MARIANA TELES: TEMPO DE SÃO JOÃO, SANTO ANTONIO E SÃO PEDRO MUDO E SEM FOGUEIRA

O ano é de 2020. Amanhece junho, segunda feira. No calendário é o sexto mês do ano, aquele que marca a metade da volta que damos em torno do sol a cada 365 dias.

É o tempo junino. Basta o frio começar a aparecer que a gente intuitivamente segue o caminho do interior. Caruaru já estaria em festa. Petrolina e Arcoverde iluminando o sertão de uma ponta a outra. Lá no frio da Serra Negra de Bezerros o forró já estava "comendo no centro". Do outro lado da fronteira, na minha igualmente amada Paraíba, Campina Grande já fazia a mágica de deixar o mundo dentro do Parque do Povo. Era tempo de São João. Santo Antônio. São Pedro. Para cada santo, um forró/romaria diferente. 

No nordeste, essa virada de calendário é um ritual. Com direito a cheiro, cores, sons e sabores. Zé Marcolino, compositor imortalizado na voz de Luiz Gonzaga cantou lá atrás que: "todo tempo que houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco”. José Fernandes, outro compositor de pena iluminada emprestou ao velho Gonzaga aquela canção que se tornou hino do mês de junho: "olha pra o céu, meu amor, vê como ele está lindo..." 

Essa mistura de vozes e sons tornou o mês de junho um mês atípico para o povo sertanejo. Capaz de mexer com a nossa auto estima, de iluminar as vielas do interior com aquelas bandeirinhas coloridas cortadas de todo tamanho, de tirar a chita com cheiro de naftalina do armário e passar um pano no chapéu do São João do ano passado.

Além do som, que compõe a tônica das sanfonas, das zabumbas e do triângulo do mês de junho, o paladar do sertanejo parece adivinhar o tempo de comer canjica, pamonha e festejar o mês de junho com a boca e os pés, ora provando o gosto do milho assado, ora dançado dois pra lá e dois pra cá.

O São João é o Carnaval do povo do sertão. É o tempo que a gente escolhe para comprar aquelas "mudinhas" de roupa que passa o ano inteiro esperando. Que o parente que foi trabalhar no sudeste chega falando chiando e perguntando onde é o primeiro forró de pé de balcão para ir tomar uma pinga...

Esse ano, com a coronacrise que nos impõe a prisão domiciliar moderna, a saúde é o refrão da quadrilha que a gente precisa puxar. Mas dá um desgosto danado começar o mês de junho sem sentir o cheiro do povo na rua, das cidadelas do interior vivendo a ansiedade de saber qual o sanfoneiro e banda iam tocar no dia festejo.

Eu nunca vivi um ano sem São João. Não sei como o povo da minha terra vai viver esse mês de junho sem chegar nem perto de um forró pé de serra. Esse negócio de Live pra cá, live pra lá, pode prestar para um bocado de coisa, mas fica faltando a energia do povo misturado, o calor da fogueira e o trinado da sanfona. A gente gosta mesmo é de gente e de forró no meio da rua. 

Meus amigos músicos estão com os instrumentos guardados. A moça do cachorro quente não vai salvar ninguém da fome no final da festa. A cabeleireira do bairro não renovou o estoque de tinta para cabelo. A costureira não vai colocar o bico no vestido da menina que ia dançar quadrilha. O homem do som e do palco, não mandou tirar a poeira dos equipamentos. Uma indústria inteira, para além do entretenimento, mas responsável por mais de 5 milhões de emprego no país de mãos cruzadas e boca fechada. É um ano atípico. Nem as cinzas da fogueira de São João conseguem ser mais triste do que o mês de junho que amanhece hoje.

Um pedaço da identidade do nosso povo é cerceado. A gente tem que cuidar da saúde, pois muitos outros meses juninos virão, mas por enquanto, a gente também precisa cuidar daquela fogueira que aquece a alma, enche o coração, os ouvidos e deixa a gente dançando no imaginário de um São João colorido, alegre e com sanfona de verdade. E eu, sentindo a tristeza coletiva de todo nordestino, me recorro aos "meninos de Zé Marcolino", meus queridos Bira Marcolino e Fatima Marcolino, e mando o mesmo bilhete para Siá Filiça. 

Cadê a lenha da fogueira 
Siá Filiça 
Cadê o milho pra assar 
Cadê aquele teu vestidinho de chita 
Que tu vestia pra dançar 
Cadê aquele sanfoneiro 
Que eu pedia pra tocar 
A canção da minha terra 
Um forró de pé-de-serra 
Que eu ajudava a cantar 
Quando me lembro disso tudo 
Siá Filiça 
Me dá vontade de chorar 
Cadê aquele balãozinho 
Siá Filiça 
Que coloria o meu lugar 
Minha esperança ainda dorme 
Siá FiIiça 
E eu com pena de acordar 
Quebrar panela no terreiro 
E a fogueira pra pula 
Uma quadrilha bem marcada 
E um belo São João de latada 
Que era bom pra namorar 
Quando me lembro disso tudo 
Siá Filiça 
Me dá vontade de chorar. 

Fico esperando a resposta, Siá Filiça em 2021. De preferência, com o São João começando logo em março, pra gente tirar o atraso de 2020.

*Mariana Teles Advogada, poetisa e sertaneja
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NOTA ESCLARECIMENTO REITOR PRO TEMPORE UNIVASF SOBRE REPERCUSSÃO REPORTAGENS VEICULADAS NA IMPRENSA E REDES SOCIAIS

Não é desconhecido que o ambiente político da UNIVASF encontra-se tensionado pela nomeação de um Reitor Pro Tempore, o que acontece pela segunda vez na sua história recente. Tal situação é motivada por previsão legal, e ocorrerá sempre que houver vacância dos cargos de Reitor e Vice-Reitor, situação que ocorreu em meados de abril deste ano com o fim do mandato da então reitoria.

Esclareço que, como gestor pro tempore da UNIVASF, me encontro debruçado diuturnamente no atendimento dos interesses administrativos e acadêmicos desta Instituição, procurando manter seu pleno funcionamento, atuando de forma articulada com a sua missão, o que abrange a manutenção do seu nível de governança, seja na área acadêmica, administrativa e mesmo das suas conexões sociais e políticas, que a mantém ativa e proativa. Somos uma universidade gigante e importante para todo o semiárido nordestino.

A nomeação de um Reitor com mandato definitivo é esperada por toda a comunidade universitária e, provavelmente, o único instrumento saneador desta atual crise, mas sua concretização não depende deste Reitor e, no momento, tampouco do Governo Federal.

Em 01 de junho de 2020. PAULO CÉSAR FAGUNDES NEVES-Reitor Pro Tempore
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NOTA DE SOLIDARIEDADE À COMUNIDADE ACADÊMICA DA UNIVASF

O Vereador Professor Gilmar Santos, junto ao Mandato Coletivo, vem expressar solidariedade à todos e todas que integram a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) que, através de consulta popular e voto da maioria dos membros do Conselho Universitário (Conuni), no mês de Novembro de 2019, em um processo democrático, transparente e reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC),  escolheram o  professor Télio Leite e a professora Lúcia Marisy, respectivamente, como Reitor e Vice-reitora para a nova gestão do período 2020-2024 dessa universidade que é um patrimônio do povo sanfranciscano, nordestino e brasileiro e que se encontra ameaçada por artimanhas autoritárias e golpistas. 

Ao mesmo tempo, vimos repudiar o comportamento do grupo de professores e servidores derrotados no pleito eleitoral e que, não sabendo conviver com as regras democráticas, apelou para uma ação judicial vergonhosa, com mero intuito de impedir a nomeação dos eleitos e, consequentemente, tirar proveito de articulações políticas indecorosas junto ao governo federal, já que boa parte dos seus membros tem total alinhamento ideológico e partidário com o Sr. Ministro da Educação, Abraham Weintraub e com o Sr. Presidente da República, Jair Bolsonaro.

O grupo derrotado conseguiu o que tanto queria:  governar a UNIVASF através de indicação e arranjos políticos antidemocráticos. O Sr. Paulo Cesar Fagundes Neves, indicado pelo MEC como Reitor pró tempore, desde 09 de Abril de 2020, incorpora na sua atuação o perfil de um interventor, autoritário e incapaz de dialogar com qualquer pessoa ou e espaços políticos orientados pela democracia e autonomia universitárias. 

Prova desse autoritarismo ocorreu quando o  Sr. “Interventor”,  ao indicar os seus pró-reitores e demais servidores para  órgãos administrativos, não aceitou qualquer escuta ou participação do Conselho Universitário, principal instância de decisão da universidade.  O que imperou foi a escolha de sujeitos alinhados político e ideologicamente com o bolsonarismo, de baixa e questionável competência para exercerem as funções a que foram destinados. Conforme manifestações públicas da comunidade acadêmica, o desrespeito do “Interventor” ao Conuni só tem se aprofundado nas últimas semanas. 

Por ser um espaço que abriu portas para milhares de filhos e filhas de trabalhadores; para pessoas das nossas periferias, negros e negras; para trabalhadores rurais, ribeirinhos, quilombolas, indígenas; por oferecer diversos serviços e programas que beneficiam a população em geral, tendo no Hospital Universitário Dr. Wahshington Antônio de Barros (HU) seu maior exemplo; a UNIVASF está ameaçada, na sua democracia, na sua produção científica, nos seus recursos públicos, na sua missão de servir ao nosso povo, principalmente, aos que se encontram  em situação de maior vulnerabilidade social.

Por esses e outros motivos, nos solidarizamos com quem tanto lutou por uma UNIVASF pública, democrática, gratuita, inclusiva e de qualidade; e repudiamos toda e qualquer expressão de autoritarismo, oportunismo e golpismo que assaltam a sua dignidade.

Vereador Professor Gilmar Santos (PT) - Mandato Coletivo
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CORONAVÍRUS: MIGRANTES LEVAM DOENÇA PARA PEQUENAS CIDADES NORDESTINAS

Pequenos municípios do Nordeste registram os primeiros casos de coronavírus com migrantes que retornam à terra natal por causa das dificuldades da quarentena nas capitais. Com as restrições do transporte interestadual, que chegou a ser proibido em 14 estados, muitos migrantes optam por lotações e ônibus clandestinos. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) já autuou 300 ônibus irregulares entre abril e maio. A estimativa é de que tenham transportado cerca de 4500 pessoas. O itinerário mais comum liga São Paulo às regiões Norte e Nordeste.

São ônibus, vans e caminhões que realizam o transporte interestadual sem autorização. "Há um fluxo significativo do Sudeste para as regiões Norte e Nordeste, sendo grande o número de apreensões nas ações conjuntas da ANTT com as polícias nas barreiras com as vigilâncias sanitárias do Maranhão, Piauí e Bahia", diz o órgão.

Em São Paulo, muitos desses ônibus saem do Brás, região central da cidade. Os funcionários evitam entrevistas, mas confirmam aumento de 20% a 30% na procura. Os ônibus saem dali mesmo, das proximidades das agências. O embarque é feito nas calçadas onde se amontoam malas, bolsas e mochilas.

No Brás, passageiros contam que os motoristas exigem o uso de máscaras, mas que nem sempre elas estão usadas corretamente. Nem eles usam a máscara. Os viajantes não sabem dizer se os bancos foram higienizados corretamente. Alguns ônibus trazem um selo no vidro dianteiro com a inscrição "veículo vistoriado covid-19".

O retorno dos "filhos da terra" desafia os pequenos municípios no enfrentamento da pandemia. Na Bahia, pelo menos 20 cidades do interior já registraram os primeiros casos da doença após a chegada de pessoas dos grandes centros.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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FÓRUM POPULAR DA NATUREZA SERÁ REALIZADO ENTRE OS DIAS 1º A 10 DE JUNHO DE FORMA VIRTUAL

Mais uma vez, movimentos sociais, sindicatos, pesquisadores, artistas e ativistas se unem para juntos formarem o Fórum Popular da Natureza, que tem início na segunda-feira 1 e acontece até o dia 10 de junho. 

Durante estes dez dias, serão serão promovidas - de forma virtual, respeitando as recomendações do OMS (Organização Mundial da Saúde) para o enfrentamento da pandemia de coronavírus - oficinas, apresentações artísticas e mesas de debate sobre causas e efeitos da degradação ambiental, além do fortalecimento da resistência popular. Desde 2019, o Fórum Popular da Natureza conta com o apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. 

O Fórum Popular da Natureza lançará ainda carta manifesto com ações de continuidade do evento, pensado como um processo contínuo, através da articulação, reflexão e enfrentamento da sociedade civil às questões de destruição da natureza e das mudanças climáticas.

“A proposta do Fórum Popular da Natureza - que o Sindicato, na sua atuação cidadã, tem muito orgulho em participar e apoiar - é a construção de um espaço onde grupos e indivíduos ligados aos movimentos sociais e populares, organizações da sociedade civil, entidades sindicais e de classe, cientistas, ecologistas, pesquisadores, coletivos ambientais, mulheres, jovens, LGBTQ+, partidos políticos, comunidades religiosas e todos aqueles que forem comprometidos com a luta pela preservação dos direitos e com a interrupção da destruição planetária possam se unir para, juntos, construírem alternativas para o enfrentamento da degradação do meio-ambiente e, ao mesmo tempo, alternativas econômicas, sociais e culturais ao modelo produtivista. Participe do Fórum e ajude a pensar e construir um novo modelo de sociedade”, conclama o diretor do Sindicato Ernesto Izumi. 

“Na atual conjuntura política brasileira - no qual o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, promove uma política anti-ambiental e chega ao ponto de querer se aproveitar de uma pandemia para 'passar uma boiada' no ministério que está sob o seu comando,  a união destes diferentes movimentos no Fórum Popular da Natureza se torna ainda mais importante. Sob o governo Bolsonaro, as lutas pelos direitos dos trabalhadores e na defesa do meio-ambiente se aproximaram ainda mais, uma vez que ambas são alvos de ataques constantes da sua política de destruição. Juntos somos mais fortes e, como diz o lema de uma recente campanha nacional dos bancários, só a luta nos garante”, conclui Ernesto.
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COMISSÃO PASTORAL DA TERRA ACUSA EMPRESAS DE NÃO ADOTAREM MEDIDAS DE SEGURANÇA E PROTEÇÃO DE SAÚDE DOS TRABALHADORES NAS COMUNIDADES RURAIS

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Juazeiro (BA), seguindo a sua missão de ser presença fraterna  junto aos povos do campo, vem a público denunciar e se solidarizar com a situação de trabalhadores e trabalhadoras do agronegócio e das linhas de transmissão de energia eólica, da região norte do estado da Bahia, que estão com suas vidas em risco diante da pandemia do novo coronavírus.

O Brasil é hoje o segundo país do mundo que tem mais casos confirmados da Covid-19, com mais de 28 mil mortes contabilizadas oficialmente. O coronavírus, que inicialmente atingiu as grandes metrópoles, já se espalha com rapidez pelo interior do país. As regiões Norte e Nordeste juntas, alcançaram, esta semana, a triste marca do maior número de diagnósticos e mortes pela Covid-19 no Brasil.

No Vale do São Francisco, o coronavírus já está presente nos pequenos municípios, de população compostas, em grande parte, por trabalhadores/as rurais, pescadores/as e povos de comunidades tradicionais de fundo de pasto e quilombolas. Percebemos que o avanço da Covid-19 no interior, se dá, principalmente, em locais em que os empreendimentos do capital continuam funcionando normalmente, na busca desenfreada pelo lucro, que passa por cima da garantia de nosso maior bem: a vida.

No município de Casa Nova (BA), o primeiro caso de coronavírus foi de um trabalhador rural do distrito de Santana do Sobrado, registrado no dia 19 de maio. Na última terça-feira (26), o número de pessoas infectadas pela Covid-19, que são trabalhadoras das fazendas do agronegócio de Santana, já havia subido para seis. Familiares desses trabalhadores/as rurais também contraíram a doença. Santana do Sobrado é um polo da fruticultura irrigada, que concentra cerca de 30 mil trabalhadores de diversos municípios do Vale do São Francisco. Os/as trabalhadores/as das fazendas estão mais expostos ao coronavírus, pois continuam presentes em locais de aglomeração, como os transportes de ida e volta ao trabalho e os refeitórios nas empresas. 

Em Pilão Arcado (BA), o povoado de Nova Holanda registrou 38 casos do coronavírus e uma morte provocada pela doença. Dos casos diagnosticados, 34 deles são de funcionários do Consórcio Linhão BAPI, obra de construção de linha de transmissão da energia eólica, executada pela Equatorial Transmissão, que atravessa comunidades rurais, entre elas tradicionais de fundo de pasto, dos municípios de Pilão Arcado e Campo Alegre de Lourdes. No último domingo (24), um operador de máquinas da empresa Andrade Gutierrez (integrante do Consórcio) que trabalhava em Nova Holanda morreu por Covid-19 em um hospital de Buritirama (BA). 

O descaso da construtora com os trabalhadores foi além da exposição ao contágio do vírus. As 34 pessoas testadas positivos para Covid-19 foram levadas para um galpão do canteiro de obras no povoado de Angico, em Campo Alegre de Lourdes, e não para um hospital ou local com infraestrutura de saúde adequada para tratamento da doença. A empresa tratou de forma desumana os seus trabalhadores e colocou em risco a vida da população de todas as comunidades do entorno.

A gravidade desses fatos exige providências urgentes das prefeituras, do Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho no sentido de obrigarem as empresas a adotarem medidas de segurança e proteção de saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, bem como evitar a disseminação do vírus nas comunidades rurais situadas no entorno das citadas fazendas e na região onde está sendo instalada a rede de transmissão.

Comissão Pastoral da Terra de Juazeiro (BA), 30 de maio de 2020.
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"É IMPORTANTE RESSALTAR TEMOS ACOMPANHADO CASOS DE PESSOAS QUE NÃO APRESENTAM NENHUM FATOR DE RISCO. EM BOM ESTADO DE SAÚDE E CHEGARAM A TER COMPLICAÇÕES. NINGUÉM ESTÁ RESISTENTE AO VÍRUS", DIZ PROFESSOR

“É importante ressaltar que a gente tem acompanhado casos de pessoas que não apresentam nenhum fator de risco, estão em bom estado de saúde, mas chegaram a ter complicações, ir para a UTI e ainda, em alguns casos, chegaram a óbito. Ninguém está resistente ao vírus", diz 

Um estudo da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP mostra que manter a prática de atividades físicas se tornou ainda mais importante neste período de isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus. Além de fortalecer o sistema imunológico, exercícios físicos fortalecem a saúde mental. 

A pesquisa, realizada em parceria com professores e universidades de países da América Latina e Europa, mostra que pessoas com estilo de vida mais saudável, que já realizavam atividades físicas antes da pandemia ou que aderiram à prática neste período, conseguem suportar melhor a ansiedade e o estresse provocados neste momento. 

“Nós temos uma indicação de que as pessoas que, antes da pandemia, eram ativas fisicamente têm apresentado respostas psicológicas mais leves em relação à ansiedade, estresse e estado de humor. E quem está realizando as atividades durante a pandemia também tem apresentado resultados melhores”, afirma o professor da EEFERP, Átila Alexandre Trapé, que participou do estudo. 

Mas os benefícios não estão só na parte imunológica e mental. Realizar atividades físicas durante este período pode evitar problemas de mobilidade no futuro, principalmente para aqueles que, agora, passam mais tempo sentados ou deitados. 

“A partir do momento que a pessoa está se movimentando menos, há um estímulo menor para o corpo, e isso pode acarretar uma perda de massa muscular e de massa óssea. Então, quem já tem algum tipo de problema, precisa ter ainda mais cuidado. E quem ainda não tem, é o momento de prevenir. As pessoas estão passando boa parte do dia deitadas ou sentadas, é importante fazer algum tipo de movimento”, explica. 

O professor ainda destaca que muitos profissionais de educação física estão disponibilizando aulas e treinos on-line para contribuir com quem quer realizar atividades físicas durante a pandemia. Mas alerta sobre alguns cuidados que se devem tomar. 

“Tem muitos profissionais de educação física promovendo treinos ao vivo, gravando vídeos e divulgando e isso é muito bacana; tem sido muito importante para as pessoas se manterem ativas dentro de casa. Mas é importante ter cuidado, respeitar os seus próprios limites. Se a pessoa não treinava, tem que começar com muita cautela, respeitando suas limitações, o seu nível de condicionamento físico. É preciso ter uma consciência muito boa, avaliar aquilo que tem condições de fazer e tentar se adaptar”, destaca. 

Mas algumas pessoas têm dificuldades em manter o ânimo e a motivação para fazer os treinos em casa. Segundo o professor, o primeiro passo para se motivar é “reconhecer a importância que as atividades físicas vão proporcionar para a própria saúde da pessoa”. Trapé aponta ainda que “é importante buscar atividades que ofereçam algum tipo de motivação”. 

Apesar de a prática de atividades físicas ter vários benefícios, isso não significa imunidade à doença. “É importante ressaltar que a gente tem acompanhado casos de pessoas que não apresentam nenhum fator de risco, estão em bom estado de saúde, mas chegaram a ter complicações, ir para a UTI e ainda, em alguns casos, chegaram a óbito. Então, ninguém está resistente ao vírus. Todos estão suscetíveis a se contaminar”, conclui o professor. (Fonte: Jornal USP)
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