POETA E CANTADOR ALDY CARVALHO LANÇA NESTA TERÇA-FEIRA (31)

O Povoado de Caboclo, localizado no município de Afrânio, preserva uma das expressões mais fiéis da arquitetura colonial do sertão, com casario tombado e cenário que remete ao início do povoamento da região. A localidade já serviu de cenário para filme e documentários entre outras atrativos artísticos. Agora ganha as páginas da literatura de cordel. Nesta próxima terça-feira (31), o poeta e cantador petrolinense Aldy Carvalho vai lançar no espaço O Casarão, centro de Petrolina, sua nova obra "Caboclo em Cordel" – lançado pela (Editora Nova Alexandria).

Com ilustrações na linguagem das xilogravuras fiéis aos cenários naturais do povoado, assinadas por João Gomes de Sá, o autor primeiro  traduz  diante seu vasto conhecimento literário e poético endossados por suas publicações de vários gênero, e mais uma vez, entrega sua fidelidade  com abordagens fiéis às suas origens sertanejas, e assim,  destaca com maestria o valor inestimável da  literatura de cordel, patrimônio cultural imaterial brasileiro, valorizada pela sua síntese única de poesia popular, narrativa e arte visual através da xilogravura ."Cordel é vivo, pujante. Por tantos fatos narrados, pela beleza que emana entre cantares rimados. É cultura popular, feita para registrar temas diversificados", assinala Aldy.

Nas primeiras estrofes de sua brilhante narrativa, o poeta e cantador convida o leitor a fazer uma viagem ao túnel do tempo, se transportando para Afrânio e especialmente, a comunidade do Caboclo, cujos versos apontam: "Um lugar privilegiado pelo seu legado histórico/ No Nordeste destacado".

Nas páginas adiante, Aldy traduz com entusiasmo de um poeta a garimpar histórias e memórias de um lugar de pertencimento a um povo sertanejo bravio. Nos versos iniciais, ele conecta Caboclo às suas origens como um lugarejo que "conta histórias do passado e do presente/Que projeta tanto sonhos/Os sonhos de sua gente/ Terra de bons cidadãos/De bons costumes cristãos/ E de futuro pungente.

Natural de Petrolina e  radicado em São Paulo há décadas,  ele nunca perdeu o foco de suas origens de caatingueiro.  Aldy Carvalho mantém sua obra fidedigna às coisas e causos dos Sertões. A ideia do Caboclo em Cordel era um sonho que vinha sendo alimentado por com o auxílio intelectual do arquiteto Cosme Cavalcanti (falecido em 2023) que presidia a comissão de revitalização do Caboclo.

Desde a infância Aldy já vinha arquivando em suas memórias, histórias orais de moradores do lugar. Há poucos anos fez diversas visitas ao povoado, dando início à chamada "narrativa do olhar" alinhando seu povo, costumes, saberes e seus cenários naturais para a textualidade poética".

Através dos versos finais, o poeta arremata seu encantamento para que o leitor também se atine a mergulhar na comunidade em meio à passagem do tempo. "O futuro de caboclo /Depende da juventude /Que herdará dos seus avós/ Coragem, força, atitude/De lutar com valentia/E preservar a alegria/De viver em plenitude/Do povoado de Caboclo/ Você pode ter certeza/Simplicidade e magia/ Completam sua beleza/ Seja velho ou seja novo/ O abraço de seu povo/ É de sua natureza. E assim Caboclo se firma/ Como joia do Sertão/ Pernambuco lhe consagra /O respeite e afeição/ Neste cordel como herança/Se reafirma a esperança/ Guardá-lo no coração.

No prefácio de abertura, a pesquisadora Geida Maria Cavalcanti de Souza direciona o autor para suas origens e arremata que "Poetizar Caboclo fez Aldy sentir-se da terra, enriquecer a tradição oral nordestina. Impossível conhecer Caboclo e não se apaixonar por tudo que esse povoado, localizado no Sertão de São Francisco, tem "tem para oferecer a cada um". 

Nenhum comentário

SEIS ANOS SEM MEU PAI VALDIR TELES, POR MARIA TELES

Eu não devia ter mais de cinco anos quando sonhei, pela primeira vez, com a perda do meu pai. Era madrugada. O telefone tocava. Do outro lado, a notícia: um acidente de carro havia levado Painho. Acordei assustada — e o medo era tão real que fiz minha mãe ligar para ele naquela mesma hora, só para ouvir sua bênção atravessando a linha e me devolver o chão.

Cresci com esse fantasma. Um pressentimento infantil, insistente, que eu combatia com orações simples, daquelas que só as crianças sabem fazer — diretas, puras, urgentes. Eu pedia a Deus que aquele pesadelo nunca virasse verdade.

E havia razão no medo. Painho viveu décadas na estrada — entre palcos, cantorias, poeiras e noites sem fim. Entre um pé de parede no Ceará e outro na Paraíba, atravessou o tempo e o risco com a viola no peito.

Em 1997, o susto quase se concretizou. Painho estava em um acidente que levou Severino Ferreira, poeta do Rio Grande do Norte, que um ano antes havia cantado no meu batizado. Eu não guardo sua imagem — apenas o eco infinito dos versos que ficaram.

O medo ficou. Virou parte de mim. Um gatilho, uma oração automática, um pedido silencioso: que Deus não me tirasse meu pai. E, de algum modo, Ele não tirou.

Eu temia não crescer ao lado de Painho. Mas cresci. Por 25 anos, vivi um pai inteiro: presente, amoroso, intenso, vivo. Um pai de riso largo, de abraço certo, de palavra firme. Um pai que me deixou lembranças suficientes para sustentar uma vida inteira.

Mas há um dia: 22 de março de 2020. Um domingo que existe — mas não deveria. Naquele fim de tarde, falamos por vídeo por quase quarenta minutos. Lembro de tudo: de sugerir um filme, de contar meus planos, de ouvir os dele, de perceber — ainda que disfarçado — o medo do mundo que começava a se fechar.

Desligamos quase às 18h. Fui tomar banho. Quando saí, a vida já não era a mesma. Em menos de cinco minutos, sem estrada, sem madrugada, sem velocidade — Painho partiu. Descansou. Na sua terra, nos braços de Mainha, na semana de São José. Depois de ver a Serrinha chovida. Depois de pedir um copo de suco.

Há dias que o corpo vive, mas a memória recusa. Dos dias que se seguiram, quase não lembro. E talvez seja misericórdia. Porque não havia espaço para dor dentro de uma história tão cheia de amor. Aprendi, então, que pais não se vão. Pais permanecem. Viram raiz — mesmo quando já são semente.

Hoje, seis anos depois, encontro Painho de outras formas. Na saudade que às vezes me paralisa — e às vezes me levanta mais forte. Na coragem que me sustenta. Na voz que ainda escuto quando o mundo pesa dentro de mim.

Painho segue sendo o começo de tudo que eu sou. E eu sigo tentando fazer da minha história um final digno desse início. Ele me viu crescer, estudar, sonhar. Segurou minhas mãos nos primeiros versos, acreditou nos meus escritos, me ensinou — com firmeza e afeto — a ser quem sou. Foi pai, foi amigo: e hoje é saudade.

Me ensinou que falar bonito importa. Mas viver o que se diz importa mais.

Quando penso na maternidade, dói saber que ele não estará aqui para ver. Mas escrevo. Escrevo tudo que um dia quero contar aos meus filhos sobre o avô que eles não vão conhecer — e que, ainda assim, vai viver neles.

Às vezes, recebendo pessoas em casa, me pergunto o que Painho diria. E tento acolher com o mesmo coração com que o vi abraçar o mundo inteiro. Do lado de cá, ficou uma saudade serena, profunda, agridoce e cristalina. Ficou a presença de um pai que ainda me sustenta. Mas também ficou aquela menina de cinco anos — que sempre soube que perder o pai seria a maior dor da sua vida.

Obrigada por ter sido tanto, Painho. E por continuar sendo esse combustível inesgotável na locomotiva dos meus sonhos. Tua “menina mole” segue tentando ser corajosa, firme, decente e humana. E, se conseguir, será sempre pelo trabalho bonito que o senhor fez na alma dela.

Hoje, ouvi um baião seu que ainda não conhecia, com Hipólito Moura.

E pensei: Eita nêgo cantador gigante Painho foi! Que matuto poeta, meu Deus! Obrigada por essa passagem breve e luminosa — como um cometa.

Que atravessa rápido… mas ilumina para sempre. O senhor é a eternidade que nunca será pequena, é a saudade que não será pretérita. É o verso que sustenta o meu, o mote que eu ainda não soube pagar…

Te amo desde que me entendi por gente.

Continua sendo essa presença que me sustenta e esse amor que me faz melhor. O senhor nunca será sobre os finais de domingos sombrios, mas sobre a festa das suas chegadas em cada segunda feira!

Tua “menina de Valdir”.

Mariana Teles *Advogada e poetisa

Nenhum comentário

SEMINÁRIIO DEBATE BIOMA CAATINGA

A Prefeitura do Crato, em uma ação conjunta com o Governo do Ceará e diversas instituições parceiras, realiza entre os dias 23 e 28 de março a Semana da Água e da Árvore 2026. Amparado pela Lei Municipal nº 3.440/2018, o evento busca sensibilizar a população sobre a importância da preservação dos recursos naturais, sob o lema instigante: "Quanto vale o verde do verde vale?". A programação deste ano foca na resiliência do bioma Caatinga como peça fundamental no enfrentamento das mudanças climáticas globais, trazendo atividades que unem ciência, educação infantil e mobilização comunitária.

A abertura com reflexão científica marca a segunda-feira, 23, que começa com o pé no chão no Parque Estadual Sítio Fundão, onde alunos da rede pública participarão de uma trilha educativa e rodas de conversa. No período da tarde, o debate ganha um tom técnico no CEJA com o seminário "Estratégias da Caatinga para a Resiliência Climática", reunindo especialistas da URCA, ICMBio, SEMMA e outras entidades.

Ação Prática e Educação (24/03 a 26/03)

A terça-feira, 24, será marcada pelo mutirão de limpeza no Riacho da Matinha, com o apoio do Exército Brasileiro (Tiro de Guerra), focando na saúde dos nossos corpos hídricos. Na quinta-feira, 26, as atenções se voltam para a educação infantil com o plantio de espécies nativas no CEI Eliza Jacinto e a apresentação do Projeto Horta no CEI Ailza Gonçalves Felício, em parceria com a SAAEC. O objetivo é integrar segurança alimentar e sustentabilidade desde os primeiros anos escolares.

Inovação e Reflorestamento (27/03)

A sexta-feira, 27, reserva um dos momentos mais simbólicos da semana: a inauguração da sede da Brigada Municipal de Incêndios no Sítio Caiana, acompanhada de um mutirão de plantio. Simultaneamente, no Sítio Fundão, será realizada a ação de lançamento de "bombas de sementes" para recuperação de áreas degradadas.

A tecnologia também será protagonista no Geopark Araripe, com uma oficina sobre o uso de drones para monitoramento ambiental, demonstrando como a inovação pode ser aliada da conservação.

O encerramento acontece no sábado, no Sítio Urbano do Gesso, com uma oficina prática sobre inseticidas naturais, voltada para a comunidade local, promovendo alternativas ecológicas para o cultivo urbano.

O evento tem como instituições parceiras a SEMA, SAAEC, ICMBio, URCA, Geopark Araripe, SESC, SENAC, Exército Brasileiro, ACCOA, ACAFA, CEPAN, Biruta da Terra, GEAS, entre outros coletivos e secretarias municipais.

Serviço-Semana da Água e da Árvore 2026

De 23 a 28 de março

Locais: Sítio Fundão, Sítio Caiana, Escolas Municipais, Geopark Araripe e Sítio Urbano do Gesso

Público: Estudantes, pesquisadores e comunidade em geral

A programação completa será disponibilizada nas rede sociais oficiais da Prefeitura do Crato

Por Elizangela Santos

Nenhum comentário

FILÓSOFOS ANALISAM CLIMA DE COPA COM PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NO OSCAR

A final da Copa do Mundo 2026 será em 19 de julho, mas, no Brasil, o clima já está instaurado – só que em razão do cinema. Com o país disputando a 98ª edição do Oscar em cinco categorias – quatro com “O agente secreto” e uma com Adolpho Veloso, diretor de fotografia de “Sonhos de trem” –, bares, restaurantes e boates estão organizando eventos para acompanhar a transmissão da cerimônia, na noite deste domingo (15).

A convocação à “torcida organizada” se repete em diversas outras cidades do país. No ano passado, com “Ainda estou aqui” em campo, não foi diferente – a vitória do longa de Walter Salles como Melhor Filme Internacional, conquistando a primeira estatueta do país, foi comemorada como um gol decisivo.

Kleber Mendonça Filho diz que campanha de 'O agente secreto' ao Oscar 'nunca pareceu eleição'

Há um consenso, em espaços de reflexão sobre fenômenos sociais contemporâneos, como a academia, de que as razões que justificam o frisson em torno da presença brasileira no Oscar extrapolam os filmes em si.

Rosto do ator Wagner Moura, no filme O agente secreto, está no centro da Bandeira do Brasil levada por foliões do bloco Pitombeira, no carnaval do Recife

Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Verlaine Freitas destaca o aspecto da identidade nacional, ou seja, o desejo socialmente compartilhado de que um representante cultural brasileiro seja mundialmente reconhecido.

“Por esse lado, parece-me que virtualmente qualquer filme, seja com conteúdo político, como estes dois brasileiros recentes, ou algum outro, despertaria o mesmo entusiasmo na corrida para o Oscar”, diz. Ele pondera, contudo, que tanto no caso de “O agente secreto” quanto no de “Ainda estou aqui”, o ingrediente político é determinante, já que ambos denunciam o autoritarismo da época da ditadura militar brasileira.

Verlaine Freitas observa que, junto com a premiação do filme como produto cultural, como obra de arte, há também o reconhecimento do valor da mensagem política de luta contra as injustiças, a destruição da democracia ou o atentado aos direitos humanos.

“Se isso procede, é de se supor que essa torcida por 'O agente secreto' no Oscar se dê muito mais entre pessoas identificadas com a esquerda do que com a direita política”, pontua.

Também professor do Departamento de Filosofia da Fafich, Helton Adverse endossa a avaliação de Freitas. Segundo ele, além da apreciação estética, há fatores políticos, sociológicos, antropológicos e até psicológicos determinantes da modo como a presença de “O agente secreto” no Oscar é percebida.

“Esse clima de Copa do Mundo, de torcida, tem a ver com o fato de a sociedade estar fortemente politizada e, portanto, forçosamente marcada pela divisão, isso a que se tem chamado de polarização, e que se reflete sobre todo o corpo social”, diz.


Nenhum comentário

COLETIVO QUILOMBOLAS LANÇA DOCUMENTÁRIO E PEDE PROTEÇÃO

 Ter quer deixar a própria casa, não dormir em paz, temer pela própria segurança e da comunidade. No documentário “Cafuné”, lançado nessa quinta-feira (12) pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), relatos evidenciam a urgência de uma política de proteção eficaz a defensoras dos direitos humanos que vivem em comunidades tradicionais em todo o país. 

Realizado por iniciativa da entidade, o filme foi dirigido por Gabriela Barreto, Maryellen Crisóstomo e Nathália Purificação e faz parte de um projeto mais amplo (de mesmo nome) das representantes quilombolas a ser entregue ao governo federal. A iniciativa integra estratégia de sensibilização do poder público, incluindo também o Congresso Nacional. 

O nome "Cafuné" para o projeto (e para o filme) refere-se à tentativa de proporcional algum tipo de aconchego às mulheres que vivem permanentemente em risco, ameaçadas por conflitos agrários e pelas vulnerabilidades com a deficiência de políticas públicas.

Nenhum comentário

ALCEU VALENÇA COMEMORA 80 ANOS

As oito décadas de vida do cantor e compositor Alceu Valença vão ser comemoradas com a turnê 80 Girassóis, que estreia no próximo sábado (14), no Rio de Janeiro. Em seguida, o emblemático representante da música pernambucana seguirá para São Paulo, Salvador, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Recife, Fortaleza, Belém e Belo Horizonte, com patrocínio master do Banco do Brasil. 

Os shows estão programados para ocorrer até junho, e Alceu completará os 80 anos em 1º de julho.

“Esta turnê vai ser uma maravilha. Está sendo muito bem projetada pela minha esposa, Yanê [Montenegro], e Júlio Moura. A gente tem sócios em vários estados para fazer esta turnê”, disse Alceu em entrevista à Agência Brasil. 

O show deste fim de semana será na Farmasi Arena, na Zona Sudoeste da capital fluminense. Com Alceu, estarão no palco os músicos Tovinho (teclados e direção musical), Cássio Cunha (bateria), Zi Ferreira (guitarra), Nando Barreto (baixo), André Julião (sanfona), Costinha (flautas) e participação ainda de Lui Coimbra (violas e violoncelo) e Natalia Mitre (percussão). 

Alceu contou que a temporada é resultado de seis meses de ensaios, tudo gravado em áudio e vídeo, e destacou as projeções que vão ser exibidas durante as apresentações. 

“Esse show tem umas projeções incríveis feitas por Rafael Todeschini. A Yanê participa também. Projeções simplesmente maravilhosas, e, dentro desse acervo meu, até minha mãe e meu pai vão aparecer”.

A todos que o perguntam sobre a ação do tempo em sua vida desde quando era menino, em São Bento do Una, Alceu conta que vive no presente, passado e futuro, em uma Embolada do Tempo, que é o título de uma das suas músicas. Durante a entrevista, ele declama parte da letra. 

“O tempo em si/ Não tem fim/ Não tem começo/ Mesmo pensado ao avesso/ Não se pode mensurar”.

E continua: "Buraco negro/ A existência do nada/ Noves fora, nada, nada/ Por isso nos causa medo". "Tempo é segredo/ Senhor de rugas e marcas/ E das horas abstratas/Quando paro pra pensar". "Você quer parar o tempo/ E o tempo não tem parada".

A turnê não se restringe aos shows. Algumas das cidades por onde ela passar também receberão exposições de artes plásticas e sessões de filmes. Alceu destacou que é cineasta e já fez participações como ator em diversas produções. 

“Fiz o papel principal no filme de Sérgio Ricardo [também cantor e compositor] A Noite do Espantalho. Depois, fiz um filme chamado A Luneta do Tempo”, contou.

O cantor acrescentou que tem um acervo grande de filmes realizados em diversos países como França, Alemanha, Suíça, Portugal, Espanha, Estados Unidos e Brasil. 

“Eu sempre gostei da arte de cinema e levava câmeras comigo. Tenho muita coisa. São outras partes do meu trabalho. Não é só a música. É a trajetória”. 

Seleção das músicas - A escolha das músicas, segundo Alceu, seguiu um método que ele próprio definiu: encadeá-las conforme os temas de cada uma.

“É uma narrativa poética. Por exemplo, Martelo Agalopado, que é uma música que advém do cantador, faz parte da cultura do sertão profundo, onde nasci, em São Bento do Una. Logo depois, vem o repertório de Luiz Gonzaga, porque ele faz parte disso e se completa. Outra, é de quando eu era criança e gostava de correr de Cavalo de Pau [nome de uma das músicas ]”, descreveu. 

O lado folião não podia faltar e está representado, tanto na presença que costuma ter em Olinda como em shows de trios elétricos no período da folia. Em São Paulo, há mais de dez anos, e no Recife, em um período mais recente, ele comanda o bloco Bicho Maluco Beleza, arrastando 1 milhão de pessoas. 

Também estará na turnê o "Alceu caminhador", o cara que vive aqui e lá. “Coração Bobo eu compus em Paris, quando morei lá, com saudade muito grande de Jackson do Pandeiro e Geraldo Azevedo. Tem uma outra que compus falando sobre ruas, Pelas ruas que andei, e falo das ruas do Recife. Tem uma com lembranças de Nova York, que compus aqui, no Rio de Janeiro”, relatou.

Anunciação-O processo para compor as suas obras é diverso e, na música Anunciação, ele o classifica como um surto criativo. Alceu revelou que, andando em Olinda, criou uma música na flauta com que estava aprendendo a tocar. Quando entrava em casa, uma moça elogiou o que tinha ouvido.

"'Alceu que música bonita que você estava tocando? Que coisa mais linda’. 'Você achou?' Perguntei. A música ia se perder se ela não tivesse falado”, afirmou.

Ao chegar na cozinha, Alceu pegou um papel de pão e começou a fazer a letra, escrita a lápis, de Anunciação. 

O artista contou que existem diversas postagens nas redes sociais de pessoas que relatam a ligação dessa música com o nascimento de crianças.

“Olha o que eu encontro! Se você sair comigo por aí, todo dia é a mesma coisa. Mulheres dizendo que tinham dificuldades, e o filho nasceu [ao som da música], outras que não tinham. Tem quem diz que fez o parto ouvindo a música e crianças pequenas que dizem que ouviam desde que estavam no bucho [barriga da mãe]. Tô brincando”, disse sorrindo. 

Alceu comemora os números de acessos das suas músicas na plataforma de streaming de áudio Spotify, na qual Anunciação alcançou 200 milhões. Já no YouTube, Belle de Jour conta com mais de 300 milhões. 

A inspiração é uma marca de projetos que Alceu participou ao longo da vida. Mesclando o clássico com o popular, sua jornada tem concertos com orquestras do Brasil e do exterior. 

“Eu advenho da cultura do sertão pernambucano profundo. Lá, eu ouvia aboios, toadas de vaqueiros”, recordou. 

Essa trajetória quase seguiu outro caminho: Alceu quis ser advogado e fazer concurso para promotor. Chegou a se formar, mas não seguiu na carreira, confirmando uma frase que lembra ter ouvido da mãe, que dizia que ele veio ao mundo para levar alegria às pessoas.

“Coisa boa que se confirmou, porque se não tivesse se confirmado, seria chato para ela e para mim”. 

Nenhum comentário

TOADA ASA BRANCA COMPLETA 79 ANOS DA PRIMEIRA GRAVAÇÃO

A letra da música Asa Branca completa nesta terça-feira (3) 79 anos da gravação na voz de Luiz Gonzaga. No dia 3 de março de 1947 Luiz Gonzaga gravava pela primeira vez nos estúdios da RCA, no Rio de Janeiro, a canção que ficaria imortalizada como hino dos nordestinos. Uma composição dele com então advogado, nascido em Iguatu, Ceará,  Humberto Teixeira continua no imaginário do povo brasileiro.

A gravação foi acompanhada pelo grupo de Regional do Canhoto. Ao fim do trabalho, Canhoto, líder do grupo, olha para Luiz Gonzaga e diz que a "letra era música para cego pedir esmolas". A história conta que o músico saiu dos estúdios e zomba com um chapéu pedindo esmolas ao som da canção. Mal sabia Canhoto que Asa Branca iria ser um nos maiores sucessos da música brasileira.

A letra Asa Branca, de Humberto Teixeira, recebeu até elogios e uma reflexão do escritor José Lins do Rego: é um dos mais belos versos da literatura brasileira.

O professor e historiador Armando Andrade diz que a identidade do cantor se confunde com a letra de Asa Branca. É nela que se misturam o homem, a música e seu povo. "A partir de Asa Branca o Brasil viu o drama através da voz do próprio nordestino. É dessas coisas que a poesia e a literatura conseguem fazer, transportar através da linguagem as pessoas a vivenciar a dor do outro" diz.

Outra característica marcante de Asa Branca é a saudade do amor perdido com o exílio forçado devido a seca. Se os clássicos traziam as guerras como o motivo da partida do homem e a promessa de volta para o grande amor, em Asa Branca, é a seca que expulsa o homem e a ave, numa metáfora que se estende à condição humana.

"Talvez aí resida a universalidade e aceitação pelo grande público, além de retratar a real condição das famílias nordestinas. A promessa da volta do homem para seu grande amor está presente desde a literatura grega, como a Odisséia. É um tema universal com que todos se identificam", diz Armando Andrade.

A força de Asa Branca pôde ser vista em 2009, quando a Revista Rolling Stone Brasil, publicou uma lista com as 100 maiores músicas da história do país. Um honroso 4º lugar, ficando atrás de clássicos como Carinhoso, Águas de Março e Construção. 

O tempo passou e Asa Branca segue inspirando artistas de outras gerações. Anderson do Pife, que mora em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, diz que enquanto estudante de música, acredita que a letra é parte de um método brasileiro de ensino de música popular. "Essa melodia composta por conjuntos e de fácil execução, traduz o início de uma trajetória musical para quase todos os que iniciam seus estudos com ou sem ajuda de profissionais da área", diz.

Ele disse ainda que a música retrata poesia, cotidiano, paisagem e todo o referencial histórico do Nordeste. "Eis o hino do Nordeste e a primeira música que aprendi a tocar. Essa é a força que representa a Asa Branca em minha vida", finaliza.

O professor doutor em Ciência da Literatura, Aderaldo Luciano, ressalta que o  "Nordeste continua existindo caso Luiz Gonzaga. Tem a mesma paisagem, os mesmos problemas, comporta os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões".

De acordo com o pesquisador mais que ninguém, Luiz Gonzaga brindo com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. 

"Luiz Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores. O seu peito abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali, buscando eternidade", finalizou Aderaldo.

Redação redeGN Fotos Arquivo Ney Vital

Nenhum comentário

← Postagens mais recentes Postagens mais antigas → Página inicial