FÉ E DISPUTA PELAS PERIFERIAS. IGREJA CATÓLICA ENTRA NA ELEIÇÃO

Ao pedir que os fiéis votem pela democracia, o alto clero católico entrou na campanha eleitoral. Não declarou apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva nem pediu votos contra Flávio Bolsonaro. Mas a orientação é um divisor de águas num país em que o candidato do PL herda a aliança do bolsonarismo com lideranças evangélicas. A opção dos bispos é disputar os critérios do voto: a defesa das instituições, dos pobres e da liberdade de consciência diante da tentativa de transformar a autoridade religiosa em cabo eleitoral.

O recado mais recente veio da Amazônia: "Nós não temos partido. Mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia", disse o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus,  em vídeo divulgado nesta semana. Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages (SC), advertiu contra a manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus: "As igrejas não são currais eleitorais". Ao lado de outros bispos, eles também trouxeram para a escolha eleitoral duas bandeiras de Lula: a soberania nacional e a proteção da Amazônia. Entretanto, nenhum candidato foi citado, apesar de as declarações confrontarem práticas e discursos associados à campanha bolsonarista.

A manifestação regional é o desdobramento prático de prolonga uma posição nacional. Em junho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou que não indica candidatos ou partidos, mas pediu respeito à Constituição, às instituições, ao resultado das urnas e à verdade no debate público. O presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, também defendeu a formação da consciência dos eleitores. O alto clero católico pretende protagonizar discussão moral da eleição sem converter a Igreja em legenda partidária.

Essa posição responde a uma mudança profunda na sociedade brasileira. Segundo o Censo de 2022, os católicos passaram de 65% da população com 10 anos ou mais, em 2010, para 56,7%; os evangélicos cresceram de 21,7% para 26,9%. O catolicismo continua majoritário, mas perdeu presença relativa, sobretudo diante de igrejas que multiplicaram templos, redes de assistência e vínculos cotidianos nas periferias.

Levantamento do Ipea sobre estabelecimentos religiosos registrados em 2021 apontou 52% ligados a denominações pentecostais ou neopentecostais, 19% a evangélicas tradicionais e 11% a católicas. Templos cadastrados não equivalem ao número de fiéis, mas ajudam a medir a capilaridade dessa presença. O contraste aparece nas urnas. Na pesquisa nacional Quaest de abril, Lula tinha 43% das intenções de voto entre católicos, ante 28% de Flávio; entre evangélicos, a relação se invertia: 43% para Flávio e 23% para Lula.

Luiz Carlos Azedo-Repórter especial/Correio Braziliense. Jornalista, trabalhou nos jornais O Dia, Última Hora, O Fluminense, Diário de Notícias, O Globo e Diário Popular. Dirigiu o semanário Voz da Unidade. Apresentou o programa 3 a 1 da TV Brasil e foi diretor da Companhia de Notícias

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SERRA DAS ABELHAS EM EXU É RECONHECIDA COMO A MAIOR RESERVA PARTICULAR DA APA ARARIPE

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Serra das Abelhas, localizada em Exu, no Sertão de Pernambuco, foi reconhecida pela Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) como a maior reserva particular dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Araripe.

 A ação oficial foi publicada pela Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH), por meio da Portaria nº 170/2026 de 18 de agosto de 2026. Com 100 hectares de Caatinga preservada, a área foi instituída pela Auren Energia em abril deste ano.

Situada no Sítio da Paz, a reserva está totalmente inserida na APA Chapada do Araripe, uma unidade de conservação federal que abrange mais de 1 milhão de hectares entre Pernambuco, Ceará e Piauí. A RPPN também fica próxima à Floresta Nacional do Araripe-Apodi (Flona Araripe), criada em 1946, integrando uma região de extrema importância ambiental, cultural e geológica.

Um diagnóstico ambiental detalhado identificou na área uma formação de Vegetação Arbórea Fechada, marcada pela rica diversidade da flora nativa da Caatinga. Durante as expedições, especialistas registraram espécies importantes como o visgueiro, a catingueira, o jatobá, a jurema-branca, o amarelo, a faveira, o murici e o pau-d’óleo.

O estudo também mapeou e georreferenciou 21 árvores matrizes. Selecionadas pelo porte, saúde e representatividade, essas árvores servirão para a coleta de material genético e conservação da flora. Elas agora integram o Plano de Coleta e Conservação de Germoplasma da RPPN, que define regras para colher, beneficiar e armazenar sementes de espécies nativas.

A iniciativa prevê ainda a criação de um banco de germoplasma para apoiar futuras ações de reflorestamento e recuperação da Caatinga, garantindo a preservação da biodiversidade local a longo prazo.

Segundo a CPRH, a reserva está na Região de Desenvolvimento do Sertão do Araripe e na Bacia Hidrográfica do Rio Brígida. A fauna local é rica e abriga espécies como carcará, periquito-da-caatinga, joão-de-barro, raposa, mocó, tatu-galinha e veado-catingueiro, além de diversos répteis, anfíbios e morcegos.

A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, ganha um importante aliado com a RPPN Serra das Abelhas. Em Exu, terra natal de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, a preservação da natureza se conecta a um território que reúne unidades de conservação, patrimônio geológico e manifestações culturais. A iniciativa também dá continuidade à atuação da Auren na proteção da Caatinga.
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OBSTÁCULOS QUE INCENTIVAM, Por Aldy Carvalho

 OBSTÁCULOS QUE INCENTIVAM

                                                          Por Aldy Carvalho, o Cantador láaa do sertão

     Há quem diga que os sonhos são projeções de desejos guardados nas regiões mais íntimas do ser humano. Há também quem os compreenda como uma espécie de realização antecipada daquilo que, pela esperança, pela vontade e pelo trabalho, desejamos transformar em realidade.

     O pensador francês Carlos Dubois escreveu: “Feliz do homem que faz do sonho que sonha, o que pensa e do que pensa, sua realidade”. É sob a inspiração dessa máxima que me permito falar do amigo e, hoje, também escritor Agnaldo Nunes de Almeida, cuja trajetória, registrada em seu livro “Obstáculos que incentivam”, constitui um testemunho eloquente de perseverança, superação e compromisso com a coletividade.

     Agnaldo foi analfabeto até os vinte anos de idade. Poderia ter feito dessa circunstância uma sentença; preferiu transformá-la em ponto de partida. Superando adversidades que teriam feito muitos desistirem pelo caminho, estudou, tornou-se Técnico Agrícola, graduou-se em Administração de Empresas, pós-graduou-se em Marketing e realizou estágio na Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

     Não se trata apenas de uma admirável ascensão pessoal. O que engrandece ainda mais sua caminhada é o sentido que procurou dar ao conhecimento adquirido. Obstinado, declara que, desde que se entendeu como gente, não deixou de pensar numa saída que pudesse libertar sua gente da miséria, da pobreza e da opressão dos mais poderosos.

     Eis, talvez, uma das grandes lições de sua vida: o conhecimento alcança sua mais elevada finalidade quando deixa de servir somente àquele que o conquistou e passa a servir também à comunidade à qual ele pertence.

     Agnaldo fez do aprendizado instrumento de transformação. Aplicou seus conhecimentos na construção de melhores condições de vida para si e para sua família, mas sua atuação não se encerrou nos limites da própria casa. Seu trabalho alcançou outras pessoas e se integrou à extraordinária experiência produtiva que transformou o semiárido nordestino e, particularmente, o Vale do São Francisco.

     Conheci Agnaldo numa feira literária no Vale São-Franciscano, em Petrolina, Pernambuco, minha terra e terra onde ele fincou raízes há décadas e onde atua como produtor rural. Nosso encontro permitiu-me conhecer não somente o profissional e o estudioso, mas, sobretudo, o homem que carrega consigo a memória das dificuldades vencidas sem permitir que as vitórias lhe apaguem a lembrança daqueles que ainda lutam por melhores oportunidades.

     Obstáculos que incentivam nasce dessa experiência, mas ultrapassa os limites de uma autobiografia. Agnaldo fala de sua própria saga com ternura e sobriedade, sem fazer dela o único centro da narrativa. Sua experiência pessoal abre caminho para uma reflexão mais ampla, fundamentada em estudos, pesquisas, conhecimento técnico e vivência, acerca do desenvolvimento da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco, de sua evolução, de sua contribuição econômica e social e das transformações que produziu na região.

     Por isso, considero este livro também um documento de memória. Nele estão o homem e sua história, mas está igualmente uma parcela da história de uma região que aprendeu a desafiar adversidades e a produzir possibilidades onde tantas vezes se enxergaram apenas limitações.

     O Vale do São Francisco demonstra que nenhuma região deve ser condenada pelas circunstâncias de sua geografia. Quando conhecimento, trabalho, tecnologia, organização, iniciativa privada e políticas públicas convergem para objetivos socialmente responsáveis, aquilo que parecia obstáculo pode converter-se em oportunidade.

     Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes que a trajetória de Agnaldo oferece aos que ocupam postos de comando e têm a responsabilidade de formular e executar políticas públicas. Não basta admirar exemplos de superação individual; é preciso criar condições para que superar adversidades não dependa apenas do heroísmo de alguns.

     Governar é também enxergar potencialidades onde outros somente enxergam carências. É oferecer educação, conhecimento, infraestrutura, assistência técnica e oportunidades para que homens e mulheres possam construir, com dignidade, o próprio caminho. Desenvolvimento verdadeiro não pode ser medido somente pela riqueza que uma região produz, mas também pela capacidade dessa riqueza de alcançar as pessoas, diminuir desigualdades e ampliar horizontes.

     A experiência narrada em Obstáculos que incentivam interessa, portanto, ao produtor rural, ao estudante, ao pesquisador, ao empreendedor, ao administrador público e também aos que militam nas artes e na cultura. Afinal, ainda que sejam diferentes os nossos instrumentos, todos aqueles que trabalham pela transformação humana cultivam, de algum modo, a mesma lavoura: a esperança.

     No meu labutar de poeta e cantador deste sertão, pertença que assumo com profundo orgulho, também tenho procurado semear. Aprendi, pelas léguas que andei, que a aridez nunca foi sinônimo de esterilidade. Onde Agnaldo cultiva a terra e compartilha conhecimentos, eu procuro lavrar palavras, versos e cantigas. Reconheço entre esses caminhos uma afinidade essencial: ambos acreditamos que nenhuma realidade é tão árida que não possa receber uma semente. Há sementes que esperam anos pela hora de romper a terra; há homens que atravessam décadas até encontrar a oportunidade de revelar aquilo que sempre carregaram consigo.

     Agnaldo fez da dificuldade impulso, do conhecimento ferramenta e da terra possibilidade. Eu, carregando versos, cantigas e histórias vejo entre esses ofícios uma irmandade que me parece antiga: quem planta acredita no amanhã, então, também sigo  a provocar reflexão e recordar que nenhum homem realiza plenamente sua humanidade quando pensa somente em si. 

     O agricultor, quando lança a semente à terra; o poeta quando entrega sua palavra, solta seu verso pelo mundo. Nenhum deles possui certeza absoluta da colheita, mas todos trabalham movidos pela esperança de que alguma coisa haverá de florescer.

     É desse lugar que falo de Agnaldo Nunes de Almeida. Não apenas do lugar do amigo que o conheceu numa feira literária em Petrolina, mas do lugar de um homem do sertão que reconhece em outro homem a dignidade de quem não se conformou com as cercas que a vida lhe apresentou.



     Por isso, estas palavras não pretendem apenas apresentar um escritor ou recomendar a leitura de um livro. Quero, sobretudo, render homenagem ao homem e ao cidadão Agnaldo Nunes de Almeida. Ao homem que conheceu obstáculos e não permitiu que eles lhe determinassem o destino; ao estudante que chegou tarde à escola, mas fez do conhecimento companheiro permanente; ao profissional que transformou aprendizado em trabalho; ao produtor que fincou raízes no Vale; e ao escritor que agora entrega sua experiência às gerações presentes e futuras.

     Seu livro nos lembra que sonhos individuais podem modificar destinos. Mas nos convida a compreender algo ainda maior: quando os sonhos deixam de ser apenas individuais, encontram outros sonhos e se transformam em projeto coletivo, uma sociedade inteira pode mudar.

     Que Obstáculos que incentivam encontre muitos leitores. Que encontre especialmente os jovens que, diante das dificuldades, estejam tentados a desistir; os homens e mulheres que trabalham pela construção de oportunidades; e aqueles que, investidos de autoridade pública, precisam recordar diariamente que por trás de cada decisão existem vidas, famílias, comunidades e futuros.

    Que a história de Agnaldo não seja contemplada apenas como a excepcional vitória de um homem sobre as adversidades, mas como uma convocação para construirmos uma sociedade em que oportunidades como aquelas que ele precisou conquistar tão arduamente sejam direito e possibilidade para muitos. Fazer da própria caminhada uma estrada por onde outros também possam passar talvez seja uma das mais belas maneiras de justificar a nossa passagem por este mundo.

     Há homens que vencem obstáculos para chegar mais longe. Outros, depois de vencê-los, voltam seus olhos para trás e procuram abrir caminhos para que mais gente possa passar. É a estes últimos que uma sociedade deve prestar atenção. 

     Sonhar é necessário. Transformar o sonho em trabalho é virtude.

    Aldy Carvalho,  poeta e cantador láaaa do sertão

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FLAVIO LEANDRO O POETA CANTADOR

Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende voar voando"(Nietzsche).

Luiz Gonzaga Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos. Pela manhã, do seu chapéu, saltam galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores.

A apresentação do cantor, compositor, Poeta Danado e Cantador Flávio Leandro SEMPPRE me faz pensar na trajetória da música brasileira e manter viva as palavras do professor Aderaldo Luciano, quando fazíamos o Programa de Rádio, lá nas bandas da Paraíba, sonhando em ganhar o "oco do mundo" e enfiar goela abaixo do povo a música de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, João do Vale, Elino Juliao e Dominguinhos...

O professor paraibano, radicado no Rio de Janeiro, Aderaldo Luciano, sempre me lembrou que Luiz Gonzaga foi pedra angular, referência do forró, mas o Rei do Baião, não trilhava sozinho. Havia por trás de si, uma constelação de compositores, músicos, além de profícuos conhecedores do seu trabalho, amigos talhados de sol, nascidos do barro vermelho, com almas tatuadas por xique-xiques e mandacarus.

É Flávio Leandro atualmente um dos poucos, que reverencia o forró, o xote, o baião. Em Bodocó foi talhado de sol. Flávio Leandro nasceu do barro vermelho, com alma tatuada por xique-xiques e mandacarus. Flávio Leandro sabe do compromisso que tem com o Nordeste, os Sertões, Cariris e Brejos.

Flávio na Fé sabe divisar o Cruzeiro do Sul do Sete Estrelo e muito além disso sabe discutir e como lidar com a máquina capitalista avassaladora dominante hoje da "indústria musical".

De mala e cuia Flávio Leandro corre nos ares do mundo! Canta xote, forró valorizando o inventor do Baião, Luiz Gonzaga que um dia deixou o seu pé de serra e embrenhou-se pelos emaranhados da busca  do sonho e que foi o começo de uma grande empreitada e de uma desafiadora lição de vida e vivência.

Coloco agora na vitrola o disco/lp  e escuto a música "Menestrel do Sol", composta por Humberto Teixeira, homenageando Luiz Gonzaga. A essência de toda arte bela, de toda arte grandiosa, é a gratidão: Obrigado Flávio Leandro por não esquecer que antes de você muitos cantores e compositores sentiram fome (a falta de pão) preparando o caminho prá outros Voos...os voos do hoje!

"Pego a estrada sem descanso Sem parar para ver tempo e chão que percorridos gritos que eu plantei/ Menestrel do sol na vida eu só cantei juntando irmão com irmão eu esquecia de viver/

Ai quanta saudade do beijo que eu não dei as coisas que eu não tive são lembranças que eu guardei...Ai que curta vida pra quem tanto viveu os sonhos de outras vidas que ajudei com o canto meu./

Ouro e terra, e eu cantando sem me aperceber dos momentos que eram meus Não voltam mais, eu sei...Menestrel do sol caminhos que andei destino dividiu em mil destinos meu viver"!

*Ney Vital-jornalista. Pós-Graduado em Ensino de Comunicação Social. Pesquisador Música Brasileira

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ORQUESTRA VOO LIVRE, AREIA PARAIBA

A Serra da Borborema é um extenso território cuja paisagem é diversa. Aqui, uma árvore copada, repleta de frutos. Ali, um vegetal robusto, adornado de espinhos. Um canavial, um córrego, uma represa, uma imensa visão de pedras, o barro vermelho, o massapê: tudo no caldeirão do tempo. A animália também se confunde: o gado miúdo, o rebanho bravo, os lagartos e as aves. A Serra da Borborema é a casa, o lar, nossa rede aberta e convidativa, a mesa posta, o céu aberto e a multidão de entidades inspiradoras, guardiãs da vida e da maquinaria, protetoras dos corações, mestras das artes, elementais da música.

A Serra da Borborema é o lastro de nossas ansiedades, o planeta de nossos sonhos. No espinhaço da serra, como disse o poeta, rasga-se e espraia-se na montanha, a cidade mítica de nossos ancestrais, o Brejo de Areia, Terra dos Bruxaxás, recanto dos ventos, morada de homens santos, caminho de homens resistentes, habitat natural do sonho e, por dentro do sonho, a trilha sonora, o gladiar dos instrumentos, o embate e o casamento entre as melodias e as harmonias, algumas naturais, saídas da terra e do ar, outras sopradas e percutidas, digitadas e fonomecanizadas, a criação do Homem, a descoberta das almas, a codificação dos músicos.

E nesse recanto, as asas abrem-se em maravilhosa viagem, em desejo transformado em meta, em vontade transmutada em ação. É a Orquestra Voo Livre que, como o condor que passa sobre os Andes, plaina sobre os vales e pousa no alto do nosso olho, no átrio de nossos ouvidos, nas entranhas de nossos poros, fazendo o peito do sensitivo saltar e irmanar-se à existência dinâmica das notas musicais. Senti isso várias vezes, postado diante de meninos que vi crescer, meninos que vi cantar, meninos que vi, de uma hora para outra, à base de muito estudo e muita dedicação, travestidos de paladinos, senhores de tanta sensibilidade, capazes de nos emocionar, sempre.

A Orquestra Voo Livre é nossa trilha sonora, para além do empreendimento, para além do trabalho, para além das coisas banais que regem a vida do cidadão comum. Procuramos, durante muito tempo, um caminho que nos pudesse oferecer a perenidade, o passo seguro, a certeza do êxito. 

O sucesso é um abismo, o êxito é o píncaro, onde repousa a águia brejeira, onde nem o carcará poderá postar-se. E agora, no momento em que as imagens são plasmadas, reunidas para a posteridade, o plano de voo mais uma vez está definido, mais uma vez, a nossa frente, o céu azul, o vento pouco e a serenidade protegem a rota, desenham o futuro e ambientam nossa imensidão. Estamos em pleno voo, como diria Castro Alves, o poeta condor.

Professor doutor em Ciência da Literatura-Aderaldo Luciano

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IV ENCONTRO DE SANFONEIROS ACONTECE NA CHAPADA DIAMANTINA

O IV Encontro de Sanfoneiros de Rio de Contas será realizado nos dias 25 e 26 de setembro, na Praça Lucianinho, em Rio de Contas, na Chapada Diamantina. Com Del Feliz como anfitrião, o evento terá programação musical a partir das 19h nos dois dias, além de rodas de conversa, manifestações culturais, artesanato e produtos regionais. A entrada é gratuita.

A programação reúne artistas de diferentes gerações da música nordestina. Del Feliz participa dos dois dias e recebe Lucy Alves, Chambinho do Acordeon, Mariene de Castro, Ari PB, do Cacau com Leite, Mayana Neiva, Mestre Gennaro, Luizinho Calixto, João Sereno, Mannu Pinheiro, Emilli Pinheiro, Thaise Lanuzza, Luana Ingry, Reynaldo Barbosa, Vinícius, da banda Xote Baião e Denis Baião de 2.

Gleice Alves, Alberto Filho, Juninho do Acordeon e Vini Honda também integram a programação que também inclui atraçõe regionais. O encontro propõe a aproximação entre mestres da sanfona, artistas com trajetórias consolidadas e novos nomes da música regional.

Além dos shows, o IV Encontro de Sanfoneiros abre espaço para discussões sobre a preservação e o reconhecimento da cultura nordestina. Na sexta-feira (25), a roda de conversa "Forró Sem Fronteiras: O Caminho das Matrizes Tradicionais rumo à UNESCO, Patrimônio da Humanidade" terá as participações de Hermano Guanais, superintendente do IPHAN, Del Feliz e Mayana Neiva.

O debate aborda a mobilização pelo reconhecimento internacional das matrizes tradicionais do forró como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. O forró já é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN, e Del Feliz participa da articulação em defesa da valorização e difusão dessas matrizes.

No sábado (26), a sanfona será o centro da conversa "A Sanfona Nordestina como Patrimônio e Memória – Um momento musical de expressão, identidade, valor e pertencimento cultural". Mestre Gennaro e Luizinho Calixto participam do encontro para compartilhar histórias e conhecimentos ligados ao instrumento e à música nordestina.

A programação cultural terá ainda a Quadrilha Junina Ciranda Cirandinha de Arapiranga e o Grupo de Capoeira Gueto de Rio de Contas. Na Praça Lucianinho, o público também encontrará artesanato e produtos regionais, com espaço para produtores locais.

 "Quando a gente coloca a sanfona como elo, a gente não está falando apenas de música. Está falando de memória, de identidade, de encontros e de uma cultura que atravessou gerações. E neste ano temos ainda um destaque muito especial para as mulheres. Ter Lucy Alves, uma das grandes sanfoneiras do Brasil, ao lado de Mariene de Castro, Mayana Neiva, Mannu Pinheiro, Emilli Pinheiro, Luana Ingry, Gleice Alves e Thaise Lanuzza, mostra a força e a diversidade da presença feminina na nossa música", destaca Del Feliz.


 


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ERA ESSE O NOME, 131 ANOS PASSADOS, POR CARLOS LAERTE

 

Era esse o nome,

131 anos passados

 

*Carlos Laerte

 

De Passagem passou à Vila.

Da encruzilhada, caminho aos "impossíveis" de uma pretensa Califórnia Brasileira, acordou menina a Petrolina que hoje é referência internacional. Ao sabor do tempo e dos temperamentos, mudaram os nomes e as atitudes. Os sonhos e devaneios permanecem imutáveis, soberanos como o rio, que a tudo banha, enriquece e glorifica. Como o "Poema de Pedra", do velho poeta José Raulino Sampaio, que o primeiro bispo, Dom António Maria Malan, um dia fez Catedral, e a partir de onde, tudo cresceu ao redor, a terra foi se fazendo, crescendo aqui, encolhendo dali, explodindo acolá.

O que antes era apenas uma citação pendurada na parede, agora se apresenta qual avenida, beco ou viela de uma metrópole sertaneja. Nem de longe parece mais a feira que já tomou boa parte da avenida Souza Filho, depois virou Mercado Público, ali ao lado da Ponte Presidente Dutra e saiu se espalhando pelos bairros. Quem haveria de imaginar que a atual rua Pacífico da Luz um dia já se chamou de Bahia? Hoje, a Terra do Axé dá nome ao Calçadão, que por sua vez, andou sendo denominado de Tesourão. A rua Coronel José Rabelo Padilha já foi João Pessoa, que também já foi Pacífico da Luz. A rua da Floresta, de tanto se chamar dos Valérios, recebeu o nome do patriarca da família, o mestre de obras Valério Pereira. O Buracão sempre foi o mesmo até desaparecer sob um destes aterros do progresso. Onde hoje brilha a Orla I, um dia já chamaram de Manoel Xavier, depois Maurício Vanderley, depois Joaquim Nabuco. Antes de tudo, se chamava apenas de rua do Grude. A razão do nome, o historiador Euvaldo Aragão fazia mistério, todavia revelou: "Até 1950, Petrolina tinha apenas duas referências: Atrás da Banca e a Rua de Baixo". Como em todas cidades por onde passava a linha férrea, um lado se chamava Banca, o outro, ou melhor, a rua de Baixo começava aonde é hoje a Igreja Universal (antigo Cine Petrolina) e seguia até o Pio XI, atualmente centro. Os poderes constituídos passaram também a chamar de Centro, lugares como Atrás da Banca, que virou Santo Antônio, Alto Cheiroso, que agora é Vila Eduardo e São José, e Vila Mocó, que o povo continua chamando pelo mesmo nome. Houve um tempo onde quem vivia ali pelas imediações do colégio Paes Barreto, na verdade morava era no Cinzeiro.

O mesmo que um dia foi a roça de Seu Melquíades e assistiu aos avançados namoros da geração Chucalhos. O Cacete Armado, de tantos embates e desafios, era onde funcionou pacificamente o Bandepe e o Banco do Nordeste. Nas imediações do Fórum, ali na avenida Fernando Góes, pontificava imponentemente o Caldeirão da Raposa, de onde um dia retiraram as pedras para construir a Catedral, os nobres empreendedores de um tempo, que também mudou de nome. Os mesmos homens de fraque e gravata que relaxavam da dura labuta diária nos braços da difícil vida fácil das meninas do Limo Verde (atual avenida Monsenhor Ângelo Sampaio), do Tombadinho (ao lado do Viaduto Barranqueiro), João Bernardo (próximo ao Tombadinho) e Vila Balão (nos contornos do parque Josefa Coelho). Pelas noites de então, passos bêbados na madrugada dos tempos, entre um gole nos bares do Simplício, Odeon, dos Amigos, Barranqueiro, e o caldo no Mascote de Pereira. Do Ponto Chic para a Iglu, bastava apenas atravessar a rua. A mesma ponte que um dia nossos pais palmilharam, procurando se encontrar.

 

*Poeta, jornalista e diretor da Clas Comunicação & Marketing.


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