e dois gêneros de música cantada: o frevo-canção e o frevo-de-bloco, cada um com características particulares tanto de natureza poético-literária quanto musical. Um valioso armazém de representações simbólicas.

Mais do que preservar o frevo, nossa tarefa está em amplificar, dinamizar, trazer para a órbita de nossa cultura contemporânea os valores, procedimentos e conteúdos presentes nessa "instituição" cultural.

Essa ação amplificadora poderia abranger escolarização musical – por que não se estuda frevos em nossas escolas de música?–; a prática da dança – a riqueza lúdica e criadora proporcionada pelo seu multifacetário estoque de movimentos–; a valorização de modelos de construção e integração social advindos do mundo-frevo. Tudo isso ajudaria ao Brasil entender-se melhor consigo mesmo e com o mundo em que vivemos.

O frevo é uma das representações simbólicas mais bem-acabadas e representativas que o povo brasileiro construiu. Assim como o samba, o choro, o baião, uma entidade transregional cuja imaterialidade poderemos transmudar em matéria viva operante se tivermos a suficiente compreensão do seu significado e alcance sociocultural.

Antonio Nobrega-músico, brincante da música brasileira, da dança, do teatro e do 'universo do circo, da criança e da cultura popular

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UFRGS ADOTA MANUAL COM ORIENTAÇÕES PARA COMUNICAÇÃO ANTIRRACISTA

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciou a ampliação da política interna de equidade racial. A instituição seguirá as diretrizes de comunicação presentes no Manual de Boas Práticas Antirracistas na Comunicação Digital, elaborado pela Rede Jornalistas Pretos em conjunto com o Instituto Peregum.

O documento reúne orientações para combater estereótipos, desinformação e discursos discriminatórios no ambiente digital. Segundo a UFRGS, a iniciativa busca ampliar a presença, o protagonismo e a voz da população negra nos meios de comunicação da universidade.

O processo envolveu jornalistas e estudantes de Jornalismo negros do Rio Grande do Sul e contou com apoio do Sindicato de Jornalistas Profissionais do estado (SindJoRS), da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI) e do curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico/UFRGS).

Entre os princípios adotados pela universidade estão:

a seleção de bancos de imagens que não reforcem visões eurocentradas;

a consulta a coletivos e especialistas para qualificar abordagens;

a garantia de protagonismo às pessoas negras;

o respeito à autoidentificação racial, de gênero e etnia.

As diretrizes também orientam a evitar estereótipos, sobretudo em coberturas policiais, o uso responsável e contextualizado de imagens sensíveis, a análise crítica do que é visibilizado ou invisibilizado nas fotografias, e a promoção de diversidade real nas representações.

Outro ponto central é a ampliação do banco de fontes sugeridas para entrevistas, com a inclusão de especialistas negros, indígenas e de outros grupos minorizados. O objetivo é evitar a repetição sistemática de referências exclusivamente brancas.


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JOAO SERENO HOMENAGEIA LENDAS DA TERRA DA ALEGRIA-JUAZEIRO BAHIA

Juazeiro, no norte da Bahia, acaba de presentear o Brasil com mais uma novidade musical. O SomGon, ritmo criado pelo músico João Sereno, fez sua estreia no Carnaval antecipado da cidade e já desponta como forte candidato a embalar os próximos festejos pelo país.

Com uma batida de matriz ternária — dançante, envolvente e impossível de ignorar —, o SomGon chega para somar à rica tradição musical de uma terra que já deu ao mundo nomes como João Gilberto, pai da Bossa Nova, e Ivete Sangalo, rainha do axé.

E foi justamente para celebrar essa herança que João Sereno construiu o lançamento do novo ritmo em forma de tributo. Durante a apresentação, o artista prestou homenagens a figuras que moldaram a identidade cultural juazeirense: a dupla Neto e Mundinho, o composito Galvão, o cantor e comporitor Mauriçola, o sanfoneiro Raimundinho do Acordeon, o compositor irreverente Manuka Almeida e Targino Gondim — músico consagrado que atualmente ocupa a Secretaria de Cultura do município.

Uma cidade que exporta alegria

Não é por acaso que Juazeiro carrega o título de "Terra da Alegria". Às margens do Rio São Francisco, o município sempre foi celeiro de artistas que levaram o nome da Bahia para além das fronteiras. Agora, com o SomGon, João Sereno reafirma essa vocação e propõe um som que dialoga com o passado, mas olha para o futuro.

"O ritmo já nasce com identidade própria, mas carrega no DNA tudo o que a gente aprendeu ouvindo os mestres daqui", resume o cenário quem acompanhou de perto a recepção calorosa do público durante o Carnaval.

O que esperar

Com potencial para trilhas de festa, mas também para composições mais elaboradas, o SomGon se apresenta como gênero versátil. A expectativa é que novos artistas abracem a proposta e ajudem a expandir o repertório do ritmo nos próximos meses.

Juazeiro, mais uma vez, mostra que sua música não conhece fronteiras.


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