QUANDO O RELÓGIO NÃO PARA

 Quando o relógio não basta *Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

Nunca foi tão fácil contar o tempo. Celulares, computadores, aplicativos e relógios inteligentes nos cercam de medições contínuas. Calculamos a duração de reuniões, o tempo gasto em deslocamentos, as horas de sono e até o intervalo entre uma mensagem enviada e a resposta recebida. Poucas épocas confiaram tanto nos números para organizar a vida cotidiana. Mas existe uma pergunta que nenhum cronômetro consegue responder: o tempo que contamos é o mesmo tempo que vivemos?

Todos sabemos, intuitivamente, que não: o tempo calculado e o tempo vivido não são coincidentes. Uma tarde de espera pode parecer interminável. Uma conversa agradável termina antes que percebamos. Certas lembranças da infância permanecem surpreendentemente próximas, enquanto acontecimentos recentes já começam a se apagar. Há algo na vivência do tempo que resiste às divisões rigorosas dos relógios. Foi essa diferença que intrigou Henri Bergson (1859-1941), um dos filósofos mais influentes da primeira metade do século 20.

O tempo segundo Bergson-Professor do Collège de France e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1927, Henri Bergson dedicou boa parte de sua obra a compreender um fenômeno que todos experimentam diariamente, mas raramente param para examinar: a passagem do tempo. Em uma época marcada pelo extraordinário prestígio das ciências e pela crescente confiança em tudo aquilo que podia ser medido, calculado e quantificado, Bergson voltou sua atenção para uma dimensão menos visível da vida humana. Seu interesse não estava no tempo dos relógios, dos calendários ou das tabelas, mas no tempo tal como é vivido pela consciência.

A partir dessa constatação, desenvolveu a noção de duração, um dos conceitos centrais de sua filosofia. Para Bergson, a vida não se desenrola como uma sequência de instantes isolados. Cada momento conserva o que o precedeu. O passado não desaparece; continua presente, participando daquilo que somos e da maneira como percebemos o mundo.

Bergson recorre à experiência de uma melodia para tornar mais clara essa ideia. Não a percebemos como uma simples soma de notas isoladas: cada som traz consigo algo do anterior e se funde àquele que o sucede. Se fragmentarmos essa continuidade, a música desaparece. Restam apenas sons dispersos. Algo semelhante ocorre com a própria vida. Não experimentamos o tempo como uma sucessão de pontos independentes, mas como uma bola de neve que, à medida que avança, incorpora o passado e cresce continuamente.

O que os verbos nos contam sobre o tempo

À primeira vista, uma reflexão como essa parece pertencer exclusivamente ao campo da Filosofia. No entanto, ela encontra um eco inesperado na língua portuguesa.

Quando aprendemos gramática na escola, costumamos associar os verbos à localização temporal dos acontecimentos. O presente indicaria aquilo que ocorre agora; o passado remeteria ao que já aconteceu; o futuro apontaria para aquilo que ainda virá. Embora correta, essa explicação está longe de esgotar a questão.

A língua não se limita a registrar acontecimentos numa cronologia. Ela também constrói maneiras distintas de representá-los.

Em As astúcias da enunciação, José Luiz Fiorin mostra que os tempos verbais não servem apenas para localizar acontecimentos no tempo. Eles também contribuem para a construção do sentido, orientando o modo como os eventos são apresentados e percebidos no discurso.

Tomemos duas frases simples:

Pedro escreveu suas memórias.

Pedro escrevia suas memórias.

As duas remetem ao passado. Contudo, dificilmente provocam a mesma impressão.

Na primeira, a ação aparece como concluída, observada retrospectivamente como um fato encerrado. Na segunda, somos colocados diante de um processo. O acontecimento parece desenrolar-se diante de nós. O foco deixa de recair sobre o resultado e passa a concentrar-se na própria duração da ação.

Essa diferença pode parecer pequena, mas produz efeitos importantes. Ao escolher uma forma verbal, o falante não apenas informa quando algo ocorreu; ele também constrói uma determinada percepção do tempo para quem lê ou escuta.

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”

É justamente nesse ponto que a Linguística se aproxima da proposta de Bergson. Mário Quintana escreveu que “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. A formulação poética encontra um curioso paralelo na linguagem. Se o filósofo procurou mostrar que o tempo vivido não coincide inteiramente com o tempo medido pelos relógios, a língua revela que essa vivência pode ser recriada no próprio discurso.

O pretérito imperfeito, tão característico do português, constitui um exemplo expressivo desse fenômeno. Quando alguém afirma que a avó contava histórias nas noites de inverno, não está apenas relatando um acontecimento passado. A frase evoca uma rotina, uma atmosfera, um modo de vida. Não vemos apenas uma ação; vemos um mundo.

Os grandes memorialistas brasileiros exploraram amplamente esse recurso. Em obras como Infância, de Graciliano Ramos, ou Baú de ossos, de Pedro Nava, o passado raramente surge como uma sucessão de datas. O que encontramos é uma trama de lembranças, vozes, hábitos e afetos que parecem continuar existindo enquanto são narrados.

Talvez resida aí uma das capacidades mais interessantes da linguagem: a de transformar certas percepções sobre o tempo em algo compartilhável. Os verbos não apenas informam quando algo aconteceu. Eles permitem que o enunciatário de um texto habite, ainda que por alguns instantes, a cena construída linguisticamente pelo outro.

O tempo que fica-Os estudos linguísticos mostram que os verbos não servem apenas para localizar acontecimentos numa cronologia. Eles ajudam a construir perspectivas sobre o tempo. Ao narrar uma memória, uma rotina ou uma experiência duradoura, a linguagem faz mais do que informar: ela restitui uma maneira de habitar o passado.

Talvez por isso Filosofia e Linguística se encontrem de forma tão natural nesse ponto. Ambas nos lembram que a vida não é feita apenas de instantes sucessivos que desaparecem assim que acontecem. Ela também é feita do passado que se acumula e continua a agir sobre nós, dando forma àquilo que somos.

Bergson acreditava que a vida não se deixa reduzir inteiramente às medidas do relógio. A língua portuguesa parece concordar com ele. Enquanto os relógios medem a passagem dos dias, a linguagem continua lembrando que o passado não simplesmente passa: acumula-se e permanece conosco.

Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP

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RÁDIO NACIONAL COMPLETA 90 ANOS

 Veículo público da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) completa nove décadas de existência no sábado (12)

Na semana em que a Rádio Nacional faz 90 anos, programas da emissora vão abrir espaço para reviver momentos marcantes de suas trajetórias.

De 7 a 11 de setembro, as atrações apresentam edições especiais com memórias, entrevistas, quadros e registros que reforçam a conexão histórica e afetiva com o público brasileiro.

O veículo também prepara uma programação especial em rede, específica para o sábado (12), dia do aniversário.

A Rádio Nacional nasceu em 12 de setembro de 1936 e hoje integra o conglomerado de mídia da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

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A ARTE DE CARREGAR LIVROS

Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. (Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655)

“O senhor mire veja”, diz o célebre narrador de Grande Sertão: Veredas, narrativa irrepetível de João Guimarães Rosa, publicada há setenta anos. Mire e repare, ousaríamos nós: as bibliotecas andam esvaziadas, na universidade. Também é raro ver alunos ou professores a carregar livros – exceção feita quando uns e outros estão em épocas específicas, quase sempre em preparação para exames e provas, ou quando é necessário entregar projetos, produtos e outros trabalhos, ditos “de aproveitamento”.

A que se deve a tímida circulação da palavra impressa nas salas de aula e nos corredoredores do Campus da maior universidade da América Latina, frequentemente ranqueada entre as cem melhores do planeta? Alguém argumentará que isso de deve ao peso excessivo dos livros e revistas; outros dirão que há alternativas de leitura disponibilizadas nos gadgets e aparelhos eletrônicos; os mais audaciosos talvez admitam que a era digital inculcou a dispersão como modo geral de existência. Entre o tédio e o trabalho excessivo (cada vez se estagia mais cedo, na universidade; cada vez os professores perfazem mais rotinas, dentro e fora dos sistemas digitais), a página de papel cedeu lugar às macro e microtelas.

Não é preciso longa reflexão para constatarmos que o suporte (físico ou digital) interfere na qualidade da leitura e na apreensão do texto. Os historiadores do livro alertam, há décadas, para a importância da mediação editorial, no consumo dos livros. Algo parecido se observa na diferença que há entre escrever e digitar, por exemplo. Neurocientistas de renome enfatizam que a manuscritura é uma operação muito mais complexa que a de acionar teclas.

Face a esse diagnóstico, facilmente observável para quem percorre os caminhos e desvãos da universidade, este professor propõe-se a lançar um pretensioso manifesto intitulado Carreguem Livros!, grafado assim, em fonte com estilo bold, seguida de ponto de exclamação. Se o título não lhe aprouver, obviamente pode ser outro. Pense lá, o senhor, a senhora leitora, em melhor alvitre e como melhor proceder, para ampliar o contágio.

É fato digno de nota que uma das maneiras mais eficazes de recomendar a leitura dos livros (e teses e dissertações e relatórios e revistas) é transportá-los, mostrá-los – ou, quando for o caso, emprestá-los aos colegas de ofício e aos estudantes. Carregar livros é um modo de irradiar mensagens, dentre elas a de que não somos refratários à leitura de palavra impressa. Além disso, a visão dos livros físicos pode contagiar mesmo os não-leitores, afinal é da natureza humana saborear narrativas; ter sede de conhecimento(s).

Se vossa mercê permite o segundo atrevimento, numa pseudocrônica tão enxuta, eu recomendaria que a campanha – provisoriamente nomeada Carreguem Livros!, embutida no sinal de exclamação – fosse adotada feito postura cotidiana, no âmbito pessoal e profissional; na ida ou na volta do trabalho; a caminho da atividade de lazer, ao retornar do consultório médico…

Imagine-se, digamos, que a ideia se disseminasse e constituísse uma das importantes recomendações de caráter institucional (isso mesmo, no âmbito da universidade, da empresa, do hospital, da oficina, do estádio, da padaria, da fábrica, do espaço de coworking etc.).

Aposto que ler, abraçar, proteger e transportar livros estimularia, ainda mais, a natural curiosidade das crianças e incentivaria o diálogo (sobre livros, é claro) entre os adultos, à hora do café. Ademais, certas obras, assim como determinados filmes, são capazes de ampliar nossa visão de mundo; mudar, inclusive, o sentido de nossa mirrada existência. Riobaldo, o narrador rosiano, diria que “o mais importante do mundo é que as pessoas não estão prontas e vão sempre mudando, afinando ou desafinando”.

Carreguem Livros!

Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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BAIXA UMIDADE DO AR EM PETROLINA E JUAZEIRO EXIGE CUIDADOS

Moradores do Sertão do São Francisco receberam recentemente em seus celulares alertas da Defesa Civil sobre os baixos índices de umidade do ar. Na última quarta-feira (2), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu um alerta amarelo de "Perigo Potencial" para a baixa umidade relativa do ar em cidades como Petrolina, no Sertão de Pernambuco, e Juazeiro, no norte da Bahia. O aviso prevê índices entre 30% e 20%.   

Associado às altas temperaturas comuns na região, o período seco pode aumentar a perda de líquidos pelo organismo e favorecer a desidratação. Crianças, idosos, trabalhadores expostos ao calor e pessoas que praticam atividades físicas estão entre os grupos que precisam de atenção redobrada nesse período.   

Para a nutricionista e coordenadora do curso de Nutrição da UNINASSAU Petrolina, Ingrid Rafaella, a hidratação deve ser mantida ao longo do dia, sem que a pessoa espere sentir sede. "Com o calor e o tempo seco, o organismo perde líquidos com mais facilidade. Por isso, é importante manter o consumo de água durante todo o dia, mesmo quando não há sensação de sede", orienta.   

A alimentação também pode contribuir para a ingestão de líquidos. "Frutas como melancia, melão, laranja, abacaxi e morango, além de vegetais como pepino, tomate, alface e abobrinha, têm alto teor de água e podem fazer parte da alimentação nesse período. A água deve ser a principal fonte de hidratação, e observar a coloração da urina também é uma forma simples de acompanhar esse cuidado: quanto mais escura e concentrada, maior a atenção à ingestão de líquidos", conclui Ingrid Rafaella.   

Em caso de necessidade, a população pode buscar orientações pelos canais da Defesa Civil: WhatsApp (87) 98134-1838, em Petrolina, ou (74) 99981-1279, em Juazeiro. 

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GRITO DOS EXCLUÍDOS TEM ATOS EM DEFESA DA MORADIA E CONTRA VIOLÊNCIA

Movimentos sociais realizaram nesta segunda-feira (7) a 32ª edição do Grito dos Excluídos. Houve marchas e atos em mais de 50 cidades, em todas as regiões do país, segundo os organizadores.

Faixas, bandeiras e gritos de guerra ajudaram a expor o lema da edição, “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”

Os manifestantes reivindicaram moradia digna; reforma agrária; educação pública de qualidade; defesa do Sistema Único de Saúde (SUS); enfrentamento do feminicídio e de todas as formas de violência contra as mulheres e o combate ao racismo e à LGBTfobia, além do fim da escala de trabalho 6x1.

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LUIZ GONZAGA E O COMPASSO DO DIA QUE JOÃO GILBERTO SINCOPOU O BAIÃO

Na madrugada fria de Paris, França,  o telefone toca. Do outro lado a reclamação: Ninguém lembra do fuso horário, só pode ser do Brasil. A ligação era do músico João Gilberto cuja voz sussurrou triste e informa: Luiz Gonzaga morreu!!. Foi neste tom que a pesquisadora, jornalista e cineasta Dominique Dreyfus, soube do falecimento de Luiz Gonzaga, numa quarta-feira 02 de agosto de 1989. 

Dominique é autora do livro “A Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga”. 

Dominique foi professora em Letras e Literatura pela Universidade Paris I (Sorbonne), trabalhou como repórter, editora e diretora de revistas e programas especializados em música, colabora para conceituadas publicações de arte sul-americanas e é doutora em música popular brasileira. Além desse gabarito acadêmico e profissional, ela passou a infância e parte da adolescência entre Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Olinda e Recife. Mudou-se com a família da França para o Brasil para ficar longe da 2° Guerra que assolava a Europa. 

Poucos sabem, mas, João Gilberto homenageou Luiz Gonzaga e a voz do Rei do Baião gravou um LP O Canto Jovem, repleto de modernidade, incluindo composições de Edu Lobo, Jocafi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outros que transitaram entre a Bossa Nova e o Tropicalismo. Os dois, João e Luiz, considerados gênios e citados pelos mais talentosos músicos da música brasileira e internacional sempre mantiveram a distância física, mas o respeito de almas revolucionárias.

Mostro aqui a homenagem que João Gilberto fez acontecer durante o Festival de Rock de Águas Claras, interior de São Paulo. Este festival tinha como objetivo promover a paz, a união, a liberdade. Na oportunidade João Gilberto cantou a música Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, acompanhado apenas pelo ritmo sincopado do seu violão.

Tom Jobim sobre esta homenagem declarou: "É algo que jamais ouvi igual e acho que não ouvirei...e João Gilberto como nordestino nascido às margens do Rio São Francisco, não fugiu à regra: era fã de Luiz Gonzaga. A prova disso é o telefonema entristecido que deu para Dominique Dreyfus, biógrafa de Luiz Gonzaga, residente em Paris, a 02/08/1989, comunicando-lhe o falecimento do criador do baião".

Com a chegada da Bossa Nova, Luiz Gonzaga e os sanfoneiros tiveram um período difícil. As rádios, publicidade e produtores de shows e TV da época "esqueceram", o reinado do baião. A Bossa Nova "fez Luiz Gonzaga tombar" e momentaneamente o Rei do Baião chegou até a ensaiar a sua retirada do campo da nossa música. "Ninguém me quer mais", ele resmungou aos ouvidos de Dominguinhos, seu mais autêntico sucessor. Mas recompôs-se ao surgir o boato de que os beatles iam gravar Asa Branca.

Dominique Dreyfus garante que o sanfoneiro Luiz Gonzaga, de certo modo,  sabia da sua importância no cenário musical brasileiro, mesmo quando ele foi “atropelado” pela bossa nova. “Ele encarava com tranquilidade e até certo humor. Dizia que 'aquela' bossa nova acabou com todo mundo, que ninguém mais queria saber dele, mas que continuaria a fazer música para o povo dele.”

Outro detalhe: A importância do gênero musical inventado por Luiz Gonzaga foi reverenciado também por João Gilberto no baião Bim, Bom, no qual ele diz: “É só isso o meu baião/ E nao tem mais nada não"...

Mas isto é assunto para outra prosa" Além de Luiz Gonzaga, Dominique Dreyfus também escreveu sobre a vida de um dos maiores violonistas brasileiros em “Violão Vadio de Baden Powell”, de 1999.

NEY VITAL É JORNALISTA



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LUIZ GONZAGA E ALMA BRASILEIRA

O Brasil celebra hoje os 37 anos da morte do cantor e compositor Luiz Gonzaga, o rei do baião. Lua, como também era conhecido, foi essencialmente um telúrico. Ele soube como ninguém cantar o Nordeste e seus problemas. Pernambucano, nordestino ou simplesmente brasileiro, Luiz Gonzaga encantou o Brasil com sua música, tornando-se um daqueles que melhor souberam interpretar sua alma.

Nascido em Exu, no alto sertão de Pernambuco, na chapada do Araripe, ele ganhou o Brasil e o mundo, mas nunca se esqueceu de sua origem. Sua música, precursora da música popular brasileira, é algo que, embora não possa ser classificada como "de protesto", ou engajada, é, contudo, politicamente comprometida com a busca de solução para a questão regional nordestina, com o desafio de um desenvolvimento nacional mais homogêneo, mais orgânico e menos injusto, portanto.

Telúrico sem ser provinciano, Gonzaga sabia manter-se preso às circunstâncias regionais sem perder de vista o universal. Sua sensibilidade para com os problemas sociais, sobretudo nas músicas em parceria com Zé Dantas, era evidente: prenhe de inconformismo, denúncia do abandono a que ainda hoje está sujeito pelo menos um terço da população brasileira, mormente a que vive no chamado semi-árido.

Não estaria exagerando se dissesse que Gonzaga, embora não tivesse exercido atividade política ou partidária, foi um político na acepção ampla do termo. Política, bem o sabemos, é a realização de objetivos coletivos e não se efetua apenas por meio do exercício de cargos públicos, que ele nunca teve. Política é sobretudo ação a serviço da comunidade. Como afirma Alceu Amoroso Lima, é saber, virtude e arte do bem comum.

Além de nunca ter omitido suas opiniões, Gonzaga também nunca se esquivou de participar ativamente quando necessário. Em um momento particularmente difícil vivido por sua terra, Exu, e tendo em vista as muitas mortes decorrentes da rivalidade das famílias Alencar e Sampaio, ele ergueu corajosamente sua voz. Na ocasião, era governador de Pernambuco e pude receber dele ajuda fundamental na tarefa que, com êxito, empreendi no sentido de pacificar a cidade e restabelecer a concórdia naquela importante região do sertão.

Deixei o governo com Exu em paz. Nenhum crime de natureza política voltou a ocorrer e, por meio de melhoramentos que me eram sugeridos pela comunidade por intermédio de Gonzaga, foi possível reintegrar a cidade ao convívio social, do qual nunca mais se apartaria.

Outro aspecto político da presença de Luiz Gonzaga foi no resgate da música popular brasileira. O vigor de suas toadas e cantorias tonificou a nossa música, retirando-a do empobrecimento cultural em que se encontrava. Sua música teve um viés nacionalista, ou melhor, brasileiríssimo, que impediu que lavrasse um processo de perda de nossa identidade cultural. Não foi uma música apenas nordestina, mas genuinamente nacional, posto que de defesa de nossas tradições e evocação de nossos valores.

Luiz Gonzaga interpretou o sofrimento e também as poucas alegrias de sua gente em quase 200 canções, em ritmos até então desconhecidos, como o baião, o forró, o xaxado, as marchinhas juninas e tantos outros. Mas foi por meio de "Asa Branca" que Lua elevou à condição de epopéia a questão nordestina. Certa feita, Gilberto Freyre afirmou que o frevo "Vassourinhas" era nossa marselhesa. Poderíamos dizer, parafraseando Gilberto Freyre, que "Asa Branca" é o hino do Nordeste: o Nordeste na sua visão mais significativamente dramática, o Nordeste na aguda crise da seca.

Gilberto Amado disse a propósito da morte de sua mãe: "Apagou-se aquela luz no meio de todos nós". Para o Nordeste, e tenho certeza para todo o país, a morte de Luiz Gonzaga foi o apagar de um grande clarão. Mas com seu desaparecimento não cessou de florescer a mensagem que deixou, por meio da poesia, da música e da divulgação da cultura do Nordeste.

Em sua obra ele está vivo e vive no sertão, no pampa, na cidade grande, na boca do povo, no gemer da sanfona, no coração e na alma da gente brasileira, pois, como disse Fernando Pessoa, "quem, morrendo, deixa escrito um belo verso, deixou mais ricos os céus e a terra, e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente".

*Marco Maciel foi vice-presidente da República. Foi governador do Estado de Pernambuco (1979-82), senador pelo PFL-PE (1982-94) e ministro da Educação (governo Sarney).

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