O SERTAO QUE TROUXERAM PARA O MAR E QUE AGORA DESAPARE, POR ANSELMO ALVES

Quisera eu ter a destreza das palavras para contar este fato com a beleza dos versos de Zédantas, o poeta do Pajeú que, ao lado do Rei do Baião, imaginou o desafio entre o rio e o mar. Mas há realidades tão áridas que nem mesmo a poesia consegue disfarçar suas tristezas.

Esta não é uma história de rios que desafiam oceanos, é sobre um sertão que, em 2012, trouxeram para as franjas do mar, no coração do Recife. Um sertão de memórias, sons, imagens, saberes e afetos, um lugar onde o Nordeste, tão vasto em sua geografia e tão profundo em sua cultura, encontrava abrigo na obra de seu maior intérprete, Luiz Gonzaga.

O Cais do Sertão não era apenas um equipamento cultural, tampouco uma simples atração turística destinada a preencher roteiros de visitantes. Havia ali um projeto expográfico, uma concepção museológica e uma proposta pedagógica que pretendiam traduzir, por meio de experiências e narrativas, o universo sertanejo. Entretanto, o tempo foi passando, e o sertão, pouco a pouco, foi sendo retirado de dentro daquele espaço.

O lugar de memória tornou-se, gradativamente, um amontoado de equipamentos desgastados, dispositivos quebrados e ambientes desprovidos de sua função original. Parte do espaço passou a atender a finalidades comerciais, apenas.

O rooftop, concebido para acolher a culinária nordestina e até mesmo uma experiência de estudos gastronômicos, acabou reduzido a um restaurante cuja operação, a julgar pela experiência oferecida, não dialoga com a proposta cultural que deveria orientar o equipamento. A música, que deveria ser patrimônio e identidade, cedeu lugar a uma programação sonora sem qualquer compromisso aparente com a alma daquele projeto.

Mas a questão não se resume a uma mudança de gestão, o problema é mais profundo.

Um museu não é um depósito de objetos, tampouco um espaço que se sustenta pela imponência de sua arquitetura. É, antes de tudo, uma instituição de memória, conhecimento, pesquisa, educação e interpretação do mundo. Quando se esvazia sua dimensão museológica, não se perde apenas uma exposição, perde-se a possibilidade de transmitir conhecimento, estabelecer vínculos e produzir novas leituras sobre aquilo que somos.

Nesse processo, até mesmo os profissionais responsáveis pela mediação cultural parecem ter sido reduzidos a uma nomenclatura que pouco traduz a complexidade de sua atuação. Educadores chamados de monitores, como se a mediação entre patrimônio e sociedade pudesse ser resumida a uma tarefa meramente operacional. É preciso reconhecer esse trabalho, porque, quando as instituições perdem o rumo, são frequentemente os poucos profissionais que permanecem dentro delas que tentam impedir o naufrágio.

A discussão sobre a concessão do espaço, portanto, não surge em terreno neutro, ela encontra um equipamento que já experimentou um processo de esvaziamento de sua função cultural e pedagógica e é justamente por isso que a questão merece atenção pública.

Não se trata de demonizar a possibilidade de uma concessão, nem de ignorar que modelos de gestão podem ser discutidos. Trata-se de perguntar o que será preservado, quais compromissos serão assumidos e, sobretudo, que lugar ocupará a função museológica nesse novo arranjo.

E a preocupação se torna ainda maior quando olhamos para o restante do território pernambucano.

No Recife, o Memorial Luiz Gonzaga, importante centro de documentação e pesquisa localizado no Pátio de São Pedro, enfrenta dificuldades que comprometem sua estrutura e seu funcionamento. Em Caruaru, o Museu do Forró guarda um acervo de valor histórico e cultural que demanda atenção. Em Exu, o Parque Aza Branca, lugar de memória e peregrinação afetiva para admiradores do Rei do Baião, também convive com o abandono e a ausência de uma política continuada de cuidado.

É uma contradição difícil de ignorar.

Pernambuco é o berço de Luiz Gonzaga, um artista que modificou de maneira incontornável a trajetória da música brasileira, que fez do Nordeste muito mais do que uma paisagem distante no imaginário de quem vivia nas grandes cidades. 

Eleito por votação popular como O Pernambucano do Século XX, Gonzagão não pertence apenas à lembrança dos seus conterrâneos,  sua obra é patrimônio afetivo e cultural de uma nação. E, diante de tudo isso, cabe perguntar que destino estamos reservando à memória do homem que tanto fez para que o Brasil conhecesse o nosso sertão?

Talvez Zédantas e Gonzagão encontrassem uma maneira mais bonita de contar essa história. Talvez fizessem o sertão conversar novamente com o mar, como fizeram em seus versos. Mas, desta vez, não há desafio poético entre rios e oceanos. Há uma pergunta que Pernambuco precisa responder. Se o Estado que viu nascer o Rei do Baião não consegue assegurar a dignidade dos lugares que guardam sua memória, o que estamos, afinal, fazendo com a herança cultural que ele nos deixou?

 Anselmo Alves é  jornalista, produtor cultural, pesquisador e documentarista


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