INSTITUTO CULTURAL RAIZES DARÁ INÍCIO AO PROJETO KARIBANTU

O Instituto Cultural Raízes, dará início no próximo dia 21 de fevereiro de 2021 ao Projeto KARIBANTU, que dialogará com as experiências históricas desenvolvidas pelo povos negros e indígenas de Pernambuco (em especial da região do sertão), suas histórias de resistência, desde os tempos em que teve início a chamada colonização e consequentemente a escravização dos povos originários e dos africanos.

A junção das tradições culturais e espirituais dos povos africanos para cá trazidos, de origem Bantu, com os povos originários (hoje chamados de indígenas) do tronco da Nação Kariri (também chamados de Tapuios ou Tapuias), deu origem a formação de uma sociedade baseada nos aspectos e valores ancestrais, ainda presentes nos dias de hoje, em que pese os ataques e violências sofridos, o racismo e preconceito de que são vítimas e a onda devastadora do modo de vida consumista e individualista, além da negação da importância das raízes culturais, que impera em nossa sociedade.

O Projeto KARIBANTU, tem como objetivo principal, concluir e publicar a pesquisa e vivência já desenvolvida ao longo dos últimos 11 anos, pelo Instituto Cultural Raízes, sobre o processo de resistência humana e cultural dos povos originários e negros no interior de Pernambuco.

Já em relação aos Objetivos Específicos, merece destaque os seguintes aspectos:

– Aprofundar as relações ancestrais desenvolvidas entre os povos, fortalecendo os laços existentes, na perspectiva de recompor formas organizativas e comunitárias, baseadas em valores éticos e humanos, contidos nas experiências históricas dos mesmos;

- Potencializar as ações desenvolvidas pelos originários/tradicionais (indígenas e quilombolas), quanto à valorização de suas tradições e saberes históricos, a partir da oralidade (forma tradicional de linguagem dos povos) e também da escrita e da documentação em audiovisual;

– Fortalecer as organizações sociais e comunitárias de ambos os povos, a partir do potencial histórico e atual, expressado nas artes, na cultura e nas tradições;

- Promover o intercâmbio e a troca de experiências entre os Povos, fortalecendo os laços de irmandade e união entre os mesmos;

- Contribuir para a consolidação do processo de autoafirmação dos povos.

Para conhecer melhor o Projeto KARIBANTU e acompanhar suas ações, lhes convidamos a acessar as redes sociais do Projeto. BLOG, INSTAGRAM, PÁGINA NO FACEBOOK, GRUPO NO FACEBOOK, YOUTUBE.

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LIVE SHOW COMEMORA 80 ANOS DO POETA E COMPOSITOR JOSÉ CARLOS CAPINAN

Autor de clássicos como Ponteio, com Edu Lobo, que venceu o III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967; Soy Loco por Ti América, com Gilberto Gil, incluído no clássico disco manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, e Papel Marchê, com João Bosco, entre tantas outras canções que marcaram a MPB, o poeta, compositor e médico José Carlos Capinan comemora dia 19 de fevereiro 80 anos.

O músico e compositor baiano José Carlos Capinan será homenageado na próxima sexta-feira (19), às 19h com uma live-show que reunirá arte, conversa e música. Estão confirmadas as presenças dos artistas Jards Macalé, Roberto Mendes e Gereba.

O evento online “Palco Aberto Boca de Brasa” será transmitido no perfil do Muncab no Youtube e contará com a apresentação do jornalista Leonardo Lichote, especialista na área músical. Na ocasião, também será realizado o lançamento da edição do Caderno de Músicas - revista mensal focada em MPB e uma minissérie onde Capinam narra o surgimento das principais canções dele.

O evento é realizado pelo Muncab (Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira), a Amafro, o Espaço Cultural Boca de Brasa, da Prefeitura de Salvador, e conta com co-realização da Nubas e da Estandarte Produções e apoio do Caderno de Música.

Confira texto da jornalista Eliete Negreiros, Revista Piauí:

Algumas músicas causam tal impacto na vida da gente que se tornam um marco. Talvez pela capacidade que têm de expressar, de modo poético, o espírito de uma época, ou o alumbramento de um instante, ou alguma verdade que estava ali, dispersa. Quase como uma magia, muitas canções são, assim, a expressão de uma infinidade de sentimentos, emoções, impulsos, pensamentos, uma iluminação interior, ordem sutil no caos que se move dentro da gente.

José Carlos Capinan, quando compôs Movimento dos barcos, deu voz a uma geração, ao estado de espírito de uma época, que assumia a mudança e a transformação como filosofa de vida. E era a minha geração. Ansiávamos por mudanças na estrutura familiar, na sociedade, no modo de ser e de estar no mundo. Queríamos abrir a boca e falar daquilo que se passava conosco, quebrar a casca da aparência que estava sufocando a exuberância, da nossa juventude. Queríamos um mundo mais fraterno, mais justo. Tanta miséria, tanta desigualdade, tanta opressão. Haveria de ter um outro modo de mundo e de ser da gente… Anos 70.

Fizemos dos amigos nossa família. Misturamos política e existencialismo e vivemos todos os conflitos que disso resultou. Queríamos abraçar o movimento, passar junto com o tempo – as coisas passando eu quero / passar com elas, eu quero / e não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro / e a marca de um abraço no seu corpo não. Transitoriedade, transformação, impermanência, descoberta de si, do outro, do mundo, mudança de costumes. Antropofagicamente, nos apropriamos do lema da revolução francesa: liberdade, igualdade, fraternidade, sob um outro ângulo, sob o sol dos trópicos, terra brasilis.  Não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não / lamentando o eterno movimento / movimento dos barcos, movimento.

Como cantei e toquei esta canção, incontáveis vezes. Por um tempo foi minha voz, a voz do meu ser, foi o meu hino, ou melhor, foi meu mantra. Chegava em casa, pegava o violão e ficava cantando. Uma oração. E também como a escutei…  Bethânia, Macalé. Jards Macalé e Capinan.  Nosso poeta Capinan e sua sabedoria. E eu também não queria ficar no porto chorando, não, lamentando o eterno movimento, movimento dos barcos, movimento. Queria celebrar a passagem dos dias e das horas, as coisas passando, eu quero / passar com elas, eu quero...

A poética de Capinan é multifacetada, tanto na temática quanto na forma. Há canções com temas regionais, que falam do Nordeste, como Ponteio, Viola Fora de Moda, com influência da literatura de cordel – Disso eu me encarrego / Moda de viola / Não dá luz a cego, ah, ah, e outras de um lirismo puro de estórias encantadas que lembram as brincadeiras da infância no sertão, como Cirandeiro  – Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó, a pedra do seu anel / brilha mais do que o sol.

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DIA MUNDIAL DO RÁDIO É COMEMORADO NESTE SÁBADO (13)

Em todo país, circulam ondas eletromagnéticas que transmitem informações importantes para a garantia de direitos e para a democracia. Tais ondas podem ser decodificadas por pequenas caixas que podem funcionar apenas com pilhas. De tão relevantes, essas caixas têm, a elas, um dia que foi mundialmente reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): o Dia Mundial do Rádio, comemorado neste sábado, 13 de fevereiro.

O potencial comunicativo do rádio já foi comprovado em vários momentos ao longo da história. Em um deles, ocorrido em outubro de 1938, milhares de norte-americanos entraram em pânico ao ouvirem, na rádio CBS, o ator Orson Welles alertando sobre uma suposta invasão de marcianos.

Tratava-se apenas de um programa de teleteatro, uma versão radiofônica do livro A Guerra dos Mundos, de H.G Wells. Ao se dar conta do alvoroço entre a população, a emissora teve de interromper o programa para esclarecer o fato aos ouvintes que não haviam assistido a parte inicial da transmissão.

“O rádio é, sem dúvida, o mais democrático de todos os meios de comunicação. Para desfrutar dele, não há necessidade de pagar internet, nem de ter energia elétrica. Basta ter pilha ou uma bateria”, argumenta o jornalista Valter Lima, âncora, desde 1986, de um dos programas radiofônicos mais longevos do Brasil: o Revista Brasil, da Rádio Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O aspecto democrático que compõe a essência do rádio é também corroborado pela Unesco que instituiu nesta data, 13 de fevereiro, como o Dia Mundial do Rádio.

“A estratégia da Unesco é a de fortalecer o rádio, que é o veículo mais essencial, principalmente nos muitos países onde, seja por conflitos, catástrofes ou por falta de estrutura, não há internet nem energia elétrica acessível para a população. Nesses casos é o rádio que consegue localizar e salvar vidas, justamente por conta da possibilidade de depender apenas de pilha para ser usado”, disse à Agência Brasil o coordenador de comunicação e informação da Unesco no Brasil, Adauto Cândido Soares.

Adauto Soares acrescenta que o interesse da Unesco em trabalhar neste campo da comunicação está relacionado à visão de que o acesso à informação é parte integrante do direito à comunicação. “Até porque, sabemos, quando um país tem sua democracia atacada, é o direito à comunicação o primeiro a ser silenciado.”

Segundo o coordenador da Unesco, que desenvolve também um trabalho de denúncia de violações de direitos humanos contra jornalistas, os radialistas são as maiores vítimas desse e de outros tipos de violação.

“De um total de 56 jornalistas assassinados em todo o mundo em 2019, 34% atuavam no rádio; 25% em TV; 21% em mídia online; 13% em mídia impressa e 7% em plataformas mistas. Desse total, três mortes ocorreram no Brasil”, disse, citando números do levantamento Protect Journalists, Protect the Truth, publicado pela Unesco em 2020.

A criatividade é uma das características que sempre acompanharam o rádio. Com a chegada de novas tecnologias, em especial, as ligadas à tecnologia da informação, o rádio manteve seu aspecto inovador e continua a se reinventar.

Presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Flávio Lara Resende lembra que muito se falou sobre a morte do rádio, com a chegada da TV. “Foi quando o rádio perdeu espaço. Mas não perdeu importância”, disse.

“Se perdeu alguma importância após a chegada da TV, depois voltou a ganhar [importância] quando apareceram novas plataformas, e ele se reinventou, apresentando programações segmentadas, canais específicos de jornalismo herdados, influenciados e influenciadores da TV”, disse o presidente da Abert.

“Hoje, com a internet, ouve-se a notícia radiofônica e vê-se os jornalistas que fazem a notícia. O rádio continua a ter grande importância e está aumentando cada vez mais, reinventando-se diariamente”, acrescentou.

Diante da necessidade de se reinventar constantemente, a Rádio Nacional lançou recentemente (no dia 10 de fevereiro, em meio às celebrações pelo Dia Mundial do Rádio) seu perfil na plataforma Spotify no qual o público pode ouvir – onde e quando quiser – “o melhor da música brasileira”. Para acessar o serviço, basta acessar as playlists “É Nacional no Spotify”.

O Brasil registra 5,1 mil rádios comerciais, 700 educativas, 458 rádios públicas e 4,6 mil comunitárias, segundo o Ministério das Comunicações.

De acordo com o Ministério das Comunicações há, no Brasil, cerca de 5,1 mil rádios comerciais (3.499 na banda FM; e 1325 nas bandas AM, entre ondas médias, curtas e tropicais). Há, ainda, cerca de 700 rádios educativas; 458 rádios públicas; e 4.634 rádios comunitárias.

Na pesquisa Inside Radio, na qual são apresentados aspectos relativos a comportamento e hábitos de ouvintes de rádio, a Kantar Ibope Media constatou que o rádio é ouvido por 78% da população nas 13 regiões metropolitanas pesquisadas. Além disso, três a cada cinco ouvintes escutam rádio todos os dias. E, em média, cada ouvinte passa cerca de 4h41m por dia ouvindo rádio.

O levantamento avalia também questões relativas à adaptação do rádio à web, bem como novas formas de consumo de áudio, como podcasts e conteúdo on demand.

De acordo com a pesquisa, 81% dos ouvintes escutam rádio por meio de rádio comum; 23% pelo celular; 3% pelo computador; e 4% por meio de outros equipamentos, como tablets.

O crescimento que vem sendo observado na audiência via web demonstra, segundo a Kantar, “a grande capacidade de adaptação do rádio”. Segundo a pesquisa, 9% da população que vive nas 13 regiões metropolitanas pesquisadas ouviram rádio web nos últimos dias. O percentual é 38% maior do que o registrado no mesmo período de 2019.

Em um ano (entre 2019 e 2020), o tempo médio diário dedicado ao rádio via web aumentou em 15 minutos, passando de 2h40 para 2h55, diz a pesquisa. Além disso, 16% dos ouvintes pesquisados escutam rádio enquanto acessam a internet.

Os podcasts também têm ganhado popularidade. Entre os ouvintes de rádio que acessaram a internet durante a pandemia, 24% ouviram podcasts; 10% aumentaram o uso de podcasts; e 7% ouviram um podcast pela primeira vez.

As chamadas lives também registraram aumento de audiência durante a pandemia, com 75% dos entrevistados dizendo ter começado a assistir lives de shows a partir do início das medidas de isolamento social impostas pela pandemia de covid-19. Ainda segundo o levantamento da Kantar, 75% dos ouvintes de rádio disseram ouvir rádio "com a mesma intensidade, ou até mais", após as medidas e 17% disseram ouvir "muito mais" rádio após o isolamento.

A associação do rádio com novas tecnologias, no entanto, deve ser vista com cautela, para não acabar inviabilizando o formato tradicional desse tão importante veículo. “Emissoras de rádio hoje são em rede, mas a do interior, com outra realidade, não tem essa capacidade de recurso para investimento, como as grandes redes estão fazendo, em especial, quando transformam rádio em uma nova espécie de televisão”, alerta o jornalista Valter Lima.

Segundo ele, ao condicionar o rádio à necessidade de contratação de serviços como o de internet, perde-se exatamente o aspecto democrático que esse veículo sempre teve. “Uma coisa que achatou o desenvolvimento do rádio, infelizmente, foi o fato de ele estar nas mãos de grupos poderosos que possuem também emissoras de televisão [e, em alguns casos, vendem também serviços de internet]. Isso causa um grande desequilíbrio porque, enquanto as TVs estão com equipamentos cada vez mais modernos, há, no interior do Brasil, muitas rádios ainda operando com equipamentos que já até deixaram de ser fabricados”, acrescenta.

RÁDIOS COMUNITÁRIAS: O radialista destaca também o importante papel que as emissoras de rádio comunitárias têm para as regiões “ainda que pequenas” às quais prestam o serviço. Segundo ele, pela proximidade que têm com suas comunidades, essas rádios estão muito mais “antenadas”, com as necessidades locais, do que os grandes grupos de radiodifusão.

Entre os muitos desafios das rádios comunitárias, Valter Lima destaca a necessidade de elas saírem das amarras burocráticas impostas pela legislação.

“É por causa disso que essas rádios, com serviços tão importantes para suas comunidades, não conseguem ir além daquele pedaço tão pequeno. Há também as dificuldades para conseguirem lucros mínimos, de forma a poderem investir e evoluir”, disse o jornalista.

Valter Lima lembra que toda emissora de rádio precisa de ouvintes, e que, para alcançá-los, sempre teve de recorrer a programas inteligentes, criativos e, sobretudo, participativos.

“O conceito de rádio não é o de ser apenas uma caixinha para ser ouvida quando ligada. Rádio precisa ter participação. Precisa ser um espaço para o público dar a sua opinião aos chamados ‘formadores de opinião’. A TV até dá algum espaço para isso, mas nada se compara ao rádio.”

Lara Resende, da Abert, também vê, na interatividade do rádio, um de seus grandes méritos. “A fidelização do ouvinte de rádio é muito interessante porque ele passa a achar que faz parte do programa. Hoje, inúmeras plataformas permitem comentários. Com isso, o rádio ficou ainda mais participativo”, disse.

Um outro aspecto acompanhou o rádio ao longo de sua história: a rapidez com que a notícia é dada, quase que simultaneamente ao fato noticiado. Anos depois, com a ajuda de equipamentos tecnológicos como celulares e internet móvel, outros veículos ganharam velocidade e deram a esse novo tipo de jornalismo veloz o nome de tempo real.

“O rádio sempre foi e continua sendo o primeiro a dar a notícia. O furo é sempre do rádio. Essa é a nossa rotina. Enquanto o outro veículo está digitando texto ou preparando a transmissão nós já estamos no ar usando apenas um aparelho telefônico”, explica Valter Lima.

“Antes do advento do celular, a notícia era dada por meio dos famosos orelhões. Os repórteres andavam com umas 20 fichas no bolso e um cadeado. Sim, um cadeado para travar o telefone, de forma a inviabilizar seu uso pelo concorrente”, lembra o radialista.

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MÚSICO JOÃO NETO, O GUITARRISTA QUE ACOMPANHAVA O SANFONEIRO DOMINGUINHOS

Dominguinhos gostava de andar devagar de qualquer forma. Com medo de avião, ele jamais voltou a pegar o transporte aéreo desde o final dos anos de 1970. Para cumprir a agenda de shows, dirigia o próprio carro – independente da distância, acompanhado de algum músico ou produtor do lado. Nesta sexta (12), o sanfoneiro, falecido em 2013, completaria 80 anos de idade.   

Quem conta a vida do sanfoneiro pela estrada é João Netto, seu ‘quase’ conterrâneo. Nascido em Buíque (PE), o guitarrista se mudou cedo para Garanhuns (PE) – onde Dominguinhos nasceu. Antes de parar de voar, o sanfoneiro chegou a tocar na Europa. Depois, passou a montar sua agenda no período de São João, por exemplo, subindo de carro pelo Espírito Santo, Bahia, até chegar em Pernambuco e aqui pelo Ceará. 

A maioria dos músicos da banda de apoio viajava sempre, para fazer os shows, de avião. Dominguinhos chegava até 4, 5 dias depois, a depender do destino – e foi João Netto quem lhe acompanhou várias vezes. “Ele ainda andava a 80, 90 km/h. Acho que isso era ruim até pro carro (risos). E parava no posto. Quando eu pegava o volante, ele tomava os comprimidos dele e dormia, mas nunca deixava eu passar de 100 (km/h). ‘João, tá correndo demais, pode não’”, lembra o guitarrista. 

João observa que a convivência selou a amizade com o sanfoneiro – para além do compromisso profissional. “A gente conversava de tudo, ficou amigão de segredos e tudo mais. Era muito bom”, elogia o músico.    

Bem antes da parceria pela estrada, o primeiro contato entre João Netto e Dominguinhos foi confuso. O guitarrista tocava, na década de 1990, com Nando Cordel (PE). O sanfoneiro escutou a guitarra da banda de Cordel em uma gravação de fita K7 e perguntou quem era. 

Já em São Paulo, João Netto foi tocar com Dominguinhos, pela primeira vez, em um festival em Campos do Jordão (SP).

João Netto recapitula que tocou com Dominguinhos até o último show, em homenagem a Luiz Gonzaga em Exu (PE) - dia 13 de dezembro de 2012. “Foi o último dia que vi Seu Domingos”, sinaliza. O guitarrista conta que, nessa fase, o sanfoneiro precisava tratar uma série de problemas de saúde, mas conseguia manter o bom humor e a disposição renovada com os palcos.  

“Ele tinha diabetes, teve câncer, fazia tratamento alternativo com uma doutora japonesa. Mas ele aguentou muito tempo, a música transforma. A pessoa tá doente, sobe no palco e a música dá uma energia maior. Comigo acontece, com ele não seria diferente”, reflete João.  

Grato pela vivência ao lado do sanfoneiro, João Netto diz como Dominguinhos era espirituoso e abriu várias portas para a carreira musical do guitarrista. Em 2017, ele, Marcelo Melo (Quinteto Violado), Sérgio Andrade (Banda de Pau e Corda) e Gennaro (Trio Nordestino) formaram o quarteto Cantoria Agreste e fizeram shows - incluindo Fortaleza - dedicados ao repertório do sanfoneiro. O projeto está parado, mas “pode voltar”, prevê o músico.  

"Com ele, cheguei próximo de pessoas que nem imaginava, como (Gilberto) Gil, Elba Ramalho, Ivete Sangalo, João Bosco. Ele e Belchior foram duas pessoas que entraram na minha vida e agradeço a Deus por ter conhecido. Foi muito bom mesmo. Tenho Dominguinhos no meu coração pelo resto da vida. A obra dele é eterna e está aí para tanta gente nova”, celebra João. (Fonte: Diário do Nordeste)


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PAULO WANDERLEY E AS ANDANÇAS COM DOMINGUINHOS

Um sinal da intensidade do encontro entre o paraibano Paulo Vanderley e o pernambucano José Domingos de Moraes, o “Dominguinhos”, se deu pela cumplicidade. Fã do sanfoneiro desde criança, Paulo se aproximou muito do artista 12 anos antes deste falecer - em 23 de julho de 2013. Nesta sexta (12), Dominguinhos, natural de Garanhuns (PE), completaria 80 anos de idade.  

A admiração se desdobrou em amizade, ao ponto de “Seu Domingos”, como Paulo chama o ídolo carinhosamente, confiar ao pesquisador sua própria reputação. “Muitas vezes ele ia dar uma entrevista e não sabia de algo, e dizia: ‘olha, pergunta pro Paulinho, que ele sabe da minha vida’”, lembra o paraibano, que hoje mora em Fortaleza.  

Também bancário, Paulo (41), desde muito cedo admirava a cultura nordestina e chegou a filmar – aos 10 anos de idade - o sepultamento de Luiz Gonzaga, em Exu (PE). Radicado no interior pernambucano com a família, foi lá, inclusive, que o pesquisador teve o primeiro contato com “Seu Domingos”.   

“Foi na inauguração do Museu do Luiz Gonzaga em Exu, dia 13 de dezembro de 1989. Quem estava inaugurando esse museu era Gonzaguinha, com Seu Domingos, e eu era um meninozim que ficava olhando pra cara de um, e do outro. Meu pai trabalhou muito nesse projeto e filmou isso”, conta.  

De uma simplicidade notória, Dominguinhos, segundo a memória do pesquisador, não cedia às convenções sociais. “Tinha a sensação de que ele estava sempre sentado na mesa da cozinha da casa dele, de tão simples que ele era. Ele poderia estar no ‘melhor hotel’, no ‘melhor restaurante’, conversando com qualquer pessoa, mas realmente era muito simples”, confirma Paulo.  

O pesquisador foi um dos consultores da Globo Nordeste para a produção do especial em homenagem aos 70 anos de Dominguinhos. Entre 2008 e 2009, Paulo prestava o serviço à emissora para “assuntos da cultura nordestina” e acompanhou, de perto, várias filmagens para o programa.  

"Era revisor do roteiro, ajudei a montar a estrutura, indicar os convidados. E viajamos com ele para várias cidades do Nordeste: Natal, João Pessoa, Recife, Fortaleza. E foi muito especial. Eu já era amigo do Waldonys, do Fausto Nilo. Então, foi muito lindo o encontro que nós fizemos na casa do Fausto. Dois ídolos meus de infância conversando sobre música, cultura nordestina, a parceria deles. Incrível”, lembra Paulo Vanderley. 

Fiel ao legado do sanfoneiro, Paulo não aponta uma fase ou um disco em particular, para sinalizar os destaques da obra de Dominguinhos. Para o pesquisador, o artista transitou bem por diversos gêneros da música popular brasileira, seja como músico, cantor, compositor. 

Lembra do sanfoneiro com Leny Andrade, da bossa nova; como parceiro de Gilberto Gil na reverência a Gonzaga e consolidação da música nordestina; além das parcerias com nomes como Gal Costa, Djavan, Chico Buarque, o cearense Fausto Nilo e até com Rita Lee.    

“Foi tanta gente da MPB. Ele sempre manteve a sua essência, que aprendeu com Luiz Gonzaga. Já pude presenciar, registrando com a câmera, ele fazendo algumas músicas e me pedia pra repassar pra alguns parceiros (como no vídeo abaixo, para o poeta cearense Xico Bezerra). O Fausto Nilo tem um acervo maravilhoso de músicas inéditas com Seu Domingos”, conta Paulo.   

O pesquisador chama atenção para a última vez que Dominguinhos pegou na sanfona. Sete meses antes da partida, o sanfoneiro fez seu último show em Exu (PE), o “chão sagrado” do forró, terra de Luiz Gonzaga. Era 13 de dezembro de 2012. No mesmo dia, Paulo recebeu o título de cidadão exuense e Dominguinhos se apresentou duas vezes - em homenagem a Gonzaga.

Paulo Vanderley lembra bem da viagem de retorno, de Exu para o Recife, quando “Seu Domingos” já dava sinais de debilidade e foi internado um dia depois de chegar à capital pernambucana. 

“Voltamos pro Recife no carro que comprei dele (uma Land Rover). Até hoje é o veículo que ando no meu dia a dia. E no outro dia, ele se internou. Essa viagem foi inesquecível. No caminho ligamos para (o humorista) João Cláudio Moreno, para o Fausto Nilo. Foi quase uma viagem de despedida”, recorda. 

“Talvez eu seja uma das últimas pessoas que o tenha visto, antes de ele ser sedado, entubado no dia 19 de dezembro (de 2012). Estive com ele pela manhã, entrei na UTI, e me emociono falando disso”, reflete.  (Diário do Nordeste- Felipe Gurgel)


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MÚSICO SERGIPANO LUCAS CAMPELO REALIZA PROJETO EM HOMENAGEM A DOMINGUINHOS. TARGINO GONDIM PARTICIPA DE EVENTO

O músico sergipano Lucas Campelo realiza, a partir desta sexta-feira (12), o espetáculo anual 'Dominguinhos Através', com quatro dias de homenagem ao artista.

O evento, que conta com a participação de mais de 40 artistas, será realizado em formato de web série, com participações de vários artistas a exemplo de Flávio José, Rebecca Melo, Gennaro, Targino Gondim, Lygia Carvalho, Correia dos 8 baixos, Sérgio Teles, Gel Barbosa, Luizinho Calixto, entre outros.

Natural de Aracaju (Sergipe), Lucas Campelo é graduado no curso de Licenciatura em Música e mestre em Educação musical pela Universidade Federal da Bahia com o projeto intitulado de “O Processo de Aprendizagem Musical de Dominguinhos na Prática Da Sanfona.”


Jovem, o músico trilha uma trajetória profissional de músico e sanfoneiro, Lucas participou de alguns grupos musicais como a Banda Forrodibuteco (2015), Xote Baião (SE) 2015 e Orquestra Sanfônica de Aracaju (SE) 2015/2016. Participou da gravação do DVD da Casaca de couro (2016), Bob Lelis e o Forró gozado (SE) 2016, Joseane de Josa (SE) 2016, Thiago Ruas (SE) 2016,  Crav&Roza (2016). 

Foram dois anos de pesquisa sobre o processo de aprendizagem de Dominguinhos. Nesse período, Lucas revela ter percorrido a trajetória de autodidatismo deste, que é um dos grandes ícones da cultura nordestina, herdeiro e continuador do legado de Luiz Gonzaga. “Para entender melhor todos os processos que envolveram esse percurso marcante, entrevistei Anastácia, o filho de Dominguinhos, além de sanfoneiros e músicos que conviveram com ele, inspirado pelo documentário ‘O Milagre de Santa Luzia’”, revela Lucas.

O público pode conferir as apresentações no canal de Lucas Campelo na internet.

Confira a programação:

Sexta-feira 12/02 Izabel Nascimento(SE), Yamandu Costa(RS), Correia dos 8 baixos(SE), Bob lelis(SE), Laura cândido(SE), Florisvaldo Rocha(SE), Erick Sá(SE), Paulo Vanderley (PE), As moendas(SE), Marquinhos Sivuca(PE), Gel Barbosa(PB), Rebecca Melo(SE), Mestrinho(SE), Virginia Fontes(SE), Leo Rugero(RJ), Henrique Teles (SE), Mestre Gennaro (AL)

Sábado 13/02: Pavio do Forró (SE) Nino Karvan (SE), Pacha Nordestina (SE), Luiza Lu(SE), Banda Donali(SE), Carol Schmidt(SE), Elias Santos(SE), Maria Cristina (SE), Francine Maria (CE), Fred Andrade (PE), Jorge Henrique(SE), Sergio Maestro(PB), Glória Costa(SE), Flávio José (PB), Chambinho do Acordeon (SP).

Domingo14/02 Maestro Amilson Godoy(SP), Zé Leal(RJ), Saulo Ferreira(SE), Zé Gomes(PB), Bruna Ribeiro(SE), Maestro Marcos Farias (PB), Heraldo do Monte(PE), Denisson Cléber(SE), Kydelmir Dantas(PB), Ariane Santos(SE), Maestro Evanilson Vieira(SE)

Segunda 15/02, Richard Galliano (França), Karol Maciel(PE), Adelson Viana (CE), Del Feliz (BA), Nanda Guedes (CE), Luis Felipe Gama (SP), Lygia Carvalho (SE), Waldonys (CE), Erick Souza(SE), Missinho do Acordeon (AL), Nonato Lima(CE), Carol Benigno(RN), Jorge Dissonância (SE), Luciano Maia (RS), Luizinho Calixto (PB), Fernando Crateús (CE), Targino Gondim (PE)

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RIO SÃO FRANCISCO PERDE FORÇA E JÁ NÃO DESPEJA NO MEIO DO MAR

A redução do volume do Rio São Francisco que decorre da decisão do governo federal de diminuir a água que é liberada pelos reservatórios das usinas hidrelétricas de Sobradinho e Xingó tem afetado a atividade econômica e a população que vive nas margens do rio São Francisco.

A redação do BLOG NEY VITAL, fez contato com moradores da região do Baixo São Francisco e a reclamação é geral. Setores como a agricultura, prejudicada pela menor disponibilidade de água para irrigação, a navegação e a pesca têm sofrido prejuízos devido à queda do nível do rio São Francisco.

Pessoas ligadas aos Movimentos Sociais acusam que o "governo tem como prioridade a produção de energia elétrica, mas a baixa vazão do rio São Francisco traz graves consequências para a população que depende das águas do Velho Chico". 

Desde o dia 08 de fevereiro, a Agência Nacional de Águas (ANA), em articulação com o Operador Nacional do Sistema Elétrico, autorizou a redução da vazão que sai dos reservatórios de Sobradinho e Xingó para 800 metros cúbicos por segundo.

"O setor elétrico mantém o domínio das águas do Rio São Francisco desenhado pelo ONS – Operador Nacional do Sistema, onde seu padrão de operações de barramentos, sem restrições, diretrizes ou regras socioambientais concretas, prossegue detonando o que ainda resta do ente chamado rio São Francisco", acusa reportagem InfoSãoFrancisco.

O Info São Francisco é uma plataforma de notícias e informações utilizando dados e cartografia interativa, para o registro de situações, eventos e quadros positivos e negativos nas transformações situadas no Baixo São Francisco. Carlos Eduardo Ribeiro Junior é o coordenador do Projeto.

O reservatório de Sobradinho, no norte baiano, atravessou uma das piores secas dos últimos 80 anos. No ano de 2017 o volume útil atingiu 1% e a previsão era que o reservatório chegasse ao “volume morto”. O nível da água foi o pior da história.

A estiagem prolongada fez o Rio São Francisco perder força na divisa de Alagoas e Sergipe. Na foz onde fica localizado o Farol do Cabeço, com pouca água e quase sem forças o rio perdeu a luta e o mar avançou sobre a água doce do Velho Chico. O fenômeno é conhecido como Cunha Salina, segundo pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), provoca transformação do ecossistema da região e prejudica a população ribeirinha.

O avanço da "cunha salina" ocorre a partir da redução da vazão do rio, normalmente em épocas de estiagem ou demais fenômenos meteorológicos. Com isso, o equilíbrio de forças entre o rio e o oceano é afetado, permitindo o avanço da maré e a presença de água salgada ao longo do rio São Francisco.

As consequências da degradação do rio São Francisco são sentidas com mais intensidade no Baixo São Francisco, que fica na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas, onde o Velho Chico encontra as águas salgadas do Oceano Atlântico. E é justamente nesse encontro que cada vez mais o São Francisco vem levando desvantagem, pois, com a diminuição da vazão, o rio não tem mais tanta força para conter a entrada da água do mar, o que acarreta mudanças no ecossistema.

Em 2017, com menos água no leito, o rio acabou sendo "empurrado" pela mar. E até peixe do habitat do mar foi encontrado nas águas doce do rio São Francisco. O Rio São Francisco de tantas lendas e histórias, fonte de sobrevivência de milhares de famílias ribeirinhas, literalmente chegou a 'agonizar". Muitos apostaram em sua morte, pois o “Velho Chico” está desidratado, maltratado, precisando de investimentos urgentes para sua recuperação. 

A interpretação de Luiz Gonzaga na poesia de Zé Dantas, na música Riacho do Navio GANHA UMA NOVA REFLEXÃO, atual fala da saudade de um tempo de cheia no rio São Francisco. 

Ao contrário do que cantou o Rei do Baião: o Rio São Francisco não mais “vai bater no meio do mar”. O espetáculo das águas já não existe faz muito tempo. O capitalismo da CHESF matou o Velho Chico de tanto explorar, acusam os pescadores e moradores que resistem nas margens do Opará, na linguagem indígena, Rio que é mar.

"Riacho do Navio corre pro Pajeú, o rio Pajeú vai despejar no São Francisco, o rio São Francisco vai bater no 'mei' do mar, o rio São Francisco vai bater no 'mei' do mar", a canção, agora só ecoa na alma, coração e memória dos mais antigos, ficou na memória e faz lágrimas quando é ouvida em algum rádio ou no sacolejado de uma sanfona ou viola

Atualmente o trecho da Área de Preservação Ambiental (APA) da Foz do São Francisco, entre os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), que o fenômeno pode ser percebido com mais intensidade pelos quase 25 mil habitantes da região. 

Graduado em Gestão Ambiental com especialização em Recursos Hídricos, Saneamento e Residência Agrária em Tecnologias Sociais e Sustentáveis no Semiarido, membro do Comitê Hidrográfico da Bacia do São Francisco, Almacks Luiz Silva diz que o rio São Francisco "batia (desaguava) no meio do mar quando tinha a sua vazão média de 4 mil metros cúbicos por segundo, antes da chegada das barragens."

Graduada em Ciências Biológicas, Maria Regina Oliveira Silva, mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental, avalia que o Rio São Francisco é muito agredido da nascente até a foz onde desagua no oceano Atlântico. "São diversos usos e muitos inadequados, o assoreamento é constante, o impacto ambiental é enorme. É preciso um trabalho ambiental constante", diz Regina Oliveira. 

A construção de barragens provocou  alterações significativas na dinâmica natural de rios, de estuários, da zona costeira e, consequentemente, o recuo das margens.

Entre 2008 e 2012 uma equipe de pesquisadores liderada pelo professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, Pernambuco, promoveu 212 expedições ao longo e no entorno do São Francisco. O estudo foi reunido no livro “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” (Andrea Jakobsson Estúdio).  O trabalho é considerado o mais profundo estudo sobre a Caatinga, único bioma exclusivo do Brasil. O título do primeiro capítulo é emblemático: ” A extinção inexorável do rio São Francisco.

Segundo o autor do livro, os problemas são inúmeros mas, talvez, os mais graves sejam as grandes barragens para a produção de energia, há cinco delas (em Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó) que geram 15% da energia produzida no país.

Além destes, pode-se destacar como importantes outros problemas, entre eles a quantidade imensa de esgotos não tratados jogados no leito do Velho Chico ao longo de seus quase três mil quilômetros da nascente até a foz. As barragens impedem a piracema. Como os peixes não podem mais subir o rio para se reproduzirem, o declínio das espécies e cardumes é evidente.

O livro mostra que restou apenas 4% da vegetação original das margens do São Francisco. Sem mata ciliar a erosão toma conta das margens contribuindo para o assoreamento do leito.

O coordenador de geografia do IBGE, Claudio Stenner, explica que, ao longo de milhões de anos, o rio carrega sedimentos do continente e os deposita junto à foz, avançando em relação ao mar. Porém, com a construção de barragens, boa parte dos sedimentos não chega mais a esse ponto. Dessa forma, reduz-se a capacidade do rio de depositar sedimentos, o que acarreta a erosão da costa. O controle de cheias e vazões das hidrelétricas também interfere no depósito de sedimentos, pois muda a sazonalidade natural dos rios.

Stenner também explica que o processo estrutural de ocupação da bacia do São Francisco, tanto urbana quanto agropecuária, vem causando degradação e perda de vegetação natural em muitas áreas: “isso leva a uma redução na capacidade de recarga de todo o sistema: sem a vegetação, quando chove, a água escoa e não tem armazenamento, o que também causa um maior assoreamento do rio”.

Outro fator é a disputa pelo uso da água: o volume de água do rio é limitado, e a água do Velho Chico é fundamental para o abastecimento, para a irrigação, para a produção de energia.

“Esse gerenciamento nem sempre é isento de conflito porque, se eu aumento a produção de energia elétrica, reduzo a água para irrigação. Se eu seguro a água na barragem, reduzo a vazão na foz. Se reduzir a vazão da foz, o mar vai entrar mais”, exemplifica Stenner.

A secretaria de Meio Ambiente de Piaçabuçu, Alagoas foi procurada pela reportagem do BLOG NEY VITAL, mas até o momento não respondeu aos questionamentos referentes a defesa do Rio São Francisco na região.

O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra (MG), e chega à sua foz, no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe, percorrendo cerca de 2.800km, passando por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O Velho Chico é o rio 100% nacional com maior extensão. 

A bacia possui 503 municípios e engloba parte do Semiárido, que corresponde a aproximadamente 58% desta região hidrográfica, que está dividida em quatro unidades: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco.


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