OBSTÁCULOS QUE INCENTIVAM, Por Aldy Carvalho

 OBSTÁCULOS QUE INCENTIVAM

                                                          Por Aldy Carvalho, o Cantador láaa do sertão

     Há quem diga que os sonhos são projeções de desejos guardados nas regiões mais íntimas do ser humano. Há também quem os compreenda como uma espécie de realização antecipada daquilo que, pela esperança, pela vontade e pelo trabalho, desejamos transformar em realidade.

     O pensador francês Carlos Dubois escreveu: “Feliz do homem que faz do sonho que sonha, o que pensa e do que pensa, sua realidade”. É sob a inspiração dessa máxima que me permito falar do amigo e, hoje, também escritor Agnaldo Nunes de Almeida, cuja trajetória, registrada em seu livro “Obstáculos que incentivam”, constitui um testemunho eloquente de perseverança, superação e compromisso com a coletividade.

     Agnaldo foi analfabeto até os vinte anos de idade. Poderia ter feito dessa circunstância uma sentença; preferiu transformá-la em ponto de partida. Superando adversidades que teriam feito muitos desistirem pelo caminho, estudou, tornou-se Técnico Agrícola, graduou-se em Administração de Empresas, pós-graduou-se em Marketing e realizou estágio na Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

     Não se trata apenas de uma admirável ascensão pessoal. O que engrandece ainda mais sua caminhada é o sentido que procurou dar ao conhecimento adquirido. Obstinado, declara que, desde que se entendeu como gente, não deixou de pensar numa saída que pudesse libertar sua gente da miséria, da pobreza e da opressão dos mais poderosos.

     Eis, talvez, uma das grandes lições de sua vida: o conhecimento alcança sua mais elevada finalidade quando deixa de servir somente àquele que o conquistou e passa a servir também à comunidade à qual ele pertence.

     Agnaldo fez do aprendizado instrumento de transformação. Aplicou seus conhecimentos na construção de melhores condições de vida para si e para sua família, mas sua atuação não se encerrou nos limites da própria casa. Seu trabalho alcançou outras pessoas e se integrou à extraordinária experiência produtiva que transformou o semiárido nordestino e, particularmente, o Vale do São Francisco.

     Conheci Agnaldo numa feira literária no Vale São-Franciscano, em Petrolina, Pernambuco, minha terra e terra onde ele fincou raízes há décadas e onde atua como produtor rural. Nosso encontro permitiu-me conhecer não somente o profissional e o estudioso, mas, sobretudo, o homem que carrega consigo a memória das dificuldades vencidas sem permitir que as vitórias lhe apaguem a lembrança daqueles que ainda lutam por melhores oportunidades.

     Obstáculos que incentivam nasce dessa experiência, mas ultrapassa os limites de uma autobiografia. Agnaldo fala de sua própria saga com ternura e sobriedade, sem fazer dela o único centro da narrativa. Sua experiência pessoal abre caminho para uma reflexão mais ampla, fundamentada em estudos, pesquisas, conhecimento técnico e vivência, acerca do desenvolvimento da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco, de sua evolução, de sua contribuição econômica e social e das transformações que produziu na região.

     Por isso, considero este livro também um documento de memória. Nele estão o homem e sua história, mas está igualmente uma parcela da história de uma região que aprendeu a desafiar adversidades e a produzir possibilidades onde tantas vezes se enxergaram apenas limitações.

     O Vale do São Francisco demonstra que nenhuma região deve ser condenada pelas circunstâncias de sua geografia. Quando conhecimento, trabalho, tecnologia, organização, iniciativa privada e políticas públicas convergem para objetivos socialmente responsáveis, aquilo que parecia obstáculo pode converter-se em oportunidade.

     Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes que a trajetória de Agnaldo oferece aos que ocupam postos de comando e têm a responsabilidade de formular e executar políticas públicas. Não basta admirar exemplos de superação individual; é preciso criar condições para que superar adversidades não dependa apenas do heroísmo de alguns.

     Governar é também enxergar potencialidades onde outros somente enxergam carências. É oferecer educação, conhecimento, infraestrutura, assistência técnica e oportunidades para que homens e mulheres possam construir, com dignidade, o próprio caminho. Desenvolvimento verdadeiro não pode ser medido somente pela riqueza que uma região produz, mas também pela capacidade dessa riqueza de alcançar as pessoas, diminuir desigualdades e ampliar horizontes.

     A experiência narrada em Obstáculos que incentivam interessa, portanto, ao produtor rural, ao estudante, ao pesquisador, ao empreendedor, ao administrador público e também aos que militam nas artes e na cultura. Afinal, ainda que sejam diferentes os nossos instrumentos, todos aqueles que trabalham pela transformação humana cultivam, de algum modo, a mesma lavoura: a esperança.

     No meu labutar de poeta e cantador deste sertão, pertença que assumo com profundo orgulho, também tenho procurado semear. Aprendi, pelas léguas que andei, que a aridez nunca foi sinônimo de esterilidade. Onde Agnaldo cultiva a terra e compartilha conhecimentos, eu procuro lavrar palavras, versos e cantigas. Reconheço entre esses caminhos uma afinidade essencial: ambos acreditamos que nenhuma realidade é tão árida que não possa receber uma semente. Há sementes que esperam anos pela hora de romper a terra; há homens que atravessam décadas até encontrar a oportunidade de revelar aquilo que sempre carregaram consigo.

     Agnaldo fez da dificuldade impulso, do conhecimento ferramenta e da terra possibilidade. Eu, carregando versos, cantigas e histórias vejo entre esses ofícios uma irmandade que me parece antiga: quem planta acredita no amanhã, então, também sigo  a provocar reflexão e recordar que nenhum homem realiza plenamente sua humanidade quando pensa somente em si. 

     O agricultor, quando lança a semente à terra; o poeta quando entrega sua palavra, solta seu verso pelo mundo. Nenhum deles possui certeza absoluta da colheita, mas todos trabalham movidos pela esperança de que alguma coisa haverá de florescer.

     É desse lugar que falo de Agnaldo Nunes de Almeida. Não apenas do lugar do amigo que o conheceu numa feira literária em Petrolina, mas do lugar de um homem do sertão que reconhece em outro homem a dignidade de quem não se conformou com as cercas que a vida lhe apresentou.



     Por isso, estas palavras não pretendem apenas apresentar um escritor ou recomendar a leitura de um livro. Quero, sobretudo, render homenagem ao homem e ao cidadão Agnaldo Nunes de Almeida. Ao homem que conheceu obstáculos e não permitiu que eles lhe determinassem o destino; ao estudante que chegou tarde à escola, mas fez do conhecimento companheiro permanente; ao profissional que transformou aprendizado em trabalho; ao produtor que fincou raízes no Vale; e ao escritor que agora entrega sua experiência às gerações presentes e futuras.

     Seu livro nos lembra que sonhos individuais podem modificar destinos. Mas nos convida a compreender algo ainda maior: quando os sonhos deixam de ser apenas individuais, encontram outros sonhos e se transformam em projeto coletivo, uma sociedade inteira pode mudar.

     Que Obstáculos que incentivam encontre muitos leitores. Que encontre especialmente os jovens que, diante das dificuldades, estejam tentados a desistir; os homens e mulheres que trabalham pela construção de oportunidades; e aqueles que, investidos de autoridade pública, precisam recordar diariamente que por trás de cada decisão existem vidas, famílias, comunidades e futuros.

    Que a história de Agnaldo não seja contemplada apenas como a excepcional vitória de um homem sobre as adversidades, mas como uma convocação para construirmos uma sociedade em que oportunidades como aquelas que ele precisou conquistar tão arduamente sejam direito e possibilidade para muitos. Fazer da própria caminhada uma estrada por onde outros também possam passar talvez seja uma das mais belas maneiras de justificar a nossa passagem por este mundo.

     Há homens que vencem obstáculos para chegar mais longe. Outros, depois de vencê-los, voltam seus olhos para trás e procuram abrir caminhos para que mais gente possa passar. É a estes últimos que uma sociedade deve prestar atenção. 

     Sonhar é necessário. Transformar o sonho em trabalho é virtude.

    Aldy Carvalho,  poeta e cantador láaaa do sertão

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