Aos 98 anos, Onildo Almeida comemora 70 anos da música 'A Feira de Caruaru': "Não vi o tempo passar."
Muitas feiras podem se vangloriar das suas cores e sabores, mas poucas possuem uma mística tão profunda que transborda para a música. A Feira de Caruaru, que é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro e já era soberana em suas tradições desde o século 18, ganhou sua trilha sonora definitiva há 70 anos, quando Onildo Almeida compôs o clássico homônimo eternizado por Luiz Gonzaga.
Para celebrar essa história, a versão original de 1956 — na voz do próprio Onildo — foi resgatada. Após um processo de remasterização por Thiago Rad e produção por Kira Aderne, a gravação está disponível em todas as plataformas digitais desde a última sexta-feira (8).
Mesmo sem nunca ter negociado uma mercadoria sequer, Onildo consagrou-se como o maior “vendedor” da feira através de seus versos. A canção, que ganhou o mundo na voz do Rei do Baião, atravessou gerações e recebeu diversas releituras de artistas como Gilberto GIl, Chico Buarque, Marinês, Mestre Ambrósio, Banda de Pífanos de Caruaru, Anastácia, Oswaldinho do Acordeon e Israel Filho. “A feira já estava lá antes mesmo da cidade. E hoje, através dessa música, ela encontrou sua maior propaganda”, celebra o autor em entrevista ao Diario.
Acompanhando a sua mãe Flora Camila de Almeida aos sábados, ele observava a imensa variedade do pátio e tomava nota de cada detalhe. Como diz a letra, ali se encontrava “de tudo que há no mundo” — e, segundo Onildo, não era exagero. Por maior que a canção fosse, não incluiu tudo o que ele viu, como a inusitada comercialização de automóveis. “Toda cidade tem sua feira. Mas a de Caruaru tem uma diferença, porque vende tudo o que você imaginar”, explica.
Na década de 1950, Onildo dividia seu tempo entre o microfone da Rádio Difusora de Caruaru, onde apresentou programas de auditório, e as primeiras composições, que na época seguiam um estilo mais romântico.
Desafiando sua veia romântica, Onildo rendeu-se ao fascínio do comércio local e decidiu, por pura diversão, colocar o cotidiano da feira no ritmo do baião. Em 1956, ao lado de um conjunto de Caruaru e músicos do Recife, gravou a obra no estúdio da Rozenblit e viu as três mil cópias sumirem das prateleiras em 15 dias, mas o sucesso ainda não havia ultrapassado as fronteiras locais — o que só aconteceu após a música fisgar a atenção de Luiz Gonzaga.
Impressionado, o Rei do Baião fez questão de conhecer o jovem autor. O encontro selou uma amizade e resultou no pedido para gravar sua própria versão, lançada em 1957, que rendeu a Gonzagão o primeiro disco de ouro de sua carreira. ”Ele não gravava alguém só por ser amigo, não. O que importava para Gonzaga era a qualidade da obra”, relembra Onildo.
Para o músico, o relançamento vai além da memória afetiva e histórica. É também a reafirmação de que a Feira de Caruaru continua tão abundante quanto no tempo em que inspirou a canção. Tanto é que, aos 96 anos, ele e a esposa, Lenita, mantêm o hábito de visitar a feira todos os domingos, antes das 7h da manhã. “Continua sendo um lugar onde se encontra de tudo. O que muitas vezes falta na cidade, acaba aparecendo por lá”, garante.
Não poderia haver momento mais simbólico para este relançamento do que a chegada do ciclo junino. No dia 19 de junho, no Polo Camarão do São João de Caruaru, Onildo subirá ao palco ao lado da cantora Kira Aderne para um show histórico.
No repertório, além da emblemática “A Feira de Caruaru”, o público poderá ouvir clássicos como “Sanfoneiro Macho”, “Forrock” e “Forró dos Namorados”. Com uma vitalidade invejável rumo ao seu centenário, Onildo promete se apresentar com o fôlego de sempre: “Eu não vi o tempo passar. Deus me fez assim e continua me dando força. Não sinto que tenho 98 anos”, diz.